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O Velho Soldado

Ele já havia passado dos cinquenta anos, e isso era denunciado pela cor dos cabelos e pela falta deles bem no centro da cabeça. Era um oficial da reserva e estava acompanhando a esposa, que carregava o indefectível sacolinha de exames. Haviam me procurado cheios de indignação. Falavam em processar o médico que os havia atendido no parto anterior, cujo bebê tinha pouco mais de um ano e meio. Primeiramente tentei acalmá-los, mas ele era o mais bravo e inconformado.

– Não tem desculpa isso, doutor, e o senhor bem sabe. Como pode uma mulher engravidar depois de ter ligado as trompas? Eu já tinha 4 filhos, nem queria mais nenhum. Já marquei a cesariana com seu colega para a minha mulher poder “desligar” as trompas. Cinco é um bom número, não acha? Eu estava conformado, mas agora olha esses exames!!! Será possível que dar um nó num tubinho é assim tão difícil?

Mostrou o Planoteste recém feito que se mostrava positivo.

Sua esposa, que tinha se mantido calada até então, resolveu falar.

– Sim, doutor, vou ter meu 6º filho agora, depois de ter realizado uma cesariana para ligamento das trompas. Foi seu colega, o Dr. Eustáquio* quem a fez. Isso não pode ficar assim.

Ela estava no meio da gestação, por volta de 20 semanas. Tinha 4 partos normais e uma cesariana, exatamente aquela realizada com o único objetivo de realizar a ligadura das trompas.

Expliquei demoradamente que, por melhor que uma cirurgia tivesse sido realizada não há como descartar uma recanalização. Disse também que confiava na capacidade do Dr. Eustáquio e que culpá-lo por este incidente era injusto e não levaria a nada.

Apesar das minhas explicações eles se mantiveram indignados, acreditando que esta gestação era fruto de uma falha do profissional. Terminamos aquela consulta inicial e marcamos a seguinte. Todavia, à medida que o pré-natal prosseguia, eu consegui convencê-los de que pensar no passado de nada ajudaria a enfrentar o novo desafio. Mais importante era planejar esta nova vida que chegaria. Falei para eles os conselhos usuais para a gestação e deixei claro que qualquer projeto de nova ligadura só poderia ocorrer no pós parto.

Assim se fez. Depois mais alguns meses ela entrou em trabalho de parto e pariu lindamente seu filho na mesa de cócoras que eu havia introduzido Centro Obstétrico do nosso acanhado hospital. Desta vez, ao contrário de todas as outras gestações, o marido esteve presente durante todo o processo. Assistiu extasiado o nascimento de seu sexto e último filho.

Na consulta imediatamente após o parto, a face do esposo estava transformada. Ao invés de me cumprimentar de forma protocolar me deu um longo abraço. Falou da alegria de ter testemunhado algo tão impressionante como o nascimento de uma criança e que, agora de cabeça fria, agradecia à natureza marota que lhes pregou uma peça e permitiu a chegada do novo bebê.

– Sabe o que mais me impressionou? Eu cortei o cordão, doutor. Depois do nascimento contei para todos os meus velhos companheiros de quartel que eu mesmo havia cortado o cordão umbilical. Eu senti com a tesoura que o senhor me deu a textura daquele fio que leva sangue para o bebê!! Descrevi esta cena para minha turma como uma criança conta o brinquedo novo para seus amigos da escola. Foi algo inesquecível!!

Sorri da sua euforia diante da magia do nascimento. Disse a eles apenas que o nascimento de uma criança também serve para desarrumar nossas certezas e para mostrar nossas potencialidades humanas. Nascer é bem mais que chegar neste mundo; é fazer o mundo se transformar pela nossa chegada.

Quando levantei de novo o olhar, o velho soldado chorava.

* Nome fictício

(Lembrei dessa história depois de nossa breve conversa tão cheia de lembranças bonitas, Luciane Chiapinotto)

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Passe livre

Cesariana = passe livre.

Médicos podem até matar seus pacientes se o fizerem dentro do modelo médico intervencionista, pois a medicina se assenta exatamente sobre o “controle e manipulação da tecnologia”. Quem respeita essa normativa está seguro. Cesarianas oferecem total segurança; partos normais serão sempre arriscados para quem os atende.

Tipo, você pode até matar um paciente durante uma cirurgia de ponte safena, mas se ele morrer porque você o estimulou a comer melhor e mudar seu estilo de vida será tratado como um “negligente”. E de nada adianta mostrar evidencias; medicina não se move por elas, mas por interesses corporativos. Aliás, como toda corporação.

Qualquer médico cujo paciente for a óbito obedecendo a estes cânones sagrados estará protegido pelos seus pares. Toda a corporação promoverá um círculo de proteção a este profissional, porque assim estará protegendo a SI MESMA.

Todavia, qualquer profissional que desafie a ideia de supremacia médica sobre a saúde questionando seus pilares de sustentação, será execrado, perseguido e, por fim, eliminado.

Desta forma, questionar a atenção cirúrgica, hospitalar e médica ao parto cabe exatamente na definição de “heresia”, por desafiar a crença da superioridade do conhecimento médico sobre o nascimento. Vi isso muito de perto; o pior crime sequer é o local extra-hospitalar do nascimento, mas reconhecer o conhecimento autoritativo das parteiras profissionais como válido.

Todo aquele que assim proceder será tratado como traidor.

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Objeção de consciência

Caríssima Melania Amorim, eu não sei até que ponto o argumento da “objeção de consciência” pode ser usado, mas acho que esta discussão pode ser levada adiante. Talvez seja o momento de se debruçar sobre o tema.

Eu entendo que a situação atual das cesarianas a pedido também é responsabilidade do movimento de humanização e do nosso discurso (justo) de garantir autonomia para que as mulheres façam suas escolhas. Nosso esforço foi mostrar que o parto precisa levar em conta direitos reprodutivo e sexuais, e que o olhar sobre as gestantes não pode mais ser objetual, onde elas não passam de meros “contêineres fetais”, desprovidas de protagonismo e autonomia.

Entretanto, todos sabemos que as opções pela “cesariana milagrosa e indolor” não são verdadeiras pois tais escolhas são condicionadas fortemente pelo ambiente cultural onde estão inseridas. Numa sociedade sob a vigência do “imperativo tecnológico” e onde as opções pelo natural (comida, ambiente, sexualidade, nascimento, morte) são vistas como “reminiscências de um passado de primitivismo e privação“, é compreensível que mulheres façam escolhas baseadas na (des)informação que recebem de seu entorno. Mais ainda; como já dizia Simone Diniz, muitas mulheres optam pela cesariana para fugir do desamparo e da humilhação a que são submetidas no sistema de saúde. “Partos violentos para vender cesariana“.

Por isso estas escolhas NÃO SÃO livres, mas constrangidas pelas vozes de autoridade de profissionais tecnocráticos que baseiam suas decisões muito mais em função do seu próprio conforto e sua auto proteção do que no bem estar de mães e bebês e com base em evidências científicas.

Oferecer a escolha entre cesarianas e partos violentos conduzidos por profissionais despreparados e impacientes é a demonstração mais cabal da perversidade do nosso sistema. A mesma mão que autoriza a escolha pela cesariana (em nome da liberdade) é aquela que proíbe partos fora do controle patriarcal da medicina, ataca parteiras e doulas e persegue obstetras humanistas (em nome de uma pretensa “segurança”).

Talvez seja necessário agora reforçar um velho adágio que eu usava há muitos anos: “O empoderamento das gestantes não significa o desprezo à autonomia do profissional.” Sem um parteiro livre para tomar decisões embasadas trocaremos uma opressão por outra, com resultados igualmente ruins. Objeção de consciência pode ser um caminho e uma alternativa a este dilema.

Não há nenhuma liberdade quando somos obrigados a escolher entre duas imposições violentas e ruins. A pior face da opressão é quando ela vem travestida de autonomia.

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Cesarianas e classe social

Durante os anos 90 eu atendi um parto, num hospital de periferia, que eu nunca esqueci pelos seus significados sobre o dilema das cesarianas. Os pacientes deste hospital eram egressos de uma vila popular muito pobre do cinturão que cerca Porto Alegre. No entanto, este parto em especial, era de uma família levemente mais abonada. Não traziam nas roupas ou nas palavras os estigmas da pobreza que eu estava acostumado a ver em quase todas as outras famílias que procuravam o centro obstétrico. O pai do bebê a nascer estava presente e a gestante tinha um pouco mais de idade do que a adolescência habitual.

Depois de admitida em trabalho de parto inicial o esposo me chamou para falar. Perguntou, de forma respeitosa e com palavras bem escolhidas, como estava sua esposa e o que deveria esperar para as próximas horas. Eu lhe respondi que estava tudo bem e que o parto só deveria ocorrer em várias horas. Ele aquiesceu com a cabeça e me cumprimentou, avisando que iria embora e voltaria mais tarde. Voltei para minha sala, mas antes que eu pudesse fechar a porta ele bateu no meu ombro e disse:

– Desculpe, doutor. Esqueci de dizer que, se precisar fazer uma cesariana, dinheiro não será o problema. Somos pobres, mas temos condições de arranjar o que o senhor cobrar.

Expliquei a ele que aquele era um hospital público, e que nenhum tipo de pagamento era necessário, muito menos permitido, mas que ele tivesse confiança que tudo faríamos de melhor para sua esposa e seu bebê. Porém, aquele homem assustado havia me mostrado que o parto normal de sua esposa significava não uma opção pela segurança e pelas boas práticas – o que verdadeiramente é – mas a submissão a um modelo imposto pela sua condição de pobre. As cesarianas ocupavam em seu imaginário “aquilo que se pode escolher quando se é de outra classe“.

A raiz da epidemia de cesarianas no Brasil está na divisão de classes. As pessoas não fazem escolhas racionais nesse campo. Muitos casais compram um convênio médico logo após casarem apenas para serem atendidos de forma “diferenciada” no parto. Cesarianas servem como símbolos de status que a classe média utiliza para se afastar do que significa ser pobre, “a quem não cabe escolha“. Para mudar esta tragédia no Brasil é fundamental mudar a imagem que todos temos da cesariana e do parto normal, desvinculando a escolha cirúrgica de uma opção pela segurança e como emblema de ascensão social.

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Golfinhos

Lembrei por ocasião do debate sobre a exaltação da “cesariana salvadora” e os “malefícios do parto normal” da velha história dos “bons golfinhos”. Uma historia sobre viés de percepção….

Há um mito que conta que os golfinhos são bons e que tem o costume de empurrar os náufragos para a praia. Vários relatos existem de pessoas salvas por golfinhos depois de barcos virados. A fama desses mamíferos sempre foi positiva entre nós e estas histórias sempre reforçam essa percepção. O problema surgiu quando, mais recentemente, se observou a ação dos golfinhos a partir de um helicóptero durante um naufrágio.

O que se viu foi surpreendente. Os golfinhos, em verdade, brincam com as pessoas e as empurram para QUALQUER lado – inclusive para longe da costa – mas só aqueles que – por sorte – são empurrados para praia sobrevivem para contar a historia. Daí ocorre a boa fama de salvadores que, como pode se ver, não é merecida. As mortes causadas pelo brincalhões aquáticos nunca foram computadas a eles, pelo menos até sabermos a verdade.

O mesmo ocorre em muitas situações do parto. Nos “sequelados do parto normal” a culpa só pode ser do parto, da natureza cruel, da “vagina dentada destruidora de crânios” e dos profissionais relapsos que “nada fizeram” mesmo tendo a “tecnologia salvadora” à mão. Nos sequelados da cesariana houve, por certo, uma fatalidade. Afinal “fizemos tudo o que podia ser feito“. Como se poderia culpar o uso da tecnologia se ela é o sustentáculo da emergência e hegemonia do saber obstétrico sobre a parteria?

Sem entender essas armadilhas psicológicas jamais fugiremos da fatalidade do “imperativo tecnológico” que nos obriga à intervenção pela crença cega na IDEOLOGIA tecnocrática.

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