Arquivo da tag: Mamãe Falei

Porteira aberta

Nossa esquerda identitária, que aplaudiu a cassação abusiva do idiota do “Mamãe Falei”, agora precisa fazer malabarismos retóricos e acrobacias legais para defender o vereador Renato, de Curitiba, que corre o risco de também ser cassado da Câmara de Vereadores de Curitiba. Para estas que fizeram vídeos comemorando a queda o Arthur do Val eu digo: era muito mais simples e justo defender todos os mandatos como princípio, e jamais permitir que o recurso extremo da cassação pudesse ser usado como vingança ou retaliação – mesmo que defender o bostinha do Arthur machuque o coração.

Postura e discursos machistas e asquerosos em privado, ou invasão pacífica de uma igreja – ambas ações tolas e impensadas – seriam atos para guardar na memória e repensar o voto nas eleições, talvez até para uma bela punição promovida pelo parlamento. Entretanto, não justifica a punição abusiva de expurgar um representante do povo. Esta ação deveria ser reservada às coisas extremamente graves…

Spoiler: para cada prazerzinho fugaz de ver o Mamãe Falei se ferrando teremos que suportar dezenas de ataques que virão contra parlamentares e outros representantes da esquerda. O mesmo ocorre quando batemos palmas para ações ilegais da polícia; como sempre, quando um bacana sofre esse tipo de ação (e soltamos gritinhos de excitação) ao mesmo tempo há dezenas de policiais chutando porta de barraco, sem qualquer mandato, arrombado a lei em nome dos interesses burgueses, batendo e matando gente preta e pobre.

Na minha opinião o parlamento não é um lugar para ser educado e comedido; pelo contrário. É um lugar de arriscar os limites da sua força com seu discurso. E para mim punir um parlamentar significa calar milhares – no caso da Dilma milhões – de cidadãos, e isso só poderia ocorrer em faltas gravíssimas. Nenhuma das que eu escrevi aqui merecia isso.

Para mim a democracia é (muito) mais importante do que chiliques morais ou sentimentos ofendidos. O estrago dessas cassações é deixar parlamentares acuados e amedrontados, temendo ferir sentimentos de minorias. Acho isso deplorável. O que pegou mesmo foi o Arthur do Val dizer “são fáceis porque são pobres”. O resto é interpretação subjetiva, e isso vai ser inexoravelmente usado contra a esquerda, porque no caso do Renato também pode ser feita uma interpretação viciosa e inclusive JÁ FOI, por isso perdeu na comissão de ética. O malabarismo é para provar que uma ligação telefônica privada, com conversa de garoto de 5a série (ou “locker room chat”) é algo gravíssimo, mas invadir uma igreja, desrespeitando a religião alheia não é. Quem deixa essa porta aberta agora vai ter dificuldade de fechar.

Sempre tem como achar um buraco, quando se quer encontrar. Minha queixa não é no mérito, mas na desproporcionalidade flagrante que agride o princípio democrático. O problema é a porteira aberta. A mesma falta de proporção no caso Daniel, e agora que os políticos (e o STF) perceberam que podem punir e cassar por vingança isso vai se tornar lugar comum nos parlamentos. Para mim, um abuso criminoso e oportunista.

Manter a escrita dura da lei é sempre bom para a esquerda e os oprimidos. Burlar a ordem, mesmo que para atacar notórios sacanas, sempre trará resultados negativos para as populações oprimidas.

PS: em São Paulo passar a mão na parlamentar durante uma sessão da Câmara de deputados vale 6 meses de suspensão. Já falar de forma privada ao telefone com a sua galera, dizendo bobagens sobre as mulheres… ah, isso é crime hediondo, precisa ser extirpado. Ou seja, quando a palavra se torna mais grave do que os atos é porque se pode fazer qualquer coisa na intenção de punir, e sobre quem quisermos. E nesse contexto, quem pagará a conta mais salgada seremos nós da esquerda, como sempre

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Sonhos desmoronados

Há alguns anos acompanhei o sucesso meteórico dos garotos do MBL e me convenci que esse resultado era devido a algo eles tinham e que faltava à esquerda. Sim, sobrava eles uma atitude propositiva, nova e divertida, que prometia a quem se juntava a eles a possibilidade de entrar no mundo dos vencedores. Na esquerda eu via culpa, ressentimento, o estímulo aos cancelamentos, ódio aos opressores, censura e o moralismo identitário. Culpa cristã por todo o lado e um gozo vitimista. Era óbvio que esse jogo nós íamos perder.

Esses garotos neoliberais do MBL foram eleitos. Tiveram milhares de votos. Alguns ficaram ricos. A fábrica de fake news que eles possuíam era também uma engrenagem de engajamento midiático, o que levava ao culto de personalidades e dinheiro, bastante dinheiro.

Agora, o castelo de areia que eles construíram nos últimos 9 anos começa a desmoronar. Renan foi “dedurado” sobre o “tour de blonde” no leste europeu. Rolidei está isolado em São Paulo. Kim está envolvido no “caso Monark”. Alan dos Santos está foragido e Arthur “Mamãe Falei” esta soterrado pelo escândalo de suas gravações sobre as mulheres da Ucrânia, algo difícil de perdoar pela grosseria e insensibilidade. Não acredito que possa se recuperar. Todos eles agora estão envolvidos em pequenos e grandes escândalos.

O episódio lembrou um sistema de pirâmide. Durante algum tempo as pessoas se entusiasmam com as promessas e passam adiante o esquema. Num determinado momento as pessoas da ponta se dão conta do engodo em que foram envolvidas e pedem o resgate do seu dinheiro. Como o dinheiro já desapareceu, de uma hora para outra tudo desaba. O MBL era apenas essa proposta arrogante e vazia de conquistar as mentes com a ferramenta das mentiras e do neoliberalismo sem freios, mas não havia um real substrato que sustentasse tais propostas. Agora, tudo desabou.

Eu não gosto de linchamento midiáticos; eles me fazem muito mal. Quando Eduardo Cunha foi cassado eu estava num aeroporto na Escócia com meu filho e – apesar de se tratar de um crápula – eu me senti mal com sua desgraça. Agora, procuro não me associar ao gozo da vingança contra esses garotos, mas não posso deixar de pensar que esse final era mais do que previsível.

Por outro lado, penso que fizemos algo de muito errado enquanto sociedade quando permitimos que um sujeito como Arthur tenha sido escolhido como representante por milhares de pessoas em seu estado. Nossa sociedade está doente e a emergência desses meninos do MBL no cenário nacional é um sintoma evidente dessa enfermidade. A falta de empatia diante de uma situação de guerra – onde impera o instinto de sobrevivência e a miséria humana transparece nos conflitos – é chocante e desumana.

Como é possível estar no meio de uma guerra e olhar para as pessoas de forma tão objetual?

Deixe um comentário

Arquivado em Política

O Menino

Sim, eu tenho pena da desgraça destes personagens para quem um fosso enorme se abre sob os pés, de onde se podem ver as labaredas do Hades. Não me sinto bem associado à enorme energia destrutiva que se forma como resposta à condenação de seus atos. Talvez seja uma reminiscência de outras tantas fogueiras que presenciei, onde sempre imperam os sentimentos mais primitivos.

Esclareço apenas que sofrer por condescendência e empatia não significa aceitar ou concordar, muito menos absolver. Todavia, quando vejo o peso de tanto ressentimento acumulado recaindo sobre estas cabeças eu me associo à tragédia destes que caem. Digo também que olhar desta forma não é uma escolha racional, é um impulso. Também não significa que não devam pagar por seus delitos.

Existe uma circunstância que me é inevitável nestas passagens: eu sempre penso que poderia ser um filho meu. Tenho filhos da idade destes pobres personagens que agora se encaminham ao calvário. Mas já vi mães chorando no pronto-socorro a morte de seu filho bandido. Elas diziam “Ele sempre foi um bom menino. Foram as companhias e a maldita da droga”. Como não entender que, para uma mãe, este filho – por mais degenerado que seja – será sempre seu guri, que

“Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar”

Eu prefiro não cultuar o ódio por essas figuras, todas elas. Quando vejo se disseminar o gozo da vingança sinto um gosto de fel, que sempre me assusta e angustia.

Eu já fui alvo de ataques desse tipo, em especial na internet, por ter opiniões que ofendiam algumas pessoas. Vi gente fazendo discursos enormes carregados de ódio e que sequer me conheciam. Percebi que nestes momentos eu era colocado em um lugar e ocupava um posto. Não exatamente o que eu era, mas o que queriam que eu fosse. Nessa topografia eu podia ser atacado sem dó ou piedade. Eu era a “coisa” a ser destruída, e para isso não havia problema algum em me arrancar a humanidade.

A última vez que expressei meu sentimento com esses linchamentos fui vítima – que surpresa – de um pequeno linchamento por parte de uma antiga companheira. Defender que estas pessoas em desgraça sejam tratadas com alguma humanidade soa ofensivo para quem já sentiu algumas das dores que eles disseminam. Mas, para mim, passada a raiva inicial – quando me esforço por nada dizer – me assombra a imagem de um menino, sua face surpresa diante do mundo, suas dúvidas, seus projetos, suas paixões e seus sonhos. Ao lado dele um homem de túnica branca e barba sobre a pele escura, o dramaturgo cartaginês Publius Terentius Afer, o africano. Ele me olha e balbucia palavras que acompanho de memória. “Homo sum: humani nihil a me alienum puto”.

“Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Aquele menino poderia ser eu, se o meu caminho tivesse o mesmo rumo que o dele.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos