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Rin tin tin

A respeito das reivindicações dos povos nativos, vitimizados pelas invasões colonialistas.

As séries de TV dos anos 60-70 eram carregadas dos valores daquela época. Refletiam a euforia do capitalismo americano do pós guerra, a pujança e a opulência de sua classe média e o esplendoroso “American Way of Life”. Entretanto, pela perspectiva de hoje, passavam pano para o genocídio das populações indígenas, um massacre sem precedente na história das Américas.

Além de Rin Tin Tin – um garoto órfão cujos pais foram mortos (que surpresa!!) num ataque dos nativos e criado pelos soldados no “Forte Apache” – havia também “Daniel Boone” (e o mito do índio bom x índio ruim) e “Os Pioneiros” (o cristianismo e a família, contra a degradação pagã), que igualmente fizeram forte propaganda colonialista. Milhões de mortos foram esquecidos e uma parte importante da história americana foi apagada com esses programas que incentivavam a vilificação dos nativos enquanto produziam a exaltação do branco, cristão e “civilizado” que matava, destruía, destroçava e invadia as terras dos nativos.

Sim, enterrem o meu coração na curva do rio. Para a gente brincar de Forte Apache antes a limpeza étnica precisou rolar solta e sem freio.

O fato de aceitarmos estas propagandas descaradas naquela época, como quase todos nós (inclusive eu), não significa que precisamos continuar acreditando nesta perspectiva da história sem questioná-la de forma vigorosa. O mesmo se aplica a outros fatos da vida, em especial a falta de respeito com negros e homossexuais – algo corriqueiro na minha infância – mas que hoje não tem mais espaço na cultura. Se é possível contextualizar e entender que o “mundo era outro” também podemos reconhecer que estas séries eram propaganda explícita de supremacia branca, de movimentos racistas, colonialistas e imperialistas, e que hoje merecem uma avaliação mais apurada.

Mesmo de tendo acreditado nas mensagens supremacistas do passado, e sabendo o quanto nos divertimos com as histórias de aventura na juventude, isso não nos obriga a continuar repetindo tamanhas aberrações.

Todo mundo algum dia já acreditou em Papai Noel e não deveria se envergonhar de nenhuma festa de Natal que participou. Por outro lado, manter-se acreditando nesta fantasia hoje seria um atestado de alienação inaceitável. Continuar olhando propaganda racista sem uma necessária crítica significa aceitar seus pressupostos e sua perspectiva de mundo.

Para conhecer mais sobre o tema, veja aqui no post Enterrem o meu coração e Forte Apache.

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Forte Apache

Falta a nós uma verdadeira autoestima brasileira. Precisamos soterrar o espírito derrotista de Macunaíma na curva de algum rio, para que possa nascer um espírito de liberdade e autonomia destruído por presidentes entreguistas e Chicago Boys. Chega de sucumbir à propaganda americana de seu valor e sua honradez, há muito tempo denunciadas como pura publicidade enganosa.

Quando eu era pequeno adorava brincar de “Forte Apache” – que era basicamente uma fortificação de brancos que se estabelecia nas terras indígenas da América do Norte. Eram invasores e genocidas, colonizadores europeus tomando de assalto o território ocupado pelas populações originárias. Como descrito em “Enterre meu Coração na Curva do Rio”, livro de Dee Brown, milhões de Sioux, Navajos, Apaches, Comanches, Cherokees, Pueblos, Iroquois, Choctaw, Chippewa e outras nações sucumbiram no enfrentamento com os invasores.

E no entanto, o cabo Rusty, o tenente “Rip” Master e os “Pioneiros” eram nossos heróis, e os índios eram os bandidos cruéis e violentos, covardes e traiçoeiros. O genocídio das populações indígenas na América era televisada na minha infância, teatralizada e transformada em show, e nós assistíamos o massacre de milhares de indígenas num gigantesco coliseu, e torcendo apaixonadamente pelos leões..

Os Estados Unidos são o maior perigo terrorista do planeta. O império invadiu e destruiu todos os países que desejou, sempre em busca de seus tesouros naturais, não importando quantas mortes fossem necessárias. No entanto, continuamos a exaltar o opressor. Carregamos sua bandeira no Planalto como se eles fossem nossa verdadeira nação, e nós apenas uma filial satélite a lhe prestar contas.

Eu pergunto: A destruição de nossas nações indígenas remanescentes pelo atual governo, um genocídio cruel anunciado, será também um joguinho de “colonos pioneiros” para nossos bisnetos brincarem?

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