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Carrefour

“E os brancos que são mortos por negros? Eles não valem nada?”

Suas mortes são igualmente lamentáveis, mas pense bem: eles não morrem POR SEREM brancos. No caso do Carrefour o racismo é o principal elemento da cena, mas por certo não o único. A violência absurda, a covardia e o uso abusivo da força também contam. O poder econômico de uma grande rede de supermercados multinacional atacando a ponta frágil da sociedade – preta e pobre – é inegável e não podemos fechar os olhos para essa face cruel do capitalismo.

Mas a observação da Bebel é certeira e vai no ponto: se fosse branco nada disso teria acontecido. Alguém conversaria com ele, chamaria um responsável da loja e acabaria tudo sem maiores problemas. Vejam os vídeos dos barracos que brancos fazem e perceba a diferença. É a cor da pele, é a cor…

Sim, ele morreu por ser negro, sua condenação estava na escuridão da sua pele. Um negro não tem o mesmo direito de fazer um “barraco” e tudo ser resolvido na conversa, chamando o gerente. Não, com eles é na porrada no mata Leão, na asfixia – há pouco tempo, no chicote. A execução é sem júri, sem advogado; é no chão frio da rua, atrapalhando as “pessoas de bem” que vão fazer suas compras.

Claro que há negros que matam brancos, mas mostre para mim um grupo de negros pulando e asfixiando um branco apenas por ele ter sido inconveniente ou abusado. Onde estão?

A desculpa, quase onipresente aqui e nos Estados Unidos, é bem conhecida por todos nós: Por que ele resistiu? Por que não cooperou com as “autoridades”? Pois eu acho essa pergunta a maior das ofensas, pois no fundo ela significa: “Hei negro, ponha-se no seu lugar. Quando a gente manda, você obedece!”

Para um negro, reagir a uma injustiça é sempre um crime inafiançável. A eles só cabe a resignação e o silêncio.

O racismo fica evidente quando o que para nós brancos é tratado como “exagero” ou “inconveniência” para os negros significa uma sentença de morte.

Os não brancos são 51% desse país. Por quê nossos irmãos são tratados com muito mais crueldade que qualquer animal? Ontem foram 80 tiros. Um pouco antes Amarildo. A juventude negra continua sendo massacrada diariamente pelo Estado racista.

Até quando???

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Luz e Sombra

Quase ninguém se importa em dar apoio e suporte aos cuidadores. Quando as perdas acontecem eles se tornam invisíveis ou se transformam em alvos fáceis para nossas frustrações. Humanizar o nascimento também é cuidar de quem cuida.”

Reese Waldorf, “Who cares”, ed Epigram, pág. 135

Esta escolha é sempre complexa pois se baseia em fatores subjetivos e questões circunstanciais e, em verdade, ela está na base de toda a opção que fazemos por cuidar das pessoas. Você pode escolher o contato nos limites do necessário para realizar sua função específica ou pode entender que somente ao raspar as crostras superficiais do sujeito é possível entender o que se passa para além de sua epiderme.

Assim sendo, diante de nós duas portas se oferecem: uma delas nos leva ao mundo do aparentemente manifesto, do discurso, da evidência, do sinal aparente e do sintoma mais grosseiro. Um mundo muito próximo da biologia, da física e do real que (ilusoriamente) nos envolve. Já a outra porta nos leva ao mundo do simbólico, do relativo, do subjetivo e do pessoal. Um universo de significados e significantes dispersos e fora de ordem, onde moram nossas verdades mais sombrias. A casa das verdades perenes, das memórias sombrias e do medo.

Ambas as portas nos oferecem a oportunidade de conhecer os pacientes, mas enquanto a primeira permite um contato superficial a segunda nos obriga à criação de um vínculo que também nos impõe – em contrapartida – a conexão afetiva e emocional. Por isso mesmo adentrar desta forma no universo mais profundo dos pacientes nos leva obrigatoriamente à empatia e à conexão, à alegria e ao sofrimento.

Quem escolhe a segunda porta sabe que as alegrias serão sempre o tempero da vida; a luz que nos faz caminhar e seguir adiante. Todavia, sabe também que as perdas os insucessos não poderão passar pela vida de quem cuidamos sem nos afetar da mesma forma.

A dor de perder na luta inglória contra a morte será sempre maior quando nossos corações se conectam com quem vestiu as capas do luto. Quem escolhe a com-paixão – o afeto compartilhado – sabe “a dor e a delicia de ser o que se é“. Sabe também que o preço das alegrias supremas é estar junto de quem sofre, para poder auxiliar quem se depara com as dores mais profundas que a vida pode reservar.

Um abraço pra as minhas amigas cuja dor de hoje lhes rasga a alma, exatamente porque são pessoas de luz e espíritos especiais.

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Inquisição

Chorei lendo.

É longo; só leia se a injustiça e a violência dos poderosos machuca sua alma. Marx tinha razão e a história se repete como farsa. Também tem razão o articulista ao dizer que o objetivo dos fascistas não é destruir apenas a esquerda, mas as próprias conquistas civilizatórias da Revolução Francesa. A treva que se abate sobre o mundo é densa, mas seremos semente.

Calas hoje se chama Lula ou Luís Inácio. Melhor, os dois. Está preso nas masmorras de Curitiba sem nenhuma prova, apenas delações de torturados e a convicção de julgadores fanáticos. Tem a alma inocente como Jean Calas, e seus ossos quebrados pela injustiça. Moro é o inquisidor estúpido preconceituoso e cruel que receberá da história o repúdio, o nojo e o desprezo.

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Lula está preso, Voltaire está morto. Babacas!

Por Rogério de Campos, publicado em Le Monde Diplomatique Brasil

O caso Calas é uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda do processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), podemos dizer ser inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente.


O magistrado David Beaudrigue estava convicto: o jovem Marc-Antoine Calas fora assassinado pela própria família. O pai, a mãe e um dos irmãos, e também a empregada Jeanne Viguière e um jovem amigo da família, Gaubert Lavaysse: todos que estavam na casa naquela noite do dia 13 de outubro de 1761 diziam que ao descer da sala de jantar, que ficava no primeiro andar, para o térreo, encontraram o corpo de Marc-Antoine no chão. Falou-se de um desconhecido misterioso que fugira, sem ser identificado. Falou-se de uma punhalada. Mas o médico retirou a gravata de Marc-Antoine e ali estava a marca no pescoço: o rapaz fora enforcado ou estrangulado.

Na cidade de Toulouse, no sudoeste da França, Beaudrigue era mais que um magistrado comum: era um capitoul, ao mesmo tempo investigador, promotor e juiz. Usando sua autoridade, naquela mesma noite mandou para a prisão todos que estavam na casa, inclusive o cadáver.

No dia 15, a verdade veio à tona: Marc-Antoine se suicidara. Seu irmão, Pierre Calas, e Gaubert Lavaysse o encontraram enforcado. Desesperados, chamaram o pai, Jean Calas. Os três desceram o corpo para o chão. A mãe, Anne-Rose, ficou assustada com os gritos e pediu a Jeanne que fosse ver o que acontecera. Só depois Anne-Rose foi até lá. Em meio ao desespero, Jean Calas ordenou a todos que não contassem a ninguém que Marc-Antoine se suicidara. Temia o castigo que era tradicionalmente imposto aos suicidas: seu corpo era amarrado nu a uma grade (a claie d’infamie), arrastado pelas ruas da cidade, apedrejado, até ser jogado no depósito de lixo da cidade.

Mas, apesar dessa confissão, o capitoul Beaudrigue continuava convicto: a família, com a ajuda de Jeanne e de Lavaysse, assassinara Marc-Antoine. Ordenou que todos continuassem presos. Outro capitoul, Lisle Bribes, aconselhou ao colega um pouco de calma e questionou a regularidade daquela detenção. Impaciente, Beaudrigue respondeu:

– Isso é comigo, o que está em causa é a religião (“Je prends tout sur moi. C’est ici la cause de la religion”).

Beaudrigue era católico. A família Calas era protestante.

O capitoul aparentemente acreditava nos boatos que começaram a correr pela cidade segundo os quais Marc-Antoine fora assassinado pela família porque desejava se converter ao catolicismo.

O quanto havia de fanatismo religioso em Beaudrigue é difícil de determinar. Durante alguns séculos, ele foi visto por historiadores como um magistrado rígido, cruel e intolerante. Voltaire o considerava tudo isso e também um patife, mas não tinha provas para esta última acusação. Em 1927, Anatole Feugère, professor da Faculdade de Letras de Toulouse, pesquisando nos arquivos da Corte de Justiça da cidade, descobriu documentos de um antigo processo que revelaram o quanto a intuição do filósofo estava correta: os velhos papéis demonstraram que Beaudrigue pouca coisa fazia que não motivada por subornos ou interesses pessoais. Recebia dinheiro de donos de salões de jogos e prostíbulos para fazer vista grossa. Tomava para si cargas de vinho apreendidas de contrabandistas e, santarrão, até promovia orgias em sua casa de campo. Em uma ocasião, usou sua autoridade para punir duramente o ex-amante de sua amante.

Mas, mesmo sem as descobertas do professor Feugère, seria fácil suspeitar das motivações de Beaudrigue para ser tão cruel com os Calas. O poderoso cargo de capitoul era uma conquista que se fazia no campo das relações políticas. O mais poderoso ministro da França naquele momento era o conde de Saint-Florentin, hostil aos protestantes. Beaudrigue trocava correspondência com Saint-Florentin. Além disso, a elite de Toulouse era totalmente católica e o poder judiciário em boa parte dominado pelos Penitentes Brancos (uma irmandade católica). Matadores de protestantes costumavam ser celebrados como heróis. Ser intolerante com hereges era ótimo para a carreira de um capitoul.

Em Toulouse, que fora uma das capitais da heresia cátara no século XII e depois um centro importante do protestantismo na França, o catolicismo teve que se impor a ferro e fogo. Contra os cátaros foram necessárias três cruzadas. Foi em Toulouse que são Domingos criou a Inquisição. E em 1562 aconteceu um grande massacre de protestantes, no qual foram mortas entre 3.000 a 5.000 mil pessoas. Na época, todos os protestantes sobreviventes foram expulsos da cidade. O aniversário do massacre, comemorado no dia 17 de maio, foi uma das principais festividades da cidade até o século XIX. Nesse dia, como retribuição à luta da cidade contra o protestantismo, o papa concedia indulgências a quem fosse rezar na catedral ou na igreja de Saint-Sernin, na qual se encontra uma peça de madeira entalhada que mostra um porco no púlpito com a legenda: “Calvino, o porco, pregando” (“Calvin le porc, prêchant”).

A Inquisição de Goya

Em 1761, a população de Toulouse era formada por 50 mil católicos e 200 protestantes. Que conviviam mais ou menos pacificamente. O comerciante Jean Calas tinha negócios com católicos, os Calas tinham amigos católicos e a própria Jeanne, empregada da família há mais de 20 anos, era uma católica fervorosa. Mas haviam aqueles católicos mais que fervorosos, febris. Corria pela região a história de que os protestantes haviam se reunido em um sínodo, na cidade de Nimes, no qual decidiu-se que os pais e mães eram obrigados a matar seus filhos se esses tentassem mudar de religião. E os boatos diziam que Lavaysse fora enviado à casa dos Calas para ajuda-los a executar o filho.

Por mais absurdo que isso pareça, foi justamente essa história delirante de uma conspiração protestante para matar Marc-Antoine a base da argumentação da acusação:

“Calvino diz que todos os filhos que violem a autoridade paterna, quer através do desprezo, quer da rebelião, são monstros e não homens. E que, portanto, Nosso Senhor ordena que sejam condenados à morte todos os que desobedeçam a pai e mãe. Calvino é de opinião que o filho rebelde e desobediente seja morto”.

Calvino, segundo a acusação contra os Calas, teria se baseado em Deuterônimo 21:18: “Se alguém tiver um filho rebelde e indócil, que não obedece à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e não os ouve mesmo quando o corrigem, então, seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade e à porta do seu lugar, e dirão aos anciãos da cidade: ‘este nosso filho é rebelde e indócil, não dá ouvidos à nossa voz, é um devasso e beberrão’. Então, todos os homens da sua cidade o apedrejarão com pedras, até que morra”.

Os outros protestantes, de Toulouse e da região, ficaram escandalizados com tal acusação. Denunciaram que o suposto sínodo em Nimes nunca acontecera e que o documento em que Calvino exortara o assassinato de filhos rebeldes era falso. Mas Beaudrigue não lhes deu atenção. Ele tinha outra preocupação: se não havia qualquer prova de que os Calais haviam matado o filho era preciso ao menos provar que havia um motivo para que eles o tivessem feito, provar que Marc-Antoine de fato pretendia se converter ao catolicismo. E o capitoul não tinha nem essas provas. Tinha boatos e tinha sua convicção.

Beaudrigue decidiu então lançar uma “monitória”, uma espécie de chamamento para que pessoas que soubessem de algo sobre o caso aparecessem para depor. Pela monitória, se alguém soubesse algo e não se manifestasse estaria automaticamente excomungado. Em geral, as monitórias funcionavam: com medo de serem condenadas ao inferno, as pessoas que tinham alguma informação corriam para depor. Também em geral, as monitórias não costumavam especificar se queriam depoimentos a favor ou contra os réus. Não era o caso dessa emitida por Beaudrigue, claramente direcionada: queria ouvir quem soubesse algo da conversão de Marc-Antoine, das ameaças que os pais faziam a ele, de uma reunião em que se deliberou sua morte, daquela noite do dia 13 na qual “esta execrável deliberação foi executada, fazendo ajoelhar Marc-Antoine, o qual, pela surpresa ou pela força foi estrangulado ou enforcado” e, por fim, “todos os que saibam quem são os autores, cúmplices, implicados, aderentes deste crime, que é dos mais detestáveis”.

E aí apareceu de tudo, gente que viu Marc-Antoine em igrejas, rezando, e até uma moça que se dizia ex-protestante e que garantiu que o rapaz não só se convertera ao catolicismo, mas também a convertera (depois ficou claro que a história era fantasia da garota, que sempre havia sido católica).

Um exemplo de depoimento:

“Massaleng, viúva, declarou que sua filha lhe contou que o senhor Pagès havia contado à ela que M. Soulié havia contado a ele que a senhorita Guichardet contara a ele que a senhorita Journu havia dito algo a ela que a fez concluir que o padre Lerraut, um jesuíta, tinha sido o confessor de Marc-Antoine Calas”. O padre Lerraut foi convocado para depor e demonstrou que a história não era verdadeira.

Portanto, não havia provas e os testemunhos eram bem frágeis. Mas Beaudrigue tinha convicção e isso ele podia provar: ordenou que Marc-Antoine tivesse um pomposo enterro como mártir católico. Juntou-se uma multidão, vieram delegações de todas as ordens religiosas e todas as confrarias de penitentes. Ou seja, a hipótese de que Marc-Antoine tivesse se suicidado havia sido completamente descartada.

Condenados à morte na primeira instância, os Calas recorreram à segunda instância, que era a Corte de Justiça de Toulouse. Mas ali também não havia esperança: até porque diversos dos juízes eram da irmandade dos Penitentes Brancos. Um dos juízes chegou a dizer às duas filhas de Calais (que não estavam na casa no dia 13 de outubro, portanto não foram implicadas no caso): “Não tendes outro pai agora, senão Deus”.

Ainda assim, os juízes vacilavam: também tinham a convicção da culpa, mas viam que ela não estava demonstrada. Não havia provas. Então alguém teve a ideia de julgar e condenar Jean Calas separadamente. Acreditavam que ele, um pacato comerciante de 64 anos, não aguentaria as torturas que precediam a execução, muito menos encarar o cadafalso: iria confessar e entregar seus cúmplices.

Às quatro horas da manhã do dia 10 de março de 1762, depois de passar a noite na infernet (masmorra reservada aos condenados à morte) foi levado à câmara de torturas. Dois padres ainda tentaram convencê-lo a converter-se ao catolicismo, para assim salvar sua alma já que a vida estava perdida. Mas ele se recusou.

Beaudrigue o esperava na câmara e anunciou que aquele seria o último interrogatório. Calas foi torturado por horas, mas resistiu a todas as tentativas do capitoul de arrancar dele uma confissão. Por fim, foi levado para a praça de Saint-Georges, que já estava lotada pela multidão. O cadafalso estava montado. Jean Calas foi condenado a ser morto na roda, uma das mais cruéis formas de execução: a vítima é colocada sobre uma roda, seus ossos são quebrados e ela fica ali, às vezes sendo comida viva pelos corvos e aves de rapina, até que morra de dor ou que a autoridade tenha a misericórdia de dar o golpe final. Beaudrigue fez mais uma tentativa, pareceu vacilar em sua convicção e admitir que talvez outra pessoa tivesse assassinado Marc-Antoine:

– Calas, embora inocente, sabe talvez quais foram os autores do crime cometido contra a pessoa de Marc-Antoine?

– Não sei.

Calas ficou duas horas na agonizando naquela roda, até que o carrasco o estrangulou. Seu corpo então foi lançado a uma fogueira.

Conta-se que enquanto ele agonizava um padre chamado Bourges fez uma última tentativa de arrancar sua confissão. E o Calas respondeu irritado:

– Padre?! O quê?! Também acredita que se possa matar um filho?!

Talvez um tanto desnorteados com a inesperada firmeza de Jean Calas, os juízes liberaram os outros acusados dias depois. Pierre foi condenado a um simulacro de exílio perpétuo: foi levado para fora de um dos portões da cidade e então conduzido novamente para dentro da cidade, para o convento dos dominicanos onde ficou sob vigilância até o dia 4 de julho, quando fugiu.

Voltaire vivia do outro lado da França, em Ferney, na fronteira com a Suíça. Quando ouviu a história do protestante que matou o filho, chegou a fazer piada a respeito. O filósofo aceitava como fato que Jean Calas era um fanático que matou o filho porque este queria se tornar católico. Voltaire tinha tanto desprezo pela intolerância católica quanto pela protestante.

Mas um comerciante de Marseille, que vinha de Toulouse e estava de passagem por Ferney, contou a Voltaire a outra versão da história. O filósofo ainda assim, resistiu a acreditar que os juízes pudessem ter errado. Escreveu a um amigo que o crime de Calas lhe parecia pouco verossímil, “mas é menos verossímil ainda que os juízes, sem qualquer interesse, tenham feito perecer um inocente no suplício da roda”.

Voltaire começou uma espécie de investigação para chegar à verdade. Mandou cartas para amigos que podiam saber mais do caso. “Quero saber de que lado nesse caso está o horror do fanatismo”, diz em uma das cartas. Por fim, se convenceu da inocência de Calas. E iniciou a épica campanha para que a verdade viesse a público. Seu célebre Tratado sobre a Tolerância (Traité sur la tolérance à l’occasion de la mort de Jean Calas – 1763) é parte dessa campanha que alcançou a vitória no dia 9 de março de 1765, quando o Conselho Real, em Paris, reabilitou Jean Calas e sua família, que foi indenizada pelo rei. Exatamente três anos depois da sentença que condenou Calas à morte.

O ministro Saint-Florentin tratou de se desvincular discretamente do caso. Usou outra falha de Beaudrigue, em outro caso, como desculpa para destituí-lo. Beaudrigue enlouqueceu. Tentou suicídio duas vezes. Na segunda tentativa foi bem-sucedido.

Voltaire tinha 70 anos quando ouviu falar de Calas pela primeira vez. Já havia feito sua fama como filósofo. Mas o caso daquele comerciante de Toulouse revolucionou sua biografia: ele se tornou um herói, um campeão na defesa dos injustiçados. E se tantos bustos dele enfeitam bibliotecas até hoje é menos por causa de Cândido que por Calas. Nove de março de 1765 passou a ser o jour de gloire do iluminismo francês.

Para diversos historiadores, o caso Calas marca o início da campanha contra a pena de morte e contra a tortura. O caso virou o grande monumento ao princípio jurídico da Presunção da Inocência. Tal princípio já estava presente no Corpo do Direito Civil, de Justiniano: “Ei incumbit probatio qui dicit, non qui negat” (“Àquele que disse e não ao que nega incumbe à prova”), mas foi mais ou menos esquecido durante a Idade Média, que talvez tenha começado a acabar quando o cardeal e jurista francês Jean Lemoine escreveu “item quilbet presumitur innocens nisi probetur nocens” (“uma pessoa é considerada inocente até ser provada culpada”).

É também em 1765, ano da reabilitação de Calas, que William Blackstone publica Commentaries on the Laws of England com seu famoso ratio: “é melhor que dez culpados escapem à condenação que um inocente sofra”. Podemos pensar que isso foi coincidência, resultado da Inglaterra estar mais adiantada em seu caminho rumo à democracia. Mas é certo que é Calas quem está na memória dos autores da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) quando eles escrevem o artigo 9: “Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei”.

É claro que os Judiciários do mundo inteiro seguiram cometendo as injustiças que lhes são próprias. Mas a passou a existir aquela monumental referência do que é certo.

O caso Calas é, portanto, uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Assim, quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda desse processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), poderia se dizer que era quase inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente. Como se o caso precisasse ser refeito para que todas as consequências que teve possam ser revertidas. Então a tragédia de Toulouse volta a acontecer em Curitiba, na forma de farsa.

Como em Toulouse, o capitoul Sergio Moro não tem provas que sustentem a condenação de Lula. Moro, como Beaudrigue no passado, sequer consegue provar que há um crime. Existem os depoimentos, alguns delirantes, alguns maliciosos e interessados, alguns depoimentos, em Toulouse, arrancados à custa de ameaças de excomunhão, vários em Curitiba arrancados às custas de torturas (e não é tortura manter um cidadão preso por meses até que ele confesse a suposta culpa de outro cidadão?).

Mas há a diferença fundamental para o primeiro caso Calas: agora ninguém perde de vista de que se trata de uma farsa. Sabem disso tantos os juízes do Supremo que se colocam como reféns dos ritos quanto o colunista de jornal para quem a condenação faz justiça ainda que o Lula não seja culpado dos crimes que a motivaram. Sabe disso até mesmo o nerd boçal que repete eufórico “Lula tá preso, babaca!” e comemora a prisão como o fanático torcedor comemora um gol de mão.

Chega a ser injusta a acusação de hipocrisia feita aos protagonistas dessa farsa. Porque eles não prestam tal respeito à virtude. Tudo está à vista, porque precisa ser à vista: só assim serve como aviso. O que demorou, talvez, a ficar claro é que o objetivo, como já se viu, não foi apenas impedir o que aparentemente era inevitável: a reeleição do ex-metalúrgico. Mas impedir a possibilidade de eleição de um metalúrgico. Não apenas destruir o legado do PT, ou da Esquerda, ou do Getulismo, mas destruir também o legado da Revolução Francesa.

E nós, da periferia do capitalismo, que tínhamos várias razões para duvidar da pertinência do termo Civilização Ocidental, vemos a Democracia, que mal tinha posto os pés aqui, voltar para o navio e partir.

* Rogério de Campos é editor, tradutor e autor dos livros Revanchismo, Dicionário do Vinho (Prêmio Jabuti) e Imageria (Prêmio HQ Mix). Seu livro mais recente, Super-Homem e o Romantismo de Aço (Ugra Press, 2018) fala da relação do gênero super-heróis com o fascismo

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Injustiça

Pode um elogio sincero e emocionado ser o corolário de um gesto heroico e ao mesmo tempo guardar em seu âmago uma incômoda injustiça?

O corpo pesado da senhora aterrissou ruidosamente no solo frio do corredor do hospital fazendo um ruído surdo reverberar pelas paredes. De costas para o solo sua mão tocava a faixa amarela que guiava os pacientes para a sala de ecografias. Apenas um murmúrio saía de sua boca descorada. Os olhos vidrados olhavam para o teto branco sem se mover. Como testemunhas de sua queda apenas nós.

O expediente do hospital chegava ao seu fim e os poucos pacientes que ainda circulavam pela recepção estavam marcando consultas ou retirando exames no guichê. Os consultórios se encontravam vazios e os médicos já se dirigiam para seus carros no estacionamento em frente. Só nós ainda caminhávamos pelos corredores depois de tomar o último gole de café.

Por alguns minutos eu e Fabrício estivéramos conversando sobre nossas dificuldades de encarar uma medicina cada vez mais mercantilista e limitada. Não nos parecia razoável que a teia intrincada e complexa do sofrimento humano pudesse ser traduzida tão somente por alterações mecânicas e químicas, sem levar em consideração a palavra e sua potência. Havia algo da alma humana a ser explorado, algo que não suportava o confinamento na caixa estreita do modelo tecnocrático da medicina. Os poucos anos que nos separavam de nossa formatura eram suficientes para antevermos uma vida inteira em que esses dilemas se apresentariam diante de nós. As conversas ao redor de xícaras fumegantes de café sempre giravam em torno de alternativas, modelos paralelos e complementares, vias de entendimento diferentes e criativas. Este havia sido o tema de mais um debate de fim de expediente na cafeteria do hospital. Fabrício também voltaria para casa, mas eu permaneceria pois estaria no “plantão geral” para as emergências. Nossas despedidas foram interrompidas pelo som do corpanzil que caiu poucos metros à nossa frente.

A princípio pensei se tratar de um escorregão, mas a imobilidade da senhora que se seguiu à queda logo me mostrou que se tratava de mais do que um mero tropeção. O corpo jogado ao solo com as pernas tortas e o dorso colado ao chão denunciavam mesmo uma perda súbita de consciência. Corremos imediatamente para ajudá-la e tentar entender do que se tratava.

Ao nos aproximarmos a palidez era chocante, e os lábios se limitavam a duas listas violáceas a rasgar a pele marmórea do rosto. Ela balbuciava palavras desconexas enquanto tentava, sem sucesso, focar seu olhar de nós. Segurei o braço da mulher com a intenção de erguê-la, enquanto Fabrício colocava os dedos em seu pescoço para avaliar seus batimentos cardíacos. A pobre senhora a tudo assistia em profunda confusão.

Passados poucos instantes Fabrício segurou meu braço e exclamou:

– Fibrilação ventricular. Cardioversão!!

Fabrício era um clínico e intensivista muito qualificado, apesar de mal ter passado dos 30 anos. Eu cheguei a questionar uma medida tão extrema em uma paciente que não estava inconsciente, mas confusa, ao que Fabrício respondeu como firmeza: “Cuide das grávidas, disso aqui cuido eu!!

Obedeci sem questionar, por certo, e me limitei a ajudá-lo a carregar a paciente para a sala de emergência, que se encontrava apenas poucos metros de onde ela havia caído. Ao perceberem a movimentação inusitada para aquele horário de fim de tarde, as enfermeiras e atendentes se aproximaram e nos ajudaram no transporte de poucos metros até a maca na sala de emergência. Com a paciente já acomodada na sala, e com o aparelho ligado em suas mãos, Fabrício gritou:

– Cardioversão!!! Afastem-se!!

Não é necessário ser médico ou enfermeira para entender o que isso significa, basta ter assistido algum programa dramático sobre o cotidiano de uma unidade de emergência. O aviso se referia aos 100 jaules de energia que seriam transmitidos entre os dois polos do cardioversor para a retomada do ritmo cardíaco normal, para que ninguém recebesse parte dessa carga desavisadamente.

“BUM”, fez o aparelho, enquanto as pernas da senhora eram jogadas reflexamente para o alto.

A isso seguiu-se uma nova avaliação de Fabrício sobre seu ritmo cardíaco. Depois de um silêncio momentâneo, repetiu-se o aviso.

– Outra carga, afastem-se!!!

Novo chacoalhar de braços e pernas para cima. Depois o silêncio. Novamente a mão de Fabrício tateou as carótidas da senhora.

– Ritmo sinusal. Revertemos. Podem levá-la para a UTI.

A cena toda não durou mais de 10 minutos. Menos talvez, mas as brumas do tempo me impedem de recordar de maneira exata. Pouco afeito às manobras das UTIs, fiquei vivamente impressionado com a pronta ação do meu colega. O diagnóstico preciso, a ação imediata, a repetição quando foi necessária e a resolução da emergência me deixaram emocionado. Ainda tive tempo de cumprimentá-lo quando o vi acompanhar a maca que cruzaria o hospital em direção à Unidade Intensiva.

Passei aquela noite de plantão no hospital pensando nas múltiplas variáveis que precisaram estar presentes para que aquele milagre viesse a ocorrer. Sim, ouso chamar de milagre porque houve uma sequência de eventos que, caso algum deles estivesse fora do lugar, teria custado a vida daquela senhora.

A presença do meu colega, já fora do expediente ao meu lado, foi o primeiro deles. Estivesse eu sozinho – um ginecologista e obstetra – e não seria capaz de fazer um diagnóstico cardiológico com tamanha precisão e rapidez, nem mesmo carregá-la para a sala de emergência. Além disso, a queda da senhora se deu a 10 metros de onde estávamos, enquanto caminhávamos sofregamente pelo corredor do hospital. Mais ainda, ela foi ao chão praticamente em frente à sala onde estava o cardioversor. Se Fabrício não estivesse comigo, se ela tivesse caído minutos antes, no estacionamento de onde veio ou mesmo se estivesse em outro ponto do hospital talvez o resultado seria um óbito por fibrilação seguido de parada cardíaca.

A cena se repetia em minha mente enquanto eu pensava sobre a fragilidade da vida e os encontros ocasionais de elementos fortuitos que causam tanto os milagres quanto as tragédias.

Duas semanas se passaram desde o acontecido, e neste período eu ficava sabendo da paciente pelas conversas com Fabrício na hora sagrada do café. Sua recuperação havia sido excelente e ela finalmente teve alta hospitalar. Saiu com uma avaliação geral e uma série de medicamentos para corrigir seu distúrbio cardíaco básico. No dia que se seguiu à alta o diretor do hospital encerrou o “briefing” que iniciava um novo dia de trabalho lendo para todos os médicos, enfermeiras, bioquímicos e fisioterapeutas do turno da manhã uma carta escrita a punho pela paciente agradecida.

Não recordo das palavras exatas, mas o teor era claro. Agradecia às enfermeiras, médicos e pessoal de suporte pela atenção recebida durante a sua estada no hospital, e em especial a Deus por ter oferecido a ela uma nova oportunidade de continuar vivendo depois do quadro dramático e inesperado pelo qual passou. Entretanto, dizia ela, “nenhum fator foi mais importante que a ação corajosa, profissional e altamente qualificada do Dr Fabrício, de quem me sinto eternamente devedora”.

Depois de lida a carta o diretor solicitou que todos os profissionais presentes à reunião se levantassem e aplaudissem nosso colega pelo excelente trabalho realizado, o que fizemos de forma veemente e sincera. Muitos foram os que se dirigiram ao meu colega e o abraçaram efusivamente, cumprimentando-o pelos elogios merecidos relacionados àquele atendimento. Eu fui um deles.

Entretanto, o rosto de Fabrício não parecia estar muito feliz com o acontecimento. Em verdade, a cada abraço e aperto de mão ele respondia com um sorriso constrangido e uma explícita inquietude.

– Não me parece correto, Ric. Não acho justo. Existe uma grande injustiça aqui.

Fiquei a princípio intrigado com sua reação. Como poderia haver injustiça em uma ação perfeita, correta, profissional e, acima de tudo, salvadora? Não lhe parecia justo que a paciente, cuja vida só se manteve por sua ação imediata, agradecesse  por tudo que recebeu de um profissional qualificado?

– Não entendi, Fabrício. Afinal, qual a sua contrariedade?

Ele respondeu:

– Não me entenda mal, Ric. Eu me sinto feliz e envaidecido pelas homenagens, mesmo sabendo que, para um intensivista, o que fiz não seja algo tão complexo. Fui treinado para fazer isso. Também me chamou a atenção, e aposto que a você também, o impressionante encadeamento de eventos que permitiram que ela fosse atendida a tempo de sobreviver. Não é incrível?

Respondi afirmativamente com um meneio de cabeça. Ele continuou.

– Mas não é isso que me incomoda. Sabe o que ela estava fazendo àquela hora no corredor? Ela havia acabado de marcar uma consulta no setor de clínica médica depois de mais de um ano sem comparecer ao hospital. Ela já tinha há alguns anos o diagnóstico de arritmia cardíaca, mas não estava se tratando. Tomava remédios de forma errática e em doses inadequadas. Quando indagada porque deixou de marcar consultas no hospital disse que o médico que lhe atendia na época não lhe dava suficiente atenção e era frequentemente rude com ela. Parou de comparecer, atrasou as revisões, não se medicou com adequação e isso tudo levou ao desfecho que vimos no corredor do hospital.

– Sim, Fabrício, eu entendo, certamente que houve falhas. Ela não foi corretamente tratada e isso levou ao agravamento da doença básica. Não tivemos competência para prevenir este caso, mas nada disso retira o brilhantismo de sua atuação e sua conduta. Cara, você foi brilhante!! Você é o meu herói!!

Ele sorriu do meu entusiasmo, mas continuou sua narrativa.

– Mas Ric, você não está enxergando a injustiça? Não percebe que existe uma falha grave nessa homenagem?

Fiz mais uma vez uma cara de surpresa e pedi que me explicasse.

– Ora, Ric, deixe que eu lhe explique. Há algumas quadras daqui há um posto de saúde da prefeitura onde um médico clínico geral “genérico” trabalha. Ele é mal pago, atende dezenas de pacientes por dia e tem uma sobrecarga grande de trabalho. Entretanto, ele é um “médico de verdade”. Tem profundo amor pelos seus pacientes e oferece a eles um tratamento não apenas baseado em evidências, mas complementado por um entendimento psicológico, afetivo, emocional e social de suas enfermidades. Conhece os pacientes pelos nomes e sabe de suas vidas, suas dores, seus fracassos, suas feridas – no corpo e na alma – e trata-os da forma mais integrativa possível. Nenhum paciente foge das consultas, pois em cada uma delas nosso “herói de periferia” os escuta, ajuda, consola, orienta e medica adequadamente. Não existem desistências ou negligências.

– Sim, estou acompanhando, disse eu

– Pois o resultado do trabalho desse colega anônimo, escondido num acanhado posto de saúde – mas poderia também estar em um consultório de luxo – é que seus pacientes correm um risco muito menor de descompensarem de forma grave e súbita. Eles dificilmente abandonam o tratamento ou negligenciam sua saúde. Este médico é o sustentáculo do tratamento, muito mais do que qualquer droga ou procedimento. Repetindo o dizer de Balint “ele é o melhor remédio que seus pacientes podem ter”. Sua condução firme, ao mesmo tempo afetiva, oferece estímulo e coragem para que seus pacientes se mantenham em tratamento.

– Acho que sei onde você quer chegar, Fabrício.

– Sim, Ric, pois o que considero injusto é que exatamente a boa condução do tratamento, a qual torna muito difícil que seus pacientes venham a piorar gravemente, é o que nos impede de enxergar a magnitude do seu trabalho de preservação da saúde. Nós valorizamos o ato heroico que surgiu após uma série de pequenos fracassos, mas não aplaudimos o trabalho silencioso dos profissionais que impedem que os desastres aconteçam. Homenageamos apenas o que enxergamos, o espetáculo, a ação salvadora, o sucesso e a vida por um fio, mas deixamos de reverenciar todas as ações invisíveis à olho desarmado cuja excelência bloqueia as tragédias.

Suspirou com um certo pesar e arrematou.

– Não me importo que reconheçam o meu trabalho, mas não posso permitir que essa injustiça se estabeleça. Existem centenas de colegas cujo trabalho não é percebido e elogiado exatamente porque são competentes e dedicados. Assim não lhe parece?

– Sim, caríssimo, estou de acordo. Também percebo que cada vez que um parto normal impede uma infecção hospitalar ou um problema futuro por uma cesariana estamos plantando sementes invisíveis de saúde. Sei o quanto é gratificante ser reconhecido por um trabalho como o seu, mas ao mesmo tempo reconheço que existem trabalhos muito mais importantes e abrangentes, os quais são apenas menos vistosos e espetaculares.

– Seguro que sim, respondeu meu colega. Mas enquanto não encontramos uma resposta definitiva para mais este dilema da medicina, que tal buscarmos a solução provisória que, apesar de ser a mais imediatista, é certamente a mais saborosa?

– Sim, colega…. café!!!

– Não há porque divergir sobre isso!!

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Vendilhões do Templo

vendilhoes-templo
Comentários da China Não tenho e nunca terei qualquer simpatia pelos vendilhões do templo, por sujeitos que exploram a fé dos pobres, dos deserdados e dos miseráveis como Malafaia, Cunha, os sionistas cristãos – como Edir e Everaldo – e toda a malta de religiosos de direita fundamentalista que emporcalham a política e a sociedade brasileira. Entretanto, não me associo à turba que se diverte vendo as cenas grotescas que envolveram a prisão arbitrária de Garotinho no Rio de Janeiro. Todavia, eu preciso aprender que a IMENSA maioria das pessoas se diverte quando o inimigo é injustiçado ou tratado como um animal, mesmo que os meios para que tal fato ocorra sejam ilegais ou manipulados. Entretanto, estas mesmas pessoas que dão gargalhadas com as cenas burlescas de um ex-governador sendo encarcerado, vão achar um absurdo quando o raio da prepotência cair sobre suas próprias cabeças. Ser justo e correto com os bons é fácil; difícil é ser justo com quem não gostamos, quem deploramos ou quem desprezamos. Aqui, na linha tênue que separa as emoções da razão fria, é que se distanciam o juiz e o justiceiro. O que vemos hoje no Brasil é uma justiça dos inimigos, onde pessoas com claro partidarismo procuram fazer justiça com as próprias mãos, imaginando que isso porá um fim aos desmandos e à corrupção. Como poderia ser isso verdadeiro se as próprias ações do judiciário agridem a constituição e são, por si só, mais um desmando institucional? Pois quando a polícia botar um pé na porta da sua casa batendo, espancando, torturando, desrespeitando direitos básicos por desconfiar que aquela bandeira do América é na verdade comunista…. quem sobrará para rir da nossa tragicomédia cotidiana? Eu respondo para você: os de sempre. Os donos da rinha, que se divertem vendo os pobres galos se matando, uns aos outros, para o deleite dos poderosos.

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