Na Turquia o governo está preocupado com a taxa abusiva de cesarianas, um drama que temos igualmente no Brasil. Até ops números de lá são semelhantes aos nossos. Entretanto, a atitude de punir médicos com excesso de cirurgias é uma solução fácil e, provavelmente errada. O punitivismo nunca será um caminho suficiente e, na maioria das vezes, sequer adequado para mudar padrões culturais. Essa postura parte da ideia de que a “culpa” pela taxa indecente de cesarianas reside apenas nos médicos, mas isso não é verdade. Em verdade, os médicos (policiais, juízes, professores) são um reflexo da sociedade onde estão inseridos. Podemos até colocar os médicos e a sua formação técnica como os principais responsáveis por este absurdo, mas se hoje, por um ato de mágica, todos os médicos indicassem cesarianas apenas com indicação médica, haveria muitos médicos presos e um princípio de convulsão social entre as usuárias.
A cultura exalta as cesarianas. Elas são limpas, seguras, indolores e modernas. As mulheres bebem nessa fonte e desejam o que a tecnologia pode lhes oferecer. Submeter-se às cesarianas parece a elas o ticket para ingressar no mundo moderno, enquanto o parto normal aparenta ser um evento resquicial de um passado de carências, dores e abandono. O mesmo fenômeno ocorreu com a amamentação, onde a mamadeira era vista como libertação e um bebê colado ao seio representava o passado, ou a algema que prendia as mulheres ao seu destino de reprodutoras.
Punir médicos pode trazer algum resultado parcial, assim como prender traficantes pode oferecer algum benefício ilusório no combate às drogas, mas estes serão sempre pífios e fugazes. No médio prazo as prisões ficam lotadas e o problema mantem-se intacto.Da mesma forma, as pessoas na sociedade capitalista demandam estupefacientes para suportar a angústia de viver numa sociedade distópica. Ao mesmo tempo, as mulheres também desejam cesarianas para, ilusoriamente, fugir das dores e da angústia da espera. A punição como solução não vai funcionar. Sim, a ação do governo turco demonstra umaa louvável preocupação com a epidemia de cesarianas e os resultados funestos que elas acarretam para a sociedade, mas isso é insuficiente. Além disso, como toda ação baseada no proibicionismo, seus resultados serão fracos ou até paradoxais. Da mesma forma como ocorreu com a lei seca nos anos 20 do século passado, uma “lei seca de cesarianas” teria o mesmo destino: o fracasso.
A solução? Não há solução simples para problemas complexos. Qualquer medida só poderá ocorrer agindo sobre a educação. Esta precisa ocorrer desde muito cedo, valorando o corpo das mulheres e exaltando suas habilidades inatas de gestar, parir e amamentar. Assim, a opção pela cesariana se tornaria a mais tola das escolhas. Também é essencial uma mudança estrutural na assistência ao parto, por meio da seleção dos profissionais mais adequados para a atenção ao parto – as parteiras – deixando os cirurgiões apenas para os quadros de risco. Todavia, para isso é preciso trocar o sistema de poder sobre os corpos, e isso demanda uma verdadeira revolução. Não há alternativa.

