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Desafios

“No pain, no gain” ou “lê goût de l’effort”, como dizia meu pai quando queria exibir seu francês…

Se não houver esforço não há conquista, e com isso estou de pleno acordo. A ideia de “quanto mais fácil melhor” está errada, e isso vemos no dia a dia. A confusão – em especial no que tange à Academia – é que muitas vezes a dificuldade é artificialmente produzida para justificar o mais puro sadismo ou o desejo de prejudicar o trabalho de alguém cujo brilho nos ameaça.

Portanto, os problemas não estão nas dificuldades e nos desafios, mas na inveja que nos impele a dificultar o trabalho e assim atrapalhar o sucesso alheio.

Trabalhos que demandam grande e verdadeiro esforço sempre serão mais valorizados. Dificuldades garantem valor às conquistas, sejam elas profissionais ou amorosas. Ou subir no monte Everest vale tanto quanto passar de avião por cima?

Não se deve confundir dificuldade com boicote, este sim algo que em nada valoriza um trabalho. Já eu agradeço todas as dificuldades que recebi; elas são as grandes impulsionadores da criatividade e da dedicação.

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Três Décadas

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Ha 2 semanas completei 3 décadas de formatura. Costumo dizer que minha conexão com a medicina já completou 40 anos, pois se iniciou muito antes da colação de grau. Esta foi apenas uma formalidade. Creio que ela começou quando, da janela do aeroporto Salgado Filho, abanei para minha mãe que partia em viagem. Desse aparente abandono aos 15 anos (ambos os meus pais estavam fora do país) surgiu um súbito impulso que me fez afirmar em solilóquio: “Vou estudar medicina“. Daquela proposição inicial, somada a um compromisso de fazer dessa escolha uma forma de expressão de meus sentimentos mais profundos, surgiu minha paixão pela escuta e pela “ars cvrandi“.

Agora, ao se aproximar o ocaso de uma trajetória, penso que valeu o tempo que passei ao lado de quem cuidei. Os erros terei que dar conta, nesta ou na outra, e os acertos ficarão de bagagem. Agradeço aos “pacientes” cuja paciência com minhas fraquezas me ajudou a trilhar um caminho tortuoso e cheio de espinhos, mas com muitas alegrias e momentos de puro êxtase.

Obrigado pelo privilégio que me foi dado de cursar estes maravilhosos 30 anos de aprendizado.

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Natal é Parto

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Não se esqueçam que o Natal nada mais é que a celebração de um parto.
Sim, um parto que pôde oferecer o começo de uma história, que plasmou no imaginário de tantos um modelo de sociedade centrado na fraternidade. Foi a partir deste ato que surgiu o “amarás ao próximo como a ti mesmo”.

Todavia, foi um parto, cheio de mistérios e nuances.

Mas fica a constatação de que o nascimento em si é apagado da narrativa. Depois de longa caminhada para realizar o recenseamento José e Maria, já estafados pela peregrinação, refugiam-se em uma estrebaria. Ali, na companhia dos animais e do seu marido, ela sente suas dores.

Fade out… a imagem obscurece e, quando volta a aparecer, o menino Jesus já está deitado na manjedoura, sob o olhar plácido dos bichos e a proteção de José. Em algumas imagens da cena primitiva do nascimento de Cristo ele ainda se mantém no berço improvisado, envolto no feno; em outros está já no colo de sua mãe, mas qualquer referência à amamentação também é sonegada.

Uma mãe virgem, que não gritou para parir e cujos seios se mantiveram cobertos para toda a eternidade. A cena do nascimento do Senhor estará sempre envolta em moralismo e sob a égide do patriarcado.

O trabalho de parto de Maria, com seu grito primal, seu suor e seu esforço, suas dores e contrações, além da força e a passagem que roubaria dela a virgindade, foi subtraído da imagem que se imortalizou no presépio natalino. Ficamos com o resultado, o produto oferecido pela ação do Espírito Santo, mas o trabalho genuinamente feminino e transformador de Maria se mantém esquecido.

Neste Natal, pensem um pouco em Maria e seus desafios. Melhor ainda, pensem em todas as Marias que ainda hoje lutam para que seus partos sejam dignos e respeitosos. Tenham na mente a imagem da mais famosa de todas elas, aquela que se dedicou para que seu filho pudesse nascer bem, no melhor lugar possível: onde ela se sentiu segura e amparada, com seu companheiro ao lado, e tendo silenciosos e compassivos animais como doulas.

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A Ousadia de Discordar

Como de hábito, meu filho Lucas selecionou uma pérola de sabedoria, inteligência, poder de síntese e simpatia nas páginas do TED. A palestrante Margaret Heffernan fala com brilhantismo da importância dos conflitos e do convívio com os diferentes. Mas, ao contrário do que poderíamos esperar, ela não faz uma pregação ao estilo “respeite aqueles que divergem de você“.

Não… ela vai muito mais além. Ela diz da importância de trabalharmos com pessoas que pensam de maneira diferente, pois esta é a única maneira de calibrarmos o nosso trabalho e mostrar que ele está correto. Conviver com os que pensam como nós produz letargia e acomodação. Por sua vez, o contraditório é estimulante e induz ao progresso, das pessoas, corporações ou nações.

Margaret Heffernan produz em 20 minutos uma das mais fantásticas palestras do TED que eu escutei nos últimos anos. Curiosamente eu havia acabado de postar aqui no meu humilde blog um artigo chamado “Mudança de Paradigma” onde exponho a minha crítica ao racionalismo exacerbado como proposta de mudanças paradigmáticas na cultura. Minha tese é centrada na ideia de que as modificações profundas se dão a partir de mudanças de ordem afetiva, psicológica e emocional. Somente depois que tais elementos forem mobilizados é que a abertura para o conhecimento poderá plantar as sementes da mudança.

Lucas enviou-me essa palestra sem saber do sofrimento por que passei por ter ousado discordar do senso comum, de ter coragem de me posicionar contra algo que intuía ser uma agressão ao direito soberano de livre expressão. Mas eu percebia que, mais do que simplesmente uma crise de posturas e opiniões, eu estava diante de uma tensão causada pelos diferentes caminhos propostos no ideário da humanização, e a discordância verdadeira se escondia no que não havia sido dito. Talvez alguns colegas houvessem percebido e preferiram se calar – e talvez apenas eu tenha essa opinião – mas a verdade é que eu resolvi aceitar o desafio do conflito e dizer minhas propostas.

Continuo acreditando que o caminho mais seguro para a humanização do nascimento seja através da sensibilização, do afeto, do carinho reconquistado e de uma abordagem humana e pessoal. A trajetória do “nascimento na perspectiva do sujeito” nos obrigará a repensar os modelos, protocolos e rotinas, abrindo um campo muito mais vasto de atenção às gestantes, fazendo de cada nascimento uma história única e inigualável. O grande erro das sociedades contemporâneas, no dizer de Wenda Trevathan, é a incapacidade do sistema médico ocidental de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, psicológicas e sociais do nascimento, mesmo que as evidências dessa falha sejam facilmente reconhecíveis pelos profissionais que atuam na atenção ao parto. Não faltam estudos, análises e pesquisas para demonstrar tal desacerto e disparidade.

O problema é que “saber” NÃO É suficiente. O conhecimento segue as mudanças, e não as provoca. Antes de informar é preciso transformar, subverter, modificar, revirar a terra de nossas convicções envelhecidas, para assim torná-la fértil para a semeadura do saber. Termino com as palavras finais de Margaret Heffernan sobre a “abertura” das consciências:

“Informação livre é algo fantástico; redes abertas são essenciais. Entretanto, a verdade não nos libertará até que desenvolvamos as habilidades, o hábito, o talento e a coragem moral para utilizá-los. Franqueza e sinceridade não são o fim; são o começo.”

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