Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Desprezo

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Hoje escutei alguém falando mal de mim. Na verdade, coisas que eu escuto há muitos anos, e qualquer médico que defende o parto normal já escutou. Nada de novo no front. Entretanto, a opinião dos pares sempre nos afeta, de uma forma ou de outra. A maledicência, a injustiça e a crítica mordaz nos atingem sem dó, mesmo quando sacudimos nossos ombros para cima e rimos com falso desprezo.

Morro de inveja quando escuto pessoas me dizendo “Eu não me importo com o que as pessoas falam de mim. Não estou nem aí“. Comigo nunca foi assim. Eu me importo, e muito.

Lembro do meu filho dizendo, com uma maturidade que se manifesta até hoje, da importância que depositava na opinião alheia. “Todas as coisas que eu faço, das mais singelas às mais difíceis, eu as faço só pra me exibir“, dizia ele, mal passando de uma dezena de anos. Se a motivação era o olhar do outro, sua aprovação ou mesmo a censura, esta consideração não poderia jamais ser desprezível.

Dizer da importância da opinião alheia não é o mesmo que aceitar seu jugo inconteste. Significa apenas reconhecer seu impacto na construção do que somos. Não precisamos modular nossas ações e atitudes em função do conceito que fazem de nós, mas não é justo desconsiderar que somos construídos por este olhar, que nos informa o que somos e que espaço ocupamos.

Não há como fugir de uma certa tristeza, uma amargura, mas sempre considerei esse o peso a carregar pela ousadia de pensar com a própria cabeça. Traçar seu próprio caminho é sempre uma atitude subversiva. Receber o rechaço de quem percorre as velhas estradas – as quais você explicitamente evitou – é o inevitável preço a pagar.

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Espiritualidade

Espiritualidade

Vejo muitos espiritualistas e/ou cientistas buscando incansavelmente uma comprovação da sobrevivência da alma, a perpetuação do Ego, que seja factual e insofismável o suficiente para sepultar o materialismo e a descrença.

De minha parte, eu tenho expectativas bem mais humildes e limitadas. Ao contrário de uma prova científica, definitiva e inquestionável da vida após a morte eu queria apenas uma experiência mística, subjetiva, pessoal e forte o suficiente para varrer toda e qualquer dúvida do meu coração, mesmo que esta epifania jamais pudesse ser passada adiante ou comprovada, permanecendo para sempre como algo absolutamente pessoal, escondida nas minhas lembranças e reminiscências.

Assim, quando o adeus e a saudade se aproximarem de minha breve existência, poderei de me agarrar a esta certeza pessoal – a vívida experiência mística da imortalidade – para que os meus últimos anos não sejam marcados pela tristeza e pela desesperança.

“Senhor, se tens algo a me dizer, que o diga agora. Estou pronto a receber sua mensagem. Tudo o que desejo é um aviso, uma prova, um sinal”

Silêncio.

O telefone toca. Assustado atendo. Uma voz de criança me diz:

– Vovô, posso ir na tua casa ver Peppa?

Obrigado, senhor. Obrigado.

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As Cores do Nascer

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Com o seu bebê ainda manchado com as cores do nascer, aconchegado em seus braços, recém inflando de ar os pulmões úmidos, ela tem o gosto doce de um parto veloz nos lábios. Atônita, ela se vira para mim e fala, entre confusa e incrédula:

– É muito louco, sabe. Quando sai a cabeça do bebê e parece um boneco, mas é um ser humano. E aí vem o resto e é vivo, se mexe e respira. É uma pessoa!!Tudo isso é muito maluco. É incrível…

Sorri da sua surpresa. Para ela uma aventura inesquecível e uma emoção corporificada, marcada no corpo; uma agitação dos sentidos. Para mim a reafirmação do mistério, do inacessível e do oculto.

– Se para você é “muito louco”, imagine o que eu sinto. Loucura é a mais suave das definições. Viagem, barato, êxtase… não importa; qualquer palavra será sempre insuficiente para descrever o indescritível.

Benditos sejam os misteriosos desígnios da vida.

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Direitos Humanos para Humanos Direitos

Direitos humanos

* Sarcasm notification *

Pensando bem, creio que humanos que não são “direitos” – de acordo com nossa lógica branca, europeia e capitalista – não merecem os direitos que as pessoas de bem possuem. Direitos humanos devem ser preservados apenas para aqueles que se comportam bem, de acordo com critérios que as próprias pessoas de bem estabelecem. Sendo assim, aqueles que não se adaptam à estratificação social e se rebelam contra a ordem estabelecida são sub-humanos.

Da mesma forma como criamos gado para abate, essas pessoas, que se situam abaixo da linha de humanidade, também podem ser abatidas se não forem mais úteis para a humanidade (nós). Eliminar os “não direitos” deixa, portanto, de ser assassinato, ou mesmo crime, e passa a ser “eliminação”. Podemos também chamar esta retirada compulsória do nosso convívio como “retirement”, aposentadoria, como em Blade Runner.

Certo?

Não. Sem entender que a condição humana precede qualquer aspecto moral – e que o resguardo dessa condição é o fundamento da civilização – nada teremos além da barbárie institucionalizada, uma sociedade divorciada dos seus princípios mais fundamentais de igualdade, solidariedade e fraternidade

Direitos humanos para humanos sujeitos. Cláusula inegociável da civilidade.

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Três Décadas

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Há 2 semanas completei 3 décadas de formatura. Costumo dizer que minha conexão com a medicina já completou 40 anos, pois se iniciou muito antes da colação de grau. Esta foi apenas uma formalidade. Creio que ela começou quando, da janela do aeroporto Salgado Filho, abanei para minha mãe que partia em viagem. Desse aparente abandono aos 15 anos (ambos os meus pais estavam fora do país) surgiu um súbito impulso que me fez afirmar em solilóquio: “Vou estudar medicina“. Daquela proposição inicial, somada a um compromisso de fazer dessa escolha uma forma de expressão de meus sentimentos mais profundos, surgiu minha paixão pela escuta e pela “ars cvrandi“.

Agora, ao se aproximar o ocaso de uma trajetória, penso que valeu o tempo que passei ao lado de quem cuidei. Os erros terei que dar conta, nesta ou na outra, e os acertos ficarão de bagagem. Agradeço aos “pacientes” cuja paciência com minhas fraquezas me ajudou a trilhar um caminho tortuoso e cheio de espinhos, mas com muitas alegrias e momentos de puro êxtase.

Obrigado pelo privilégio que me foi dado de cursar estes maravilhosos 30 anos de aprendizado.

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Sobre as Pressões

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Por que os médicos insistem em interromper gestações arbitrariamente com 41 semanas (às vezes falam até em 40 semanas)?

Não é por ignorância ou arrogância, é por medo. Se alguma coisa acontecer entre 40 e 42 semanas – período em que o bebê estava bem e pronto (maduro) para nascer – a família não pensará duas vezes e vai atacar impiedosamente o médico que “deixou passar da hora”. Quem já não ouviu uma história assim?

Hoje em dia até o tamanho de uma gestação normal foi contestado, questionando os valores históricos de Friedmann; mais ainda o tempo adequado de maturidade fetal. Entretanto, há alguns anos, houve trabalhos que demonstravam que induzir um parto com 41 semanas melhorava os resultados pós natais, mesmo que hoje eles sejam duramente combatidos. O resultado é pouco expressivo, mas o suficiente para o embasamento de condutas. Esse detalhe vai ao encontro das fantasias ancestrais que falam de um “útero malévolo e sufocante”, determinando aos médicos a nobre tarefa de liberar a inocente criança da angústia desse aprisionamento. Essas histórias nutrem o imaginário das culturas, que cobram dos profissionais uma ação salvadora para o novo membro que está para nascer, assim como culpabilizam o corpo defeituoso da mulher pelo risco em que colocam o bebê. Para as culturas patriarcais as mulheres são vistas como ameaçadoras e seus corpos cópias mal acabadas e defectivas do padrão de perfeição: o corpo masculino, fac simile da estrutura divina.

Como se pode ver com facilidade, de nada adianta mudar os médicos sem modificar os pacientes. Os médicos nada mais são do que o reflexo da sociedade onde vivem, e suas ações acabam reproduzindo os valores disseminados pela cultura em que estão inseridos. Não existe distância entre o padrão dos médicos e dos seus clientes; eles estão próximos e compartilham medos, angústias e modos de compreensão da realidade.

Outro exemplo: gestante da cidade vizinha chega ao hospital público ao anoitecer com dois cm de dilatação e em pródromos (poucas e esparsas contrações). O que é correto fazer? Mandar embora, já que não se configurou a fase ativa do trabalho de parto. Entretanto, o que fazem os médicos? Via de regra, internam e colocam ocitocina para “melhorar a dinâmica uterina”.

Mas por quê, já que sabemos que essa atitude não tem respaldo científico? Ora, porque ao agir de forma correta – pedir que volte mais tarde em fase ativa – o médico plantonista corre o risco de ser ameaçado pela família, que irá na rádio local acusá-lo de “não aceitar internar”.

O médico ainda não tem amparo algum da sociedade para fazer a melhor medicina. Diante das pressões ele interna a gestante, afasta-a da família “adrenalínica” e ansiosa, realiza os rituais de “purificação” (banho, enema, roupa branca, cabelo preso, tricotomia, etc.) e coloca soro (ocitocina) para apressar o parto, já que não pode ocupar um leito por 24 horas com uma única paciente. Por outro lado, o profissional sabe que estimulando agressivamente o útero com hormônios vai aumentar a chance de uma cesariana. No fim ela acaba operada e a família fica feliz e satisfeita. A desculpa já estava pronta mesmo antes de sair de casa: “não houve dilatação“.

Mas não se iludam; nessa história todos são culpados e quem paga a conta salgada das intervenções é a pobre mulher e seu o bebê. Precisa bem mais do que novas leis sobre cesariana e parto normal para que modifiquemos o cenário da assistência ao parto. É necessário mudar uma cultura, o rio de valores em que bebem médicos e pacientes, e isso se faz lentamente através da educação.

Outra história curiosa: Quando eu era plantonista numa cidade da periferia de Porto Alegre vivi muitas vezes esta cena. Revólver na cintura, carteiraço de funcionário da prefeitura e até carteira de doador de sangue (???!!!) eram usadas como elementos de intimidação. Muitas vezes as pacientes chegavam ao centro obstétrico acompanhadas ao plantão do vereador populista da cidade, com 38 semanas de gestação, para fazer a “cesariana com ligadura” que havia sido prometida na campanha eleitoral.

Naquela época, 25 anos passados, eu havia estabelecido o parto de cócoras como o padrão no meu dia de plantão. Não é de se espantar que um vereador da cidade convocou uma reunião na câmara para debater o estranho caso de um médico obstetra plantonista – e louco – que colocava as mulheres para “parir como galinhas” no hospital municipal.

Foi ao saber dessa notícia que eu me dei conta que o protagonismo da mulher, elemento que eu já percebia como central para uma revolução no parto, precisaria de mais um quarto de século para ser entendido. Errei nas contas…  vai precisar um pouco mais.

A solução para esta falta de sintonia entre o “saber e o fazer” não se esgota na velha tese da melhoria do pré-natal. Eu prefiro ir um pouco mais longe. Os valores do parto e nascimento são introjetados na mais tenra infância e fazem parte da nossa arquitetura emocional. Não se derrubam mitos e preconceitos fazendo encontros mensais de 30 minutos com um profissional de saúde, por melhor e mais capacitado que ele seja. Mesmo que eu concorde com a grande importância do pré natal para estimular a autoconfiança e o protagonismo das futuras mães, creio que precisamos agir muito antes disso. É na primeira infância – e depois na escola fundamental – que devemos iniciar a tratar de parto. Sou muito a favor de aulas de parto e nascimento nas escolas, longe dos conceitos biologicistas e próximo de uma visão afetiva, espiritual e social.

Só assim poderemos estreitar de forma certeira a distância que separa o que fazemos daquilo que sabemos ser o melhor para os nossos pacientes.

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Escrito nas Estrelas

escrito estrelas

Havia uma espera curiosa por Josué. Sabia-se que vinha cercado da mesma mística que envolvera a chegada do seu irmão. O mesmo sonho, a mesma estrada, a mesma luz seguida da mesma voz. “Estejam preparados para a chegada de Josué“, disse a voz do locutor. O sonho se desfez na poeira do despertar, mas deixou como marca onírica a memória das palavras, a cena em reprise, o caminhar dos meninos lado a lado em câmera lenta, a certeza inquestionável; não poderia haver engano. Já adaptado ao fato de ter dois meninos imaginava a repetição da história familiar: um irmão mais velho ao qual se segue um mais novo e quem mais vier. Amigos, companheiros, inimigos, adversários, parceiros e por fim adultos e independentes. Eu conseguia ver minha vida de pai como uma reprodução do mundo que eu conhecia bem, o universo dos meninos, com suas dúvidas, angústias e poderes.

Pois no dia que abria o dezembro, na derradeira etapa da minha vida estudantil, as contrações se iniciaram. O último plantão como doutorando me garantiu a presença no hospital. Perfect timing, diria. Por uma coincidência também lá estavam o pediatra, o tio médico e a obstetra escolhida. As lições da gestação anterior foram bem aprendidas, e a chegada de Zeza Jones ao hospital foi a mais tardia possível. Oito centímetros que já davam por bem encaminhada a chegada do bebê. Ainda houve tempo para algumas iatrogenias, intervenções e “verboses” por parte dos participantes, mas nada que fosse capaz, àquela altura do processo, de impedir o nascimento. Nada impediria que o parto ocorresse da forma como planejado. Quando o relógio bateu 1 hora da manhã a música “Escrito nas Estrelas” surgiu no sistema de som do hospital, fazendo com que os trinados agudos de Tetê Espíndola se misturassem à guturalidade expressiva dos últimos vagidos. Os sons mixados anunciavam a chegada do bebê tão esperado.

Sim, não havia uma confirmação do sexo do bebê. Em meados dos anos 80 as ecografias eram apenas artefatos tecnológicos surpreendentes, caros e reservados apenas aos mais afortunados. Suas imagens eram grotescas, chuviscos descoordenados e enigmáticos, mas que descortinavam a “era da imagem”, a devassa impiedosa da intimidade fetal. Para mim, jovem estudante despedindo-se do curso, não havia sentido para realizá-las e cortar a surpresa de um parto, até porque as pessoas não bombardeavam as gestantes com as perguntas chavão de hoje em dia: “Já marcou a data?” ou “menino ou menina”? No passado, nem tão distante, os partos seriam todos normais, “como mandava a natureza“, dizíamos. Mesmo que nossas cesarianas já contemplassem 25% dos nascimentos, ainda era com essa naturalidade que enxergávamos os partos, e “menino ou menina” era um assunto que interessava apenas aos apostadores e adivinhadores de parto. Para mim, bastava o sonho vívido e a certeza que suas imagens impregnaram em minha memória.

Os gritos se tornaram mais forte e frequentes, misturados pelo barulho de equipamentos e o ruído atrapalhado e estridente das enfermeiras e médicos. E eu menino, perdido no labirinto de vozes e sombras. Era tudo muito verde e prata, muito confuso. A luz brilhava demais, a sombra escondia tudo. Vultos percorriam a pequena sala, preenchendo de ansiedade os espaços. E o silêncio entrecortado pelo mantra obstétrico: “força, força comprida, não para, não para”. Quando chegou o momento de brotar a vida o meu mundo se congelou entre duas batidas de coração. Tetê para de cantar e aguarda em reverência o som por todos esperado. E ele vem, expelido com forças pelos pulmões úmidos que pela primeira vez apreendiam a secura do ar.

E então…. a falta, a ausência inexplicável. A surpresa misturada de vermelho, branco, verde e prata. Os olhos não acreditavam, a mente sofreu uma reviravolta.

– É menina!!

Foi tudo o que pude dizer. “Minha cabeça rodava, rodava mais do que os casais o seu perfume gardênia, e não me perguntes mais…” O meu mundo agora seria completamente diverso daquele para o qual eu me preparara. Ao invés de uma vida centrada nas identificações testosterônicas, o universo me preparara para lidar com o vazio do feminino. O espaço que se abria para a compreensão do insuspeitado. E o medo, sorrateiro e zombeteiro, que me obrigava a perguntar: “E agora, o que fazer?”

Josué morria ali, com suas previsibilidades, dando espaço para Isabel Cristina, com seus desafios e suas perguntas sem resposta. Agora me cabia cuidar, zelar, compreender, respeitar o diferente, o diverso, o misterioso. Olhar com ternura para algo que a natureza me oferecera como gracejo, mas que podia ser minha maior lição. Hoje, essa menina é mulher e mãe dos meus netos. Costumo dizer que o nascimento de minha filha, pela surpresa e pelo inesperado, foi o maior presente que eu poderia receber do Universo, mesmo que isso significasse rever a infalibilidade dos meus sonhos premonitórios. De Josué guardo a esperança que não fique magoado, e reconheça que a existência de minha filha foi um dos elementos fundamentais que fizeram aquele menino acanhado na sala de parto se tornar um homem.

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Medicina Industrial

medicina e tecnologia

Muito se tem falado sobre a forma impessoal como os atendimentos ocorrem nos dias de hoje, além da frieza e descomprometimento dos médicos em relação ao trabalho junto aos pacientes. Uma forma de melhorar essa forma insípida de atenção é chegar mais próximo dos clientes e poder enxergá-los em seus próprios domínios para apreender toda a gama de informações que se pode absorver de suas histórias.

O atendimento domiciliar oferece esse mergulho do profissional na vida de relação do paciente. A assistência ao seu sofrimento (ou à sua “passagem” no caso dos partos) é “in vivo” ao contrário da atenção nas clínicas e consultórios, que é artificializada e descontextualizada. Isto é: ” in vitro”.

A industrialização e massificação da atenção à saúde leva a uma crescente insatisfação dos consumidores, que pode ser notada em alguns bolsões de pensamento, em especial da classe média. As queixas se unificam em torno da impessoalidade e coisificação do paciente, que passou a ser tratado muito mais por máquinas e equipamentos do que por pessoas. O positivismo obliterante dos protocolos e a incapacidade de enxergar a doença como caminho, negando-se a ela qualquer propósito, nos afastam das dimensões verdadeiramente curativas da medicina.

A medicina se faz com vínculo. No dizer do psicanalista húngaro Ballint “o melhor remédio que um médico pode oferecer é ele mesmo“. Todo modelo, por mais eficiente que possa parecer, que nos afasta da dimensão única e subjetiva dos pacientes será um entrave às mais nobres propostas da arte de curar.

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Casa Sagrada

Bebe utero

Casa sagrada
De paredes vermelhas
Tantas vezes tuas lágrimas
Pintaram o alvo lençol
Quantas vezes teus lábios
Falaram comigo em meus sonhos

 Acalentou meus filhos
Quando lá os deixei
Nutriste seus sonhos
E os guardaste para mim
Agora que vais
Leva meu adeus e a certeza
Da gratidão eterna pelo bem
Que fizeste à vida.

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Aniversário

Ric 56

10 razões para se deprimir quando chegar aos 56 anos:

1 – Quando finalmente chega a moda do “coque” para homens já não é mais possível aderir.
2 – Agora que tenho umas economias para comprar uma calça Saruel descubro que o Neymar Jr já abandonou o estilo.
3 – Ninguém me chama de “moço” para pedir uma informação.
4 – Eu me sinto muito cafona quando uso a expressão “cafona”.
5 – Sou do tempo em que se enfrentava a polícia por ser CONTRA a intervenção militar.
6 – Quando uma moça sorri para mim imediatamente verifico se o fecho da calça está aberto.
7 – Meu papo com os colegas de turma é sobre artrite e aposentadoria.
8 – As pessoas ficam espantadas quando conto que meus pais estão vivos e saudáveis.
9 – Tenho que escutar da minha mulher e da minha filha que “essa roupa não é para a tua idade”
10 – Não há dia que eu não lembre que sou da próxima geração que vai… e eu sempre recordo a música que meu pai ouvia:


“Se a morte vier
Hoje te buscar
Como estás, como estás
Com teu Deus”…

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