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Talentos

A atenção ao parto, com sua vinculação aos aspectos artísticos do acompanhamento , é um dom que algumas pessoas possuem? Para ser uma boa parteira ou doula é necessário ser tocado pela por uma especial magia que é de difícil acesso – ou interditada – à maioria dos mortais?

Eu pergunto: cantar é um dom? E escrever, pintar ou dançar? Eu concordo que essa é uma questão controversa, mas olhar uma qualidade especial como um dom inato ou um presente divino pode ter um efeito paralisante. “Ahhh, não vou cantar; não nasci com esse talento”. “Ahhh, não consigo enxergar no parto além disso limites do corpo real; nasci cego para sua transcendência”. Nahh, não vejo assim. Creio que essas habilidades podem ser mais do que aprendidas ou treinadas, mas “despertadas”, já que fazem parte da bagagem de sentimentos e emoções que cada humano traz ao mundo como bagagem. Posso aceitar que a excelência de Mozart, Da Vinci, Michelangelo pode demandar uma explicação mais espiritual, transcendente, para além dessa experiência terrena, mas não a nossa – de meros mortais. Esta é uma questão que nos desafia há séculos. Afinal, seria a qualidade incomum de alguns artistas e homens de ciência algo relacionado ao seu aprendizado na infância ou seriam eles valores adquiridos no período embrionário, pela conjugação inusitada de elementos que estruturam o cérebro humano? Indo mais além, seria tais características fruto de experiências de “outras vidas”? Ou seriam as qualidades superiores de alguns gênios o resultado visível de um trauma de infância, determinando que o mergulho em um determinado campo do conhecimento surgisse como um lenitivo para as suas dores? Esta perpectiva mobilizou muitos pesquisadores do passado, exatamente pela prevalência do trauma da perda paterna precoce entre grandes nomes da filsofia.

Friedrich Nietzsche (1844–1900) perdeu seu pai, Karl Ludwig Nietzsche, um pastor luterano, quando tinha 5 anos de idade e foi criado em um ambiente predominantemente feminino (mãe, irmã, avó e tias). Albert Camus (1913–1960), embora tenha sido conhecido como romancista e ensaísta é fundamental para a filosofia do absurdo. Seu pai, Lucien Camus, morreu na Primeira Guerra Mundial em 1914, quando Albert tinha menos de um ano de idade. Ele foi criado em um ambiente de pobreza por sua mãe, que era surda e analfabeta. O grande filósofo grego Platão (c. 427–347 a.C.) perdeu seu pai Aríston quando ainda era jovem. Sua mãe, Perictione, casou-se novamente com Pirilampo, um político próximo a Péricles, que influenciou sua educação política e intelectual. O “filósofo da vontade”, Arthur Schopenhauer (1788–1860), também conhecido pelo seu pessimismo filosófico, também teve uma grande perda: o suicídio de seu pai quando tinha 17 anos, fato que influenciou profundamente sua filosofia pessimista, focada na dor e no absurdo da existência.

A ausência traumática da figura paterna para estes grandes expoentes do pensamento ocidental é vista como um fator que os estimulou – através da dor – para uma reflexão mais profunda sobre a angústia, as perdas, a autonomia individual e a busca pelo sentido em um mundo “sem pai” ou, pelo menos, sem certezas absolutas. Seriam essas dores as grandes responsáveis pela sua genialidade? Ou seria a reação a elas o motor necessário para produzir tamanha distinção?

Assim, apesar da sedutora ideia de que as habilidades superlativas pudessem resultar de arranjos genéticos – o que facilmente pode produzir perspectivas eugenistas – prefiro acreditar que a moldagem dessas características ocorre pelo contexto de dificuldades ou facilidades encontradas, em especial nos primeiros anos de vida. São as experiências – tanto positivas quanto negativas – as geradoras de propensões, tanto para a genialidade quanto para o vício e a criminalidade. No caso da assistência ao parto, prefiro acreditar que se trata de um talento – adquirido pelo treinamento – o qual pode ser melhorado através da educação continuada. Parteiras aprendem as técnicas do cuidado e do carinho como qualquer outro artista.

Nossa vinculação às habilidades pessoais pode ser feita aqui e agora, e podemos aprendê-la (ou despertá-la) aqui mesmo, com as ferramentas que obtemos a partir das surpresas que o mundo oferece.

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Arquivado em Causa Operária, Parto

Escrever

Eu as vezes leio artigos escritos por jornalistas, escritores, acadêmicos e simples escrevinhadores como eu e me surpreendo com a qualidade da escrita, seja pelo estilo, pela organização das ideias, pela capacidade de síntese, pela clareza, pela profundidade, pela relevância e pela erudição. Sou possuído pela sensação bastante comum de “puxa, gostaria de escrever assim!“.

Eu não aprendi a escrever direito, mas depois de passar 25 anos escrevendo num ritmo diário eu cheguei à conclusão que a única forma consistente de aprender esse ofício e essa arte é… escrever sempre, verter a vida em letras, condensar as ideias em tinta, massacrar o papel com os sulcos do pensamentos.

Como em muitas outras áreas, o exercício da escrita se faz na experiência diária da transmutação das ideias embaralhadas, na revivescência de lembranças enoveladas e nas propostas misturadas para a linearidade do texto, permitindo ao leitor que capte o fio do seu pensar e o utilize como assim o desejar.

Se pudesse dar a mim mesmo um conselho diria para ter escrito minhas histórias desde a adolescência, porque isso teria sido muito mais útil do que se pode imaginar.

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Índigos e Cristais

A ideia de uma leva de crianças especiais, chamadas de “indigo” e depois de “cristal” veio no pacote místico da Nova Era, que nos trouxe Enya, comida vegana, incenso e até parto humanizado. Se é verdade – ou não – eu acho difícil de provar. Não há elementos fáticos a nos oferecer qualquer indício, quanto menos garantias, de que estas crianças que agora nos chegam tenham qualquer vantagem emocional, espiritual, afetiva ou intelectual sobre as gerações que as antecederam.

Eu, em verdade, sou até mais propenso a acreditar que a vida pós-moderna cosmopolita nos ofereceu crianças e adolescentes mais toscos e ignorantes do que outrora. Jared Diamond falava disso em “Armas, Germes e Aço” e creio ser uma ideia bastante sedutora. Aconteceu com o cães – cuja proximidade com os humanos os deixou mais burros – por que não ocorreria conosco?

Nesse sentido apenas lembro que minha geração inteira escutou Genesis, Chico, Caetano, Bob Dylan enquanto hoje os jovens escutam sertanejo machista. A arte popular se tornou refém do mau gosto capitalista. Mas, para além disso, a alimentação, os brinquedos, o medo parental (pais mais velhos) e o meio ambiente não são propícios ao desenvolvimento de criatividade, liderança e desafio. Criamos uma geração de tolos, mimados, frágeis, medrosos e super protegidos. Uma geração “show flake”, tediosa e superficial. Certo, mas esta é apenas a minha sensação, sem evidências claras. Não posso provar isso, mas é uma sensação legítima e compartilhada por muitos

Entretanto, existe uma outra questão sobre a exaltação de “castas” infantis: as expectativas criadas sobre suas pretensas virtudes e a sensação de exclusão por parte das crianças sobre as quais não recai esse rótulo.

Essa é uma preocupação que TODO pai e mãe de celebridade tem: ao reconhecer o filho de “deu certo” corre o risco de desmerecer os outros filhos menos aquinhoados pelo talento. O peso negativo para estes pode ser maior do que os benefícios para quem foi bafejado pela “sorte”.

Preferi tratar meus filhos sempre como crianças absolutamente normais, iguais a todas as outras, sem vantagens especiais. Na verdade, um espelho do que julgo de mim mesmo. Com os meus netos não me afasto um centímetro dessa ideia. Gente normal; inteligentes, criativos, corajosos e curiosos como todas as crianças. Não acho justo estragá-los considerando que pertençam a uma categoria especial. Que Deus os livre disso.

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