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A culpa das mulheres

Uma reportagem do jornal Zero Hora do Rio Grande do Sul relata o aumento da taxa de cesarianas ocorrida nos últimos anos em uma cidade do interior do estado, e apresenta a tese – que os próprios médicos oferecem – de que o aumento na idade das pacientes e a incidência aumentada de fatores negativos associados estaria na gênese do incremento das opções cirúrgicas para o parto. No Hospital de Clínicas (HC) da cidade – que podemos imaginar se tratar de um hospital público – a proporção de cesarianas saiu de 56% em 2021 para 64% em 2025, enquanto os partos normais recuaram de 42% para 35%. Ou seja: hoje, neste hospital do interior do RS, somente 1/3 das pacientes de um hospital público conseguem parir de forma fisiológica e com um baixo risco. Este é um retrato muito semelhante ao que ocorre em todo o país. E a culpa é das mulheres, certo?

Sim, mas é preciso entender que as explicações dadas para o número escandaloso – e crescente – de cesarianas são insuficientes para justificar as taxas inaceitáveis. A melhor explicação para este fenômeno não está no perfil das pacientes, mas no perfil dos cuidadores do parto, os profissionais que detém o poder e a responsabilidade sobre os atendimentos. Não é difícil entender que “existe uma tendência nos cirurgiões de realizarem cirurgias”. Sim, parece uma piada, mas enquanto o parto for comandado por profissionais que trabalham na lógica da intervenção o resultado nunca será diferente. A ideia de que as cesarianas aumentam porque os casos são de maior risco é uma meia verdade contada ad nauseum há décadas, que tenta colocar nas condições das pacientes a indicação abusiva de cirurgias. Essa explicação não se sustenta nos fatos. Talvez pudesse aumentar um ou dois pontos percentuais, mas o que vemos é uma franca epidemia de cesarianas que aumenta os riscos para mães e bebês e torna os partos muito mais caros – que no sistema público é uma conta que todos nós pagamos. Além disso, muito do que é apresentado como justificativa deveria ser visto de forrma oposta. Uma hipertensa, por exemplo, tem uma razão a mais – a pressão alta – para evitar uma cirurgia, pois o aumento da pressão multiplica os ricos de uma grande cirurgia. Entretanto, esta condição é vista como “indicação”.

Há muitos anos, ao participar de um congresso nacional de obstetras, fui interpelado por um professor de uma universidade paulista que me afirmava que a culpa pelo excesso de cesarianas era a miscigenação ocorrida no Brasil, que misturava os genes de negras de “ancas avantajadas” com europeias de cintura mais “fina”. Ou seja: aparte da postura racista e sem evidências do colega, percebi que ali se manifestava um padrão que se repetiria em muitos contextos e em locais distintos: para justificar os desmandos na realização de cirurgias sem justificativa clínica se usava o artifício de culpar as vítimas pelos abusos, para que não ficassem à mostra os interesses e incentivos corporativos, judiciais e econômicos dessa opção. A verdade é que as intervenções no parto ocorrem porque médicos têm uma crescente incompetência e um marcado desinteresse no tipo de assistência que um parto demanda, que não se encaixa na lógica médica e na perspectiva que têm do evento. O parto normal está ligado à “lógica do cuidado”, e pertence à parteria, e não à medicina. Por isso abandonei as propostas reformistas há duas décadas; não haverá modificação no perfil da assistência ao parto enquanto os mesmos cuidadores concentrarem o poder, como ocorre com a obstetrícia. Só teremos avanço se a medicina for retirada do atendimento primário às gestantes de risco habitual, e se concentre nos casos de alto risco, deixando o parto para a atenção das parteiras profissionais, como ocorre no norte da Europa e Japão. As questões jurídicas e econômicas completam o pacote da “cesariana inevitável”, onde os médicos que atendem parto normal sofrem perseguições da corporação e da justiça e têm muito menos incentivos econômicos para a sua atividade. Não é difícil entender porque minha postura revolucionária – e o abandono das posições idealistas – produziu o ódio com o qual minha corporação sempre me tratou.

Entretanto, sou um otimista. Houve avanços nos últimos 27 anos que acompanho o desenvolvimento de políticas para o parto e participo de instituições como a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Mas estes avanços são lentos. Muito conseguimos com a popularização das doulas, algo que introduzimos no Brasil no ano 2000, com os primeiros cursos de capacitação que foram realizados no Brasil e em Portugal. Outro fator importante foi a “Lei do Acompanhante“, de 2005, que mudou o direito de um membro da família de acompanhar a mulher durante o trabalho de parto e o parto. Desde que os familiares, em especial maridos, puderam testemunhar o que ocorria no centro obstétrico, houve uma clara transformação na estética do parto. Diminuíram os gritos e as ameaças de forma considerável. Porém, isso não mudou a taxa de cesarianas, que continua crescendo. Conseguimos ao menos deixar os médicos envergonhados pelo atendimento insuficiente que oferecem, expondo sua falta de interesse e dedicação à fisiologia do nascimento. Muito há ainda para fazer, e o futuro do parto dependerá de nossa capacidade de indignação.

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Arquivado em Ativismo, Parto

Especialistas

Nossa ânsia por “especialistas” é uma das piores consequências da segmentação da medicina. Cada vez que uma pessoa com tosse me pedia que eu indicasse um “pneumologista” uma estrelinha no céu se apagava. Eu percebia, nesses pedidos, uma visão distorcida do papel que os especialistas desempenham no cuidado à saúde. Um especialista é um profissional que sabe muito de pouco, mas a imensa maioria dos pacientes precisa de alguém que saiba um pouco de quase tudo.

Os especialistas são isso: “experts” em partes ou funções do corpo, dedicados às questões mais infrequentes, minúsculas, que ocorrem raramente na população e que pela sua relevância merecem uma dedicação exclusiva. São profissionais com uma visão necessariamente limitada sobre a saúde, mas altamente focada em distúrbios específicos. Por isso mesmo, delegar a saúde ou o tratamento dos pacientes àqueles que carecem de uma perspectiva holística do sujeito é um erro. É uma perversão de sua função original.

Hipertensos consultando cardiologistas, gente com urticária consultando dermatologistas, pessoas com conjuntivite lotando consultórios de oftalmologistas, pacientes com prisão de ventre ou azia consultando gastroenterologistas etc, são exemplos de erros na escolha dos profissionais. Estas são alterações da saúde que seriam muito mais bem atendidas por médicos de família e clínicos gerais, num consultório ou posto de saúde. É facilmente comprovável que 80% destes casos são tratados e acompanhados por médicos de formação generalista, que terão muito mais facilidade para uma abordagem bio-psico-social de seus pacientes.

O médico mais apropriado para a vasta maioria da população é o generalista, ou o Médico de Família e Comunidade, que desde 1975 organizou seus primeiros programas de residência médica, mesmo usando denominações diversas. No ano de 1981 passou a ser chamada de Medicina Geral Comunitária por meio de Resolução da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM); e em 2001, passou a receber o nome de Medicina de Família e Comunidade, reconhecida pela CNRM e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) (resoluções CFM 1232/86 e 1634/2002). Esta área da Medicina recebeu um incremento muito grande de profissionais, apesar de ainda estarmos muito aquém de nossas necessidades.

A Declaração de Alma-Ata, que foi formulada no Cazaquistão em 1978, foi um pacto relacionado à saúde de um modo geral e assinado por 134 países participantes. No que diz respeito à Atenção Básica à Saúde, defendeu estes cuidados nos seguintes termos:

“Os cuidados primários de saúde são cuidados essenciais de saúde baseados em métodos e tecnologias práticas, cientificamente bem fundamentadas e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal de indivíduos e famílias da comunidade, mediante sua plena participação e a um custo que a comunidade e o país possam manter em cada fase de seu desenvolvimento, no espírito de autoconfiança e autodeterminação. Fazem parte integrante tanto do sistema de saúde do país, do qual constituem a função central e o foco principal, quanto do desenvolvimento social e econômico global da comunidade. Representam o primeiro nível de contato dos indivíduos, da família e da comunidade com o sistema nacional de saúde, pelo qual os cuidados de saúde são levados o mais proximamente possível aos lugares onde pessoas vivem e trabalham, e constituem o primeiro elemento de um continuado processo de assistência à saúde. (Opas/OMS, 1978)”

Para além das vantagens para os pacientes existem inequívocos benefícios econômicos para os sistemas de saúde que investem em uma medicina generalista e na ABS (Atenção Básica à Saúde). Dados epidemiológicos de estudos da revisão sistemática da literatura sobre os riscos de internação associadas por condições sensíveis à Atenção Primária, nos mostram que a melhoria de acesso ao sistema de saúde apontam para a diminuição de internações por “condições sensíveis à ABS”, que são problemas de saúde evitáveis, atendidos por ações típicas no nível mais primário e local de atenção e cuja evolução, na falta de atenção oportuna e efetiva, pode determinar hospitalização desnecessária, como pneumonias bacterianas, complicações da diabete e da hipertensão, asma, entre outros. Tais hospitalizações excessivas produzem um custo muito alto para o Sistema de Saúde além de aumentarem os riscos para os pacientes pelas intervenções em cascata que são realizadas no ambiente hospitalar, levando a problemas de complexidade crescente.

Desta forma fica claro que apenas os quadros não resolvidos pela abordagem clínica simples deveriam ser encaminhadas aos profissionais especializados. É nesse contexto – das doenças mais raras e refratárias aos tratamentos mais simples – que eles são extremamente necessários. É para essa parcela pequena da população, que precisamos do trabalho e da dedicação destes profissionais na medicina. Já para o conjunto da população precisamos de generalistas, médicos capacitados e compassivos, capazes de enxergar por detrás dos véus das doenças evidentes, para perceber o arcabouço psíquico e social que se esconde por trás de qualquer quadro de adoecimento.

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