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Eu Odeio Ser Mãe…

Rola pela Internet um texto que fala das agruras da maternidade e da quantidade enorme de mulheres que odeiam ser mães. É claro que os relatos das dificuldades são verdadeiros e reais; não há dúvida de de que o nascimento de um filho impõe – em especial às mulheres – um peso muito grande e uma enorme mudança paradigmática. É inquestionável a dureza da parentalidade, em especial num mundo em que para as crianças não basta mais o suprimento de suas necessidades básicas (comer, beber, ser amada, vestir-se, etc.), pois que já nascem envolvidas num universo de desejos infinitos e insaciáveis.

Por outro lado, depois de conviver por 35 anos ao lado das mulheres grávidas, resta uma dúvida e uma desconfiança. Se são verdadeiras as queixas e a tonelagem de atribuições massacrantes sobre as mães, as quais tornam insuportáveis a vida de relação e o prazer, fazendo da existência um tormento infrutífero e vazio, por que ainda está fixo na parede da minha memória aquele sorriso que teima em brotar de seus lábios? Qual a razão de ser daquelas meninas que, entre orgulhosas e emocionadas, estendem a mão em minha direção segurando, ainda trêmulas, um mísero pedaço de papel timbrado onde, no meio de letras espalhadas, números, datas e logotipos, sobressai uma única palavra, que faz seus olhos marejarem apenas por repeti-la?

“POSITIVO”, dizem elas com seus sorrisos enfeitiçados.

A história de dor, que a ninguém cabe duvidar, existente em cada gestação não pode ser completa sem que esse sorriso enigmático seja colocado na equação.

Como sempre acontece com esses textos sobre os “horrores da maternidade”, eles contam a dureza do trabalho sem relatar (espertamente) o gozo. Todos eles, sem exceção, mostram um fato pincelado com as tintas do sacrifício, escondendo a energia poderosa e libidinal que nos empurra em direção a esse precipício. O que há para além da dor que teimamos em omitir?

Eu poderia escrever o mesmo texto, usando as MESMAS palavras e copiando uma igual arquitetura para relatar as agruras de ter, por exemplo, um relacionamento afetivo.

* Sarcasm notification *

“Eu odeio ter namorado(a)”. Alguém é capaz de negar que tal condição implica na perda da liberdade, sobressaindo-se as críticas, a angústia, a saudade, a mudança de perspectivas, o afastamento dos antigos amigos, os ciúmes e o medo corrosivo e destruidor de perder seu amor?

Tudo isso é verdade, e mesmo assim as pessoas continuam acreditando que amar é bom!!!! Escrevem livros sobre isso, romantizam relacionamentos, colocam fotos de casais felizes e as pessoas perdem a cabeça com aparente felicidade. Fazem até filhos para materializar essa alegria transbordante.

É tudo mentira!!!!

Na verdade as pessoas se escravizam mutuamente, mentem e se enganam. Mal se suportam e depois, sem que possamos perceber, regam seus travesseiros no meio da madrugada com as lágrimas do arrependimento e da desesperança.

Não é verdadeira ou real essa fábula do amor. As pessoas se “juntam” apenas por serem pressionadas pelo capitalismo a comprar fogões e geladeiras numa falsidade insuportável guiada pela sociedade de consumo. Somos marionete do capitalismo, fazendo dívidas e filhos apenas para dar conta do mercado.

Amar o outro é uma fraude, uma obrigação social criada pelo sistema escravizante que nos governa e aprisiona. Lutar para garantir o seu amor nada mais é do que esforçar-se na compra da própria prisão. Não é por acaso que “esposa” em espanhol se diz “algema”, alma gêmea.

Amar é a mentira que sempre nos contaram, deixando de lado todo o sofrimento e humilhação que acompanha este ato ingênuo e suicida. A dor de amar, de comprometer-se com alguém, não vale a pena ser paga. Somente os tolos e covardes admitem a escravidão como lenitivo amargo para escapar à solidão.

Mas… então, como explicar aquele sorriso? Será que perdemos algum detalhe pelo caminho?

Não se trata de colocar um “lado trash” da maternidade, mas de exaltar o espinho escondendo o perfume. O texto ao qual me referia não é reflexivo; é prescritivo. Por isso senti um desconforto ao me deparar com ele pois, ao invés de apontar para o fim das idealizações, aponta para OUTRA, mas com sinal invertido. Para combater o “padecer no paraíso” cria o mito da gravidez paralisante, que aprisiona mulheres sem nenhuma contrapartida de alegria ou prazer. Engravidar e ter filhos é uma “merda” (talvez porque a sua tenha sido, mas isso não implica em prescrever essa imagem para todas).

O texto peca pela falta de perspectiva e ausência de compreensão sobre a transcendência desta construção humana. Se é verdade que as mulheres são “escravas de sua raça e os homens escravizados pelas mulheres” também é verdade que a única razão pela qual esse sistema faz sentido é pelo misterioso elemento que lhe oferece sentido: o amor. Mas pode chamá-lo de desejo se “amor” lhe parece por demais assustador.

Entretanto, analisar um filho – ou um afeto – através dos olhos da praticidade ou da operacionalidade é desconfigurar a essência mais profunda do que nos torna humanos. Sem essa pitada de amor nada pode brotar do caldo de vida que nos constitui.

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Tecnologias

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Esta manhã estive conversando pelo inbox do Facebook com uma parteira recém formada (midwife) sobre um aumento de PCR pós parto. Ela é minha amiga há alguns anos, é búlgara e mora em Sófia, na Bulgária. Ao mesmo tempo eu dava orientações a respeito de uma ecografia com suspeita de circunferência cefálica reduzida, conjugada com a perda de tampão, para uma paciente que mora no Vietnã. Tudo isso no meu smartphone enquanto tomava café.

Se alguém me contasse isso há meros 20 anos eu diria que se tratava de fantasia tirada de livros juvenis de ficção científica. Seria impossível acreditar que um dia seríamos capazes de tais proezas.

O mundo virou MESMO, uma “aldeia global”, como havia previsto Marshall McLuhan no final dos anos 70. Somos conectados de forma instantânea com qualquer parte do planeta, e isso nos oferece um senso de “ubiquidade virtual” inédito nas sociedades humanas, a ponto de a tecnologia nos transportar para os mais distantes lugares de uma maneira que nos lembra pura magia.

Nossos filhos e netos serão educados nesse novo planeta minúsculo, praticamente sem distâncias reais, oportunizando a eles uma consciência mais planetária e menos tribal, de onde emergirá a verdadeira solidariedade humana baseada em valores universais.

Os jovens eu invejo por poderem testemunhar este novo mundo de proximidades crescentes. Não se deixem jamais capturar na armadilha do pessimismo e cultivem um olhar de esperança para o mundo que se descortina à sua frente. E, acima de tudo, ajudem a construir essa sociedade sem barreiras, a qual só me resta tempo para… sonhar.

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Bom Humor

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Bom humor no CO do hospital.

Sábado à tarde, 40 graus à sombra, Porto Alegre vazia e incandescente. O obstetra entra no CO, cumprimenta a enfermeira, suspira com desânimo e exclama:

– Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar sequestrando, mas estou aqui atendendo parto no verão.

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Esperança

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Tiro uma calça pendurada no calceiro e visto apressadamente antes de sair para o trabalho. Coloco a chave do carro no bolso da frente, a carteira no bolso posterior direito e, quando estou ajustando a calça, percebo um papel no bolso do outro lado.

Coloco a mão no bolso chapado de trás e mexo delicadamente o papel. Sinto a textura e o tamanho. O som do papel especial produz um barulho característico e inconfundível. O papel dobrado em dois roça em si mesmo sob a pressão dos meus dedos e sinto as pequenas irregularidades de tinta em sua superfície. Meu coração dispara e penso que hoje deve estar reservado um grande presente do universo.

Fecho os olhos e volto minha cabeça para o alto, enquanto minha mente em profunda oração silenciosa diz para si mesma: “cinquenta, senhor, cinquenta…”

Chega o momento da verdade e minha mão sai do bolso trazendo a pequena folha dobrada. Trago para a frente dos olhos, que se mantém fechados, em profunda conexão espiritual com as forças que comandam a prosperidade cósmica.

As pálpebras se abrem lentamente e a cor do papel se mostra com vagar.

Mas…. é azul o que o destino me ofereceu. Não é cinquenta; é dois.

Eu pergunto aos crentes e crédulos: Onde está Deus agora? Depois de todas as minhas preces é mesmo meio cafezinho a totalidade do meu merecimento?

Que papelão, meu Deus.  Depois reclama quando fazem marchas por Satanás..

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Desprezo

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Hoje escutei alguém falando mal de mim. Na verdade, coisas que eu escuto há muitos anos, e qualquer médico que defende o parto normal já escutou. Nada de novo no front. Entretanto, a opinião dos pares sempre nos afeta, de uma forma ou de outra. A maledicência, a injustiça e a crítica mordaz nos atingem sem dó, mesmo quando sacudimos nossos ombros para cima e rimos com falso desprezo.

Morro de inveja quando escuto pessoas me dizendo “Eu não me importo com o que as pessoas falam de mim. Não estou nem aí“. Comigo nunca foi assim. Eu me importo, e muito.

Lembro do meu filho dizendo, com uma maturidade que se manifesta até hoje, da importância que depositava na opinião alheia. “Todas as coisas que eu faço, das mais singelas às mais difíceis, eu as faço só pra me exibir“, dizia ele, mal passando de uma dezena de anos. Se a motivação era o olhar do outro, sua aprovação ou mesmo a censura, esta consideração não poderia jamais ser desprezível.

Dizer da importância da opinião alheia não é o mesmo que aceitar seu jugo inconteste. Significa apenas reconhecer seu impacto na construção do que somos. Não precisamos modular nossas ações e atitudes em função do conceito que fazem de nós, mas não é justo desconsiderar que somos construídos por este olhar, que nos informa o que somos e que espaço ocupamos.

Não há como fugir de uma certa tristeza, uma amargura, mas sempre considerei esse o peso a carregar pela ousadia de pensar com a própria cabeça. Traçar seu próprio caminho é sempre uma atitude subversiva. Receber o rechaço de quem percorre as velhas estradas – as quais você explicitamente evitou – é o inevitável preço a pagar.

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Espiritualidade

Espiritualidade

Vejo muitos espiritualistas e/ou cientistas buscando incansavelmente uma comprovação da sobrevivência da alma, a perpetuação do Ego, que seja factual e insofismável o suficiente para sepultar o materialismo e a descrença.

De minha parte, eu tenho expectativas bem mais humildes e limitadas. Ao contrário de uma prova científica, definitiva e inquestionável da vida após a morte eu queria apenas uma experiência mística, subjetiva, pessoal e forte o suficiente para varrer toda e qualquer dúvida do meu coração, mesmo que esta epifania jamais pudesse ser passada adiante ou comprovada, permanecendo para sempre como algo absolutamente pessoal, escondida nas minhas lembranças e reminiscências.

Assim, quando o adeus e a saudade se aproximarem de minha breve existência, poderei de me agarrar a esta certeza pessoal – a vívida experiência mística da imortalidade – para que os meus últimos anos não sejam marcados pela tristeza e pela desesperança.

“Senhor, se tens algo a me dizer, que o diga agora. Estou pronto a receber sua mensagem. Tudo o que desejo é um aviso, uma prova, um sinal”

Silêncio.

O telefone toca. Assustado atendo. Uma voz de criança me diz:

– Vovô, posso ir na tua casa ver Peppa?

Obrigado, senhor. Obrigado.

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As Cores do Nascer

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Com o seu bebê ainda manchado com as cores do nascer, aconchegado em seus braços, recém inflando de ar os pulmões úmidos, ela tem o gosto doce de um parto veloz nos lábios. Atônita, ela se vira para mim e fala, entre confusa e incrédula:

– É muito louco, sabe. Quando sai a cabeça do bebê e parece um boneco, mas é um ser humano. E aí vem o resto e é vivo, se mexe e respira. É uma pessoa!!Tudo isso é muito maluco. É incrível…

Sorri da sua surpresa. Para ela uma aventura inesquecível e uma emoção corporificada, marcada no corpo; uma agitação dos sentidos. Para mim a reafirmação do mistério, do inacessível e do oculto.

– Se para você é “muito louco”, imagine o que eu sinto. Loucura é a mais suave das definições. Viagem, barato, êxtase… não importa; qualquer palavra será sempre insuficiente para descrever o indescritível.

Benditos sejam os misteriosos desígnios da vida.

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Direitos Humanos para Humanos Direitos

Direitos humanos

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Pensando bem, creio que humanos que não são “direitos” – de acordo com nossa lógica branca, europeia e capitalista – não merecem os direitos que as pessoas de bem possuem. Direitos humanos devem ser preservados apenas para aqueles que se comportam bem, de acordo com critérios que as próprias pessoas de bem estabelecem. Sendo assim, aqueles que não se adaptam à estratificação social e se rebelam contra a ordem estabelecida são sub-humanos.

Da mesma forma como criamos gado para abate, essas pessoas, que se situam abaixo da linha de humanidade, também podem ser abatidas se não forem mais úteis para a humanidade (nós). Eliminar os “não direitos” deixa, portanto, de ser assassinato, ou mesmo crime, e passa a ser “eliminação”. Podemos também chamar esta retirada compulsória do nosso convívio como “retirement”, aposentadoria, como em Blade Runner.

Certo?

Não. Sem entender que a condição humana precede qualquer aspecto moral – e que o resguardo dessa condição é o fundamento da civilização – nada teremos além da barbárie institucionalizada, uma sociedade divorciada dos seus princípios mais fundamentais de igualdade, solidariedade e fraternidade

Direitos humanos para humanos sujeitos. Cláusula inegociável da civilidade.

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Três Décadas

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Há 2 semanas completei 3 décadas de formatura. Costumo dizer que minha conexão com a medicina já completou 40 anos, pois se iniciou muito antes da colação de grau. Esta foi apenas uma formalidade. Creio que ela começou quando, da janela do aeroporto Salgado Filho, abanei para minha mãe que partia em viagem. Desse aparente abandono aos 15 anos (ambos os meus pais estavam fora do país) surgiu um súbito impulso que me fez afirmar em solilóquio: “Vou estudar medicina“. Daquela proposição inicial, somada a um compromisso de fazer dessa escolha uma forma de expressão de meus sentimentos mais profundos, surgiu minha paixão pela escuta e pela “ars cvrandi“.

Agora, ao se aproximar o ocaso de uma trajetória, penso que valeu o tempo que passei ao lado de quem cuidei. Os erros terei que dar conta, nesta ou na outra, e os acertos ficarão de bagagem. Agradeço aos “pacientes” cuja paciência com minhas fraquezas me ajudou a trilhar um caminho tortuoso e cheio de espinhos, mas com muitas alegrias e momentos de puro êxtase.

Obrigado pelo privilégio que me foi dado de cursar estes maravilhosos 30 anos de aprendizado.

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Sobre as Pressões

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Por que os médicos insistem em interromper gestações arbitrariamente com 41 semanas (às vezes falam até em 40 semanas)?

Não é por ignorância ou arrogância, é por medo. Se alguma coisa acontecer entre 40 e 42 semanas – período em que o bebê estava bem e pronto (maduro) para nascer – a família não pensará duas vezes e vai atacar impiedosamente o médico que “deixou passar da hora”. Quem já não ouviu uma história assim?

Hoje em dia até o tamanho de uma gestação normal foi contestado, questionando os valores históricos de Friedmann; mais ainda o tempo adequado de maturidade fetal. Entretanto, há alguns anos, houve trabalhos que demonstravam que induzir um parto com 41 semanas melhorava os resultados pós natais, mesmo que hoje eles sejam duramente combatidos. O resultado é pouco expressivo, mas o suficiente para o embasamento de condutas. Esse detalhe vai ao encontro das fantasias ancestrais que falam de um “útero malévolo e sufocante”, determinando aos médicos a nobre tarefa de liberar a inocente criança da angústia desse aprisionamento. Essas histórias nutrem o imaginário das culturas, que cobram dos profissionais uma ação salvadora para o novo membro que está para nascer, assim como culpabilizam o corpo defeituoso da mulher pelo risco em que colocam o bebê. Para as culturas patriarcais as mulheres são vistas como ameaçadoras e seus corpos cópias mal acabadas e defectivas do padrão de perfeição: o corpo masculino, fac simile da estrutura divina.

Como se pode ver com facilidade, de nada adianta mudar os médicos sem modificar os pacientes. Os médicos nada mais são do que o reflexo da sociedade onde vivem, e suas ações acabam reproduzindo os valores disseminados pela cultura em que estão inseridos. Não existe distância entre o padrão dos médicos e dos seus clientes; eles estão próximos e compartilham medos, angústias e modos de compreensão da realidade.

Outro exemplo: gestante da cidade vizinha chega ao hospital público ao anoitecer com dois cm de dilatação e em pródromos (poucas e esparsas contrações). O que é correto fazer? Mandar embora, já que não se configurou a fase ativa do trabalho de parto. Entretanto, o que fazem os médicos? Via de regra, internam e colocam ocitocina para “melhorar a dinâmica uterina”.

Mas por quê, já que sabemos que essa atitude não tem respaldo científico? Ora, porque ao agir de forma correta – pedir que volte mais tarde em fase ativa – o médico plantonista corre o risco de ser ameaçado pela família, que irá na rádio local acusá-lo de “não aceitar internar”.

O médico ainda não tem amparo algum da sociedade para fazer a melhor medicina. Diante das pressões ele interna a gestante, afasta-a da família “adrenalínica” e ansiosa, realiza os rituais de “purificação” (banho, enema, roupa branca, cabelo preso, tricotomia, etc.) e coloca soro (ocitocina) para apressar o parto, já que não pode ocupar um leito por 24 horas com uma única paciente. Por outro lado, o profissional sabe que estimulando agressivamente o útero com hormônios vai aumentar a chance de uma cesariana. No fim ela acaba operada e a família fica feliz e satisfeita. A desculpa já estava pronta mesmo antes de sair de casa: “não houve dilatação“.

Mas não se iludam; nessa história todos são culpados e quem paga a conta salgada das intervenções é a pobre mulher e seu o bebê. Precisa bem mais do que novas leis sobre cesariana e parto normal para que modifiquemos o cenário da assistência ao parto. É necessário mudar uma cultura, o rio de valores em que bebem médicos e pacientes, e isso se faz lentamente através da educação.

Outra história curiosa: Quando eu era plantonista numa cidade da periferia de Porto Alegre vivi muitas vezes esta cena. Revólver na cintura, carteiraço de funcionário da prefeitura e até carteira de doador de sangue (???!!!) eram usadas como elementos de intimidação. Muitas vezes as pacientes chegavam ao centro obstétrico acompanhadas ao plantão do vereador populista da cidade, com 38 semanas de gestação, para fazer a “cesariana com ligadura” que havia sido prometida na campanha eleitoral.

Naquela época, 25 anos passados, eu havia estabelecido o parto de cócoras como o padrão no meu dia de plantão. Não é de se espantar que um vereador da cidade convocou uma reunião na câmara para debater o estranho caso de um médico obstetra plantonista – e louco – que colocava as mulheres para “parir como galinhas” no hospital municipal.

Foi ao saber dessa notícia que eu me dei conta que o protagonismo da mulher, elemento que eu já percebia como central para uma revolução no parto, precisaria de mais um quarto de século para ser entendido. Errei nas contas…  vai precisar um pouco mais.

A solução para esta falta de sintonia entre o “saber e o fazer” não se esgota na velha tese da melhoria do pré-natal. Eu prefiro ir um pouco mais longe. Os valores do parto e nascimento são introjetados na mais tenra infância e fazem parte da nossa arquitetura emocional. Não se derrubam mitos e preconceitos fazendo encontros mensais de 30 minutos com um profissional de saúde, por melhor e mais capacitado que ele seja. Mesmo que eu concorde com a grande importância do pré natal para estimular a autoconfiança e o protagonismo das futuras mães, creio que precisamos agir muito antes disso. É na primeira infância – e depois na escola fundamental – que devemos iniciar a tratar de parto. Sou muito a favor de aulas de parto e nascimento nas escolas, longe dos conceitos biologicistas e próximo de uma visão afetiva, espiritual e social.

Só assim poderemos estreitar de forma certeira a distância que separa o que fazemos daquilo que sabemos ser o melhor para os nossos pacientes.

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