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Sobre os Poderes

Pessoas poderosas (imagine aqui qualquer uma, dos políticos aos artistas) sofrem pela terrível pressão do poder. Eu não sei exatamente como é isso – sou um mísero parteiro da província – mas posso ter uma ideia do que seja este peso pelas experiências reveladoras pelas quais passei. Uma delas foi importante, e a ela sou muito grato.

Quando eu servi como militar nos primórdios da década de 90, fiquei de início – como qualquer calouro – muito intrigado e impactado com o modelo hierárquico rígido existente na unidade médica em que eu trabalhava como obstetra. É importante destacar que as hierarquias são absolutamente necessárias em um modelo que prepara homens para o combate. Não fosse assim, existiria um exemplo de “exército democrático” na história da civilização, mas isso obviamente nunca ocorreu. A rigidez desses níveis de poder e responsabilidade são fundamentais para certas ações que ocorrem nos cenários de guerra. Entretanto, para mim era estranho, e até constrangedor, que um sargento que tinha idade para ser meu pai precisasse me chamar de “senhor” (por eu ser um oficial médico) e eu fosse obrigado a chama-lo de “tu”, mesmo sendo ele muito mais experiente e maduro do que eu. Apesar de entender a lógica por trás dessa determinação, o costume de mais de 30 anos com a vida fora da caserna produzia em mim esse “choque de valores”. Quando por fim me acostumei com esse modelo (muito à contragosto e de maneira forçada) eu prometi a mim mesmo que, exatamente por ser um oficial temporário, jamais usaria esse tipo de prerrogativa – a patente militar – como um argumento válido em uma disputa qualquer.

Entretanto, certo dia, lá estava eu discutindo com um sargento sobre as famigeradas “escalas vermelhas”, que eram as escalas de oficiais em fins de semana e feriados. Lá pelas tantas da conversa eu percebi que meu nome havia sido colocado em uma data muito inadequada. Não havia como estar de plantão, pois me faltava o “dom da ubiquidade”. Imediatamente expliquei ao sargento responsável que nesse dia específico eu estaria fazendo um curso (provavelmente minhas aulas de pós-graduação em homeopatia) e que eu poderia fazer este plantão em outra data, bastando para isso que trocassem meu nome pelo de um colega. O sargento me interrompeu dizendo que a escala já havia sido enviada para o “boletim” e que nada mais havia a fazer.

Virei uma fera. Expliquei que não poderia deixar de ir à aula por causa de uma burocracia e disse que chamasse o soldado de volta trazendo a escala e que, depois disso, trocasse a data que iria para o boletim. Ele respondeu que não faria isso, pois isso seria burlar uma regra existente sobre as escalas de plantão. Nesse momento, irritado pela negativa peremptória da “praça”, eu disparei: “Ah, você vai fazer isso sim, …sargento“. A última palavra estava frisada propositadamente, destacada para mostrar que eu estava dando uma ordem baseada na minha hierarquia, e não na minha razão ou na correção do meu pedido. Era violência, pura arrogância. O poder explicitado; a determinação inquestionável.

Imediatamente eu me lembrei do compromisso que havia assumido alguns poucos anos antes. Meu olhar inexpressivo fixou-se na parede em frente e o filme da minha “promessa” passou diante dos meus olhos, tal qual o filme que Pedro assistiu depois de negar o Mestre por três vezes. Petrifiquei-me em silêncio e, envergonhado, nada falei. Vi o sargento buscar a folha de escalas e trocar as datas na minha frente. Nada disse, nada comentei. Silenciei diante da minha escandalosa prepotência.

Um pouco de mim eu conheci naquele dia, e a partir de então pude entender a pressão que existe pela prática do poder. Eu falhei vergonhosamente no meu teste, e tive plena certeza desse fato. Eu por muito tempo cultivara a ingênua ilusão de que, mesmo tendo a possibilidade de dar ordens inadequadas em função de uma posição artificialmente construída pela corporação, eu jamais usaria tal prerrogativa em benefício próprio. Engano. Falhei como falham muitos os que subestimam a força coercitiva de uma posição de destaque. Errei como tantos os que acusam os corruptos, os assassinos e os ladrões, como se estivessem infensos à sedução de usar o poder – todo ou em parte – que lhe foi concedido ou conquistado. Errei ao supor que minhas frágeis convicções poderiam suportar o peso das necessidades egoísticas emergentes.

Publius Terentius Afer (Terêncio) já dizia: “Eu sou um homem, e nada do que é humano me é estranho”, e com isso nos ensinava que a iniquidade, a falha, o egoísmo, a vaidade e o medo, que tão facilmente percebemos nos outros, habita igualmente em nós. Apenas depois dos testes que a vida nos oferece é que podemos acreditar em nossos valores. Sem a prova da realidade, ficamos apenas com as palavras vazias e as boas intenções. Mas A Virtude espera mais do que belas citações; elas nos chamam à pratica dessas posturas.

Nossos amigos que abusam do poder provavelmente acreditam estar fazendo o melhor que podem diante do peso que carregam. Mesmo parecendo lícito combater e criticar o suborno, a corrupção, a mentira e a falsidade, também é verdadeiro que tais ações, quando analisadas subjetivamente, não podem ser alcançadas pelo nosso juízo pessoal. Para criticá-las talvez seja mesmo necessário caminhar os tais mil quilômetros usando os mocassins de quem as praticou.

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Plata por un Corazón Eterno

*articulista especialmente convidado, Roger Jones*

Miguelita Hernandez Santa Cruz de la Santíssima Concepción é uma bem sucedida jornalista de Tegucigalpa, Honduras. E graças ao seu radiante talento e simpatia diante das câmeras, torna-se apresentadora do mais famoso programa de auditório da América Central: “Plata Por Un Corazón Eterno”. Todas as semanas, ela oferece um milhão de lempiras ao casal que demonstrar que o amor “vale a pena”.

Mas, curiosamente, nunca, durante anos, qualquer casal ganhou o prêmio.

Até que um candidato aparece no programa. Ele está sozinho e diz, com olhar desafiador: “Quero provar, Miguelita… que vale a pena.”A apresentadora gosta dele:

“Ok, ok ! vamos para mais um Plata Por Un Corazón Eterno ! uma salva de palmas para o candidato ! uhuuuuu ! mas… e quem é o seu par ?”

O candidato responde em tom macho e sedutor:

“Você, Miguelita.”

“Ahahah, eu? ah, que bonitinho… ei… tá falando sério? gente ! ele tá falando sérioooooooo! ai pára de me olhar assim! nah… não pode… eu estou aqui para me darem esperança, apenas… e… ai, gente! olha a ousadia do rapaz! uhuuuuu!”

A plateia adora a ideia do destemido candidato, e grita pra Miguelita:

“Aceita!! aceita!! aceita!! aceita!! aceita!!”

Aos poucos o semblante de Miguelita transforma-se. Diante de todos, deixa de ser a apresentadora descontraída e segura, expondo, com desconcertante veracidade, a face feminil do seu desamparo, da sua solidão e do seu desejo por amor. O sorriso televisivo dá lugar à expressão da mais profunda tristeza. E, com os olhos úmidos, silencia diante dos gritos da plateia e dos telespectadores de todos os recantos de Honduras.

O candidato, olhando para as câmeras, propõe as regras:

“Se eu provar à Miguelita que o amor vale a pena, abdico de receber um milhão de lempiras… pois me sentirei o homem mais rico do mundo… mas se não conseguir provar… eu… eu cometerei suicídio… aqui nesse palco, diante de vocês… pois a minha vida não terá mais nenhum sentido… eu quero apenas uma noite, Miguelita… a noite de hoje.”

A plateia volta a gritar:

“Aceita! aceita! aceita! aceita! aceita!”

Após longos minutos de gritaria e suspense, Miguelita, atordoada e com o olhar perdido, pede auxílio à produção:

“Por favor, tragam-me o pacote com um milhão de lempiras.”

Miguelita, séria e morrendo de medo, recebe o embrulho com as cédulas e oferece ao candidato. Mas ele recusa o prêmio:

“Eu quero você, Miguelita.”

“Não… leve o dinheiro… você me provou… são as regras.”

Desta vez a turba histérica grita para o candidato:

“Não aceita! não aceita! não aceita!”

Miguelita ignora o desejo de seu público:

“Tome o dinheiro… vale muito mais do que uma noite comigo.”

“Não, Miguelita… uma noite com você vale muito mais do que um milhão de lempiras… uma noite com você vale uma vida… vale a minha vida…”

Mais gritaria no ambiente. Miguelita está tão apavorada que volta a se defender em sua personagem. E fala ao povo:

“Ai, gente ! agora eu não sei!! Agora eu não sei se esse homem é perfeito ou se é um pateta!! ahahahahah!! Até quinta que vem para mais um… Plata Por Un Corazón Eterno!! uhuuuuu!! eeeeehhh!!”

A apresentadora se despede do público e abandona o palco. Apesar de ainda faltar mais de uma hora para terminar o programa.

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O Capeta

Essa é uma velha piada da família. Meu filho Lucas, quando pequeno, adorava a música “Capeta”, que é muito antiga, mas foi relançada nos anos 80 pelo Sérgio Mallandro. No meu segundo livro, no capítulo chamado “Paternidade” eu falo dessa passagem quando menciono que…

“… Ele, então, sorriu graciosamente. Desfez a cara de choro e deu mais um salto. Pulou de satisfação. Girou, rodopiou. Lançou-se ao vazio. Gritou como se não houvesse espaço nem tempo. Cantou mais uma música de palavras embaralhadas. Sorriu um sorriso gigantesco e mágico. Talvez ele estivesse percebendo, na sua cabecinha prodigiosa de criança, que, ao seu lado, seu pai acabara de nascer.”

Pois nessa música o Lucas cantava “Onecy” e não adiantava a gente explicar que a letra da música era “Co-nhe-ci um capeta em forma de guri“. Ele sapateava e dizia que era assim e pronto. Um dia estávamos todos assistindo ao programa do Sérgio Mallandro na TV, em que as crianças se apresentavam num show de variedades, quando uma delas pediu para cantar uma música. Oferecendo o microfone, Sérgio Mallandro perguntou “Qual a música?”, ao que o menino (que tinha a idade do Lucas, uns 5 anos) respondeu “A música do Capeta!!”. Eu e a Zeza imediatamente chamamos o Lucas dizendo:

“Lucas, aprende agora como se fala. Presta atenção como é a letra verdadeira da música!!”.

Então a criança esperou os primeiros acordes do playback e disparou:


“O-necy, um Capeta em forma de guri!!”

Bem, fomos obrigados a escutar um “Eu não falei!!!“… e a partir desta data resolvemos que era inútil tentar dizer qualquer outra coisa. Hoje em dia até eu tenho sérias dúvidas sobre qual a verdadeira letra dessa canção…

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Função Paterna

Esse é é um tema que sempre me atraiu e que deveria ser mais explorado, já que o movimento de contracultura no mundo inteiro trouxe o pai para a sala de parto na esteira das profundas modificações dos papéis masculinos e femininos do pós-guerra. O tema é: “Função paterna no nascimento. O pai (dis)funcional”. Minha posição de homem presente no nascimento me propiciou muitos momentos delicados em que pude observar de uma forma evidente a função paterna no processo. Entre tantos, lembro-me do episódio de um parto que acompanhamos, eu e Zeza, em Coimbra Portugal.

Estávamos acompanhando um conhecido parteiro português, em um atendimento domiciliar. O local era ermo, distante da cidade; uma espécie de sítio bem afastado. Lá estava uma menina de uns 17 anos em suas dores. Primeiro filho, o namorado não passava dos 20, mas se comportava como se tivesse 16. Lá também se encontravam o pai da menina e a namorada deste (a mãe morava na Inglaterra). Ah, detalhe importante: eram todos ingleses, que moravam em Portugal. Lá pelas tantas, no período de transição, ela começou a fazer os resmungos que nós tão bem conhecemos, típicos da famosa “fase de transição”: “não aguento”. “parem tudo”, “me deixem”, “quero uma cesariana” e assim por diante. Continuou com esse comportamento por muitos minutos, enquanto na sala contígua, eu e o pai dela conversávamos, tentando desviar a atenção das tensões inexoráveis de um trabalho de parto. Num determinado momento, incomodado com as reclamações da menina, e sem sair da sala em que nos encontrávamos, o pai se levantou e bradou:  

– Escute aqui, pare com essa choradeira. Você escolheu isso. Vai continuar até o bebê nascer. Você não tem outra escolha. Agora feche a boca e se concentre em ganhar esse bebê!  

Ele disse isso no limite tênue que separa a “voz alta” do grito; entre a firmeza e a grosseria. Eu achei que o comportamento do pai havia resvalado para a rudeza desnecessária, mas o que se viu a seguir foi deveras interessante. Depois dos brados paternos só o que se ouviu foi o silêncio; mais nenhuma palavra, muxoxo, reclamação ou pedido. Apenas um leve ranger de dentes entremeado com suspiros profundos. Da sala contígua só podíamos imaginar o que ocorria no quarto, onde o parteiro acompanhava a parturiente, ladeada pela madrasta e por sua irmã. Mais alguns minutos e ouvimos os sons graves que anunciam um bebê achegando-se ao portal vaginal; o limite último do túnel que o leva à luz e à vida. As palavras exultantes do nosso amigo enfermeiro nos anunciaram a chegada do menino antes que ele pudesse chorar. As mulheres gritavam e podíamos escutar os seus abraços, mesmo que seja difícil definir a sonoridade que eles produzem. Alegria, lágrimas e a festa que tanto conhecemos.

O que restou como interrogação para mim foi a intervenção paterna, cortando um ciclo de vitimização, numa espiral de fragilidade que a estava levando a uma desistência. Sua voz firme e autoritária pode ter cumprido uma função que mesmo eu, no papel de médico, jamais poderia realizar. Para mim, havia, sim, alternativas. Não me caberia acabar com a possibilidade de desistência, pois que nunca poderia julgar os desafios que só ela poderia aquilatar. Desistir de um parto é, apesar da dor que possa nos causar, uma das alternativas legítimas. Mesmo que isso possa ser motivo de um eterno arrependimento, qualquer intervenção da equipe médica nessa decisão entra na categoria de “tutela”. Não nos cabe tomar esse tipo de deliberação; apenas a mulher pode decidir em que ponto de suas dores – do corpo ou da alma – ela considera ter alcançado o limite.  

Entretanto, a intervenção moral das palavras do pai teve um efeito apaziguador. Parecia que a ela faltavam o “limite”, a contenção e a borda. Quando ele bradou, exigindo que ela mantivesse seu propósito original, a mim pareceu que ela acordou (mesmo que ainda dentro do seu sonho de partolândia) para um compromisso maior, anteriormente firmado. Funcionou. Mesmo que seja um espaço impossível de ocupar por quem aceita o pleno protagonismo feminino no parto, tal ação com a marca da função paterna parece ter algum ensinamento a nos oferecer.

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No Texas, com Vitor e Bebel

Uma tarde de julho de 2011, na modorrenta cidade texana de Austin, eu trafegava na Capital of Texas Highway com minha filha Bebel Jones, de volta de Barton Creek Mall e em direção ao Barton Springs Swimming Pool, local ideal para nos refrescarmos do calor escaldante do verão texano. Ao passar exatamente pela ponte da I360 – um dos mais bonitos cartões postais da cidade de Austin – o locutor da rádio da UT – University of Texas – anunciou a próxima música a ser tocada. Disse que essa canção era do sul do Brasil, de um local próximo da Argentina, uma cidade chamada “Porto Alegre”. Ao ouvir a nossa cidade ser comentada com um sotaque anasalado texano eu e Bebel pulamos do assento. “Quem será?”, pensamos em uníssono mental. Quem estaria ali conosco, no Texas, representando a arte do sul do Brasil? Lupicínio? Alguma música regional? Música de gaudério?

Ele continuou sua fala elogiando o intérprete e compositor, chamando-o de “grande talento da música brasileira”. Finalmente nossa angústia chegou ao fim, e ele disse o nome do autor da próxima música. Eu e Bebel sorrimos ao ouvir o nome óbvio, dito pela voz enrolada do “speaker”. Sim, só poderia ser Vitor Ramil, e a música escolhida foi “Livro Aberto” do seu CD Satolep Sambatown. Abri o vidro do carro e coloquei a música no volume total. “Escutem, gringos, a música do Brasil!!”. Grande emoção, como se um pedaço dos meus valores e lembranças viesse me encontrar em um local distante através das ondas e da sonoridade de um rádio.

Esta é a Pennybacker Bridge em Austin, Texas, que passa por cima do Lake Austin. Eu me emociono sempre que passo por sobre ela, também porque me lembro da canção do Vitor Ramil e da companhia da minha filha Bebel Jones.

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O Poder Feminino

Rafael Bublitz nasceu há 16 anos em um parto domiciliar na cidade de Porto Alegre. Sua mãe teve os filhos em sua própria casa pela absoluta impossibilidade de se transferir para um hospital. Nunca houve tempo para isso; seus cinco filhos nasceram no aconchego do acanhado apartamento no bairro Cristal. Seus trabalhos de parto não contavam mais do que poucos minutos, e quando ao anoitecer o telefone gritava em minha casa era apenas para anunciar um fato já consumado: “Ela acabou de ganhar o bebê, doutor”, me repetia – sempre com a mesma entonação que misturava assombro e alegria – o seu orgulhoso marido Álvaro.

De tão impactado fiquei ao testemunhar estes nascimentos percebi que era necessário contar a história desses partos, tão puros, simples, rápidos e fáceis. Precisava dizer que o nascimento podia ser entendido de outra maneira, visto por uma ótica mais suave e lírica, e que talvez a forma técnica, fria e impessoal com a qual tratamos as mulheres nesse momento tão especial seja um dos mais importantes fatores para a “desumanização” de um momento tão rico em significados e formas de expressão.

Convencido da importância de não deixar que as histórias se percam no vazio das palavras não ditas, o nascimento de Rafael foi descrito no meu primeiro livro “Memórias do Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista” no capítulo “Madalena e os Mistérios do Nascer”.

Hoje “Madalena”, nome fictício da verdadeira mãe de Rafael, veio ao meu consultório com um sorriso no rosto e um jornal na mão. Queria me mostrar o que Rafael tinha escrito. O texto de seu filho havia sido selecionado entre centenas de alunos do ensino médio em um concurso literário cujo tema era “Amélia”. Sim, aquela mesma da música do Mário Lago. O tema, que se escondia por detrás do título, era a “mulher” e sua nova posição na sociedade contemporânea individualista e ocidental. Um imenso desafio para um garoto de 16 anos que sonha estudar direito. Pois Rafael resolveu tratar desse assunto abordando o “Poder Feminino”, e – talvez mesmo sem o perceber – fez uma linda homenagem à mãe poderosa e valorosa que, num ato de coragem e ousadia, recebeu seus filhos neste mundo como cidadãos, e não como pacientes.

Mesmo que o essencialismo de Rafael possa ser criticado, quando fala que “o papel feminino se define pela capacidade de ser mãe”, creio que sua exaltação da maternidade como expressão legítima do poder feminino é digna de elogios. Rafael Bublitz tem apenas 16 anos, e isso explica alguma falha, mas o que se mostra evidente é que um nascimento digno e respeitoso carrega consigo consequências que ultrapassam a nossa experiência imediata, produzindo um “imprint” indelével que marcará a alma por toda a existência.

Abençoadas sejam para sempre, todas as “Madalenas” que despertam para a importância de um nascimento pleno de PAZ.

Aqui o texto de Rafael Bublitz publicado no Jornal Zero Hora em 8 de agosto de 2012:

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Mudança de Paradigma

 “Dificil mundo este em que vivemos, onde é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”.
– Albert Einstein –

As lições mais importantes e impactantes para os profissionais da área da saúde resistentes às mudanças, também conhecidos como “os tecnocratas renitentes”, não são aquelas recheadas de evidências, e isso eu descobri da pior maneira possível, ao tentar convencer colegas que não se dispunham a me ouvir. As aulas brilhantes que durante minha vida inteira testemunhei sobre Cochrane, OMS, Ministério da Saúde, protocolos, etc. produzem efeito apenas para os que percebem que evidências são relevantes, e para aqueles que, depois de “sensibilizados”, entendem que seus paradigmas são apenas modelos que competem com outras formas alternativas. Os tais “paradigmas hegemônicos” estão nessa posição tanto pela capacidade de responder aos desafios que lhes são oferecidos quanto pela vinculação com o modelo econômico vigente (no caso o capitalismo). A tecnocracia cumpria todas essas reivindicações e, por essa razão, oferecia aos médicos as melhores respostas para os seus questionamentos. A humanização do nascimento veio problematizar a visão positivista da obstetrícia contemporânea ao incluir a questão do sujeito que gesta, junto com as específicas necessidades afetivas e psicológicas que traz para a cena de nascimento. Para estas questões a tecnocracia se oferece falha e deficiente e, assim, instala-se a crise.

Desta forma, oferecer aos profissionais da saúde evidências científicas mostra-se inútil sem que antes seja oferecida a eles a necessidade de calcar suas ações em provas contundentes de aplicação benéfica para o binômio mãebebê. Entretanto, a forma de sensibilizar profissionais para a “fraternidade instrumentalizada” não é pela via cognitiva, e sim pelos canais emocionais e afetivos. As ações de caráter analítico e racional se assentam sobre uma plataforma sólida de intuição e sentimento, para só depois poderem ser traduzidas. Podem observar: a mudança paradigmática dos profissionais que abraçam a causa da Humanização do Nascimento está forte e explicitamente marcada por fenômenos de ordem afetiva. Assim sendo, a ferramenta mais fundamental para oferecer uma alternativa ao modelo hegemônico não é (em primeira instância) oferecer provas e evidências de boas práticas. Antes é preciso que os profissionais que tratam do rito de passagem que chamamos “nascimento”, sintam a necessidade de mudar, de pensar fora da estreita caixa cartesiana, para só então aventurarem-se no mundo complexo, desconhecido e, por vezes, inóspito, do humanismo aplicado ao nascimento.

A abordagem, portanto, deve ser sistêmica e abrangente. Mais do que a razão, é preciso tocar corações E mentes ao mesmo tempo. Faz-se necessário abandonar a postura limitante da academia que insiste num biologicismo anacrônico como forma única de entender o fenômeno humano.

Minha entrada na humanização do nascimento se deu muito antes de compreender o significado e a importância das evidências científicas na condução da assistência ao parto. Tal mudança paradigmática se deu pela participação presencial no nascimento dos meus filhos. Os cheiros, as imagens, os silêncios entremeados com as guturalidades erotizadas de um nascimento me abriram um portal sensorial violento, que me permitiram adentrar no espaço afetivo-emocional do evento. Este lugar do “parto para além dos sentidos” somente muito tempo depois foi preenchido por uma explicação racional e científica. Eu tenho certeza que a arrogância cientificista nega tal caminho, mas afirmo que até mesmo as análises mais racionais e matemáticas se ancoram em fatos e lembranças caracteristicamente emocionais e primitivas. Einstein mesmo dizia que a imaginação era muito mais importante para o seu trabalho do que o conhecimento, o qual apenas seguia àquela. Disse o mestre: A imaginação é mais importante que
o conhecimento. O conhecimento é limitado; a imaginação envolve o mundo
. Cientistas criativos são essencialmente poetas das leis naturais e seus experimentos são os versos que escrevem com as letras da natureza. Imaginar que a razão seja a principal motivadora de nossas ações é negar a avassaladora força dos nossos sentimentos e desejos. Em verdade, “a racionalidade nada mais é do que um verniz
tênue e translúcido que se aplica sobre uma capa grossa de mitos irracionais, os quais envolvem um núcleo pulsante de medos ancestrais
“. Para mudar atitudes anacrônicas, muito mais do que lustrar o verniz aparente de nossa tímida racionalidade, é fundamental entender as origens emocionais e profundas de nossas condutas recalcitrantes.

Longe de mim, e dos objetivos desse texto, imaginar que a paternidade tenha essa força transformadora para todos que dela participam. Esse fenômeno é evidentemente subjetivo em essência. Em nenhum momento eu afirmo que essa experiência poderia ser reproduzida. Mas vejam bem: alguns hospitais modificaram posturas dos seus serviços após debate interno sobre evidências, o que não significa que tais condutas estejam nos corações e mentes das pessoas que lá trabalham. Tais modificações podem ocorrer por um fenômeno vertical, por determinação superior, e não por um real convencimento do cuidador. Estas alterações eu já vi em dezenas de lugares, inclusive em um que descrevo no meu livro segundo livro “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”; o hospital militar onde trabalhei por alguns anos. Lá a taxa de cesarianas despencou de 45 para 22% em dois meses depois que criamos um protocolo de assistência humanizada no hospital, muito simples e conciso. Entretanto, era uma determinação do serviço que funcionaria enquanto certas pessoas trabalhassem lá (eu, precisamente). Quando saí nada restou de humanização, porque meus colegas nunca foram verdadeiramente tocados por esse paradigma. Outro lugar em que eu trabalhei por pouco tempo foi em um hospital de periferia de uma capital do nordeste brasileiro. Durante os dias que lá estive alguns médicos experimentaram posição de cócoras para parir, deixaram de fazer tricotomias e enemas, pararam de estimular puxos prolongados e esperaram para cortar o cordão. Que aconteceu depois que dei as costas? Fácil prever…

Alguns serviços podem, sim, mudar com a abordagem racional, assim como podemos convencer pessoas de que suas atitudes podem produzir repercussões negativas em suas vidas, mas a gigantesca maioria não irá proceder dessa maneira. O modelo de “educação continuada” do MS, em que vários profissionais transitavam pelo Brasil divulgando o ideário da medicina baseada em evidências obteve resultados pífios na diminuição de cesarianas, por exemplo, mas acredito que tais resultados foram insatisfatórios em todos os parâmetros analisados. A resposta, na minha modestíssima opinião, tem a ver com a abordagem racionalista adotada, que não é capaz de mobilizar a plêiade de emoções, sentimentos e vinculações inconscientes que são as verdadeiras motivadoras das condutas médicas. Nós não deixamos de realizar episiotomias porque existem evidências em contrário! Fosse isso verdade ela teria acabado há décadas, bastaria que aprendêssemos na escola a inutilidade dessa cirurgia quando aplicada de rotina, e isso o sabemos desde 1983! O problema está em sabermos “conscientemente” e não “afetivamente”. Apenas deixamos de realizar tais intervenções porque (entre outras razões) a visão de uma vulva dilacerada nos mobiliza negativamente. Ou porque queremos honrar a experiência de um profissional que nos auxiliou no passado, como referência profissional. Ou qualquer outro significante do passado que nos tenha impregnado em nível emocional. Pode ser, em verdade, qualquer migalha ou fragmento de lembrança que se vincula a esse evento, catalisando afetos recônditos. Assim sendo, o que em essência nos modifica não está acessível à cognição. Trabalhar com os médicos apenas no verniz transparente (porém reluzente e superficial) do consciente nos faz perder a infinita magnitude das possibilidades. Pode nos oferecer a ilusão fátua de mudança, mas que se desfaz diante da primeira contrariedade, tal como o calor de uma tarde se desfaz com a deposição do sol no horizonte. As mudanças ocorrem da terra para o céu; do coração em direção às mentes. As modificações cognitivas não têm sustentação, pois não atingem o âmago diretivo do comportamento, que é afetivo e emocional.

Meu temor é que uma abordagem racionalista (e arrogante) das posturas humanistas leve a um efeito contrário: um fechamento das mentes. E isso pode acontecer porque contrapomos um sistema de ideias oferecendo em troca outro, e isso pode ocasionar um choque que é desnecessário. Uma caravana de missionários da “verdade obstétrica baseada em evidências” é tudo que não precisamos. A abordagem deve ser pela sedução e pelo redescobrimento da beleza da parturição, e a via para isso é emocional. Necessitamos ajudar nossos colegas para que despertem para o lúdico do parto, a beleza escondida nos gemidos e lágrimas e para que façam despertar o feminino que trazem dentro de si. Apenas depois que tal ação for realizada é que as evidências farão sentido e serão incorporadas às suas atitudes. Antes disso teremos apenas ações com corpo, todavia desprovidas de alma.

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