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Pax Capitalista

Existem personagens no universo das redes sociais – em especial no zoológico dos comentários que brotam abaixo de qualquer notícia – que ainda pensam que o PT é um partido “socialista”. Por certo que muitas dessas manifestações são pura estratégia do “espantalho”: chamam o partido de socialista (ou comunista) para poder colocar no inimigo um rótulo que agrega boa parte da direita mais raivosa e violenta. Da mesma forma chamam um partido de direita, como os democratas dos Estados Unidos, de “esquerdistas”, apenas para confundir a “teologia dos costumes” com o ideário socialista. Tudo mentira, usada para fazer fumaça e não questionar o capitalismo decadente e a necessária luta de classes.

É importante o esforço esclarecer todos aqueles que ainda estão mal informados sobre os partidos no atual cenário nacional. Quando olhamos o leque de alternativas que vai da direita fascista até a esquerda revolucionária, o PT se situa numa posição de centro-esquerda, de caráter abertamente reformista e inserido no modelo capitalista. Os verdadeiros socialistas do PT saíram há muito tempo e entraram em partidos da esquerda revolucionária, como o PCO, o PSOL, a UP, etc, ou então se adaptaram a posições de comando, imaginando mudar a política sem questionar a estrutura da democracia liberal. Para os socialistas “raiz”, da esquerda revolucionária e marxista, o PT no governo representa acima de tudo o alívio de não ter um ladrão de galinhas genocida comandando o país. Mesmo sendo um partido progressista e de raiz operária, o PT não representa os ideais anticapitalistas que animam a franja esquerda do espectro político do nosso país. Por isso os socialistas acreditam que não há erro algum em reclamar do PT; aliás, existem críticas bem merecidas. Porém, não cabe à esquerda fazer coro com os fascistas cujo interesse não é a crítica ao governo de Lula, mas sua destruição, para dar lugar ao seu projeto neoliberal e imperialista. Além disso, para criticar o socialismo é necessário entender o que esta proposta significa.

Desconfiem dos conceitos que os ricos e os “coaches” do individualismo vendem pra você, como “eles vão tomar sua casa“, ou “divida seu dinheiro com os pobres” e até o famoso “o socialismo nunca deu certo“. Este último parte da ideia de que o “socialismo não funcionou” quando comparado às sociedades capitalistas da Europa e da América do Norte, mas nestas análises apenas se referem à perspectiva da classe média, escondendo a iniquidade, a criminalidade e a crescente pobreza que por lá existe. Essa visão também se choca com a realidade que observamos. Hoje vemos China, Vietnã, Rússia, Coreia Popular e até Cuba como “players” no cenário internacional, posição que o Brasil – com muito mais riquezas que todos esses países – jamais ocupou. A Rússia saiu do arado manual para colocar o primeiro astronauta girando em torno da Terra em 50 anos. Hoje já é a 4ª economia do mundo e continua crescendo, apesar dos embargos do imperialismo, muito graças ao socialismo que vicejou no país por 70 anos. A China bate recordes de produtividade, é líder de alta tecnologia, cresce mais de 5% ao ano (mas já cresceu 14%!!!) e será em breve a primeira economia do mundo. O Vietnã é o líder mundial na produção de café e com a ajuda da China vai se tornando um polo de tecnologia de informação. Cuba, apesar do boicote insano, oferece dignidade aos seus cidadãos.

Pense nisso: há 30 anos o PIB do Brasil era igual ao da China. Responda: o que o socialismo da China fez lá que não fizemos aqui nas últimas 3 décadas?

Por fim, um socialista é o sujeito que estudou algo de teoria econômica e principalmente história. Não há como ser marxista sem entender o materialismo histórico e dialético e também a geopolítica do capitalismo. Sem que adquira uma noção das contradições insolúveis do capitalismo, e sem uma visão fraterna e internacionalista, será difícil entender esta perspectiva. Que muitos achem que os socialistas são “burros” ou “iludidos” não me surpreende; a imensa maioria parece incapaz de entender o que significa esse modelo, e por esta razão continuam apoiando os banqueiros, os rentistas, o imperialismo e os barões do sistema financeiro, que sugam toda a riqueza que nós produzimos. A lavagem cerebral a que todos somos submetidos através da propaganda imperialista incessante impede que se possa enxergar a real essência da nossa alienação. Entretanto, um dia estes mesmos que agora apoiam a submissão aos valores do capitalismo vão adquirir consciência de classe e entenderão as razões pelas quais os trabalhadores merecem usufruir da riqueza que eles mesmo produzem. Enquanto isso tentarão nos fazer acreditar, através dos múltiplos partidos de esquerda revisionistas, na possibilidade de uma “conciliação de classes”, que na verdade não passa de uma “pax capitalista“, onde a ilusão do equilíbrio só é conseguida pelo silêncio dos oprimidos.

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Identidades

Lutar contra o racismo não é identitarismo. Combater o machismo, idem. O identitarismo, como o nome diz, é a luta pelas identidades a despeito das divisões da sociedade em classes distintas, as quais nos separam em proletários e burgueses. Esse modelo, em última análise, transforma um homem branco miserável em um opressor, enquanto o negro que divide com ele a mesma marquise é visto como um oprimido, ambos vítimas de uma sociedade injusta e cruel. Usar a luta antirracista para combater essa disparidade sempre serviu aos interesses de quem não quer que a sociedade capitalista seja questionada.

“Você é oprimido porque é preto”, “Você não é valorizada por que é mulher, ou gay” quando por trás desses fatos existe um modelo perverso de sociedade e uma concentração absurda de riqueza que sacrifica a todos nós, trabalhadores.

Grandes organizações antirracistas estão lentamente rompendo com esse sectarismo e abandonando a postura identitária. O pulo do gato é acordar para o fato de que a raiz do racismo não é a melanina, assim como a raiz do machismo não é aquele X a mais.

Os grupos antirracistas e feministas que se deram conta disso estão rompendo lentamente suas amarras com o sistema capitalista. Chamam a isso “interseccionalidade”, que nada mais é do que perceber que esses modelos opressivos são tão somente máscaras usadas para justificar uma sociedade dividida, baseada em classes.

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Bob Justus

Escutei apenas alguns flashes da entrevista do Roberto Justus para o programa “Flow” e me surpreendi (não deveria) com a quantidade de tolices que ele disse. Sobre Lula, sobre Bolsonaro, sobre o mito dos “ministros técnicos”, sobre a “culpa” de Lula, sobre o governo e sobre o país. O fato de ser milionário e bem relacionado não garante a ninguém a capacidade de enxergar o país acima das perspectivas de seu grupo. Ele é um representante legítimo do que existe de mais atrasado, mesquinho e medíocre nas classes abastadas do Brasil

Entretanto, é forçoso reconhecer que ele, ao contrário de uma parte majoritária da população brasileira, sabe a classe à qual pertence. Ele percebe com precisão que as falas do Lula em direção ao povo mais pobre e no combate à fome, atingem sua classe, o poder e a hegemonia tão arduamente conquistadas pela burguesia. Ele entende que se Lula fizer uma guinada à esquerda – como muitos de nós desejamos – os financistas, os rentistas e a burguesia calhorda desse país serão afetados. Roberto Justus – um troglodita com ternos caros e botox – tem a consciência de classe que eu exijo do proletariado e das classes trabalhadoras.

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Consciência de Classe

Marx dizia que a identificação de classe de um sujeito é onde ele está, e não de onde veio. Para reconhecer-se como originário de uma classe à qual não mais pertence é necessário um esforço que só se produz com uma enorme dose de humildade. Tenho conhecidos próximos cuja origem é muito simples, próxima até da pobreza, mas suas habilidades, talentos e uma boa dose de ajuda externa os fizeram subir na escala social. Em sua história pessoal nota-se uma mistura de aspirações, capacidades e privilégios ocultos que produziram a potencialização de suas chances de sucesso.

Hoje são sujeitos de classe média alta, com curso superior e viajam pelo mundo inteiro. Não são ricos, pois essa classe dificilmente permite intrusos. Todavia, apesar da origem cercada de muitas necessidades, ostentam um olhar aristocrático, um desprezo pelo Brazil, uma visão superior e um rechaço à toda e qualquer iniciativa de equidade social. Odeiam o PT e as “esmolas” oferecidas em nome da distribuição de renda. As esquerdas são, para eles, antros de fracassados e invejosos. “Façam como eu“, dizem eles, sem reconhecer a imensa ajuda que obtiveram de circunstâncias e pessoas diversas em suas vidas, ajudando-os, assim, a alcançar e usufruir do estrato social em que se encontram.

Muitos são o espelho fiel do “oprimido que se identifica com o opressor“, a velha história do sujeito que, ao alcançar o tão sonhado sucesso, esquece sua origem, seu sotaque, suas histórias, sua família, sua vila e sua memória. “Eu venci, e tudo isso devo apenas a mim”.

Isso me faz lembrar a antiga piada do anglófilo brasileiro, cujo sonho era ser um perfeito britânico e morar em Londres. Depois de uma vida inteira estudando o idioma, os dialetos londrinos, a culinária, sua história e geografia, visita a cidade pela primeira vez. Deslumbrado com o cenário, sai à rua vestindo um casaco de tweed, uma calça de lã, um chapéu anos 40 e assim desfila pelas calçadas próximas de Picadilly Circus. Depois desse mergulho no coração da capital do Império Britânico resolve voltar ao hotel e gesticula para um táxi, um black cab, modelo Austin FX4, pintado de preto e levemente azulado, característico de Londres.

Qual não foi sua surpresa quando, ao entrar no carro, o motorista volta o pescoço para trás e comenta:

– Fala patrício!! Deixa eu adivinhar… paulista? Mineiro? Ou será catarina? Gaúcho talvez? Deixa ver…. gremista ou colorado?

Estupefato e desapontado, nosso herói exclama:

Bloody hell, my dear!!! Como você descobriu que eu era brasileiro antes mesmo de falar qualquer coisa??? For God’s sake!!! How disappointing…

O motorista “brazuca” dá uma risada e diz:

– Olha, veja bem… o chapéu está ótimo, o guarda chuva perfeito, o casaco trespassado de tweed muito chique, a gravata, o lenço branco no bolso, tudo maravilhoso, mas….. aquela coçadinha no saco parado na esquina revelou na hora qual o seu verdadeiro CEP…

Para os meus amigos, novos ricos e esnobes, que debocham das lutas sociais e desprezam sua origem humilde, a coçadinha no saco é a falta de consciência de classe. Ela é a marca mais persistente de subdesenvolvimento…

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O Carnaval das Classes

Uma amiga foi visitar pela primeira vez o Carnaval da Bahia e resolveu comprar um abadá – uniforme especial do Carnaval baiano – que permite a ela brincar dentro do encordoamento que separa os que pagam (bastante) para ficar próximos ao trio elétrico dos “pipocas”, que por nada pagarem seguem a folia do lado de fora. Não saiu barato, mas suas economias do ano anterior foram suficientes para garantir essa extravagância colorida de verde e amarelo.

A festa corria solta e animada até que algo inesperado aconteceu. Quando o trio elétrico se aproximava da Praça Castro Alves, e a banda começava a cantar a música de Caetano em sua homenagem, todos os cordeiros (seguranças que controlam as cordas de separação) foram acionados para conter uma confusão próxima, e com isso muitos “pipocas” invadiram a parte exclusiva da turma do abadá. Como a invasão foi muito abrupta, rapidamente a área reservada se viu pintada de muitas cores, em especial a dos soteropolitanos mais pobres e escuros que se misturaram aos sulistas e aos turistas estrangeiros de pele avermelhada pelo sol da Bahia. A banda torpedeava “A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião” enquanto uma súbita democracia de raças, credos e castas tomou conta da rabeira do trio elétrico. Enquanto o povo se divertia na mistura inesperada a cantora abria o grito, alheia ao que estava acontecendo.

Aos poucos a alegria genuinamente popular que ocorreu com a invasão deu lugar a um crescente desconforto. A entrada do povo na parte restrita às elites começou a desagradar aqueles que se sentiam invadidos. Não que estivessem perdendo algo (já haviam pago mesmo), até porque nada lhes foi retirado. Sequer era espaço o que lhes faltava, pois antes já estava bastante lotado. Não, a inconformidade se dava pela invasão de um espaço que consideravam seu, o qual estava sendo usurpado por aquelas pessoas mais pobres. Não era nenhuma perda objetiva, mas a sensação desagradável e subjetiva de dividir espaço com aqueles a quem não julgavam como iguais. Afinal, tinham pago; portanto, tinham mérito. Tinham, por esta razão, direito a um lugar exclusivo.

A nenhum deles ocorreu, no meio da folia, das músicas, dos beijos roubados, da dança frenética e dos goles de cerveja questionar porque uma festa popular dividia o povo entre os que podem mais e os que podem menos. Muito menos ocorreu a qualquer um dos que vestiam abadá se perguntar as razões e as circunstâncias profundas que lhe permitiram estar do lado de cá da corda. Não, não havia clima para estas perguntas incômodas. A solução encontrada foi uma chamada conjunta de todos que vestiam o abadá verde-amarelo para que os seguranças jogassem todos os penetras para fora. “Voltem para o seu lugar”, gritavam. “Eu tenho o direito de estar aqui, você não”, diziam outros. “Eu paguei, não tenho culpa se você é pobre”.

Em alguns minutos, após a intervenção violenta dos seguranças, a ordem foi restaurada e mais uma vez só havia abadás verde-amarelos entre as cordas. “Eles que façam um carnaval só para eles”, disse o alemão barrigudo que segurava a mulata pela cintura. “Esse aqui é nosso”, completou. O trio elétrico parado na Praça chacoalhava os vidros dos sobrados centenários de Salvador e fazia as ondas do mar próximo quebrarem no ritmo dos atabaques. No centro da praça, impávido e pétreo, Castro Alves recitava em solilóquio alguns versos que surgiram em seu pensamento. Talvez – como saber? – fosse uma lembrança que, sem perceber a razão, lhe ocorreu naquele exato instante de euforia máxima e frenesi apoteótico.

“Existe um povo que a bandeira empresta
Prá cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …”

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