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Contágio

Coca Cola

No final do século passado um grupo de adolescentes na Bélgica toma Coca-Cola e começa a se sentir mal. Náusea, vômito, tontura, dispneia e ansiedade A partir desse fato de inicia uma busca pelas causas dessa “intoxicação”, que inclui pesquisa das folhas da planta de onde se produz a essência e, por fim, encontra-se uma alteração na formulação da bebida. Isso poderia encerrar a investigação, não fosse o fato de que um bioquímico afirmar que, mesmo havendo essa pequena alteração em um componente, seria necessário uma concentração mil vezes maior dessa substância para produzir qualquer dos sintomas relatados pelo adolescentes.

Mas se os sintomas eram reais e a concentração da substância insuficiente para causá-los, o que poderia produzir os sinais alarmantes que os jovens apresentavam?

A resposta, segundo Malcolm Gladwell, escritor e jornalista americano, seria um componente contagioso no comportamento. Não se tratava de uma substância venenosa ou uma partícula viral, mas uma ideia, um pensamento, o medo. Existem vários exemplos de fatos como esse, como crianças em creches tendo crises em frente à TV no Japão, o fenômeno mórbido de Jim Jones na Venezuela ou a “febre” das Tulipas na Holanda. O contágio não se dá a partir de uma entidade química ou biológica, mas a partir de elementos do “campo simbólico“, no fértil terreno das ideias.

O que podem nos ensinar tais fenômenos? Essencialmente ele nos falam do poder da comunicação pessoal e direta, por certo. Entretanto, também nos mostram que tal poder pode nos conectar para o mal – o sintoma, a dor, o desespero – mas também pode ligar as pessoas para o bem. Se essa conexão identificatória com o sofrimento e o sintoma alheio é capaz de construir uma onda de histeria do “nada” (biológico ou químico), também poderia induzir comportamentos solidários, saudáveis e construtivos. Para estes também há vários exemplos em distintos contextos.

Em relação ao parto e nascimento sempre me estimulei pela potencialidade das boas histórias contadas como importante elemento de contágio positivo. Vejo nelas a possibilidade da criação de “ondas de positividade“, e apenas por isso resolvi fotografar nascimentos: para criar “histórias visuais”. Por outro lado, quando leio ou escuto relatos de violência obstétrica relacionada aos partos, sempre tenho a sensação de que, mesmo reconhecendo a relevância destas denúncias, precisamos muito mais focar na luz do que na sombra.

Como eu dizia há alguns anos, o combate às cesarianas indevidas ou à violência obstétrica não deve ser nossa trilha principal, pois que ela se concentra na sombra da obstetrícia – anacrônica e violenta. Nossa proposta deveria se direcionar ao contágio positivo das histórias de sucesso, espalhando de forma viral a possibilidade de partos seguros e tranquilos, com plena autonomia das mulheres, com embasamento científico e um olhar abrangente sobre este poderoso rito de passagem.

A mudança do panorama da atenção ao parto vai ocorrer na medida em que o volume de histórias bonitas e poderosas ultrapassar um determinado “turning point“, um momento específico em que o respeito ao nascimento for naturalizado e toda forma de violência se tornar absurda. Para alcançar esse limite é preciso multiplicar essas descrições e fazer delas as imagens que usamos para colorir de realidade as nossas fantasias. Cabe apenas a nós criar esse psicosfera positiva no campo da linguagem.

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Próxima etapa

caneta

O próximo passo no movimento de humanização do nascimento é acabarmos com as “Notas Públicas” que jogam assuntos internos para o mundo exterior (leia-se, Redes Sociais). Mesmo que, ao analisar estas manifestações, eu encontre verdades e correções, eu ainda acredito que a via mais correta para resolver estas contendas seja uma discussão privada e sincera, onde os pontos de vistas possam ser expressados com honestidade e franqueza. Fui vítima de manifestações desse tipo no passado, e não vejo qualquer vantagem para um projeto, uma ideia ou um movimento pelo uso de manifestações marcadas pela autofagia. Ninguém ganha com isso; todos perdem.

No caso em questão a minha dor é ainda maior porque gosto e tenho laços de amizade e carinho por todas as pessoas envolvidas, em ambos os lados da controvérsia. Eu sinto, pela primeira vez na vida, a sensação de um menino que se martiriza ao assistir a briga dos pais e pensa: “Por que eles não conversam e se entendem? Por que essas brigas na minha frente? Eles deveriam se amar!!”

O que é pior, um dos pais sempre se aproxima e pede, de forma sutil e subliminar, que o pobre menino escolha um dos lados. Que crueldade!!

Espero que essa situação possa nos oportunizar um questionamento profundo de nossos valores e estratégias. Precisamos construir uma união mínima em torno de ideias compartilhadas, respeitando as diferenças pessoais e oportunizando o diálogo aberto entre aqueles que lutam por propostas semelhantes. Os que se posicionam contra a autonomia feminina, a visão interdisciplinar do parto e a adoção de protocolos baseados em evidência sempre festejam estas brigas intestinas; só os conservadores tem a ganhar. As mulheres e seus filhos, objetivo maior de nosso trabalho, são os que mais perdem com nossa incapacidade de resolver esses problemas de forma compreensiva, amorosa e privada.

Sonho com uma conversa conciliadora entre as partes, o que entendo ser difícil em um momento de sentimentos aguçados e honras feridas. Todavia, o que restaria da vida sem a possibilidade de sonhar?

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23 Fatos sobre partos em um Hospital na China

partos china

Primeiras impressões sobre a obstetrícia na China. Hospital Geral de Ju Lu, uma cidade média que está distante 1000 km da capital Beijing.

1- Não há homens atendentes de parto, e por questões claramente culturais. Médicas e parteiras trabalham lado a lado, mas em um ambiente 100% feminino.

2- Não há pediatras na atenção ao parto, mesmo em gestações de risco. Somente parteiras treinadas. Se existe algum problema a criança é levada para a unidade de neonatologia que fica ao lado. O mesmo se observa na Europa.

3- Icterícia neonatal se trata com:

  • Luz
  • Hidratação
  • Medicina Chinesa – um conjunto de ervas. Fiquei tão interessado que elas me deram uma caixa de presente com as ervas para icterícia neonatorum. Elas ficaram impressionadas com a excessiva (para elas) preocupação que temos com a bilirrubina.

4- Taxa de episiotomia 15%.

5- Partos deitados, posição tradicional, infelizmente. Esse é um modelo que precisa mudar. Ficaram vivamente interessadas em tentar oferecer posições alternativas.

6- Elas realizam parto na água, em uma sala especial, bastando para isso pagar uma taxa de 600 yuan – 300 reais. Usam uma banheira moderna, feita na “Dinamarca”. Gostam muito de atender partos assim.

7- Duas maternidades no mesmo prédio: uma simples e a outra SUPER sofisticada, mais chique que todas que já vi nos hospitais de Porto Alegre ou São Paulo (e eu estou agora em uma cidade menor do que Caxias do Sul – 400 mil habitantes). A maternidade chique tem modelo PPP (pré parto, parto e pós parto) que é usada por pacientes mais sofisticadas e que aceitam pagar uma conta mais alta. “Gente phyna da China”.

8- O sistema de saúde é sempre “meio público e meio privado”. Não existe atendimento grátis e universal. O governo paga uma parte sempre, mas o resto é com você. A paciente é quem escolhe se quer ir para a maternidade chique ou para a mais simples (que, no entanto, é bonita e funcional). Quando perguntei “e se o paciente não tiver como pagar?” as parteiras se olharam e responderam “elas pedem para a família ajudar”.

9- É curioso passar na frente dos banheiros nos corredores do hospital e sentir o cheiro forte de urina. Isso parece não incomodar ninguém nos restaurantes, aeroportos e/ou hospitais. Esse cheiro é o que mais me impressiona como visitante.

10- Enfermeiras ganham 3.000 yuans por mês quando são funcionárias iniciais. Com o tempo podem chegar a 4.000 yuans. Isso significa entre R$ 1.500,00 e 2.000,00 mensais, muito pouco para o padrão ocidental. Elas ficaram muito interessadas em saber quanto se ganha no Brasil por parto realizado, ou quanto ganham enfermeiras e médicos trabalhando em hospitais (o que é sempre difícil de responder).

11- Trabalhadores de saúde, como médicos e enfermeiras, ganham pouco e não tem acesso a uma vida plena de classe média. Quem ganha muita grana são os aventureiros do capitalismo nascente. Sempre, em qualquer lugar.

12- Eles têm genuíno respeito pelos “experts” estrangeiros. Minhas aulas de hoje lotaram e tivemos mais de 70 profissionais do hospital. Médicos, parteiras e até cardiologistas. Quando cheguei ao hospital para falar fui recebido na porta da frente pelo diretor médico do hospital que veio pessoalmente me cumprimentar. Ele fez questão de carregar minha pasta com o computador até a sala de conferências.

13- Eles têm muita vontade de aprender. Quando mostrei que, com pequenas adaptações, poderiam fazer partos verticais na cama da sala de partos, eles pegaram bloquinhos e começaram a fazer desenhos e anotações, inclusive o diretor administrativo do hospital que nos acompanhava.

14- Partos no setor público ainda acontecem em sala de parto, mas não há dificuldade alguma para adotar o modelo PP. Falei isso para elas e parece que entenderam. Prometeram tentar mudar o paradigma de “uma sala por vez”.

15- Ponto importante: apesar de não existirem doulas a família é aceita e convidada a ficar por perto durante TODO o trabalho de parto, na mesma sala e tomando chá. O marido pode acompanhar sua esposa quando ela vai para a sala de parto. Tive vergonha de explicar a elas nossa luta para ter doulas presentes nos partos hospitalares do Brasil.

16- As cesarianas são feitas pelas médicas e auxiliadas pelas parteiras. Não se usam dois cirurgiões em uma cesariana. Cesarianas são feitas no CO só em caso de emergência, caso contrário são feitas no centro cirúrgico.

17- Perguntei para a plateia na minha aula se havia alguém nascido de cesariana e só uma menina ao fundo levantou a mão, visivelmente envergonhada. Havia mais de 70 pessoas presentes.

18- Perguntei se alguma menina havia menstruado antes dos 12 anos e NENHUMA levantou a mão… (só havia 5 homens na sala). Quando perguntei o porquê um dos homens disse que a vida e a dieta na China são piores do que no Brasil ou nos Estados Unidos. Essa resposta apenas demonstra como os chineses tem uma visão deturpada e fantasiosa do Ocidente. A dieta normal dos chineses – muitos legumes, frutas, peixe, carne, nada de leite, pouco sal, quase nada de açúcar e sem refrigerantes – é MUITO melhor do que a dieta no Brasil e quilômetros à frente de uma dieta norte-americana.

19- A tese de que a menarca – início da vida menstrual – mais cedo nas meninas do ocidente se deve à dieta rica em gordura e à precocidade do estímulo sexual fica comprovada por essa minha tímida amostra de mulheres chinesas.

20- Perguntei quantas mulheres na sala já eram mães e umas 40 (mais da metade) levantaram a mão. Perguntei quantas haviam feito cesariana e NENHUM braço se ergueu. Ninguém havia feito cesariana. A China é um país que ainda não foi destruído pelo modelo ocidental dominado pelo medo e pelo ódio. Aqui podemos fazer um trabalho maravilhoso, pois não é preciso lembrar a elas como o parto normal é importante; elas nasceram assim e pariram seus filhos desta forma.

21- A taxa global de cesarianas no hospital (setores público e privado) é de 28%, tendo ao redor de 800 partos realizados por ano. Elas acreditam que esse número é muito alto, e está foi uma das razões para nos trazerem aqui.

22- O relacionamento de parteiras e obstetras é absolutamente colaborativo e amistoso. É emocionante de ver.

23- Existem bolas de Pilates em todas as salas de pré parto, mas na maternidade pública não tem chuveiro para as pacientes em trabalho de parto. Mostrei a elas que água (ou como chamo, “Aquamerol“) é essencial para o parto e elas anotaram nos seus caderninhos.


A taxa global é alta, mas Ju Lu é uma cidade pequena no interior da China. Em Beijing, a situação é certamente diferente, mas não creio que a alta taxa de intervenções seja pelo controle governamental. As razões para a atual situação são provavelmente as mesmas que ocorrem em outros países: medo de processos, tempo, dinheiro, poder, médicos desconectados com a realidade do parto normal, formação acadêmica tecnicista, professores velhos que não atendem parto, etc. Mas nessa cidade o modelo ainda é muito centralizado na fisiologia do parto.

Com exceção da estátua do Mao na frente do hospital, nada poderia ser mais capitalista do que esse modelo. Quando falo (com muito orgulho!!!) do nosso cambaleante SUS elas ficam abismadas e encantadas. “Tudo de graça?”, perguntam. Tenho vontade de começar a conversa com elas dizendo: “Bem, no meu país, a República Socialista Democrática do Brasil, o sistema único de saúde blá, blá, blá….”

s parteiras são umas gracinhas, gentis, sorridentes, tímidas e tem uma enorme vontade de aprender. Não tem vergonha de perguntar nada sobre parto, Brasil, salário, estilo de vida, filhos, etc. Por outro lado são reservadas ao extremo. Uma delas me mostrou uma foto no seu celular de um parto no hospital onde trabalha (bem longe, elas vieram de várias partes da China para o nosso workshop) em que aparecia o marido beijando a esposa logo após o nascimento do filho deles. Nada que a gente não se acostumou no Brasil, e não era nem “desentupidor de pia”; era quase um “selinho”. Todavia, no momento do beijo o seio esquerdo da mulher estava à mostra, enquanto segurava o bebê, e isso causou um certo desconforto, inclusive entre elas. Perguntei o porquê e elas deram aqueles risinhos envergonhados cobrindo a boca. “A China é muito conservadora, doutor“.

Na China as midwives são todas enfermeiras. Não há “obstetrizes” de entrada direta, como Ana Cristina Duarte ou Cristina Balzano Guimarães, ou como as parteiras da Holanda. Outro detalhe importante: não há subalternos no cuidado. Não existem técnicas ou auxiliares de enfermagem; todo o serviço é feito por elas, com exceção da nutrição ou da limpeza do local (a das pacientes também é com as enfermeiras).

As taxas de cesariana estão aumentando principalmente pelas grandes cidades, como Beijing. Lá o paradigma de atenção tenta copiar o pior modelo do mundo, o americano: sem parteiras na atenção e alta tecnologia. “High tech low touch”. Iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico. Esse modelo nunca funcionou onde foi utilizado, pois desconsidera as dimensões emocionais e o suporte psicológico e afetivo que foi a marca do nascimento desde o surgimento de nossa espécie.

Elas se preocupam muito com bolsa rota e me perguntaram como atendemos. Disse que o meu critério é aguardar trabalho espontâneo por 24h e só depois penso em induzir. A maioria esmagadora entra em trabalho de parto nesse período. Elas me contaram que internam todas as bolsas rotas e quando perguntei ao porquê me disseram que era por medo de “prolapso”. Partos pélvicos são atendidos por cesariana. Percebi que as parteiras não têm treinamento para atendimento de pélvicos. Gêmeos apenas se o primeiro for cefálico e o segundo for pélvico. A explicação para isso ficou “lost in translation“.

Elas investigam espessura da parede uterina por ultrassom para atender VBAC. Expliquei que não fazemos isso no Brasil por não haver evidências de que possa prevenir rupturas. Não fazem versão externa para pélvicos e nem sabem técnicas, posturas, exercícios, homeopatia ou acupuntura para tratar essas posições.

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Conceito de humanização

fe-perdida

“Humanização do nascimento é uma atitude que emerge da mudança conceitual surgida nas últimas décadas sobre o verdadeiro papel da mulher na sociedade, considerando-se os seus direitos reprodutivos e sexuais e reconhecendo suas inatas capacidades de gestar e parir com segurança. Surge através do reconhecimento das inquestionáveis violências institucionais que as mulheres sofrem no período gravídico-puerperal e a responsabilidade que advém desse conhecimento para quem se ocupa da atenção a elas.

Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher, tratá-la com dignidade, oferecendo uma visão integrativa – fugindo do modelo objetualizante e biologicista – e oferecendo um cuidado baseado em evidências atualizadas. É tarefa dessa geração de homens e mulheres que se interessam pela temática abrangente do nascimento mergulhar nesses conceitos e garantir às mulheres a atenção que elas merecem, para o bem de toda a humanidade.”

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Banho

banho hospital

Eu costumava dizer para não dar banhos em bebês recém-nascidos no hospital há mais de 20 anos, em especial quando ouvi pela primeira vez as teorias da preservação do biota do recém-nascido e a semeadura de bactérias “do bem” que a criança receberá ao nascer.

Em 2009 fui fazer uma palestra em Orlando, Flórida, no congresso do Healthy Children’s Center for Breastfeeding. Logo depois de falar fui procurado por um simpático senhor que se apresentou como o professor Lars Hanson, catedrático da universidade de Gotemburgo – Suécia. Ele parecia estar muito impactado e entusiasmado com as imagens de partos verticais que eu havia apresentado na conferência. Disse que isso era muito importante em função das questões microbiológicas envolvidas. Eu fiquei surpreso com a afirmação e disse que, até então, essa posição me parecia adequada porque facilitava o nascimento de bebês pelo aumento das “conjugatas”, os espaços ósseos da bacia, mas que não conseguia compreender nenhuma vantagem de caráter imunológico para o bebê.

Ele sorriu e me fez uma pergunta com um simpático sotaque nórdico bem carregado, cujo conteúdo lembro até hoje:

– Caríssimo amigo. Você já percebeu que todos os mamíferos superiores tem o introito vaginal próximo do ânus? Nunca se perguntou o porquê de tal proximidade?

Fiquei sem saber o que dizer, pois nunca havia pensado que essa proximidade pudesse ter algum propósito.

– Pense doutor… quando um bebê está para nascer, ainda no invólucro amniótico, ele se encontra em um ambiente estéril. No momento em que se encontra fora do útero, e rompida a bolsa que o envolvia, será imediatamente colonizado por bactérias. Mas… quem chegará primeiro na corrida para ocupar o espaço da superfície da pele desta criança?

– Bem, disse eu, imagino que sejam as bactérias maternas, se for um parto vaginal. Eu também penso que são bactérias para as quais o sistema imunológico da criança já está razoavelmente preparado pelo próprio convívio entre mãe e bebê.

– Mais do que isso, meu jovem, continuou o simpático professor. Ela será colonizada por enterobactérias (bactérias que vivem no intestino), que cobrirão a superfície corporal do bebê com bactérias anaeróbias – frágeis à presença de oxigênio – mas que protegerão o bebê contra os microrganismos maléficos do ambiente hospitalar por ocupar os espaços da superfície. Além disso, esse bebê vai deglutir as bactérias do sistema digestivo da mãe e colonizará seu próprio com bactérias maternas. Essa “semeadura” fará um amadurecimento adequado do seu sistema digestivo e neurológico. Desta forma, a proximidade dessas estruturas é benéfica para o ser que chega a este mundo, e funciona como uma “capa protetora” de bactérias maternas. Lavar a criança logo ao nascer é um absoluto equívoco, pois vai retirar dela a proteção microbiana e colocar em seu lugar patógenos potencialmente perigosos, pois cultivados em ambientes hospitalares.

– Faz sentido, respondi, e é provável que o processo de adaptação dinâmica que leva à evolução das espécies mamíferas nos colocou desde milhões de anos passados diante dessa condição: os recém-nascidos são banhados com elementos de colonização bacteriana materna, que os protegem do meio ambiente, ocupando o espaço dos elementos potencialmente perigosos e nocivos do local onde nascem.

– Exatamente, meu rapaz. Por isso que as posições verticais, em especial as de cócoras que você mostrou na sua apresentação, facilitam sobremaneira esta estratégia. Essa é a maneira mais fisiológica e saudável de nascer, e por isso mesmo a “esterilização” do ambiente de parto – o períneo – é tão inadequada. Para que haja saúde é fundamental que a criança seja semeada com os elementos do sistema digestivo de sua mãe.

Fiquei vivamente encantado com as palavras do mestre. Recebi como presente seu livro “Immunobiology of Human Milk: How Breastfeeding Protects the babies” (veja abaixo), o qual foi muito útil para escrever meu capítulo nas últimas três edições do livro de Marcus Renato de Carvalho e Luiz Tavares “Amamentação – Bases Científicas”, pois me mostrava que muito mais do que os elementos nutricionais e afetivos relacionados com a amamentação havia uma importante faceta microbiológica muito esquecida pela ciência médica no que diz respeito ao contato do bebê com a mãe, imediatamente depois do parto.

A perspectiva centenária de Koch-Pasteur, que demoniza as bactérias e venera os ambientes estéreis, está em seu ocaso. Muitas pesquisas estão sendo feitas para mostrar a importância de um biota – conjunto de seres vivos que nos compõem – saudável e o quanto o parto normal pode influenciar positivamente nessa condição. Muitos anos depois desse encontro revelador com o professor Lars Hanson eu pude assistir ao documentário “Microbirth” e pude constatar todas estas teses confirmadas pela ciência contemporânea.

A frase mais chamativa do filme é “Você é feito do que a sua avó comeu“.

Fantástico, não?

http://www.llli.org/llleaderweb/lv/lvaugsep05p88.html

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O parto de quem?

Médicos selfie

A foto é de inegável mau gosto, mas não acho que se pode ir muito além disso do ponto de vista médico. Não vejo risco para a criança. A foto é uma brincadeira, mas prefiro analisar o que existe por trás dela, que me parece muito mais revelador do que a simples imagem de médicos sorridentes e um bebê desconfortável.

Esta fotografia revela um conteúdo psicológico inconsciente bem claro: o parto foi “feito” por eles, os médicos. O bebê é um produto do seu trabalho, sua técnica e sua arte. A foto escancara a expropriação do nascimento, passando em poucas décadas das mãos das mulheres para as luvas estéreis dos cirurgiões. O nascimento humano deixou de ser um evento feminino para ser um processo controlado e dominado pela medicina, desconsiderando toda a construção histórica de sua adaptação.

A mulher, por certo, não cabe nessa foto. Ela é a inerme Bela Adormecida, dormindo o longo sono do patriarcado, objetualizada e imóvel. Para que ela possa existir é necessário que seja acordada (a cortada), mas não pela sua vontade e desejo, mas pelo beijo (bisturi) salvador de quem a resgata da crueldade de uma natureza madrasta.

A foto expõe de forma muito didática que o nascimento contemporâneo delegou a mulher a uma postura secundária e coadjuvante. O que outrora foi o maior e mais honrado desafio feminino hoje não passa de uma encenação na qual seu papel é cada vez menor.

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Doulas e sociedade

DOULA

Sempre que o assunto “doulas” vai para a grande imprensa aparece a questão da formação curta que elas fazem quando comparadas aos médicos e enfermeiras. O que eu peço aos meus interlocutores quando tratam deste tema da formação é atentar para o fato de que doulas NÃO fazem qualquer ato médico ou de enfermagem, portanto não precisam ter uma formação voltada à destreza técnica nestas áreas. Assim, o curto treinamento pelo qual elas passam é para oferecer conforto para as pacientes, assim como estimulá-las física e emocionalmente para uma atitude positiva e uma postura ativa diante do parto e seus desafios.

Todavia, sabemos que o que se esconde por trás desta pergunta é uma inquietação silenciosa. Ela na verdade que dizer: “Por que doulas podem cobrar sem ter passado pelo mesmo processo de treinamento que eu passei durante os anos de escola, graduação e pós graduação?“.

Este é o principal incômodo de alguns profissionais de área de atenção à saúde. Quando uma doula se sobressai pelo seu trabalho uma onda de negatividade se instala, como se fosse pecaminoso vender seu tempo e sua dedicação e ser reconhecida por isso.

Doulas oferecem seu tempo e sua dedicação, além das qualidades aprendidas de conforto e reasseguramento para as grávidas. E isso pode ser cobrado, a despeito de ter ou não um curso extenso como formação. Entretanto eu creio que esta é apenas uma etapa a ser vencida. Com a continuidade do trabalho e a excelência dos resultados com o acréscimo das doulas não haverá mais como bloquear o acesso das gestantes a este benefício. Precisamos apenas de paciência e persistência.

O futuro do parto passa pelo respeito aos desejos de cada mulher. As doulas entram nessa luta como guardiãs do sagrado feminino e protetoras da fisiologia do nascimento.

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Valente menina

baby holding his mothers finger, selective focus

Volto para casa depois de 20 horas – passadas no domingo e no início da segunda feira – trancado num hospital para atender um parto cheio de desafios, mas que nos rendeu um nascimento maravilhoso e empoderador. Cansado, faminto e ao mesmo tempo eletrizado, sento à frente do computador para ver se chegou algum e-mail e escuto “Cinema Paradiso”, na versão de Josh Groban.

O primeiro refrão diz:

“Se tu fossi nei miei occhi per un giorno
Vedresti la bellezza che piena d’allegria
Io trovo dentro gli occhi tuoi
E ignoro se è magia o realtà.”

(Se você visse através dos meus olhos apenas por um dia
Você veria a beleza que me inunda de alegria
Quando olho para dentro de teus olhos
É um misto de magia com realidade)

Quem já atendeu um parto e teve nas mãos o corpo quente, escorregadio e viscoso de um bebê, e pôde ver nos olhos de uma mulher a vitória emoldurada por suor e lágrimas, entende a sensação divina e transcendental de ter participado de um momento sagrado e enigmático, para além da compreensão.

Seja bem vinda, valente menina…

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Cesariana “humanizada”

cesariana

Sobre o uso do termo “Cesariana Humanizada”

Esta é uma discussão que já tem mais de 20 anos. No meu segundo livro há um capítulo inteiro sobre a inadequação desse termo. Eu sempre chamei de “cesariana digna” ou “cesariana respeitosa” pois creio que estes termos oferecem uma compreensão melhor do que propomos e não criam confusão com o movimento que apoiamos.

Qualquer contato da cirurgia cesariana com o conceito de “humanização” me parece espúrio e uma tentativa de aproximação com o fenômeno complexo e intenso do parto. O próprio termo utilizado por muitos profissionais de saúde, “parto cesariana”, é uma aberração, mas surgiu pelos mesmos motivos: uma espécie de “pinkwashing” da cirurgia de extração fetal. O “parto cesariana” recebe de nós o mesmo repúdio que a expressão “fazer o parto”, quando utilizada pelos assistentes do parto. Parteiro não faz, ele assiste algo que só as mulheres fazem.

A “cesariana humanizada” nos transmite a mesma mensagem subliminar deformada que, como toda criptografia, precisa ser decifrada para ser entendida. A mensagem é: “Ah, você percebeu a importância do ideário da humanização aplicado ao nascimento? Que bom!! Eu também reconheço a necessidade de humanizar o parto, por isso lhe ofereço esse produto, o “parto cesariana humanizado “. Ele é quase igual ao original, mas um pouco mais barato, e você ainda leva a vantagem de não sentir dor nenhuma. Que tal?” Uma maravilha de marketing, exatamente porque a manifestação acima não precisa passar pelo discurso, pois o conceito se aloja nos espaços entre as palavras, mistura-se com as frases ditas e ganha força exatamente pela sua invisibilidade.

Humanizar o nascimento é GARANTIR o protagonismo à mulher. Sem esse conceito nunca avançaremos em direção aos plenos direitos reprodutivos e sexuais. Em uma cesariana – mesmo quando digna, respeitosa e bem indicada – a mulher NÃO É protagonista do ato (mesmo quando o é da escolha por ele), o qual pertence ao cirurgião. Desta forma, a cesariana carece do eixo central da nossa definição de humanização: a autonomia e o protagonismo restituídos a mulher.

Não há porque ceder a este tipo de manipulação do nosso inconsciente. Cesariana não é parto; é cirurgia de grande porte e que existe para oferecer segurança para mães e bebês em situações limites e de risco elevado para o parto fisiológico. Sem essa consideração corremos o risco de banalizar uma cirurgia cujos abusos são uma grave ameaça à saúde humana, e das mulheres em especial.

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Lendas de Parto

venda-nos-olhos

A paciente chegou no consultório muito sorridente e confiante para uma consulta de climatério. Beirando os 50 anos queria se preparar para a nova fase que se avizinhava. Depois de um bom tempo de conversa me conta de seu tesouro: suas filhas. Uma de 27 e outra de 24 anos. Dois partos normais.

– Naquela época era mais fácil parir, observa ela.

Concordo. Perguntei como foram os partos e ela, abrindo um largo sorriso de bochechas vermelhas, me relata:

– O primeiro foi mais demorado, mas muito tranquilo. Já o segundo eu internei muito cedo e meu marido começou a ficar preocupado. Ele não havia sido autorizado a entrar no centro obstétrico e também a mim a angústia pela separação parecia atrapalhar o andamento do parto. As contrações eram espaçadas e breves, pareciam não empurrar o bebê. Eu estava em uma enfermaria com várias outras parturientes, e senti que meu trabalho de parto havia parado. Meu útero estava tímido e constrangido.

– Sei como é. Os aspectos emocionais e psicológicos assumem uma total preponderância na hora do nascimento. Todo o processo é ilusoriamente mecânico e hormonal; em verdade ele é mental, afetivo e ocorre “entre as orelhas”, completei eu.

Ela continuou.

– Houve um momento em que meu marido ameaçou invadir o centro obstétrico caso não permitissem que ele entrasse. Gritou e esperneou, forçou a passagem, mesmo quando a enfermeira lhe explicou que havia “outras gestantes, portanto, seria indecente sua presença entre tantas outras mulheres seminuas“.

– Essa desculpa é usada até hoje, falei.

– Sim doutor, mas ele não aceitou a desculpa e exigiu me ver. Então a enfermeira chefe teve uma ideia conciliadora que ajudou a resolver o impasse.

– Posso imaginar qual foi, disse eu, sorrindo só de imaginar a solução encontrada.

– Exatamente doutor. Meu marido entrou no centro obstétrico conduzido por uma técnica de enfermagem e com uma… venda nos olhos, como um condenado!!! Quando eu o vi tomei um susto, mas fiquei feliz de finalmente encontrá-lo. Tirou a venda e pude ver seu rosto amarrotado de preocupação, mas tive a sabedoria de lhe devolver com um sorriso.

Depois de uma breve pausa continuou contando, até chegar na melhor parte da história.

– Pois o mais interessante aconteceu logo depois. Imediatamente após trocarmos um abraço eu tive uma contração muito forte, e depois outra e mais outra, e a enfermeira veio correndo dizer para fechar as pernas e ir para a sala de parto pois o bebê já ia nascer !!! Em poucos minutos tinha minha filha nos braços. Pode isso?

– Não parece ser uma coincidência, não é? perguntei.

– Não mesmo, Ric. Para mim ficou claro que, para minha filha chegar a este mundo, aquele encontro precisava ocorrer.

Sorri para aquela mãe orgulhosa e completei nossa breve conversa.

– Sim, você tem toda a razão… uma pena ainda não termos tão clara a importância do suporte afetivo para qualquer mulher que está atravessando esse desafio. Quem sabe um dia chegamos lá.

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