Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Penico

Oliver 01

Ligo para meu filho e minha nora Ariane atende. Depois de conversar um pouco com ela peço para falar com Oliver.

– Oliver, diz ela, vovô Ricardo quer falar contigo.

Ele responde, sem desviar a atenção do que estava fazendo:

– Não posso, estou aucupado lavando meu penico .

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Reflexões de Aeroporto

Aeroporto

Episódio XXIII

Ela nos procurou no segundo tempo da sua gestação. Já havia utilizado o banco de reservas, feito as adaptações necessárias e as estratégias possíveis, mas a prorrogação se aproximava atropelando os dias. Decidiu-se pela radicalidade de trocar a equipe de assistência ao seu primeiro parto. Assim chegou, entre o susto e a esperança

Na sua chegada uma velha e conhecida história: a médica não lhe passava nenhuma confiança no seu desejo por um parto normal. “Faremos seu parto se tudo estiver certo. Nunca corro riscos“, dizia. “Acima de duas horas começo a cobrar uma taxa“, completou, o que a fez imaginar estar falando com um enorme taxímetro. “Meu parto é de acordo com protocolos. Doula?… não.”

A partir desse desencanto, que conhecemos muito bem, passou a nos visitar. Suas consultas, a partir de então, sempre obedeciam uma rotina clara: conversas que duravam o tempo inteiro da consulta. Uma hora de trocas: expectativas, experiências, propostas, ideias e alternativas. As alterações determinadas pela gestação seguiram o curso mais fisiológico e, quando fomos avisados da ruptura da bolsa com 40 semanas, nada poderia ser mais previsível e natural.

As contrações se tornaram logo muito fortes, determinando como consequência a chegada da doula à sua casa. O espaçamento entre as ondas contráteis tornou-se rapidamente menor, fazendo o telefone vibrar no bolso da minha calça jeans.

“Muito fortes, Ric. Uma atrás da outra. Ela quer ir para o hospital”, disse a doula, e sua voz tinha o timbre da urgência.

“Ela apagou?”, perguntei. Aprendi que o apagamento neocortical é o melhor sinalizador de que a fase de transição está em curso ou já foi transposta.

“Sim. Está fora da casinha”, disse a doula, e de longe pude imaginar o sorriso que coloria seu rosto de menina.

Morar ao lado do hospital me oferece a vantagem de vencer todas as “corridas” com as pacientes, e isso nos dá a possibilidade de garantir um “continuum de cuidado”. Nunca há solução de continuidade entre o suporte oferecido pela doula e o acompanhamento médico que ela receberá no hospital. Sou sempre eu quem abre a porta do CO para a chegada da gestante e seu companheiro.

Quando eles chegaram pude logo ver, antes mesmo do abraço de boas vindas, que ela havia colocado firmemente os dois pés na superfície etérea da partolândia, o reino distante e onírico para onde vão as gestantes que conseguem vencer as barreiras – pessoais e institucionais – que precisam ser transpostas até o nascimento de seu bebê. Seu olhar era vago e seu rosto pouco lembrava a mulher sorridente e altiva que há poucos dias havíamos encontrado no consultório. Estava longe, distante, o que me assegurou a proximidade do desfecho.

Sorri baixinho para a doula, enquanto puxava sua mão para dentro do CO. “Ela viajou total; saiu da casinha. Parabéns pelo timing”, disse eu para a doula. Sabemos que a chegada precoce ao Centro Obstétrico é um dos piores indicadores para partos normais, pelo ambiente iatrogênico que o hospital impõe. Chegar no tempo certo é um caminho seguro para a normalidade de um nascimento.

Seguimos para a sala PP e procedemos com os prolegômenos. Dispam-se as vestes humanas e coloquem-se as vestais. Desumanize-se a mulher, transformando-a num ser angelical e assexuado. Retirem-se os anéis, os brincos, os brilhos, os sorrisos, as palavras. É o protocolo.

Alheio às regras ouso falar. Pior ainda, ensaio sorrisos e brinco com sua face lívida. Escuto 150 batidas na parede do ventre, e digo num portunhol forçado: “Mas bah!! Que espetáculo!!”.

Ela então desfaz sua face doída e sorri, mostrando o otimismo que deixara escondido sob o aluvião de temores e contrações. “Não faça força nos braços, relaxe. Respire fundo. Você está fazendo tudo certo”.

Seu marido, recém chegado da aventura no País da Burocracia, a segura por trás, tentando lhe dar um duplo suporte: físico e emocional. Sorri das minhas piadas, e ensaia uma gargalhada quando, no pico da contração ela grita: “Ricardoooooo“.

“Quando me chamam assim é porque falta pouco“, expliquei sorrindo, mesmo que a visão dos cabelos negros de seu bebê brotando da vulva fosse uma evidência suficiente e muito mais clara.

Nesse momento ela interrompe suas vãs tentativas de se arrumar na mesa de parto, e a forma desajeitada de se acocorar, e me pede, quase envergonhada:

“Quero ir para o chão, posso?”

As faces dos três, marido, doula e paciente, me olham, e nesse momento ficou – mais uma vez – claro o inquestionável caráter invisível, e por isso mesmo potente, dos pressupostos do patriarcado a regular as tensões de poder na atenção ao parto.

Que poderia eu responder? Como poderia eu questionar a decisão de mudança de postura para uma outra, a qual a paciente intuía como mais adequada?

Minha resposta foi “Claro, desça daí”. Ajustamos os campos estéreis sob seus pés e pela primeira vez ela se sentiu absolutamente confortável. As plantas dos pés firmemente fixas no piso da sala lhe davam a força que lhe faltava, tanto quanto os braços do marido lhe amparavam e comunicavam confiança.

Subvertidas as leis, modificados os protocolos, trocadas as posições de poder e seu bebê despontou com mais vigor. Dois ou três esforços e ele chegava aos seus braços corado e triunfante.

Risos, gargalhadas, observações emocionadas e uma torrente de palavras, gesto e lágrimas a cobrir de significados o pequeno sujeito que chegava ao nosso convívio. “Um cidadão que testemunhará o século XXII“, pensei, se é que um dia chegaremos tão longe.

Ao sair, penso no pedido que ela me fez. “Posso?”, disse ela. O modelo autoritário e patriarcal do parto se mistura com o nitrogênio da atmosfera e compõe os gases que respiramos. Mulheres ainda pedem licença para livremente escolherem a melhor posição para jogar seu bebê em nosso colo, como se houvesse em qualquer um dos assistente um órgão sensor capaz de sentir o corpo viscoso de seu bebê melhor do que ela própria.

Sem reconhecer a sabedoria inata, visceral e celular que cada mulher tem para parir nunca conseguiremos progredir no entendimento do parto e da sua assistência. Cabe aos novos profissionais encarregados dessa atenção a dura tarefa de abandonar suas capas de autoritarismo, para assim, leves e livres, poderem sentir a poderosa energia que emana do nascimento.

Quem sabe até o século XXII chegar isso será uma realidade. Quem viver, verá._

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Caneta

Caneta

A piadinha autodepreciativa mais comum na minha época de doutorando e residente era feita pelos professores e contratados durante os episódios tediosos de espera no centro obstétrico.

“Qual a definição de médico?”, diziam eles com cara debochada.

Os alunos ficavam se entreolhando e esperando pela bobagem que inevitavelmente viria.

Depois de um breve silencio, a resposta:

“Um médico é um sujeito que tem um fusca, uma caneta Parker e um par de chifres”

Ra, ra, ra… todos os sorrisos tingiam de amarelo a sala do cafezinho.

A foto abaixo é da caneta Parker que meu pai me deu como presente de formatura. Ali se lê 13-12-85. Já se passaram três décadas desta data.

O fusca vendi há muitos anos.

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Tigrão

Tigrao

Aconteceu agora. Toca o telefone que só as grávidas conhecem. Atendo imaginando quem poderia estar em trabalho de parto. Uma voz de mulher jovem me pergunta:

– Alô, é da casa do Tigrão?

Fico em silêncio por instantes. Não conheço a voz. Que dizer?

– Talvez, respondo eu.

– Como assim “talvez”?, indagou a moça.

Ainda sem saber direito o que dizer, respondi a ela:

– Minha flor, sempre sonhei escutar isso de uma mulher. Infelizmente não sou o Tigrão, mas agradeço por ter ligado.

Ela deu uma sonora gargalhada. Explicou que Tigrão é o seu pai, pediu desculpas ainda rindo e se despediu.

Tigrão. Ai, ai…

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Eu Odeio Ser Mãe…

Rola pela Internet um texto que fala das agruras da maternidade e da quantidade enorme de mulheres que odeiam ser mães. É claro que os relatos das dificuldades são verdadeiros e reais; não há dúvida de de que o nascimento de um filho impõe – em especial às mulheres – um peso muito grande e uma enorme mudança paradigmática. É inquestionável a dureza da parentalidade, em especial num mundo em que para as crianças não basta mais o suprimento de suas necessidades básicas (comer, beber, ser amada, vestir-se, etc.), pois que já nascem envolvidas num universo de desejos infinitos e insaciáveis.

Por outro lado, depois de conviver por 35 anos ao lado das mulheres grávidas, resta uma dúvida e uma desconfiança. Se são verdadeiras as queixas e a tonelagem de atribuições massacrantes sobre as mães, as quais tornam insuportáveis a vida de relação e o prazer, fazendo da existência um tormento infrutífero e vazio, por que ainda está fixo na parede da minha memória aquele sorriso que teima em brotar de seus lábios? Qual a razão de ser daquelas meninas que, entre orgulhosas e emocionadas, estendem a mão em minha direção segurando, ainda trêmulas, um mísero pedaço de papel timbrado onde, no meio de letras espalhadas, números, datas e logotipos, sobressai uma única palavra, que faz seus olhos marejarem apenas por repeti-la?

“POSITIVO”, dizem elas com seus sorrisos enfeitiçados.

A história de dor, que a ninguém cabe duvidar, existente em cada gestação não pode ser completa sem que esse sorriso enigmático seja colocado na equação.

Como sempre acontece com esses textos sobre os “horrores da maternidade”, eles contam a dureza do trabalho sem relatar (espertamente) o gozo. Todos eles, sem exceção, mostram um fato pincelado com as tintas do sacrifício, escondendo a energia poderosa e libidinal que nos empurra em direção a esse precipício. O que há para além da dor que teimamos em omitir?

Eu poderia escrever o mesmo texto, usando as MESMAS palavras e copiando uma igual arquitetura para relatar as agruras de ter, por exemplo, um relacionamento afetivo.

* Sarcasm notification *

“Eu odeio ter namorado(a)”. Alguém é capaz de negar que tal condição implica na perda da liberdade, sobressaindo-se as críticas, a angústia, a saudade, a mudança de perspectivas, o afastamento dos antigos amigos, os ciúmes e o medo corrosivo e destruidor de perder seu amor?

Tudo isso é verdade, e mesmo assim as pessoas continuam acreditando que amar é bom!!!! Escrevem livros sobre isso, romantizam relacionamentos, colocam fotos de casais felizes e as pessoas perdem a cabeça com aparente felicidade. Fazem até filhos para materializar essa alegria transbordante.

É tudo mentira!!!!

Na verdade as pessoas se escravizam mutuamente, mentem e se enganam. Mal se suportam e depois, sem que possamos perceber, regam seus travesseiros no meio da madrugada com as lágrimas do arrependimento e da desesperança.

Não é verdadeira ou real essa fábula do amor. As pessoas se “juntam” apenas por serem pressionadas pelo capitalismo a comprar fogões e geladeiras numa falsidade insuportável guiada pela sociedade de consumo. Somos marionete do capitalismo, fazendo dívidas e filhos apenas para dar conta do mercado.

Amar o outro é uma fraude, uma obrigação social criada pelo sistema escravizante que nos governa e aprisiona. Lutar para garantir o seu amor nada mais é do que esforçar-se na compra da própria prisão. Não é por acaso que “esposa” em espanhol se diz “algema”, alma gêmea.

Amar é a mentira que sempre nos contaram, deixando de lado todo o sofrimento e humilhação que acompanha este ato ingênuo e suicida. A dor de amar, de comprometer-se com alguém, não vale a pena ser paga. Somente os tolos e covardes admitem a escravidão como lenitivo amargo para escapar à solidão.

Mas… então, como explicar aquele sorriso? Será que perdemos algum detalhe pelo caminho?

Não se trata de colocar um “lado trash” da maternidade, mas de exaltar o espinho escondendo o perfume. O texto ao qual me referia não é reflexivo; é prescritivo. Por isso senti um desconforto ao me deparar com ele pois, ao invés de apontar para o fim das idealizações, aponta para OUTRA, mas com sinal invertido. Para combater o “padecer no paraíso” cria o mito da gravidez paralisante, que aprisiona mulheres sem nenhuma contrapartida de alegria ou prazer. Engravidar e ter filhos é uma “merda” (talvez porque a sua tenha sido, mas isso não implica em prescrever essa imagem para todas).

O texto peca pela falta de perspectiva e ausência de compreensão sobre a transcendência desta construção humana. Se é verdade que as mulheres são “escravas de sua raça e os homens escravizados pelas mulheres” também é verdade que a única razão pela qual esse sistema faz sentido é pelo misterioso elemento que lhe oferece sentido: o amor. Mas pode chamá-lo de desejo se “amor” lhe parece por demais assustador.

Entretanto, analisar um filho – ou um afeto – através dos olhos da praticidade ou da operacionalidade é desconfigurar a essência mais profunda do que nos torna humanos. Sem essa pitada de amor nada pode brotar do caldo de vida que nos constitui.

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Tecnologias

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Esta manhã estive conversando pelo inbox do Facebook com uma parteira recém formada (midwife) sobre um aumento de PCR pós parto. Ela é minha amiga há alguns anos, é búlgara e mora em Sófia, na Bulgária. Ao mesmo tempo eu dava orientações a respeito de uma ecografia com suspeita de circunferência cefálica reduzida, conjugada com a perda de tampão, para uma paciente que mora no Vietnã. Tudo isso no meu smartphone enquanto tomava café.

Se alguém me contasse isso há meros 20 anos eu diria que se tratava de fantasia tirada de livros juvenis de ficção científica. Seria impossível acreditar que um dia seríamos capazes de tais proezas.

O mundo virou MESMO, uma “aldeia global”, como havia previsto Marshall McLuhan no final dos anos 70. Somos conectados de forma instantânea com qualquer parte do planeta, e isso nos oferece um senso de “ubiquidade virtual” inédito nas sociedades humanas, a ponto de a tecnologia nos transportar para os mais distantes lugares de uma maneira que nos lembra pura magia.

Nossos filhos e netos serão educados nesse novo planeta minúsculo, praticamente sem distâncias reais, oportunizando a eles uma consciência mais planetária e menos tribal, de onde emergirá a verdadeira solidariedade humana baseada em valores universais.

Os jovens eu invejo por poderem testemunhar este novo mundo de proximidades crescentes. Não se deixem jamais capturar na armadilha do pessimismo e cultivem um olhar de esperança para o mundo que se descortina à sua frente. E, acima de tudo, ajudem a construir essa sociedade sem barreiras, a qual só me resta tempo para… sonhar.

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Bom Humor

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Bom humor no CO do hospital.

Sábado à tarde, 40 graus à sombra, Porto Alegre vazia e incandescente. O obstetra entra no CO, cumprimenta a enfermeira, suspira com desânimo e exclama:

– Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar sequestrando, mas estou aqui atendendo parto no verão.

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Esperança

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Tiro uma calça pendurada no calceiro e visto apressadamente antes de sair para o trabalho. Coloco a chave do carro no bolso da frente, a carteira no bolso posterior direito e, quando estou ajustando a calça, percebo um papel no bolso do outro lado.

Coloco a mão no bolso chapado de trás e mexo delicadamente o papel. Sinto a textura e o tamanho. O som do papel especial produz um barulho característico e inconfundível. O papel dobrado em dois roça em si mesmo sob a pressão dos meus dedos e sinto as pequenas irregularidades de tinta em sua superfície. Meu coração dispara e penso que hoje deve estar reservado um grande presente do universo.

Fecho os olhos e volto minha cabeça para o alto, enquanto minha mente em profunda oração silenciosa diz para si mesma: “cinquenta, senhor, cinquenta…”

Chega o momento da verdade e minha mão sai do bolso trazendo a pequena folha dobrada. Trago para a frente dos olhos, que se mantém fechados, em profunda conexão espiritual com as forças que comandam a prosperidade cósmica.

As pálpebras se abrem lentamente e a cor do papel se mostra com vagar.

Mas…. é azul o que o destino me ofereceu. Não é cinquenta; é dois.

Eu pergunto aos crentes e crédulos: Onde está Deus agora? Depois de todas as minhas preces é mesmo meio cafezinho a totalidade do meu merecimento?

Que papelão, meu Deus.  Depois reclama quando fazem marchas por Satanás..

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Desprezo

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Hoje escutei alguém falando mal de mim. Na verdade, coisas que eu escuto há muitos anos, e qualquer médico que defende o parto normal já escutou. Nada de novo no front. Entretanto, a opinião dos pares sempre nos afeta, de uma forma ou de outra. A maledicência, a injustiça e a crítica mordaz nos atingem sem dó, mesmo quando sacudimos nossos ombros para cima e rimos com falso desprezo.

Morro de inveja quando escuto pessoas me dizendo “Eu não me importo com o que as pessoas falam de mim. Não estou nem aí“. Comigo nunca foi assim. Eu me importo, e muito.

Lembro do meu filho dizendo, com uma maturidade que se manifesta até hoje, da importância que depositava na opinião alheia. “Todas as coisas que eu faço, das mais singelas às mais difíceis, eu as faço só pra me exibir“, dizia ele, mal passando de uma dezena de anos. Se a motivação era o olhar do outro, sua aprovação ou mesmo a censura, esta consideração não poderia jamais ser desprezível.

Dizer da importância da opinião alheia não é o mesmo que aceitar seu jugo inconteste. Significa apenas reconhecer seu impacto na construção do que somos. Não precisamos modular nossas ações e atitudes em função do conceito que fazem de nós, mas não é justo desconsiderar que somos construídos por este olhar, que nos informa o que somos e que espaço ocupamos.

Não há como fugir de uma certa tristeza, uma amargura, mas sempre considerei esse o peso a carregar pela ousadia de pensar com a própria cabeça. Traçar seu próprio caminho é sempre uma atitude subversiva. Receber o rechaço de quem percorre as velhas estradas – as quais você explicitamente evitou – é o inevitável preço a pagar.

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Espiritualidade

Espiritualidade

Vejo muitos espiritualistas e/ou cientistas buscando incansavelmente uma comprovação da sobrevivência da alma, a perpetuação do Ego, que seja factual e insofismável o suficiente para sepultar o materialismo e a descrença.

De minha parte, eu tenho expectativas bem mais humildes e limitadas. Ao contrário de uma prova científica, definitiva e inquestionável da vida após a morte eu queria apenas uma experiência mística, subjetiva, pessoal e forte o suficiente para varrer toda e qualquer dúvida do meu coração, mesmo que esta epifania jamais pudesse ser passada adiante ou comprovada, permanecendo para sempre como algo absolutamente pessoal, escondida nas minhas lembranças e reminiscências.

Assim, quando o adeus e a saudade se aproximarem de minha breve existência, poderei de me agarrar a esta certeza pessoal – a vívida experiência mística da imortalidade – para que os meus últimos anos não sejam marcados pela tristeza e pela desesperança.

“Senhor, se tens algo a me dizer, que o diga agora. Estou pronto a receber sua mensagem. Tudo o que desejo é um aviso, uma prova, um sinal”

Silêncio.

O telefone toca. Assustado atendo. Uma voz de criança me diz:

– Vovô, posso ir na tua casa ver Peppa?

Obrigado, senhor. Obrigado.

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