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Parto Adequado

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Fiquei sabendo que 10 mil cesarianas foram evitadas pelo programa “Parto Adequado”, cujo nome foi criado com um único objetivo: tirar o nome “humanização” dos projetos de incentivo ao parto normal. Como sabemos, os médicos sempre se ofenderam com essa palavra (“está nos chamando de desumanos?”). Essa diminuição de cesarianas e a consequente queda nas internações em UTI neonatal parece ser um bom indicador. Entretanto, quando percebemos que são realizadas mais de 1 milhão de cesarianas por ano, esta redução representa menos de 1% de todas as cirurgias realizadas no país.

Claro, o programa não foi aplicado no país inteiro, mas penso que sem mudar o paradigma médico intervencionista pelo modelo de parteria nenhuma mudança significativa e mensurável será percebida em um futuro próximo. Apesar dos resultados aparentemente promissores, o projeto “Parto Adequado” parece querer provar que é possível melhorar o atendimento ao parto dentro do velho paradigma, baseado na intervenção, no médico e no hospital.

Não creio…

A simples diminuição de cesarianas não fará a menor diferença. Estaremos evitando cesarianas a que preço? Podemos acabar trocando altas taxas de cesarianas por partos cheios de intervenções, além de acrescentar riscos decorrentes de uma atenção vaginalista, mas que mantém o mesmo viés centrado na intervenção.

Humanizar o nascimento é bem mais do que trocar um corte em cima por um mais em baixo.

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Moção de Apoio

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12 de dezembro de 2016 · 17:35

O Ódio ao Parto Domiciliar Planejado

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O parto domiciliar causa tanto ódio, raiva e produz tantos ataques da corporação médica mesmo sendo absolutamente desimportante do ponto de vista estatístico. Ele representa bem menos de 1% dos partos. Por que tanta raiva?

Se a segurança das pacientes fosse o temor, por que se admitem cesarianas a rodo quando sabemos cientificamente que elas multiplicam o risco de morte materna e neonatal, além de elevar exponencialmente os riscos de danos a ambos e produzir custos estratosféricos?

Se a segurança fosse a preocupação por que os hospitais privados não são obrigados a ter anestesistas de plantão exclusivos para a obstetrícia para dar conta de emergências obstétricas? A razão é que não se trata de oferecer segurança, mas de manter “controle”. Em sua casa a mulher está no comando e a corporação patriarcal não pode lhe lançar os olhos. Não se trata de “cuidar melhor”, mas de controlar esta mulher em seu momento mais íntimo. A medicina é um braço do patriarcado, ocupada em conservar e disseminar seus pressupostos. Ela é em essência, conservadora e em oposição aos movimentos que lutam pela liberdade da mulher.

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Icterícia

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Vejam bem, existe uma abordagem da icterícia neonatorum (o amarelão dos bebês ao nascer) por parte da “medicina evolucionista” que é muito criativa. Por volta de 70% dos recém nascidos nasce com algum nível de icterícia. Isso sempre foi interpretado como uma incompetência hepática do recém nascido que se resolve com luz ou apenas aguardar o tempo. Uma versão grave – e extremamente rara – desse transtorno passageiro é o “kernicterus“, um aumento muito grande com impregnação cerebral de bilirrubina. Em 30 anos atendendo partos nunca vi um caso assim.

Mas a novidade da interpretação darwinista é que talvez o aumento de bilirrubina seja benéfico e faz parte da adaptação do organismo à hiperoxigenação que ocorre depois do parto.

Os fetos vivem em um ambiente pobre em oxigênio. Não é à toa que nascem azulados, arroxeados; essa é sua cor natural no útero. No momento do nascimento e com o surgimento abrupto da respiração pulmonar o corpo do bebê é inundado com altas quantidades de oxigênio. O corpo todo se “oxida”, o que pode causar problemas, em especial para os receptores cerebrais. Para contrabalançar essa entrada abrupta de O2 no corpo o organismo lança mão de um potente antioxidante. Qual?

Isso mesmo, a bilirrubina. Ela se combina com o oxigênio absorvido e freia seus efeitos. Portanto, ao invés de entender como um “erro metabólico passageiro potencialmente perigoso” talvez seja mais útil olhar para a icterícia causada pela concentração de bilirrubina como um evento ADAPTATIVO milenarmente construído pelo nosso corpo para se adaptar ao ambiente aerado.

“O mundo não se descortina diferente procurando novas paisagens, mas construindo novos olhares”. (Marcel Proust)

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Manifesto

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Caríssimos amigos

Diante da publicação pelo CRM do meu estado, feita no dia 22/11/2016 no jornal Zero Hora referente à cassação do meu registro médico, gostaria de deixar claro que medidas judiciais estão sendo tomadas para a reversão dessa decisão autoritária, equivocada, violenta e que se choca contra os fatos relacionados com este evento. Este julgamento não se resume a um caso médico; para além das questões clínicas existe uma batalha POLÍTICA envolvendo a disputa entre dois modelos conflitantes. De um lado o paradigma médico que não reconhece as necessidades físicas, psíquicas, emocionais, psicológicas e espirituais das gestantes, considerando o parto um ato que se pareia a qualquer outra intervenção médica, onde o paciente é passivo e o médico o ator principal. De outro lado está o novo modelo, baseado nos direitos humanos reprodutivos e sexuais e que AGREGA ao atendimento seguro a atenção centrada na mulher, reconhecendo seus direitos e seus desejos em relação ao nascimento de seus filhos. Desta forma, pretendo demonstrar que este ato inquisitorial se insere em uma longa linha de violências cometidas sobre os profissionais da saúde que se posicionam contrários à violência institucional e que lutam contra o absurdo das cesarianas sem justificativa, as quais são um dos principais problemas de saúde pública no campo do nascimento humano.

1. O objeto dessa punição foi um parto domiciliar atendido há 6 anos passados, e esta é a principal razão da inconformidade do conselho de medicina. Trata-se de uma luta pelo controle da assistência, e não pela sua segurança. O parto ocorreu no domicílio e por razões de segurança o bebê foi transferido para o hospital. O óbito só ocorreu 24 horas depois. O bebê chegou ao hospital em boas condições. Não houve atropelos e nem atitudes precipitadas.

2. O atendimento respeitou os mais rigorosos protocolos europeus de atenção ao parto domiciliar. Infelizmente o CRM do meu estado mantém-se na caça aos profissionais que atendem parto fora do hospital, imaginando com isso poder atingir o soberano direito das mulheres de escolher o lugar de nascimento de seus filhos. A punição máxima de exclusão – para muitos juristas inconstitucional e, portanto, ilegal – visa atingir as lutas pela humanização do nascimento, e não é por acaso que o conselheiro responsável pelo julgamento em nível local é um conhecido inimigo feroz das propostas de humanização, do trabalho autônomo de doulas e enfermeiras obstetras e um defensor do modelo tecnocrático de atenção ao parto. A punição visa atingir não apenas o profissional, mas suas ideias e sua luta contra a violência obstétrica e o abuso de cesarianas em nosso meio. “Se não há como atingir a mensagem, atinja-se o mensageiro”. A mensagem da humanização do nascimento e da atenção domiciliar ao parto estão embasadas em evidências científicas e pelas próprias rotinas preconizadas pelo Ministério da Saúde do Brasil. Negar – ou constranger – aos pacientes este tipo de escolha ameaçando médicos é uma atitude medieval que precisa ser combatida. Não é por acaso que a atenção domiciliar ao parto planejado faz parte das políticas PÚBLICAS na Inglaterra e Holanda, e o são porque estão embasadas em pesquisas muito sérias que atestam sua segurança.

3. O julgamento em questão faz parte de uma série de outros eventos de constrangimento e agressão por parte de diversos conselhos de medicina, e não apenas contra a minha pessoa. Podemos lembrar das agressões a um colega de São Paulo que ousou falar do parto domiciliar planejado, como alternativa válida quando observados critérios rígidos de segurança em rede aberta de TV, no programa Fantástico da Rede Globo. Tal fato mobilizou mais de 5 mil ativistas por todo o país numa manifestação de dois dias e em 31 cidades brasileiras no ano de 2012. Podemos citar as ameaças e o “bullying” sofrido por colegas de Pernambuco por atender partos no quarto da maternidade de um hospital. Podemos citar a perseguição que sofri há 16 anos ao atender um caso de Embolia Aguda por Líquido Amniótico (uma doença impossível de prever ou prevenir) cuja paciente veio a óbito por ter se contaminado por varicela pelas visitas que recebeu na UTI de um hospital luxuoso da cidade. Apesar da escandalosa falha de segurança no hospital o conselho de Medicina do RS resolveu estabelecer que a culpa pela tragédia era do obstetra, por ser um incentivador dos partos normais (esta decisão foi drasticamente atenuada pelos conselheiros nacionais). Esse caso, por si só, mostra o nível em que a cegueira ideológica pode levar. Podemos falar também da colega obstetra que está sendo agora mesmo perseguida em Campinas, suspensa de suas funções, apenas por ser incentivadora de partos vaginais, posicionar-se contra a barbárie das cesarianas e trabalhar com o auxílio de doulas (auxílio este também respaldado pelas evidências científicas). Podemos falar dos colegas de Santa Catarina que sofrem perseguições por atenderem de forma cuidadosa e amorosa. A absurda proibição de atender pacientes egressas de Casas de Parto no Rio de Janeiro, assim como o ataque sistemático pelo conselho de lá ao trabalho das doulas é outra prova do caráter agressivo dos representantes da corporação. Outro caso no Rio de Janeiro, onde um colega recebeu uma punição máxima (posteriormente atenuada) por ser defensor e ativista pelas casas de parto, também não pode ser esquecido.

4. Os casos acima deixam claro que não se trata de um médico sendo acusado pelo óbito de um bebê: trata-se de um movimento de REAÇÃO de setores conservadores da medicina que se negam a enxergar a crise ética que se abate sobre a corporação. É a tentativa de negar direitos reprodutivos e sexuais básicos das mulheres, apresentando estudos enviesados e publicados apenas em lugares onde a corporação médica e as companhias de seguro criminalizam o parto domiciliar. Os grandes estudos com adequada seleção, de caráter prospectivo e com grande abrangência são muito claros ao assegurar a qualidade e a segurança dos partos domiciliares planejados, e por isso mesmo países democráticos e progressistas adotam essa modalidade de atenção no próprio serviço público.

5. As alegações do CRM a respeito da não realização de prontuário são evidentemente falsas. O prontuário de pré-natal está absolutamente completo e com todas as informações pertinentes para o caso. O partograma foi realizado e entregue para o CRM, mas não foi aceito pelo conselheiro porque estava sem a assinatura. O partograma utilizado é o mesmo que consta na pasta do hospital onde eu atendia na época, e nele não consta lugar para assinatura. Fosse levada a sério essa negativa e todos os médicos que atenderam pacientes naquela época deveriam ser punidos. Essa negativa de aceitar o documento entregue apenas demonstra a má vontade do conselheiro em tratar com justiça um adversário no terreno das ideias e um crítico feroz da violência obstétrica e do abuso de cesarianas.

6. Para finalizar quero deixar claro que as medidas judiciais para a anulação deste julgamento estão sendo tomadas e serão informadas em breve. Não podemos admitir no Brasil mais um triste exemplo de “justiça dos inimigos”, onde pessoas explicitamente inimigas no terreno das ideias julgam de forma absolutamente facciosa seus colegas que se situam no campo oposto. Não se pode admitir que pessoas sem a mínima isenção sejam capazes de fazer justiça – que necessita de equidistância e equilíbrio para a sua execução. O movimento de humanização do nascimento e as críticas à violência obstétrica e aos abusos inaceitáveis de cesarianas não vão silenciar por este tipo de atrocidade. Os responsáveis pelo atual descalabro de termos 57% de cesarianas no Brasil e 85% de cesarianas na classe média não deixam dúvidas da crise SEVERA de valores pela qual passa a atenção ao parto. Não apenas as cesarianas, mas as múltiplas intervenções desnecessárias e perigosas, além da abordagem anacrônica – segundo as evidencias mais atuais – configuram uma tensão sem precedentes. O modelo centrado na figura do médico – especialista em intervenções – e afastado do modelo europeu centrado nas enfermeiras obstetras e obstetrizes – especialistas no cuidado – estão na gênese dessa tragédia. Infelizmente os conselheiros dos conselhos de medicina preferem atacar as vozes dissidentes ao invés de estimular uma profunda autocrítica aos rumos do trabalho médico, em especial na atenção ao nascimento humano.

É triste observar que após 34 anos atendendo mais de dois mil partos um médico seja excluído por um caso em que sua ação não foi equivocada e muito menos dolosa, mas que resultou num resultado negativo. É nefasto para a medicina criar um clima de medo e angústia entre os cuidadores do parto quando, por questões de ordem política e ideológica, uma fatalidade pode ser usada para obstruir uma carreira e atacar um profissional. Neste exato momento estou na China, desenvolvendo projetos abrangentes de treinamento de profissionais da atenção ao parto em grandes conglomerados hospitalares, mas agradeço a solidariedade que recebi de centenas de colegas e ativistas do parto humanizado que reconheceram nesta agressão um ataque direto aos nossos postulados e à nossa luta. A dignificação da mulher em seu momento mais sublime não será interrompida por atos inquisitoriais como este. Seguimos de cabeça erguida e em frente.

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Amamentação – Bases Científicas

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AMAMENTAÇÃO – Bases científicas, 4ª. edição

Livro reúne 63 autores que escreveram 38 capítulos em quase 600 páginas.

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Tive a honra de escrever os capítulos sobre humanização do nascimento para a segunda, terceira e quarta edições desse fabuloso livro. “Amamentação e o Continuum da Humanização” é o segundo maior capítulo do livro, com 25 páginas. O maior capítulo é o que trata exatamente dos aspectos nutricionais, com 26 páginas, mas foi escrito por 6 colaboradores. Fico muito feliz que esse capítulo tenha marcado a minha despedida dos escritos médicos. Valeu o esforço e a dor de escrever.

Tenho muito orgulho de ter colaborado com essa obra magnífica para a construção de uma amamentação livre e respeitosa. Ler as palavras do mestre Cesar Victora nos oferece a certeza de que esta luta vale a pena, por maiores que sejam os sacrifícios e obstáculos. Assim como sentimos o perfume de flores plantadas por sonhadores que não mais estão entre nós, também na semeadura da amamentação e da humanização do nascimento jamais veremos as flores que brotação das sementes que hoje plantamos. Todavia, nada nos impede de nos regozijarmos com os tímidos brotos que surgem através do nosso esforço. Este livro é uma prova de que a paixão e a esperança vencem todas as barreiras que nos dificultam a caminhada rumo ao progresso.

Aos meus amigos Marcus Renato e Luiz Mussa Tavares, assim como Cristiane Gomes, um abraço especial pela coragem de enfrentar um sistema por vezes tão cruel e também pelo talento de reunir nesta obra tantos companheiros dedicados e competentes.

Ric Jones
Novembro 2016
Beijing – China

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PREFÁCIO do Dr. Cesar Victora*

Recentemente estive envolvido em uma ampla revisão sobre o aleitamento materno. Ao revirar minhas coleções de livros e separatas sobre o tema, iniciada nos anos 1970 (quando os arquivos em formato PDF estavam longe de existir), encontrei uma publicação clássica da Organização Mundial da Saúde, intitulada: Contemporary Patterns of Breastfeeding. Esse foi o primeiro estudo realizado em vários países sobre a descrição dos padrões de aleitamento em diferentes grupos populacionais. Seu organizador foi o pediatra sueco Bo Vahlquist, que faleceu antes da publicação do volume. Vahlquist inicia o seu prefácio com uma frase memorável: “Para todos os mamíferos, o ciclo reprodutivo inclui tanto a gestação quanto a amamentação; na ausência dessa, nenhuma espécie – nem sequer a humanidade – teria sobrevivido”. Incorporei a frase de Vahlquist no primeiro de uma série de dois artigos que publicamos recentemente na revista The Lancet. Nenhuma sociedade preconiza substituir o útero materno por um útero mecânico ou artificial, mas por outro lado usar fórmulas industrializadas em substituição ao leite materno se tornou rotina em grande parte do mundo. Essa prática resulta de uma profunda ignorância a respeito do diálogo biológico entre mãe e criança, que se inicia no útero e se prolonga durante os primeiros anos de vida por meio da amamentação.

“Amamentação – Bases Científicas” chega à sua quarta edição ocupando um lugar especial na biblioteca de todo profissional envolvido no cuidado de mães e crianças. Escrito por um amplo e competente grupo de pesquisadores e profissionais de saúde, sob a coordenação de Cristiane F. Gomes e Marcus Renato de Carvalho, o livro cobre todas as áreas essenciais que dizem respeito à amamentação: da biologia às políticas públicas, passando por uma série de capítulos de natureza essencialmente prática, de enorme utilidade para os profissionais envolvidos na promoção e no apoio ao aleitamento. Noto com satisfação a ênfase dedicada nesta quarta edição ao recém-nascido prematuro. A prematuridade, epidemia que assola nosso país, relacionada em grande parte à medicalização excessiva do parto, merece um cuidado especial dos profissionais de saúde para garantir o sucesso do aleitamento. O diálogo biológico a que me refiro acima é ainda mais importante para os prematuros, devido à capacidade de suas mães de produzir um leite especialmente formulado para essas crianças.

Termino este prefácio com três pensamentos:

O primeiro é que deveríamos deixar de falar em “benefícios da amamentação” e passar a mencionar sistematicamente os “riscos de não amamentar”. A amamentação é a norma de todas as espécies de mamíferos, e, portanto, devemos definir a ausência de amamentação como a anormalidade, ou seja, como o grupo de risco. Por exemplo, amamentar não aumenta a inteligência; de fato, não amamentar diminui a inteligência.

O segundo é que nosso nível de conhecimento sobre o aleitamento materno – tanto a composição do leite materno como o ato de amamentar em si – é ainda muito limitado. Os excelentes capítulos da Parte 1 do livro resumem o que atualmente se conhece sobre o tema, mas áreas de ponta na pesquisa básica fornecem a cada dia novas evidências sobre o diálogo biológico já mencionado. Amamentar tem efeitos epigenéticos e define o microbioma o recém-nascido, gerando efeitos permanentes sobre a saúde do indivíduo amamentado. O leite humano contém células-tronco, lisossomos, micro RNA, e muitos outros componentes sobre os quais ainda pouco se conhece – mas que certamente têm um papel importante para a criança. Em uma frase muito feliz, meu colega Simon Murch, coautor da série Lancet, afirmou que: “O leite materno é não apenas um aporte nutricional perfeitamente adaptado para o recém-nascido, mas também a mais sofisticada medicina personalizada que ele ou ela irá receber durante toda sua vida.

Terceiro, o livro enfatiza o papel essencial da sociedade em proteger, promover e apoiar o aleitamento, por meio de políticas públicas, de práticas dos serviços de saúde, de locais de trabalho favoráveis, da sociedade civil e do engajamento da população como um todo. Não é justo colocar a responsabilidade sobre a mulher, pois, sim um amplo apoio social, as tentativas de amamentar são frequentemente frustrantes.

Essa proposta está de acordo com o pensamento progressista sobre promoção da saúde: em vez de colocar a responsabilidade sobre indivíduos, entender o contexto social, cultural, ambiental, econômico e político que favorece a adoção e a prática de comportamentos saudáveis.

Finalmente, parabéns aos organizadores e colaboradores pelo sucesso obtido pelas edições anteriores, o qual será certamente repetido nesta nova edição.

*Cesar Victora é Professor na Universidade Federal de Pelotas

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Coração Partido

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“Cada dia que passa mais me convenço da profundidade das marcas que o parto deixa em quem é atropelado por sua voracidade. Em uma sociedade em que as escolhas frequentemente se resumem à suprema alienação da cesariana ou à violência obstétrica do parto vaginal, é triste reconhecer que qualquer destes caminhos produz inexoráveis cicatrizes. Basta que venha a chuva de uma lembrança, um comentário ou mesmo uma manifestação inocente e a cicatriz volta a pulsar.

Não importa que entre a marca no corpo e a fala que a ela se reporta tenham decorrido décadas, ela continua lá, atual, ardente e corrosiva. Não há corpo no qual esta ferida não deixe sua mancha, e não há tempo em uma única existência capaz de apagar seus efeitos.

Porque somos feitos de carne e desejo não é possível que se toque em um sem que o outro goze ou sofra.

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Atendimentos Privados

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O tema da assistência privada ao parto é tratado por nós nas redes sociais há no mínimo 17 anos. Minha experiência pessoal é que os poucos obstetras humanizados no Brasil não conseguiriam suprir a demanda de pacientes que acordaram para as vantagens de um parto digno. Quando vejo médicos que resolvem atender por convênios o resultado é arriscado, para dizer o mínimo: atendem uma demanda de 15 a 20 partos por mês. Com esse tipo de fluxo – que desrespeita o princípio da humanização dos cuidadores – a QUALIDADE do trabalho despenca. É impossível atender um parto quando o obstetra desumaniza-se, quando ele trabalha demais, está cansado, esgotado, com energias exauridas e com seu raciocínio prejudicado pelo acúmulo de trabalho. A solução seria atender um número limitado de pacientes, e para mim este valor chega a 4 – 6 por mês, que nos oportuniza um trabalho quase artesanal. Dá para cancelar consultório, atender sem angústia de tempo, indicar cesariana corretamente (e não porque está dormindo e/ou estafado), fazer visitas domiciliares pré e pós parto, atender o puerpério em domicílio (evitando que um bebê de 7 dias saia à rua para respirar escapamento de ônibus), demorar nas consultas etc. Tudo isso é impossível de fazer atendendo 18 partos por mês.  

Mas se você vai atender 6 e a demanda é de 15, quais os pacientes que você aceita e quais você nega? Sorteio? Quem chegou primeiro? Nesse modelo você acaba se tornando cruel com as pessoas que desejam um parto normal e não conseguem. Eu ainda acho que é mais justo que se aplique a velha “lei de mercado”, e ela se estabeleça como em qualquer outro lugar, para que as pessoas valorizem o trabalho do obstetra – sua dedicação, talento e tempo – e que esta seja a forma de escolha. Aliás, essa regra existe para QUALQUER produto no mundo, e com os profissionais que atendem parto não poderia ser diferente.  

Todavia, o debate esbarra no fato de que, seja qual for o sistema de escolha do médico – sorteio, valor do parto ou ordem de chegada – não há ainda como suprir a demanda, porque os obstetras humanistas, as enfermeiras e obstetrizes ainda são poucos, e porque os serviços públicos não tem interesse em transformar os seus atendimentos através de um protocolo de humanização. Estes serviços públicos (ressalvadas as conhecidas exceções) continuam sendo controlados por chefias anacrônicas com posturas corporativistas, que enxergam o nascimento como evento médico, controlado por eles, pela lógica da intervenção, e enxergando as mulheres como bombas relógio prestes a explodir. Os relatos das manifestações do CREMESP no último encontro de humanização do nascimento em São Paulo, onde sobraram manifestações velhas e preconceituosas sobre o parto humanizado protagonizadas por velhos obstetras, nos enchem de tristeza e vergonha. Mas, são estes os profissionais que controlam os serviços públicos, que resistem à entrada de enfermeiras obstetras e obstetrizes, que se negam a realizar mudanças simples como banquetas de parto, bolas, água e aparelhos de fisioterapia. Eles são os donos dos partos no Brasil e, em última análise, dos corpos das mulheres.  

A mudança nesse cenário NÃO se dará pressionando os poucos obstetras a fazer escolhas de Sofia, trabalhar de forma insana e desumana ou adotar uma postura franciscana, atendendo graciosamente seus pacientes. Não, esta é a parte em que a MASSA CRÍTICA é fundamental. Mulheres – e seus parceiros – caminhando unidos e EXIGINDO um atendimento digno e humanizado pelo SUS, tendo os médicos humanistas como parceiros nesta luta. Não há como manter as mulheres adormecidas, onde o papel do médico é se sacrificar por sua pobre paciente, ou um estado benevolente que resolveu – por conta própria – fazer uma Casa de Parto. Não…. essas coisas só ocorrem através de luta e de pressão popular. Mas ainda não conseguimos reunir 30 mulheres para aprovar uma lei de doulas em nossa cidade, como faríamos um “levante materno” para mudar as hierarquias e os modelos dentro de maternidades?  

Uma das soluções é acabar com esse paradigma que prevê a existência de um médico particular atendendo partos de suas pacientes privadas. Esse é um modelo falido e tem que acabar. Ele é responsável – entre outros fatores – pelas taxas abusivas e vexatórias de cesarianas no mundo ocidental, em especial nos países satélites dos Estados Unidos. Esse modelo iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico (centrado no médico, na doença e no hospital) precisa terminar. O futuro nos reserva, em curto prazo, as Casas de Parto e os hospitais humanizados com trabalho interdisciplinar.  

Ainda falta vontade política e organização social, mas …. por que não podemos nos manter otimistas diante do tanto que já conquistamos?

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Cicatrizes

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A cesariana no século XX, com sua rapidez, relativa segurança e praticidade, permitiu que muitas vidas de mães e bebês fossem salvas. Entretanto, sua prevalência no mundo ocidental foi aos poucos aniquilando as habilidades que os responsáveis pela assistência desenvolveram nos últimos 2 milhões de anos. A facilidade e a impunidade para abreviar uma gestação através da cirurgia de extração fetal, aliadas à incapacidade de entender a complexidade do processo de parturição, levaram ao estado atual: cesarianas além de limites aceitáveis e partos violentos. Como nos lembra Gail Tully – a partir de um comentário de Lorenza Holt – mais acertado seria chamarmos de “falha de assistência” do que “falha de progressão”; de uma forma crescente estamos perdendo as habilidade essenciais para darmos conta das sutilezas deste evento.

Se nada for feito o século XXI pode assistir o fim do parto vaginal pela absoluta impossibilidade de encontrar profissionais capacitados para atendê-lo.

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Na antessala de Belzebu

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Na fila do inferno o secretário do Capeta anuncia:

– Por favor, advogados, cesaristas e vendedores de telemarketing, fiquem na fila de esquerda e aguardem a chamada. Vendedores de plano de saúde, pedreiros que faltam na segunda e empregadas que queimam o arroz, fiquem na fila do centro. Segurem o seu cartão verde na mão junto com o atestado de óbito e o cartão do SUS.

– E nós?

– Neonatologistas que afastaram bebês de mães e enfermeiras que atacaram doulas segurem seus cartões vermelhos e aguardem aqui que o Sr Belzebu vem falar com vocês em pessoa.

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