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Para um pai que nasce

paternidade

A paternidade é um mergulho no abismo profundo das perguntas deixadas sem resposta. O fazer-se pai é reconstruir-se a partir das próprias fragilidades; é reencontrar-se na criança que acalentamos, buscando nela a solução para as dúvidas que deixamos para trás. Para além das respostas que perseguimos, tornar-se pai permite a um homem a dádiva do perdão, pois lhe possibilita perdoar o próprio pai nas inexoráveis falhas que a condição humana lhe impôs. Sem a paternidade, e o necessário sofrimento que ela nos obriga percorrer, perdemos esta grande oportunidade, ficando à mercê de vivências outras, fora do escopo de nossa própria experiência de vida. Por sua força e relevância, não há como negar que poucas experiências humanas podem ser mais criativas e potencialmente transformadoras. Depois de 34 anos assistindo partos e nascimentos é impossível não se admirar com o impacto que este evento provoca nos pais que, junto com seus filhos, nascem durante a explosão de emoções que circundam o parto.

Ao mesmo tempo em que produziu notáveis melhorias na sobrevida de mães e bebês, em especial na assistência aos casos de risco, o paradigma tecnocrático de assistência ao nascimento – por sua ênfase na técnica e na intervenção em detrimento do apoio e do cuidado – objetualiza e coisifica as gestantes, encarando-as como bombas-relógio prestes a explodir, tornando-se assim uma das maiores ameaças contemporâneas ao parto normal. O Brasil tornou-se um exemplo internacional de má prática  obstétrica, onde o abuso e o exagero na prática de cesarianas – além de inúmeras outras violências obstétricas – mostram o risco de mantermos a hegemonia deste modelo de assistência. É imperativo que se faça uma crítica severa ao paradigma médico de atenção ao parto normal para não perdermos por completo a conexão com um evento tão importante na construção da condição humana.

“Somos o que somos porque nascemos de maneira bizarra e incomum”. O nascimento humano, único em sua forma e consequências, determina as características especiais que nos distinguem. Da altricialidade de nossos rebentos – a extremada desproteção dos recém nascidos – originada por sua prematuridade neuronal, surge a “estranha anomalia da ordem cósmica, fissura na tessitura biológica e ato falho da obra divina: o amor“. Segundo Freud “se amor existe ele é o sentimento que une uma mãe ao seu bebê, fonte de onde todos os outros amores serão derivados”.

Existe ainda uma outra maneira de exercitar a paternidade de forma desafiadora e criativa: tornar-se pai de uma menina. Dos meninos pensamos tudo saber, tudo entender; afinal eles cursam o  caminho que nossos pés já andaram e nossos olhos já viram; as pedras sobre as quais tropeçam seus delicados pezinhos também estavam lá quando as trilhamos há poucas décadas. Deles queremos que se pareçam conosco, que sigam nossos passos, que torçam pelo mesmo time e que honrem nosso nome. Mas o que podemos esperar delas, que nascem como suas mães, que nos parecem tão estranhas e sempre nos confundem com sua especial visão do mundo?

O nascimento de uma filha nos coloca diante de um desafio duplo: a obrigação de enfrentar as dúvidas e temores da paternidade acrescentados ao desafio de entender o “feminino em botão”, a flor delicada e firme que desabrocha em frente aos nossos olhos atônitos e que nos oferece o ensinamento contundente da diferença. Como cuidar do desenvolvimento de seres que sempre nos pareceram enigmáticas, misteriosas e incompreensíveis? Se por um lado esta tarefa é grandiosa, também o é aterrorizante. Sabemos das marcas que a imagem de um pai produz na construção que essa menina fará de sua própria sexualidade e vida madura. Um pai será a matriz de valores e atitudes por sobre os quais ela vai estabelecer suas parcerias. A paternidade , assim estabelecida, vai impor ao novo pai uma revisão profunda de suas atitudes com relação às mulheres, na  medida em que deixamos de ser sujeitos de nós mesmos e passamos a ser espelhos onde aqueles pequenos olhos sequiosos de aprendizado procuram ensinamentos e exemplos de vida.

Apesar das angústias e do temor diante do gigantismo da tarefa, ainda assim poucas experiências na vida podem se equiparar ao desafio de construir-se pai. As cenas que acompanhei nas ultimas três décadas, onde sisudos homens vertiam lágrimas da mais profunda e genuína emoção ao levarem pela primeira vez seus filhos aos braços, formam um caleidoscópio de imagens que jamais serão apagadas da parede da memória. Ali, na escuridão cálida de uma cena de nascimento, entre sussurros, gemidos, medos e expectativas, se escondem os segredos mais profundos que regem a nossa esperança de imortalidade.

Ricardo Jones

Obstetra

Pai de Lucas e Bebel, avô de Oliver, Henry, Ava, Eric e Inácio. (Theo, in memoriam)

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Violência Infantil

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Espancamento de crianças ainda é um FATO, e centenas de pessoas o aprovam. Acreditem, eu mesmo vi comentários sobre um clip que está rolando na Internet sobre uma mulher que bate no filho com um cinto e um policial dá um sermão na criança dizendo que ele mesmo faria isso se ele ousasse reclamar novamente. Os comentários abaixo desse clip são horrendos e absolutamente inaceitáveis. Todavia, eu acho que eles escondem uma outra realidade. Eu creio que a maioria das pessoas que escreve a FAVOR das chineladas sofreu este tipo de violência na infância. Ser a favor disso é uma forma de mostrar amor pelos seus pais, e tentar retirar de quem se gosta esta culpa. Isso acontece com as mulheres que protegem seus obstetras depois de uma cesariana claramente desnecessária.

Vi isso milhares de vezes na Internet nos últimos 15 anos escrevendo em redes sociais, de “list servers” a Facebook. Mulheres submetidas a cesarianas defendiam seus médicos até o último argumento, dizendo que ele era consciente, que cordão enrolado era perigoso, que ele não permite “passar da hora”, que ele a protegeu da dor excruciante, que ele agiu de boa fé, que ele apoia o parto mas não é fanático e assim por diante. A “queda” que se seguia para algumas era normalmente espetacular. O momento em que se percebe que, por mais que você tenha afeto pelo profissional, ele lhe enganou, é terrível, e demanda muita coragem. Nós protegemos os nossos seres amados mais importantes, os pais, da mesma maneira, e por isso negamos que as palmadas tenham deixado marcas.

Eu apanhei do meu pai por causa de travessuras, mas tenho certeza que ele não se orgulha disso. Provavelmente hoje ele diria: “Estávamos nos anos 60. Era o modelo. A gente batia para impedir que más condutas se mantivessem, e tínhamos boas intenções. Educar era assim. A gente era a favor da virgindade, contra o divórcio, contra maconha, e tudo isso está caindo hoje em dia. O mundo muda, os valores se modificam, e só podemos ser julgados em nosso próprio tempo.”

Eu prefiro acreditar que as virtudes de um homem são dele, os pecados são de sua época. O que era racismo no século XVIII é diferente do que é hoje, pelo menos do ponto de vista do julgamento social, mesmo que os atos sejam os mesmos. Muitas coisas que fazemos hoje serão consideradas crimes inaceitáveis no futuro. Você acharia justo ser chamado de “assassino” por comer hoje carne de outros animais, coisa que no século XXII será proscrita? Ou comer carne é do nosso tempo, e tal fato só pode ser julgado pelos valores de agora?

O que eu acho incorreto é que HOJE, depois de tanta informação a respeito dos padrões que se repetem, criança espancada —> adulto espancador, ainda haja MUITA gente que defende esse paradigma. Gente demais, eu diria. Uma coisa é você bater no seu filho em desespero – por não saber o que fazer e se sentir pressionado – e ENTENDER que não se deve fazer isso. “Mea culpa, mea máxima culpa“, porque também agi assim. Outra coisa é bater em crianças que estão crescendo, que cometem erros, que estão olhando para o valores do mundo e tentando aprender com cada experiência, e achar que sua violência está “educando”.

Pior mesmo é vangloriar-se disso e chamar a todos os outros de idiotas.

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