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Sei-os

Os seios são conflituosos porque demonstram que a sexualidade feminina se expressa à despeito e além da ordem monogâmica patriarcal. “Escandaloso” é o prazer que uma mulher tem ao amamentar, prazer esse que só pode ter origem em seu vasto repertório erótico.

Evelyn Forsythe, “”The roots of Pleasure”, Ed. Reuters-Smith, pag. 135

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Gorjeta

Uma das coisas mais curiosas da cultura americana é a tradição da “gorjeta”. Para as pessoas do resto do mundo, em especial do Brasil, ela é muito curiosa e interessante.

Não tenho interesse em fazer julgamentos da cultura americana, pois existem inúmeras “manias” brasileiras que poderiam sofrer este tipo de crítica. Entretanto, poucas coisas revelam melhor as características do povo americano do que isso.

Depois de um jantar, uma corrida de táxi, um serviço qualquer de conserto, uma babá ou um serviço de manobrista sempre surge a pergunta e a angústia entre as pessoas: “Quanto devo dar de gorjeta?”. Nos restaurantes e táxis a regra é 10 a 15% da despesa (na Califórnia restaurantes estabelecem 20%), mas nos outros lugares o valor pode flutuar. De qualquer maneira, não dar gorjeta é algo muito rude, e muito mal visto pelos americanos.

Curiosamente, médicos, advogados, engenheiros e alguns profissionais de nível superior ou que ganham bem pelo seu trabalho achariam absolutamente estranho o fato de receber um “algo a mais” por fazerem seu trabalho. Então pergunto: qual o sentido de dar uma gorjeta, ou “una propina”?

Os americanos, mergulhados em uma cultura que introduz essa prática desde muito cedo, sempre usam a mesma explicação: “Ora, esses trabalhadores ganham muito pouco e muitos deles vivem só das gorjetas”. É curioso como essas pessoas veem com a maior naturalidade o fato do trabalhador ser explorado pelo seu patrão e a transferência da responsabilidade de uma vida minimamente digna ser automaticamente transferida para o cliente de um restaurante ou de uma viagem de Uber.

Outro argumento é que é um “adendo” para um “bom serviço”, como se servir bem alguém em um restaurante, ser cuidadoso ao dirigir ou cuidar bem dos seus filhos não fosse exatamente a essência do trabalho realizado e não um “plus” oferecido pelos profissionais que o realizaram.Nesse aspecto a gorjeta se assemelha ao “bicho” por vitória que existe no futebol, como se o esforço para vencer não fosse a única obrigação que se exige de um jogador.

Minha pergunta é: por que aceitam com tanta naturalidade a transferência de responsabilidade de pagamento dos capitalistas para os clientes? Por que os americanos dizem “Se você se nega a dar uma gorjeta é um sujeito cruel, pois já trabalhei de garçonete e sei como elas recebem mal”.

Caraca!!! Como não conseguem perceber que o mau pagamento NÃO é um problema do cliente, mas do PATRÃO!!!

Creio que a essência psicológica da gorjeta está na sensação de que, se você pagar mais (usar a força do seu capital) poderá ter um tratamento diferenciado, isto é, melhor do que o que é oferecido aos outros. O salário do funcionário, por ser igual para todos naquela função, não permite que você exija um serviço “especial”, “personalizado”, exatamente aquilo que você acha que merece. A gorjeta lhe dá a sensação de ser especial, de ter um tratamento acima do comum.

PS: estou escrevendo aqui porque quando quis mostrar isso para amigos americanos alguns se ofenderam com a minha opinião sobre essa prática – que eles acham a ação mais caridosa e gentil do mundo – e as respostas ásperas que recebi fizeram com que a autora do post o apagasse. Outra curiosidade: questionar ações que julgamos nobres, levantando-lhes o véu, pode parecer ofensivo para quem acha que a caridade (mesmo que aparente) é uma ação inquestionável. Se eu fosse capitalista americano abriria um bar que traria no menu: “Nossos funcionários não aceitam gorjeta porque não são explorados e seu salário é muito bom”.

PS1: uma vez na Disney vi uma bandinha passar dentro de um parque e uma menina de uns 4 anos foi até eles e deu uma nota de 5 dólares. O músico escondeu a nota atrás do corpo, procurou a mãe da menina e devolveu o dinheiro. Interessante, não?

PS2: Gorjeta vem de “gorja“, sinônimo desusado de garganta, de onde proveio também o gorjeio dos pássaros. A gorjeta era uma pequena quantia que se dava a quem tivesse realizado trabalho extenuante e cansativo, a fim de que ele comprasse uma bebida para molhar a garganta.

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Islã

Muitos confundem, de forma proposital, “religião” com “cultura”, e isso é a origem de muitos preconceitos. Cultura é o caldeirão inteiro, onde a religião é uma das mais importantes iguarias. Vejo muita bobagem e preconceito sendo ditos em toda a parte sobre o Islã. A religião muçulmana é absolutamente elástica, assim como também o são o cristianismo ou o judaísmo (para ficar só nas abrahâmicas).

Alguns adoram mostrar uma foto de um grupo radical islâmico e legendar coisas como “assim é o islã”. Ora, se você mostrasse uma foto de testemunhas de Jeová com saia nos calcanhares, cabelo comprido e preso, blusa fechada e uma Bíblia na mão com a legenda “assim são os cristãos”, isso seria uma mentira e uma injustiça. Esse é apenas um aspecto do cristianismo, e não sua face única.

O cristianismo não manda ninguém se vestir desta ou de qualquer outra maneira, muito menos usar penteados exóticos ou comportados, mas num livro extenso como a Bíblia é possível achar o que se quer, bastando haver vontade e interesses.Todavia as pessoas que almejam um determinado comportamento social, seja nos costumes, casamentos, roupas etc USAM A RELIGIÃO COMO DESCULPA e como uma forma de fortificar suas demandas de ordem política ou ideológica.

Esclarecendo: a religião é um produto da cultura e nunca é a FONTE dos determinantes culturais. Ela é SEMPRE o lugar de onde elementos dos grupos sociais COLOCAM seus valores para tentar influenciar o resto da sociedade a um comportamento que lhes convém.

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Moedor de Carne

Robbie falou dessa questão no seu famoso artigo “Medical training as a Rite of Passage“. Eu chamei de “moedor de carne” no “Memórias de um Homem de Vidro”, mas a verdade é que, por razões históricas, a corporação médica se transformou nos tempos atuais em um monstrengo violento, amedrontado e acuado. Quando mais o velho padrão obstétrico centrado no cirurgião e na intervenção encara a sua obsolescência mais agressivo se torna; uma violência reativa que denuncia a morte de um paradigma e o surgimento de um novo modelo, baseado na garantia ao protagonismo da mulher, na visão humanística e interdisciplinar e na Saúde Baseada em Evidências.

Texto abaixo de Ana Cristina Duarte

As pessoas estão com raiva do tal Cassius ou da estudante tosquinha, mas a verdade é que esse pensamento de superioridade do médico começa a ser imposto aos estudantes na faculdade, no primeiro dia de aula. Uma casta superior, com poderes superiores. Sair desse rolo compressor que é a lavagem cerebral da graduação não é para os de cabeça fraca. Tem que ter berço, educação em casa, leitura, bons exemplos, cultura, noção de cidadania, coisas que o brasileiro médio não acessa na sua infância/juventude. Não é à toa que os médicos que se dedicam à causa da humanização são tão poucos e são tão perseguidos!! E é essa diferença que faz deles pessoas tão especiais. Força aos queridos amigos médicos, que estão lidando com o pior da raça humana nesses dias trevosos.”

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Cultura

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É muito triste ver como a insensatez impera na atenção ao parto em várias partes do mundo. Mais importante do que o acolhimento e a atenção técnica primorosa são o controle e os interesses corporativos. Entretanto, não é a tecnologia o fator fundamental que diferencia um parto no norte da Europa de um no leste europeu. O grande diferencial é a CULTURA e sua especial forma de enxergar – e tratar – as mulheres.

Assim, a principal revolução não será pela aquisição de equipamentos, materiais, drogas e leitos hospitalares, mesmo que saibamos de sua importância e papel na boa atenção ao parto. Não, a verdadeira mudanca será cultural, passando do atual paradigma de atenção para um que respeite as mulheres como sujeitos íntegros, capazes de tomar decisões por si mesmas e com plena autonomia.

Enquanto as mulheres forem consideradas de forma diminutiva e demeritória nenhuma aquisição tecnológica irá contemplar as reais necessidades que o nascimento seguro e empoderador demanda.

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