A piadinha autodepreciativa mais comum na minha época de doutorando e residente era feita pelos professores e contratados durante os episódios tediosos de espera no centro obstétrico.
“Qual a definição de médico?”, diziam eles com cara debochada.
Os alunos ficavam se entreolhando e esperando pela bobagem que inevitavelmente viria.
Depois de um breve silencio, a resposta:
“Um médico é um sujeito que tem um fusca, uma caneta Parker e um par de chifres”
Ra, ra, ra… todos os sorrisos tingiam de amarelo a sala do cafezinho.
A foto abaixo é da caneta Parker que meu pai me deu como presente de formatura. Ali se lê 13-12-85. Já se passaram três décadas desta data.
Aconteceu agora. Toca o telefone que só as grávidas conhecem. Atendo imaginando quem poderia estar em trabalho de parto. Uma voz de mulher jovem me pergunta:
– Alô, é da casa do Tigrão?
Fico em silêncio por instantes. Não conheço a voz. Que dizer?
– Talvez, respondo eu.
– Como assim “talvez”?, indagou a moça.
Ainda sem saber direito o que dizer, respondi a ela:
– Minha flor, sempre sonhei escutar isso de uma mulher. Infelizmente não sou o Tigrão, mas agradeço por ter ligado.
Ela deu uma sonora gargalhada. Explicou que Tigrão é o seu pai, pediu desculpas ainda rindo e se despediu.
Rola pela Internet um texto que fala das agruras da maternidade e da quantidade enorme de mulheres que odeiam ser mães. É claro que os relatos das dificuldades são verdadeiros e reais; não há dúvida de de que o nascimento de um filho impõe – em especial às mulheres – um peso muito grande e uma enorme mudança paradigmática. É inquestionável a dureza da parentalidade, em especial num mundo em que para as crianças não basta mais o suprimento de suas necessidades básicas (comer, beber, ser amada, vestir-se, etc.), pois que já nascem envolvidas num universo de desejos infinitos e insaciáveis.
Por outro lado, depois de conviver por 35 anos ao lado das mulheres grávidas, resta uma dúvida e uma desconfiança. Se são verdadeiras as queixas e a tonelagem de atribuições massacrantes sobre as mães, as quais tornam insuportáveis a vida de relação e o prazer, fazendo da existência um tormento infrutífero e vazio, por que ainda está fixo na parede da minha memória aquele sorriso que teima em brotar de seus lábios? Qual a razão de ser daquelas meninas que, entre orgulhosas e emocionadas, estendem a mão em minha direção segurando, ainda trêmulas, um mísero pedaço de papel timbrado onde, no meio de letras espalhadas, números, datas e logotipos, sobressai uma única palavra, que faz seus olhos marejarem apenas por repeti-la?
“POSITIVO”, dizem elas com seus sorrisos enfeitiçados.
A história de dor, que a ninguém cabe duvidar, existente em cada gestação não pode ser completa sem que esse sorriso enigmático seja colocado na equação.
Como sempre acontece com esses textos sobre os “horrores da maternidade”, eles contam a dureza do trabalho sem relatar (espertamente) o gozo. Todos eles, sem exceção, mostram um fato pincelado com as tintas do sacrifício, escondendo a energia poderosa e libidinal que nos empurra em direção a esse precipício. O que há para além da dor que teimamos em omitir?
Eu poderia escrever o mesmo texto, usando as MESMAS palavras e copiando uma igual arquitetura para relatar as agruras de ter, por exemplo, um relacionamento afetivo.
* Sarcasm notification *
“Eu odeio ter namorado(a)”. Alguém é capaz de negar que tal condição implica na perda da liberdade, sobressaindo-se as críticas, a angústia, a saudade, a mudança de perspectivas, o afastamento dos antigos amigos, os ciúmes e o medo corrosivo e destruidor de perder seu amor?
Tudo isso é verdade, e mesmo assim as pessoas continuam acreditando que amar é bom!!!! Escrevem livros sobre isso, romantizam relacionamentos, colocam fotos de casais felizes e as pessoas perdem a cabeça com aparente felicidade. Fazem até filhos para materializar essa alegria transbordante.
É tudo mentira!!!!
Na verdade as pessoas se escravizam mutuamente, mentem e se enganam. Mal se suportam e depois, sem que possamos perceber, regam seus travesseiros no meio da madrugada com as lágrimas do arrependimento e da desesperança.
Não é verdadeira ou real essa fábula do amor. As pessoas se “juntam” apenas por serem pressionadas pelo capitalismo a comprar fogões e geladeiras numa falsidade insuportável guiada pela sociedade de consumo. Somos marionete do capitalismo, fazendo dívidas e filhos apenas para dar conta do mercado.
Amar o outro é uma fraude, uma obrigação social criada pelo sistema escravizante que nos governa e aprisiona. Lutar para garantir o seu amor nada mais é do que esforçar-se na compra da própria prisão. Não é por acaso que “esposa” em espanhol se diz “algema”, alma gêmea.
Amar é a mentira que sempre nos contaram, deixando de lado todo o sofrimento e humilhação que acompanha este ato ingênuo e suicida. A dor de amar, de comprometer-se com alguém, não vale a pena ser paga. Somente os tolos e covardes admitem a escravidão como lenitivo amargo para escapar à solidão.
Mas… então, como explicar aquele sorriso? Será que perdemos algum detalhe pelo caminho?
Não se trata de colocar um “lado trash” da maternidade, mas de exaltar o espinho escondendo o perfume. O texto ao qual me referia não é reflexivo; é prescritivo. Por isso senti um desconforto ao me deparar com ele pois, ao invés de apontar para o fim das idealizações, aponta para OUTRA, mas com sinal invertido. Para combater o “padecer no paraíso” cria o mito da gravidez paralisante, que aprisiona mulheres sem nenhuma contrapartida de alegria ou prazer. Engravidar e ter filhos é uma “merda” (talvez porque a sua tenha sido, mas isso não implica em prescrever essa imagem para todas).
O texto peca pela falta de perspectiva e ausência de compreensão sobre a transcendência desta construção humana. Se é verdade que as mulheres são “escravas de sua raça e os homens escravizados pelas mulheres” também é verdade que a única razão pela qual esse sistema faz sentido é pelo misterioso elemento que lhe oferece sentido: o amor. Mas pode chamá-lo de desejo se “amor” lhe parece por demais assustador.
Entretanto, analisar um filho – ou um afeto – através dos olhos da praticidade ou da operacionalidade é desconfigurar a essência mais profunda do que nos torna humanos. Sem essa pitada de amor nada pode brotar do caldo de vida que nos constitui.
Esta manhã estive conversando pelo inbox do Facebook com uma parteira recém formada (midwife) sobre um aumento de PCR pós parto. Ela é minha amiga há alguns anos, é búlgara e mora em Sófia, na Bulgária. Ao mesmo tempo eu dava orientações a respeito de uma ecografia com suspeita de circunferência cefálica reduzida, conjugada com a perda de tampão, para uma paciente que mora no Vietnã. Tudo isso no meu smartphone enquanto tomava café.
Se alguém me contasse isso há meros 20 anos eu diria que se tratava de fantasia tirada de livros juvenis de ficção científica. Seria impossível acreditar que um dia seríamos capazes de tais proezas.
O mundo virou MESMO, uma “aldeia global”, como havia previsto Marshall McLuhan no final dos anos 70. Somos conectados de forma instantânea com qualquer parte do planeta, e isso nos oferece um senso de “ubiquidade virtual” inédito nas sociedades humanas, a ponto de a tecnologia nos transportar para os mais distantes lugares de uma maneira que nos lembra pura magia.
Nossos filhos e netos serão educados nesse novo planeta minúsculo, praticamente sem distâncias reais, oportunizando a eles uma consciência mais planetária e menos tribal, de onde emergirá a verdadeira solidariedade humana baseada em valores universais.
Os jovens eu invejo por poderem testemunhar este novo mundo de proximidades crescentes. Não se deixem jamais capturar na armadilha do pessimismo e cultivem um olhar de esperança para o mundo que se descortina à sua frente. E, acima de tudo, ajudem a construir essa sociedade sem barreiras, a qual só me resta tempo para… sonhar.
Sábado à tarde, 40 graus à sombra, Porto Alegre vazia e incandescente. O obstetra entra no CO, cumprimenta a enfermeira, suspira com desânimo e exclama:
– Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar sequestrando, mas estou aqui atendendo parto no verão.
Tiro uma calça pendurada no calceiro e visto apressadamente antes de sair para o trabalho. Coloco a chave do carro no bolso da frente, a carteira no bolso posterior direito e, quando estou ajustando a calça, percebo um papel no bolso do outro lado.
Coloco a mão no bolso chapado de trás e mexo delicadamente o papel. Sinto a textura e o tamanho. O som do papel especial produz um barulho característico e inconfundível. O papel dobrado em dois roça em si mesmo sob a pressão dos meus dedos e sinto as pequenas irregularidades de tinta em sua superfície. Meu coração dispara e penso que hoje deve estar reservado um grande presente do universo.
Fecho os olhos e volto minha cabeça para o alto, enquanto minha mente em profunda oração silenciosa diz para si mesma: “cinquenta, senhor, cinquenta…”
Chega o momento da verdade e minha mão sai do bolso trazendo a pequena folha dobrada. Trago para a frente dos olhos, que se mantém fechados, em profunda conexão espiritual com as forças que comandam a prosperidade cósmica.
As pálpebras se abrem lentamente e a cor do papel se mostra com vagar.
Mas…. é azul o que o destino me ofereceu. Não é cinquenta; é dois.
Eu pergunto aos crentes e crédulos: Onde está Deus agora? Depois de todas as minhas preces é mesmo meio cafezinho a totalidade do meu merecimento?
Que papelão, meu Deus. Depois reclama quando fazem marchas por Satanás..
Hoje escutei alguém falando mal de mim. Na verdade, coisas que eu escuto há muitos anos, e qualquer médico que defende o parto normal já escutou. Nada de novo no front. Entretanto, a opinião dos pares sempre nos afeta, de uma forma ou de outra. A maledicência, a injustiça e a crítica mordaz nos atingem sem dó, mesmo quando sacudimos nossos ombros para cima e rimos com falso desprezo.
Morro de inveja quando escuto pessoas me dizendo “Eu não me importo com o que as pessoas falam de mim. Não estou nem aí“. Comigo nunca foi assim. Eu me importo, e muito.
Lembro do meu filho dizendo, com uma maturidade que se manifesta até hoje, da importância que depositava na opinião alheia. “Todas as coisas que eu faço, das mais singelas às mais difíceis, eu as faço só pra me exibir“, dizia ele, mal passando de uma dezena de anos. Se a motivação era o olhar do outro, sua aprovação ou mesmo a censura, esta consideração não poderia jamais ser desprezível.
Dizer da importância da opinião alheia não é o mesmo que aceitar seu jugo inconteste. Significa apenas reconhecer seu impacto na construção do que somos. Não precisamos modular nossas ações e atitudes em função do conceito que fazem de nós, mas não é justo desconsiderar que somos construídos por este olhar, que nos informa o que somos e que espaço ocupamos.
Não há como fugir de uma certa tristeza, uma amargura, mas sempre considerei esse o peso a carregar pela ousadia de pensar com a própria cabeça. Traçar seu próprio caminho é sempre uma atitude subversiva. Receber o rechaço de quem percorre as velhas estradas – as quais você explicitamente evitou – é o inevitável preço a pagar.
Vejo muitos espiritualistas e/ou cientistas buscando incansavelmente uma comprovação da sobrevivência da alma, a perpetuação do Ego, que seja factual e insofismável o suficiente para sepultar o materialismo e a descrença.
De minha parte, eu tenho expectativas bem mais humildes e limitadas. Ao contrário de uma prova científica, definitiva e inquestionável da vida após a morte eu queria apenas uma experiência mística, subjetiva, pessoal e forte o suficiente para varrer toda e qualquer dúvida do meu coração, mesmo que esta epifania jamais pudesse ser passada adiante ou comprovada, permanecendo para sempre como algo absolutamente pessoal, escondida nas minhas lembranças e reminiscências.
Assim, quando o adeus e a saudade se aproximarem de minha breve existência, poderei de me agarrar a esta certeza pessoal – a vívida experiência mística da imortalidade – para que os meus últimos anos não sejam marcados pela tristeza e pela desesperança.
“Senhor, se tens algo a me dizer, que o diga agora. Estou pronto a receber sua mensagem. Tudo o que desejo é um aviso, uma prova, um sinal”
Silêncio.
O telefone toca. Assustado atendo. Uma voz de criança me diz:
Com o seu bebê ainda manchado com as cores do nascer, aconchegado em seus braços, recém inflando de ar os pulmões úmidos, ela tem o gosto doce de um parto veloz nos lábios. Atônita, ela se vira para mim e fala, entre confusa e incrédula:
– É muito louco, sabe. Quando sai a cabeça do bebê e parece um boneco, mas é um ser humano. E aí vem o resto e é vivo, se mexe e respira. É uma pessoa!!Tudo isso é muito maluco. É incrível…
Sorri da sua surpresa. Para ela uma aventura inesquecível e uma emoção corporificada, marcada no corpo; uma agitação dos sentidos. Para mim a reafirmação do mistério, do inacessível e do oculto.
– Se para você é “muito louco”, imagine o que eu sinto. Loucura é a mais suave das definições. Viagem, barato, êxtase… não importa; qualquer palavra será sempre insuficiente para descrever o indescritível.
Pensando bem, creio que humanos que não são “direitos” – de acordo com nossa lógica branca, europeia e capitalista – não merecem os direitos que as pessoas de bem possuem. Direitos humanos devem ser preservados apenas para aqueles que se comportam bem, de acordo com critérios que as próprias pessoas de bem estabelecem. Sendo assim, aqueles que não se adaptam à estratificação social e se rebelam contra a ordem estabelecida são sub-humanos.
Da mesma forma como criamos gado para abate, essas pessoas, que se situam abaixo da linha de humanidade, também podem ser abatidas se não forem mais úteis para a humanidade (nós). Eliminar os “não direitos” deixa, portanto, de ser assassinato, ou mesmo crime, e passa a ser “eliminação”. Podemos também chamar esta retirada compulsória do nosso convívio como “retirement”, aposentadoria, como em Blade Runner.
Certo?
Não. Sem entender que a condição humana precede qualquer aspecto moral – e que o resguardo dessa condição é o fundamento da civilização – nada teremos além da barbárie institucionalizada, uma sociedade divorciada dos seus princípios mais fundamentais de igualdade, solidariedade e fraternidade
Direitos humanos para humanos sujeitos. Cláusula inegociável da civilidade.