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Massacres cotidianos

Já pensaram como deve ser o massacre contra meninos pretos e pobres diante das acusações – por vezes levianas e sem sustentação – nos juizados pelo Brasil afora? Se nos Estados Unidos, onde os direitos humanos e a proteção aos réus é mais solidificado, existem casos brutais de condenações motivadas por raça e classe social (como o caso de George Stinney na foto acima), imaginem como deve ser o desrespeito, o racismo e o preconceito de classe contra esses jovens aqui no Brasil. Quantos jovens estarão encarcerados agora apenas por sua cor? Quantos meninos estão hoje atrás das grades apenas como punição para a condição de pobreza a que são submetidos?

O punitivismo – de qualquer tipo – é um câncer da direita que infecta até as alas liberais da esquerda. Precisa ser extirpado, destruído e esquecido, porque se baseia num conceito de sociedade dividido entre “bons e maus”, de viés essencialista e moralista, que nega os contextos sociais na produção dos delitos e do crime.

O abolicionismo penal entende que, para alguns tipos de crime, ainda não temos recurso melhor do que o afastamento da sociedade. Entretanto, a visão abolicionista prega que a ideologia da punição e do castigo é absolutamente ineficiente para diminuir a criminalidade e para gerar uma sociedade de paz. Só a equidade e a justiça social serão capazes disso. E para este fim precisaremos de um esforço pela paz, pois sem paz continuaremos divididos e em eterna guerra.

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Tragédias cotidianas

Não quero ler sobre esse fato do menino que faleceu aqui no Estado. Escutar os relatos me causa dor e angústia. Parece muito com aquela outra historia, igualmente brutal, do menino do Norte do estado, cujo pai é um cirurgião. Muito triste, muito desesperador.

Pior ainda é o fato de que a gente acaba se revoltando, sentindo raiva e indignação, mas o ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contêm. Odiar é destrutivo, envelhece o corpo e calcifica a alma.

O que se segue a esses crimes é quase tão ruim quanto a morte em si: uma onda de identificações, ódio, ressentimentos eruptivos, raiva incontida e sentimentos de vingança. Esse clima é horrível. Eu lembrei agora imediatamente do julgamento dos Nardoni quando pessoas saiam de suas casas e iam para a frente do fórum com cartazes de “assassinos”, “pena de morte”, etc. Eu pensava: “O que move essas pessoas? Sãoo pessoas comuns, que souberam do caso pela TV!! Que gozo condenatório é esse?“. Depois eu pensava na turba ensandecida que gozava vendo os leões comendo criminosos no Circus Romano ou gargalhava olhando as bruxas sendo queimadas pela inquisição e penso que tais personagens continuam a existir nos dias de hoje, com cartazes no lugar de archotes, mas com a mesma raiva doentia a escorrer pelo canto da boca.

Pelo menos agora vejo pessoas se perguntando “o que leva uma mulher a cometer um ato de tamanha violência?“. Pois esta pergunta, que nos impele à empatia, é o que nos livra dos dedos apontados, da dureza, da inexorabilidade. Tentar se colocar nos sapatos de um criminoso e perceber o mundo através de seus olhos é uma tarefa tão difícil quanto sublime.

Espero apenas que esse menino tenha paz e essa mãe a justiça.

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Tristes solilóquios

“Muitos insistem em vociferar verdades nas mídias sociais, mesmo que elas não venham acompanhadas de uma prova sequer do que afirmam. São sujeitos carregados de certezas e ideias simples, repletas de embates do “bem contra o mal”. Acusam a todos, julgam e condenam sem piedade. São carrascos virtuais, prontos a colocar seus desafetos no pelotão de fuzilamento.

Porém, é fácil perceber que estas pessoas se comportam tal qual os fanáticos religiosos que gritam versículos bíblicos na praça. Seus discursos cheios de fervor não servem para que os outros se convertam; são ferramentas para que eles mesmos acreditem em suas palavras. Diante da incerteza do que afirmam insistem na veemência de suas convicções, mesmo quando tudo à sua volta lhes prova que estão no caminho errado. Não são discursos reais; são tristes solilóquios.

Seus gritos funcionam como uma proteção contra o medo de estarem errados. Com este discurso tentam bloquear a realidade, porém esta, mais cedo ou mais tarde, acaba mostrando sua face dura. Triste o momento em que percebem que suas convicções não eram mais do que seus desejos transformados em discurso. Mas não será esta a verdadeira iluminação?”

André Capuani Riggo, “Mídia e psicanálise”, Ed. Lambert, pág 135

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