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Máscaras

Aliás, um dos efeitos colaterais dessa guerra na Ucrânia foi fazer caírem as máscaras de “progressistas” da esquerda americana, como Bernie Sanders. Quando se trata de proteger o Império todos tocam a mesma música. Internamente pode haver diferenças entre os “burros e os ursos”, mas para quem olha de fora são todos idênticos na proteção de seus privilégios, na defesa do “excepcionalismo americano” e na manutenção do Império.

Assim funciona nossa indignação seletiva. Somos obrigados a levantar quando um nazista se senta à mesa, mas nem um pigarro para quem solta bombas no Yemen, na Somália ou na Palestina, ou para as sanções assassinas no Afeganistão, Cuba ou Venezuela. E agora no Brasil você pode ser nazista, agir como nazista é até dormir com a foto do Führer debaixo do travesseiro. Só não pode falar ou admitir sua existência, e não pode criar um partido com esse nome. O mesmo tipo de hipocrisia que havia com os gays na minha infância.

As vezes eu fico tentando me colocar no lugar de um sírio, palestino, iraquiano ou iemenita escutando as pessoas chorando pelos ucranianos e pedindo o fim da guerra. “Oh, meu Deus, essa guerra precisa acabar!!!”. Sério? Agora? E porque só essa?

Quero ver gente colocando bandeirinhas da Somália no perfil em solidariedade. Nahh, branco matando preto ninguém reclama. Nunca o nosso racismo eurocêntrico ficou tão evidenciado.

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Vai pra Cuba…

Vocês que ainda apoiam um sujeito como Bolsonaro na presidência jamais vão entender que o capitalismo brasileiro pode ser bom, mas apenas para uns 50 milhões de cidadãos – nossa classe média. O resto é tratado como massa de manobra, escravos modernos do neofeudalismo corporativo, pobres carregadores de carga numa divisão perversa de classes. Para eles os deveres, para nós os direitos.

O que vocês não perceberam é que qualquer miserável americano, que mora numa “maloca” de lona das ruas de Detroit, Seattle ou Los Angeles adoraria se mudar para Cuba para ter assistência médica, segurança e educação de qualidade para os seus filhos.

Portanto, essa história de “ninguém vai para lá” é uma meia verdade. Ninguém da burguesia dos países com classes opressoras vai para um lugar de justiça social; sempre vão procurar um lugar onde seus privilégios de classe serão mantidos e exaltados. Procurarão sempre um sistema que lhes proverá vantagens indevidas e que lhes garantirá um sentimento de superioridade.

Desta forma, aqueles que pertencem à classe média vão preferir ir para o centro do império, onde haverá gente pobre para lhes servir. O drama é que vocês não conseguem olhar para NADA longe dos vossos radiantes umbigos. Não conseguem perceber o sofrimento de milhões de brasileiros esquecidos, maltratados, mal pagos, espoliados, explorados e muitos passando fome. Essas pessoas são desumanizadas ao extremo, enquanto são desconsideradas ao seu olhar.

A questão central é que quando vocês são assaltados, ou quando seu pequeno negócio vai à falência, vocês culpam o governo, o “socialismo”, o Lula, a lei Rouanet, a polícia “frouxa”, os direitos humanos, as esquerdas, a falta de presídios ou a impunidade (como se a pobreza já não fosse uma punição eterna para esses grupos) ao invés de perceber que a culpa é do sistema perverso, de um capitalismo desumano, da sociedade de classes e da resistência produzida por uma classe média tola e racista que teima em não aceitar a necessidade de mudanças profundas e sistêmicas.

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Socialismo

O socialismo é uma ideia muito antiga na história da humanidade, que tem como base a eliminação das divisão da sociedade em classes sociais, e suas origens podem ser encontradas nos primeiros grupamentos humanos que surgiram após a revolução do neolítico. Apesar dos inequívocos avanços decorrentes da revolução burguesa do final do século XVIII, manteve-se a divisão de classes baseada no capital, reminiscência nefasta que se manteve com a passagem do feudalismo para as monarquias absolutistas e destas para a sociedade burguesa. Apesar de não serem seus criadores, o socialismo teve um impulso fundamental com os trabalhos de Karl Marx e Friedrich Engels, pensadores alemães que assinam o “Manifesto Comunista”, que pode ser entendido como o pontapé inicial em um grande movimento de massas para a derrubada dos governos burgueses e a ascensão política da classe proletária.

As bases ideológicas do marxismo – como passou a ser chamado – influenciaram os movimentos revolucionários russos que acabaram depondo o governo liderado pelo Czar Nicolau II e a instauração do governo socialista bolchevique em 1917. Seus principais líderes, Lênin e Trotsky, se guiaram pelas teorias econômicas de Karl Marx na forma como deixou escrito em sua majestosa obra “O Capital”.

A revolução russa foi a primeira das grandes revoluções do proletariado, seguida pela revolução chinesa de Mao Zedong, logo após a expulsão dos japoneses em 1949. Após o fim da guerra civil e durante os primeiros anos da revolução, a Rússia experimentou um crescimento vertiginoso de sua economia, na chamada NEP. Um dos estados nacionais mais pobres da Europa em 1917, a Rússia foi a responsável direta pela derrota de Hitler na segunda guerra mundial. Seu avanço tecnológico permitiu que, duas décadas após o fim desta guerra –  que vitimou entre 7 e 15 milhões de russos – colocasse Yuri Gagarin como o primeiro humano em órbita, mostrando a pujança dos ideais, da técnica e da economia soviéticas.

Entretanto, nos anos 50 do século XX, uma série de contradições na então União Soviética se tornaram aparentes a partir da morte do georgiano Josef Stálin, que havia sucedido o grande líder Lênin. A ascensão de Nikita Krushov aos poucos foi desvelando ao mundo os crimes do líder anterior. No final dos anos 80 a economia soviética estava prestes a entrar em colapso quando assumiu o controvertido presidente Mikhail Gorbachev, que instituiu a “Glasnost” (transparência) seguindo-se da “Perestroika” (restauração). Estas novas perspectivas, combinadas com a queda do muro de Berlim – que separava por um muro a capital da Alemanha invadida – e a eleição de Bóris Yeltsin como presidente da Rússia decretaram o fim do “socialismo real” que desaparecia junto com a “União Soviética”, posteriormente esfacelada em suas múltiplas repúblicas.

Essa queda do sonho socialista fez com que muitos países da Europa repensassem o seu ideário socialista, formando-se grandes partidos chamados “reformistas”, que se contentavam em ajustar os desvios do capitalismo – em especial sua doença de concentração de renda e esgotamento de recursos naturais – sem combater a sociedade de classes. Surgia assim, no mundo inteiro, a “Social Democracia”, que mescla ideais do sistema de “bem-estar social” do socialismo com a observância das regras e partidos da democracia burguesa.

Enganam-se, entretanto, como fez Francis Fukuyama, que se tratava do “Fim da História”. Em verdade, o socialismo está cada dia mais vibrante, seja na sua vertente social democrata quanto na “revolucionária”. Existem inúmeros partidos da “nova esquerda” que rezam pela cartilha social liberal, mas os partidos de estrutura revolucionária sobrevivem em várias partes do mundo. No Brasil os partidos de centro esquerda são o PT, o PSOL, o PCdoB e outros, que se configuram como partidos eleitorais regulares. O PCO – Partido da Causa Operária – é o mais importante partido comunista revolucionário da atualidade no país.

A história do socialismo está longe do fim. Sua meta principal é a socialização dos meios de produção, o respeito à ecologia e à diversidade, o fim do racismo e do machismo, o extermínio da sociedade de classes e a ditadura do proletariado.

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Pautas e Lutas

Na reunião político-partidária de esquerda em que estive envolvido ontem em São Paulo escolhi fazer parte do grupo temático que debateria as questões das mulheres. Por certo que acabei chamando a atenção por ser o único homem em um círculo composto por duas dezenas de mulheres, de várias partes do Brasil, de diferentes etnias e de distintas classes sociais. Mas, como acho que todos temos o direito de cultivar e expor nossas perspectivas sobre qualquer problema social, permaneci sentado aguardando humildemente a oportunidade de me manifestar.

Eu temia o que estava para ocorrer, e por isso mesmo estava preparado para desafiar o padrão dos debates. A coordenadora listou, como sugestão, que fossem debatidos três temas essenciais, os quais eu já sabia que estariam presentes.

1. Trabalho doméstico
2. Descriminalização do aborto
3. Violência contra a mulher

Fácil adivinhar, não? Estes são os três temas mais comuns em todos os debates feministas, e não há como negar sua importância ou relevância. O trabalho doméstico é um ponto nevrálgico da sociedade capitalista ao manter a mulher atrelada a uma rotina de trabalho estafante e não remunerado, condenando-a à dependência econômica e/ou à dupla jornada, sacrificando sua saúde e seu lazer. O debate sobre a dinâmica desse labor é essencial para a emancipação da mulher, a qual jamais ocorrerá sem a sua independência financeira.

Já o aborto é uma questão de saúde pública mas, anterior a isso, está o direito das mulheres de disporem livremente sobre seus corpos e seus destinos. É, portanto, um tema relacionado aos mais básicos direitos humanos reprodutivos e sexuais, pois tem repercussão na saúde e na proteção das mulheres. A luta pelo aborto livre e seguro não pode faltar em nenhum debate que se proponha a proteger socialmente as mulheres e seus filhos.

Por último, a violência doméstica contra a mulher. Triste perceber que esta drama social teve um aumento de 26%, nos últimos meses, em função da pandemia e da crise que a antecedeu. Todavia, a única resposta que temos oferecido a este problema nos últimos anos tem o caráter punitivista da Lei Maria da Penha que jamais solucionou o problema da violência de gênero porque ataca apenas a ponta do iceberg: o resultado social das frustrações acumuladas transformadas em violência. Como todas as ações que apontam para a punição, esta é mais uma medida de resultados pífios; a causa, como sabemos, é o capitalismo, porém nos parece mais fácil encarcerar pretos e pobres do que sanar nossa ferida social crônica.

Finda a apresentação eu sabia que a mesma lacuna desses grupos se repetiria e, por isso mesmo, pedi a palavra em primeiro lugar para que as pessoas que se manifestassem depois de mim pudessem pautar suas falas com o que eu tinha para lhes dizer.

Olhei para minhas colegas de causa socialista e disse:

“É provável que a maioria de vocês nunca passem por um aborto. Algumas, espero, nunca serão vítimas de violência de gênero, ao menos as agressões mais grosseiras. Algumas de vocês talvez tenham companheiros dispostos a dividir tarefas no lar. Entretanto, TODAS vocês estarão marcadas pelo parto, sem exceção. Sim, porque se não tiveram a oportunidade de parir, ou sequer desejam passar por esta experiência, certamente chegaram a este mundo através de um parto. Não é exagero dizer que o nascimento é um dos eventos mais marcantes na vida de homens e mulheres e nele podemos ver claras as marcas do capitalismo e do patriarcado, quando seus valores serão impostos e reforçados.

O nascimento de uma criança é o momento onde mais ocorre violência contra a mulher, que vai se manifestar na visão diminutiva e defectiva sobre ela, nas práticas desnecessárias, nos procedimentos anacrônicos, na perda dos seus direitos, na mudez da sua voz e na visão depreciativa que a sociedade lança sobre suas capacidades de gestar, parir e maternar com segurança.

Não haverá nenhum avanço nas lutas das mulheres sem que o parto e o nascimento livres tenham um lugar de destaque nas lutas pela dignificação feminina. É preciso que a esquerda se dê conta da importância do parto no discurso de emancipação. Como dizia Máximo Gorky “só as mães podem pensar no futuro, porque dão a luz à ele em suas crianças”, mas, digo eu, elas também vão parir e educar os reacionários, e por isso estas mulheres precisam encontrar no parto o momento de revolução de sua autoimagem, tornando clara sua nova trilha de autonomia, valor, coragem e liberdade – na direção do socialismo”.

Surpreendentemente todas as mulheres presentes concordaram que esse deveria ser um tópico que não poderia faltar, e muitas deixaram em suas falas depoimentos pessoais de maus tratos obstétricos, inclusive citando a epidemia de cesarianas como um aspecto dessa violência, que se mascara como cuidado tecnológico, limpo e asséptico, mas é dominado por uma perspectiva autoritária e alienante.

Mais tarde o trabalho do grupo temático foi lido na plenária e fiquei muito orgulhoso de ver a violência obstétrica levada a todos como um tema que não deve jamais ser esquecido nas pautas de luta das mulheres.

Não há porque naufragarmos no mar do pessimismo, pois sempre haverá motivos para manter a esperança.

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A Caridade dos Bilionários

Sempre me interessei pelos significados últimos da riqueza e do poder, em especial a tentativa de entender personalidades onde estas características atingiam limites inimagináveis. Gosto muito da abordagem de Gore Vidal ao descrever os Césares como os homens mais poderosos da historia da civilização e o quanto esse poder desmedido era capaz de destruir suas almas; quase todos eles morreram loucos e desvairados, destruídos pela falta de limites ao desejo.

Hoje temos uma repetição curiosa, fruto do poder conferido a alguns sujeitos pelo neoliberalismo, o qual oportuniza a inédita, imoral e macabra concentração de renda atual. Ao lado de Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg está George (Schwarz) Soros e sua curiosa história, que poderia ser resumida como a revivescência de Roosevelt no seu intento de salvar o capitalismo através de um mundo sem fronteiras – Open Society – mas centrado no capital. Sua ojeriza ao socialismo o faz investir em instituições identitárias mundo afora e no combate aos governos autoritários e suas “sociedades fechadas”. Esta reportagem do The Guardian deixa claro o erro em pensar numa “sociedade de iguais” enquanto se investe num sistema de exploração que se nutre da miséria de muitos para garantir a opulência de cada vez menos.

Veja a excelente investigação do The Guardian aqui

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