Arquivo da tag: afetos

Grilhões

No futuro só existirão solteiros e bem casados“, já dizia o psicanalista Flávio Gikovate. Creio que sim, mas apenas quando as inúmeras outras amarras que mantém juntas pessoas que não mais se desejam forem plenamente suplantadas. Uma mudança de tal magnitude, onde a plena liberdade das escolhas afetivas se tornará o padrão nos encontros amorosos, levará bastante tempo.

Digo isso porque é ingenuidade imaginar que as correntes que nos prendem são apenas externas a nós, como dinheiro, filhos, condições gerais, moradia, proteção, etc. Não, creio mesmo que a pior servidão é aquela autoimposta; é na forja do inconsciente, na configuração psíquica mais profunda onde se produzem os grilhões mais poderosos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Onde você está?

O isolamento me impede de visitar o meu pai. Com 90 anos, lúcido, sobrevivente de um AVC (que não deixou sequelas físicas) e confinado em casa, recebe apenas a visita da minha irmã. Desde que enviuvou há algumas semanas não saiu mais de casa. Nossas conversas são agora por telefone e, quase sempre, acabam na política. Eu “comuna”, ele um “coxinha”. Por vezes a conversa fica áspera, mas eu entendo o porquê. Ele deve pensar: “Daqui a pouco vou morrer e vou deixar esse comunista desamparado”.

Ontem foi a mesma coisa. Risadas, histórias, críticas e a espiral concêntricas sobre crise-capitalismo-Lula-comunismo. Ele se irrita com o meu idealismo, que lhe parece estéril. Eu me incomodo com sua cabeça dura para aceitar as mudanças necessárias – e inevitáveis. Por outro lado, esse confronto de ideias sempre foi uma marca da família; somos uma família de conversadores e debatedores. Ninguém fica bravo com os exageros retóricos alheios. Como ele sempre diz, “os debates se concentram apenas no terreno das ideias”.

Ontem, depois de quase duas horas de conversa animada a ligação caiu…

– Alô? Pai, está aí?
Silêncio…

Resolvo ligar de novo. Ele atende.

– Puxa, tua irmã ligou e caiu nossa ligação. Ela está chegando aqui com as compras.
– Não tem problema pai, eu tenho mesmo que almoçar, disse. Até outra hora. Assim que passar tudo eu e o Lucas vamos te visitar.

Ele ficou uns segundos em silêncio e perguntou:
– Onde tu estás?
– Ora, na Comuna. Não saio daqui há quase um mês. Estamos completamente confinados.
– Na comuna? Não pode…
– Por quê?
– Tu foi no banheiro? Está ligando daí? Há 5 minutos atrás estavas aqui comigo, conversando na sala!!

Não consegui conter a risada…
– Pai, a gente estava conversando o tempo todo pelo telefone!!
– Sério? (escuto ele levantar para ver se tem alguém no banheiro). Bahhh, a conversa estava tão animada que achei que estavas aqui comigo. Diz isso e cai na gargalhada. Eu também…

Acho que envelhecer bem é conseguir rir até das suas próprias limitações….

1 comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Império dos Afetos

Minha experiência sobre “trocar de opinião” sobre alguém é que tal transformação na percepção do outro nunca se dá em nível racional. Qualquer explicação lógica sobre as virtudes de um desafeto ou as falhas de alguém que admiramos – em nível cognitivo – é absolutamente inútil e infrutífera. A mudança só ocorre num nível muito mais profundo, necessariamente afetivo e emocional.

Lembro sempre da história que o meu pai contou sobre seu encontro com o governador Ildo Meneghetti nos anos 60. Na época meu pai era um jovem funcionário das centrais elétricas do RS e com ideias de esquerda. Ora, quem não? Ildo representava a política conservadora de direita udenista (UDN) e era o inimigo da esquerda local. Para melhor compreensão, seria como imaginar um sujeito de esquerda como eu se encontrando com Gilmar Mendes. Meu pai foi à reunião marcada com o governador cheio de pedras para atacar sua postura política e quando começou a reunião já tinha engatilhados na ponta da língua argumentos ferozes contra o chefe de estado.

Passaram-se os minutos e o contato pessoal com o governador “direitista” foi revelando um sujeito que se afastava do personagem construído por anos de animosidade. Afável, gentil, democrático e bem humorado. Meu pai o descreveu como “encantador”. Para um “esquerdista” isso seria uma ofensa. Entretanto, ele percebeu que a mudança na visão que tinha do velho líder só foi possível graças a este contato face a face. Nenhuma explicação seria capaz de produzir tal efeito.

A energia complexa dos encontros pessoais é que nos possibilita essa mudança que, como dito anteriormente, só pode ocorrer pela via do afeto.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos