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Medicina e Medo

”The Doctor”, 1891; Samuel Luke Fields (1844-1927), Óleo sobre tela, Galeria Tate – Londres. (*)

Qual a razão da crescente insatisfação de tantos pacientes com os abusos cometidos por uma medicina cada vez mais alienante, técnica, fria e desumana, onde a intervenção e o uso de drogas assumem a característica mais marcante dessa atuação? Hoje em dia a cena ancestral do médico compassivo, atencioso, dedicado e atento que, ao lado do leito, anota em silêncio as queixas e sinais dos enfermos, dá lugar aos exames, as cirurgias e as drogas, alienando progressivamente o paciente de sua própria cura.

Quando os médicos atuam de forma abusiva – em especial no parto, onde a intervenção se tornou a regra e a fisiologia ocorrência rara – assim o fazem para garantir a sua proteção, e não por serem pérfidos, interesseiros ou ignorantes. Se um médico resolve esperar diante de um impasse clínico e algo inadequado ocorre a culpa será invariavelmente considerada sua e, a partir de então, sua vida se tornará um inferno com os ataques que surgirão da própria corporação. Por outro lado, se ele intervém e o paciente – como resultado da intervenção – tem algum problema grave (ou mesmo vem a óbito) a responsabilidade se dilui, e a perspectiva que sobressai é de que o resultado funesto foi devido ao risco natural e inexorável de qualquer procedimento, o qual ocorreu apesar do tratamento médico adequado. Isso porque a tecnologia é um mito, e por isso não pode ser jamais questionada.

A isto costuma-se chamar de “imperativo tecnocrático”, que determina que a existência de tecnologia para tratar um determinado caso obriga a sua utilização, mesmo que os resultados desta intervenção não sejam comprovadamente melhores, e aqui a cesarianas ocupam um lugar de destaque como grande exemplo deste tipo de tendência. Muito mais do que evidências científicas, a profissão é levada a agir por defesa, aumentando gravemente os riscos para os pacientes – mesmo que os diminua para os médicos.

Ou seja, o uso de tecnologia vai sempre blindar o médico, dar-lhe segurança e oferecer a ele proteção profissional. Na obstetrícia, as cesarianas são “salvo condutos” para garantir segurança aos profissionais. Raríssimos médicos são processados por cesarianas abusivas mas qualquer um que ouse atender partos, mesmo quando dentro de parâmetros reconhecidos no mundo inteiro, incorre em sério risco profissional. A escolha pelo tratamento mais seguro para si é compreensível em qualquer profissão – médicos não são kamikazes – apesar de não ser justificável sob qualquer parâmetro ético; médicos atuam sob o signo do medo e sabem o quanto um mau resultado pode destruir uma carreira tão arduamente construída.

Desta forma, não são os médicos que precisam mudar; é a própria sociedade, seus valores, seu sistema jurídico, sua mídia, seu sistema de saúde e os próprios pacientes, que invariavelmente não vão titubear em deslocar a dor e a frustração de uma perda para a pessoa do médico, em especial quando a postura deste é contra-hegemônica e agride o modelo tecnocrático e intervencionista da medicina capitalista. Imaginar que a mudança na atenção é uma responsabilidade dos médicos é injusto e inútil; eles apenas fazem a Medicina que a sociedade lhes solicita e autoriza. Para mudar a atenção à saúde é necessário suplantar o capitalismo e transformar a Medicina, para que ela deixe de ser mercantilista e baseada no lucro das grandes corporações, e passe a ser um sistema de cuidados centrado na pessoa, e não nos ganhos obtidos com a doença.

Só então poderemos constatar que, quando a sociedade se transforma, os médicos (juízes, advogados, políticos, policiais, bombeiros, militares, etc) se transmutam como consequência. Porém, essa mudança é dialética, pois que o exemplo de alguns profissionais também vai moldar a forma como a sociedade enxerga os evento da atenção à saúde, gerando assim mais consciência, que por sua vez será agente de transformação. Não existe, portanto, justificativa para que os médicos não se mobilizem para que a sua ação médica seja impulsionadora da mudança.

A prática médica é a síntese dos valores da sociedade onde atua, não sua causa precípua. Sociedades violentas produzem uma medicina truculenta e intervencionista; nas sociedades baseadas na paz e na democracia a Medicina vai fomentar uma saúde centrada na pessoa e na responsabilidade compartilhada entre cuidador e paciente. Entretanto, sempre devemos cobrar dos médicos que compreendam a verdadeira amplitude de sua ação social, e não se permitam sucumbir às pressões desumanizantes a que são submetidos.

(*) O quadro nos remete a um momento dramático na vida do pintor Samuel Fields. Nele está retratada a morte de seu filho na noite de Natal do ano de 1877, mas também está expressa a homenagem ao médico, atento, circunspecto e prestativo, que assistiu seu filho até o derradeiro momento quando, por fim, a vida do menino evadiu-se do corpo. Na imagem podemos ver seu estúdio, os móveis, o ambiente lúgubre que aguardava o desfecho mórbido, o desespero da mãe e o olhar apático do pai – o próprio Samuel. Apesar de ser uma imagem que nos remete ao dramático e trágico da existência ela igualmente nos mostra que a função do médico não é “curar os doentes”, mas estar ao seu lado, aliviando as dores e sofrimentos, curando quando for possível, mas sendo sempre a mão fraterna a oferecer o cuidado – o elemento ancestral que nos transformou em humanos.

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Partos, culpas e responsabilidades

Muito já se debateu sobre as estratégias para mudar a narrativa do parto normal fazendo com que os eventos fisiológicos do parto passassem a ser tratados como o “normal do nascimento”, enquanto as intervenções se limitassem às exceções, utilizadas tão somente na vigência de condições de risco aumentado. Este sempre foi o sonho de todo ativista da humanização, entretanto os avanços ainda são tímidos diante dos poderes concentrados na corporação médica e a visão intervencionista que se instalou como modelo hegemônico de atenção ao nascimento.

Todavia, hoje em dia é exatamente o oposto desta lógica o que ocorre nas sociedades industrializadas ocidentais. No Brasil menos de 5% das mulheres conseguem ultrapassar as dificuldades específicas do parto sem serem submetidas a múltiplas intervenções médicas – a maioria delas intempestiva, inútil, invasiva e/ou perigosa. Esta constatação é a imagem clara da forma como a sociedade enxerga o parto – perigoso, traiçoeiro e imprevisível – mas também a própria mulher – defectiva, falha, incompleta e indigna de confiança. O controle sobre o parto se insere nas disputas sobre a reprodução/sexualidade e reproduz a ideologia corrente.

A estratégia utilizada para transformar a prática da atenção ao parto para um modelo mais seguro, desmedicalizado e natural foi durante décadas centrada no discurso ufanista da “meritocracia feminina” que nos fez acreditar que “se a mulher realmente desejar….” ela terá seu tão sonhado parto normal em suas múltiplas formas – vaginal, cócoras, na água, domiciliar, na casa de parto, etc…

Na resta dúvida que o desejo é um elemento fundamental na conquista do parto fisiológico. Sem que a paciente esteja imbuída do claro interesse, materializado em ações positivas, nenhum contexto a fará aumentar suas reais chances. Podemos chamar esta postura como a “pedra fundamental” sobre a qual as outras se assentam. Mais ainda, para que este desejo floresça há que se oferecer, desde o nascimento, uma perspectiva positiva do parto, trabalhando esta imagem e incorporando-a ao repertório de conceitos – das meninas em especial.

Entretanto, a simples postura propositiva das mulheres será insuficiente para o resultado final, e sobre isso não há dúvidas. “O parto é um evento social que ocorre no corpo das mulheres”, e isto significa que o parto que ocorre nos indivíduos é um retrato do contexto social onde se encontra inserido. Sociedades constritivas, ditatoriais e violentas terão partos igualmente abusivos, enquanto as sociedades justas, equilibradas e dignas vão expressar no momento do nascimento os valores do seu campo simbólico social.

Desta forma, aumentar a pressão sobre a iniciativa das mulheres, como se (somente) delas dependesse o resultado do parto, é colocar sobre elas uma responsabilidade injusta e até desumana. Recaem sobre elas inúmeros boicotes – recônditos ou explícitos – que as desviam da rota para um nascimento fisiológico e seguro, sendo o principal deles a ideologia dos cuidadores. Toda a mulher imbuída do puro desejo por um parto normal sabe o quanto a postura negativa de um profissional pode ser determinante para o fracasso do seu intento.

Cabe aos profissionais envolvidos com o parto (e que entendem a dinâmica complexa e delicada deste evento), retirar a pressão excessiva sobre as mulheres sem desmerecer sua importância, ao mesmo tempo em que reconhecem a imensa importância dos contextos e das circunstâncias na construção de um fracasso – ou sucesso. Abandonar a retórica meritocrática é um passo nesse sentido.

Outro passo essencial é entender que qualquer evento humano – em especial o parto, que conjuga em um só momento morte, vida e sexualidade – jamais acontecerá num vácuo social, e estará inexoravelmente embebido na amálgama de valores que nos circundam

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Parto natural

Há mais de 20 anos eu aboli a expressão “parto natural” quando percebi que ela se referia a uma fantasia nostálgica de um paraíso perdido. Não há nada de natural no parto; tudo é construção da linguagem; tudo é elaboração simbólica. Chamar de”mãezinha”, abusar dos diminutivos e fazer tricotomia são formas de infantilizar as gestantes, transformando-as em crianças, obediente e manipuláveis. Existem, portanto, formas sutis e poderosas de controlar as gestantes, travestindo ações violentas em sua essência como se fossem plenas de cuidado e carinho. São armadilhas perigosas, tão poderosas quanto invisíveis e, por isso mesmo, precisam ser combatidas.

Margareth Woolington, “Freedom as a Mirage”, Ed. Cypress Hill, pág 135

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Dores e sons

Essa imagem é de um debate ocorrido em um grupo de Whatsapp – de esquerda!! – a respeito de um artigo que escrevi sobre a necessidade dos partidos marxistas se engajarem na luta pela humanização do nascimento e pelo fim da violência obstétrica, mas se afastando dos discursos identitários de viés individualista.

O primeiro comentário diz respeito ao aborto, mas fala que assim como ele a cesariana também não é crime. Bem, do ponto de vista da humanização do nascimento a cesariana é uma cirurgia maravilhosa e capaz de salvar vidas. Todavia, isso apenas ocorre quando esta cirurgia de grande porte é bem indicada, sem os abusos que presenciamos cotidianamente quando seu uso ocorre para satisfazer as necessidades dos profissionais e das instituições – e não das mães e dos seus bebês. Criticar o abuso de cesarianas não significa desmerecer sua importância e validade. Parece incrível ainda ser necessária oferecer este tipo de explicação.

O segundo comentário – que elogia a anestesia – é uma visão largamente disseminada na cultura ocidental. Desde o dia 16 de outubro de 1886, quando John Collins Warren – o velho e empertigado cirurgião – retirou um tumor da boca de Gilbert Abbot sob anestesia por éter sulfúrico, conduzida por um tal Thomas Green Morton, que a humanidade exalta a possibilidade do uso das drogas para exterminar o sofrimento e as dores. Nada mais justo este entusiasmo, visto que desde a aurora da humanidade a dor nos acompanha como sombra mórbida a nos fustigar e torturar.

Todavia, do entusiasmo inicial e o nascimento da moderna cirurgia, vieram também como consequência muitos questionamentos: até quanto é possível isolar os sujeitos da experiência da dor, e quais as consequências de uma vida sem ela? E se para as dores físicas temos os múltiplos analgésicos (e os anestésicos para as cirurgias), como lidar com as dores da alma? Serão elas igualmente passíveis de extermínio? Ou serão estas dores um alvo para aqueles ávidos por descobrir novos mercados?

É minha visão que as dores são constitutivas dos sujeitos e que é impossível viver sem elas. Também creio que as dores de parir produzem seus efeitos não apenas na mulher que as suporta, mas também no sujeito que nasce. É claro que para isso as dores precisam de sentido, significado e função, e não ser apenas o sinal corporal de uma disfunção onde a tecnologia pode ajudar e produzir alívio. Há que discernir para não abusar e tornar ruim algo que é, em essência, bom.

A terceira manifestação, foi feita por um médico, que acredita no mito do “culto ao parto normal”, que seria produzido por uma “seita de identitários avessos à tecnologia e aos recursos cirúrgicos”. Sua aversão à humanização do nascimento se sustenta no “recurso do espantalho”: a criação de um adversário fictício que facilitaria nossas críticas ao direcioná-las a uma mera caricatura das opiniões e posições que se opõem às nossas.

Não restam dúvidas de que existem identitários na humanização do nascimento. Por certo que muitas ativistas abusam de recursos espúrios como cancelamentos, silenciamentos, ataques sexistas, essencialismos e preconceito. Entretanto, apesar de serem por vezes vocais, são uma minoria nesse movimento. Este se estrutura na garantia do protagonismo à mulher, na visão interdisciplinar do parto e na atenção baseada em evidências, e não em misticismos ou revanchismos sectários. Tratar um coletivo pela imagem de uma parcela diminuta é desonestidade.

Em verdade, a ideia de que o objetivo dos humanistas seria tornar a cesariana ilegal é tola e apartada da dura realidade do parto, porque é exatamente o oposto que acontece: é o parto normal que lentamente desaparece do horizonte das mulheres, expropriado pela tecnocracia médica que possui nas mãos o mapa único, a versão de uma realidade que insidiosamente evapora. Se existe nobreza neste movimento é a tarefa de lutar para que um processo fisiológico como o parto não seja exterminado pela arrogância cientificista.

Hoje em dia, nos países colonizados pela medicina drogal e intervencionista, é o parto normal que em breve precisará “habeas corpus”. Sim, “que tenhas o teu corpo” é a melhor definição para o desejo de uma mulher que pretende ter seu filho em paz, sem ser interrompida ou incomodada. É o fluxo normal e fisiológico da vida que está em perigo de extinção; é o parto que corre o risco sério de desaparecimento.

Repito a pergunta que fiz há 20 anos: o que será da humanidade quando os gritos lancinantes primais que constituem nossa estrutura psíquica mais primordial forem substituídos pelo som duro e metálico dos instrumentos cirúrgicos de uma sala gelada e repleta de luzes? Se a música é realmente feita da reverberação infinita desse som, que se repete indefinidamente em nossa memória mais precoce, que humanidade será essa onde não haverá mais nenhuma canção a nos aliviar as inevitáveis dores de viver?

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O Velho Soldado

Ele já havia passado dos cinquenta anos, e isso era denunciado pela cor dos cabelos e pela falta deles bem no centro da cabeça. Era um oficial da reserva e estava acompanhando a esposa, que carregava o indefectível sacolinha de exames. Haviam me procurado cheios de indignação. Falavam em processar o médico que os havia atendido no parto anterior, cujo bebê tinha pouco mais de um ano e meio. Primeiramente tentei acalmá-los, mas ele era o mais bravo e inconformado.

– Não tem desculpa isso, doutor, e o senhor bem sabe. Como pode uma mulher engravidar depois de ter ligado as trompas? Eu já tinha 4 filhos, nem queria mais nenhum. Já marquei a cesariana com seu colega para a minha mulher poder “desligar” as trompas. Cinco é um bom número, não acha? Eu estava conformado, mas agora olha esses exames!!! Será possível que dar um nó num tubinho é assim tão difícil?

Mostrou o Planoteste recém feito que se mostrava positivo.

Sua esposa, que tinha se mantido calada até então, resolveu falar.

– Sim, doutor, vou ter meu 6º filho agora, depois de ter realizado uma cesariana para ligamento das trompas. Foi seu colega, o Dr. Eustáquio* quem a fez. Isso não pode ficar assim.

Ela estava no meio da gestação, por volta de 20 semanas. Tinha 4 partos normais e uma cesariana, exatamente aquela realizada com o único objetivo de realizar a ligadura das trompas.

Expliquei demoradamente que, por melhor que uma cirurgia tivesse sido realizada não há como descartar uma recanalização. Disse também que confiava na capacidade do Dr. Eustáquio e que culpá-lo por este incidente era injusto e não levaria a nada.

Apesar das minhas explicações eles se mantiveram indignados, acreditando que esta gestação era fruto de uma falha do profissional. Terminamos aquela consulta inicial e marcamos a seguinte. Todavia, à medida que o pré-natal prosseguia, eu consegui convencê-los de que pensar no passado de nada ajudaria a enfrentar o novo desafio. Mais importante era planejar esta nova vida que chegaria. Falei para eles os conselhos usuais para a gestação e deixei claro que qualquer projeto de nova ligadura só poderia ocorrer no pós parto.

Assim se fez. Depois mais alguns meses ela entrou em trabalho de parto e pariu lindamente seu filho na mesa de cócoras que eu havia introduzido Centro Obstétrico do nosso acanhado hospital. Desta vez, ao contrário de todas as outras gestações, o marido esteve presente durante todo o processo. Assistiu extasiado o nascimento de seu sexto e último filho.

Na consulta imediatamente após o parto, a face do esposo estava transformada. Ao invés de me cumprimentar de forma protocolar me deu um longo abraço. Falou da alegria de ter testemunhado algo tão impressionante como o nascimento de uma criança e que, agora de cabeça fria, agradecia à natureza marota que lhes pregou uma peça e permitiu a chegada do novo bebê.

– Sabe o que mais me impressionou? Eu cortei o cordão, doutor. Depois do nascimento contei para todos os meus velhos companheiros de quartel que eu mesmo havia cortado o cordão umbilical. Eu senti com a tesoura que o senhor me deu a textura daquele fio que leva sangue para o bebê!! Descrevi esta cena para minha turma como uma criança conta o brinquedo novo para seus amigos da escola. Foi algo inesquecível!!

Sorri da sua euforia diante da magia do nascimento. Disse a eles apenas que o nascimento de uma criança também serve para desarrumar nossas certezas e para mostrar nossas potencialidades humanas. Nascer é bem mais que chegar neste mundo; é fazer o mundo se transformar pela nossa chegada.

Quando levantei de novo o olhar, o velho soldado chorava.

* Nome fictício

(Lembrei dessa história depois de nossa breve conversa tão cheia de lembranças bonitas, Luciane Chiapinotto)

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Passe livre

Cesariana = passe livre.

Médicos podem até matar seus pacientes se o fizerem dentro do modelo médico intervencionista, pois a medicina se assenta exatamente sobre o “controle e manipulação da tecnologia”. Quem respeita essa normativa está seguro. Cesarianas oferecem total segurança; partos normais serão sempre arriscados para quem os atende.

Tipo, você pode até matar um paciente durante uma cirurgia de ponte safena, mas se ele morrer porque você o estimulou a comer melhor e mudar seu estilo de vida será tratado como um “negligente”. E de nada adianta mostrar evidencias; medicina não se move por elas, mas por interesses corporativos. Aliás, como toda corporação.

Qualquer médico cujo paciente for a óbito obedecendo a estes cânones sagrados estará protegido pelos seus pares. Toda a corporação promoverá um círculo de proteção a este profissional, porque assim estará protegendo a SI MESMA.

Todavia, qualquer profissional que desafie a ideia de supremacia médica sobre a saúde questionando seus pilares de sustentação, será execrado, perseguido e, por fim, eliminado.

Desta forma, questionar a atenção cirúrgica, hospitalar e médica ao parto cabe exatamente na definição de “heresia”, por desafiar a crença da superioridade do conhecimento médico sobre o nascimento. Vi isso muito de perto; o pior crime sequer é o local extra-hospitalar do nascimento, mas reconhecer o conhecimento autoritativo das parteiras profissionais como válido.

Todo aquele que assim proceder será tratado como traidor.

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Objeção de consciência

Caríssima Melania Amorim, eu não sei até que ponto o argumento da “objeção de consciência” pode ser usado, mas acho que esta discussão pode ser levada adiante. Talvez seja o momento de se debruçar sobre o tema.

Eu entendo que a situação atual das cesarianas a pedido também é responsabilidade do movimento de humanização e do nosso discurso (justo) de garantir autonomia para que as mulheres façam suas escolhas. Nosso esforço foi mostrar que o parto precisa levar em conta direitos reprodutivo e sexuais, e que o olhar sobre as gestantes não pode mais ser objetual, onde elas não passam de meros “contêineres fetais”, desprovidas de protagonismo e autonomia.

Entretanto, todos sabemos que as opções pela “cesariana milagrosa e indolor” não são verdadeiras pois tais escolhas são condicionadas fortemente pelo ambiente cultural onde estão inseridas. Numa sociedade sob a vigência do “imperativo tecnológico” e onde as opções pelo natural (comida, ambiente, sexualidade, nascimento, morte) são vistas como “reminiscências de um passado de primitivismo e privação“, é compreensível que mulheres façam escolhas baseadas na (des)informação que recebem de seu entorno. Mais ainda; como já dizia Simone Diniz, muitas mulheres optam pela cesariana para fugir do desamparo e da humilhação a que são submetidas no sistema de saúde. “Partos violentos para vender cesariana“.

Por isso estas escolhas NÃO SÃO livres, mas constrangidas pelas vozes de autoridade de profissionais tecnocráticos que baseiam suas decisões muito mais em função do seu próprio conforto e sua auto proteção do que no bem estar de mães e bebês e com base em evidências científicas.

Oferecer a escolha entre cesarianas e partos violentos conduzidos por profissionais despreparados e impacientes é a demonstração mais cabal da perversidade do nosso sistema. A mesma mão que autoriza a escolha pela cesariana (em nome da liberdade) é aquela que proíbe partos fora do controle patriarcal da medicina, ataca parteiras e doulas e persegue obstetras humanistas (em nome de uma pretensa “segurança”).

Talvez seja necessário agora reforçar um velho adágio que eu usava há muitos anos: “O empoderamento das gestantes não significa o desprezo à autonomia do profissional.” Sem um parteiro livre para tomar decisões embasadas trocaremos uma opressão por outra, com resultados igualmente ruins. Objeção de consciência pode ser um caminho e uma alternativa a este dilema.

Não há nenhuma liberdade quando somos obrigados a escolher entre duas imposições violentas e ruins. A pior face da opressão é quando ela vem travestida de autonomia.

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Cesarianas e classe social

Durante os anos 90 eu atendi um parto, num hospital de periferia, que eu nunca esqueci pelos seus significados sobre o dilema das cesarianas. Os pacientes deste hospital eram egressos de uma vila popular muito pobre do cinturão que cerca Porto Alegre. No entanto, este parto em especial, era de uma família levemente mais abonada. Não traziam nas roupas ou nas palavras os estigmas da pobreza que eu estava acostumado a ver em quase todas as outras famílias que procuravam o centro obstétrico. O pai do bebê a nascer estava presente e a gestante tinha um pouco mais de idade do que a adolescência habitual.

Depois de admitida em trabalho de parto inicial o esposo me chamou para falar. Perguntou, de forma respeitosa e com palavras bem escolhidas, como estava sua esposa e o que deveria esperar para as próximas horas. Eu lhe respondi que estava tudo bem e que o parto só deveria ocorrer em várias horas. Ele aquiesceu com a cabeça e me cumprimentou, avisando que iria embora e voltaria mais tarde. Voltei para minha sala, mas antes que eu pudesse fechar a porta ele bateu no meu ombro e disse:

– Desculpe, doutor. Esqueci de dizer que, se precisar fazer uma cesariana, dinheiro não será o problema. Somos pobres, mas temos condições de arranjar o que o senhor cobrar.

Expliquei a ele que aquele era um hospital público, e que nenhum tipo de pagamento era necessário, muito menos permitido, mas que ele tivesse confiança que tudo faríamos de melhor para sua esposa e seu bebê. Porém, aquele homem assustado havia me mostrado que o parto normal de sua esposa significava não uma opção pela segurança e pelas boas práticas – o que verdadeiramente é – mas a submissão a um modelo imposto pela sua condição de pobre. As cesarianas ocupavam em seu imaginário “aquilo que se pode escolher quando se é de outra classe“.

A raiz da epidemia de cesarianas no Brasil está na divisão de classes. As pessoas não fazem escolhas racionais nesse campo. Muitos casais compram um convênio médico logo após casarem apenas para serem atendidos de forma “diferenciada” no parto. Cesarianas servem como símbolos de status que a classe média utiliza para se afastar do que significa ser pobre, “a quem não cabe escolha“. Para mudar esta tragédia no Brasil é fundamental mudar a imagem que todos temos da cesariana e do parto normal, desvinculando a escolha cirúrgica de uma opção pela segurança e como emblema de ascensão social.

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Golfinhos

Lembrei por ocasião do debate sobre a exaltação da “cesariana salvadora” e os “malefícios do parto normal” da velha história dos “bons golfinhos”. Uma historia sobre viés de percepção….

Há um mito que conta que os golfinhos são bons e que tem o costume de empurrar os náufragos para a praia. Vários relatos existem de pessoas salvas por golfinhos depois de barcos virados. A fama desses mamíferos sempre foi positiva entre nós e estas histórias sempre reforçam essa percepção. O problema surgiu quando, mais recentemente, se observou a ação dos golfinhos a partir de um helicóptero durante um naufrágio.

O que se viu foi surpreendente. Os golfinhos, em verdade, brincam com as pessoas e as empurram para QUALQUER lado – inclusive para longe da costa – mas só aqueles que – por sorte – são empurrados para praia sobrevivem para contar a historia. Daí ocorre a boa fama de salvadores que, como pode se ver, não é merecida. As mortes causadas pelo brincalhões aquáticos nunca foram computadas a eles, pelo menos até sabermos a verdade.

O mesmo ocorre em muitas situações do parto. Nos “sequelados do parto normal” a culpa só pode ser do parto, da natureza cruel, da “vagina dentada destruidora de crânios” e dos profissionais relapsos que “nada fizeram” mesmo tendo a “tecnologia salvadora” à mão. Nos sequelados da cesariana houve, por certo, uma fatalidade. Afinal “fizemos tudo o que podia ser feito“. Como se poderia culpar o uso da tecnologia se ela é o sustentáculo da emergência e hegemonia do saber obstétrico sobre a parteria?

Sem entender essas armadilhas psicológicas jamais fugiremos da fatalidade do “imperativo tecnológico” que nos obriga à intervenção pela crença cega na IDEOLOGIA tecnocrática.

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Crime e Castigo

Hoje eu vi o vídeo do médico que teria dado um tapa na paciente em Manaus. Nada justifica uma agressão contra uma mulher em trabalho de parto e devemos cobrar que a violência obstétrica seja extirpada das salas de parto. Os hospitais continuam sendo as principais fontes de violência de gênero contra as mulheres e esse fato precisa ser denunciado.

Entretanto, neste caso em especial, o vídeo se presta muito mais para atacar a presença de acompanhantes em sala de parto do que para ser um libelo contra violência no parto. A presença de outra mulher na cena (a mãe?) ameaçando e constrangendo os profissionais e exigindo uma cesariana por puro despreparo emocional, é tudo que a corporação deseja para atacar nossas recentes conquistas, como a presença de acompanhantes de livre escolha.

Quem já trabalhou com parto em qualquer função – de doulas a obstetras, passando por anestesistas, enfermeiras, técnicas de enfermagem e neonatologistas – sabe como é tenso o momento que antecede o nascimento de uma criança. Ver uma familiar grosseiramente ameaçando a equipe de atenção é inadmissível. Ninguém consegue frieza e concentração para tomar decisões com este tipo de coação. Se há vilões nessa história podemos começar com a senhora que ameaça chamar a imprensa e tenta dar ordens para levar a paciente ao centro cirúrgico.

O que acontece depois é imperdoável, mas é possível ao menos tentar entender. O médico, diante da ameaça explícita da mulher na sala de parto, perde a cabeça e tem um gesto brusco e violento contra a paciente. Inadmissível e absurdo, mas é importante deixar claro que foi realizado após ter sido ameaçado, mesmo que isso jamais possa ser usado como desculpa.

Não tenho porque defender as atitudes desse profissional, o qual desconheço, até porque já me causa repulsa ver uma paciente parindo em posição de litotomia (deitada na cama) em pleno século XXI, um antifisiologismo anacrônico que, por si só, podia ser a causa principal pelo atraso do parto e o cansaço da mãe. Por outro lado, é impossível para qualquer parteiro trabalhar decentemente sob ameaças, ouvindo uma pessoa sem qualificação fazer “indicação de cirurgia” aos médicos presentes. Este foi o primeiro fato de gravidade que acabou produzindo todos os outros erros subsequentes.

Para humanizar o nascimento é fundamental também humanizar as famílias e garantir o respeito pelos profissionais, sem o qual cenas como esta se repetirão, infelizmente.

Não são só os médicos que precisam se humanizar. A sociedade que os forma e os sustenta também precisa beber na fonte da humanização. Médicos e sociedade não são instâncias separadas; são vasos comunicantes. A sociedade sempre tem os médicos que quer, assim como a polícia e os políticos que deseja. Quando me perguntam o porquê de tantas cesarianas abusivas podemos falar da formação tecnocrática dos profissionais, mas é bom dar uma ouvida atenta no discurso da “sogra” ameaçando os profissionais para entender como uma cesariana é, muitas vezes, o alívio ilusório de uma pressão indecente sobre os profissionais.

De nada adianta humanizar médicos e enfermeiras se estes estiverem inseridos em uma sociedade que cultua o mito escatológico da tecnologia redentora que se coloca acima da natureza.

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