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Golfinhos e mosquitos

Um dos objetivos mais claros do sionismo sempre foi a desumanização da população nativa da Palestina. Uma das formas de realizar esta tarefa é jamais chamando os palestinos pela sua identidade nacional. No lugar disso, usam um nome genérico para eles como “árabes”, de forma a cortar qualquer ligação visceral e ancestral daquele povo com sua terra.

A desumanização objetiva a impossibilidade de estabelecermos com estes povos um ponto de identificação e empatia. Para esse tipo de conexão é necessário enxergar no outro elementos que existem igualmente dentro de nós, criando uma ponte de afinidades. Assim, é possível sofrer pela morte de golfinhos, baleias, cães e gatos, mas quase nenhuma lágrima derramamos pela morte de atuns, tubarões, mosquitos e serpentes. O primeiro grupo parece ter os mesmos sentimentos que nos animam, mesmo que de forma embrionária e pouco desenvolvida; o segundo grupo parece completamente destituído de alma, e por isso é que matá-los não nos causa grande desconforto.

Para levar a cabo o Nakba e sua continuação, chegando até o genocídio de Gaza na atualidade, esta foi a grande tarefa dos ideólogos do sionismo. Era uma tarefa primordial não reconhecer neles as emoções que fazem parte da nossa arquitetura emocional. O amor pelos filhos palestinos, pelos irmãos e amigos, não é o mesmo que vemos nas crianças loiras europeias. A dor deles não é a mesma que nos tortura os sentidos. parecemos ser diferentes em essência.

Nesta semana, cinco pessoas morreram em um ataque a tiros no Centro Islâmico de San Diego, na Califórnia, entre eles os dois atiradores e um segurança, Amin Abdullah. O centro islâmico, localizado no bairro de Clairmont, em San Diego, é a maior mesquita do Condado de San Diego, e visitado por milhares de seguidores da fé islâmica. Os atiradores foram encontrados mortos dentro de um carro, provavelmente após tirarem suas próprias vidas.

Um exercício interessante seria imaginar se esse crime tivesse ocorrido dentro de uma sinagoga americana, lotada de jovens judeus exercendo sua fé, levado a cabo por um sujeito de origem árabe. Por certo que a opinião pública estaria sendo inflamada pela imprensa sionista, dizendo tratar-se de um crime de terrorismo, um ataque antissemita, oferecendo combustível para a crescente islamofobia do país. Alguns, mais afoitos, estariam conclamando multidões para uma represália indiscriminada ao Islã, não obedecendo a nenhum critério ou linha de demarcação geográfica. O ataque contra uma comunidade judia seria visto como uma grave ameaça aos judeus e ao judaísmo, um crime de ódio religioso.

Entretanto, as vítimas do ataque eram muçulmanos americanos. Não eram “como nós”, e por isso a questão será tratada como a ação isolada de dois garotos incel, um problema geracional, um assunto privado que diz respeito aos problemas psicológicos de adolescentes mimados numa cultura armamentista. A ninguém da imprensa americana ocorrerá chamar esta ação de “terrorista’. O lobby sionista americano, que controla a mídia corporativa, já está tratando de limpar a cena do crime, para que não se fale da motivação óbvia desse massacre. Entretanto, sabemos que não se trata de uma questão local, mas um novo capítulo de uma série chamada “Terrorismo sionista contra o Islã”. Quando a polícia investigou o automóvel onde os dois adolescentes morreram, encontrou escritos anti-islâmicos desenhados nas próprias armas, cartas estimulando ódio racial e imagens e textos que sugeriam quen seriam combatentes diante de uma “guerra santa” contra o Islã. Nada disso ocorreu de forma espontânea, pela livre vontade dos atiradores; trata-se do resultado direto do envenenamento a que foram submetidos por uma longa lavagem cerebral.

É importante atentar para mais uma tentativa de silenciar as vozes que acusam essas mortes como parte do terror sionista, que tem no sionismo internacional sua origem, projeto e execução, usando mentes frágeis de adolescentes como massa de manobra para estes crimes.

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Religião e paz

Religião não tem nada a ver com guerras ou pacifismo. Aliás, a imagem acima, com cavaleiros Cruzados em batalha, pode dar a falsa ideia de que esta foi uma guerra “religiosa”, de cristãos contra o islã, algo tão errado quanto a luta de “católicos contra protestantes”, na Irlanda, algo que era ensinado quando eu estava na Escola – uma forma imperialista de descrever o conflito. As religiões não produzem guerras – nem paz. Ninguém mata pelo Deus do outro ou pela forma de fazer pão. O que nos leva à guerra são interesses materiais bem mais palpáveis.

Como diria Marx, “a história do mundo é a história das lutas de classe”. Pegue qualquer guerra, em qualquer período da humanidade e verá que em todas elas vamos encontrar interesses econômicos e geopolíticos determinantes, e não disputas ideológicas ou de caráter religioso. As religiões, entretanto, são usadas como “cola”, uma forma de seduzir o povo para o esforço de guerra, clamando por uma identidade ou pela defesa de valores culturais que estariam sendo “ameaçados”, questões estas que são absolutamente desprezíveis para aqueles no poder e que estão interessados economicamente no conflito.

Portanto, se você acha que as religiões produzem guerras, então foi reprovado em suas disciplinas de história

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