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Conversa ao telefone

Meu pai, 90 anos, ao telefone hoje:

– Fui fazer um tratamento dentário que precisava fazer a tempo. Fiquei esperando pra ver se morria antes. Como não morri, resolvi fazer. Chato isso…

– Não se apresse, pai. Se precisar bote uma chapa novinha.

– Pois é. Ultimamente vejo filmes e leio coisas antigas. Não me sinto deprimido mas fiquei chorão vendo filmes e lendo os livros que vocês escreveram (eu e meu irmão Roger Jones)

– Leia coisa de qualidade, pai. Não perca suas energias com canastrões. Use os meus livros para ajeitar o pé da mesa da cozinha, que está desequilibrada.

– Estou falando sério, vocês escrevem bem. Quando você fala de parto é muito bom de ler e viajar por esse mundo desconhecido para um homem como eu. Só não leio mais porque tenho medo de ler alguma coisa que você escreveu sobre política. Meu filho, eu já te falei tantas vezes que…

– Pai, nós já falamos sobre isso.

– Sim eu sei, eu sei. Nao vamos entrar nessa seara. Tenho saudades da tua mãe. Penso em reencontrá-la. Não sinto tristeza, sinto curiosidade desse mundo que vou reencontrar.

– Quem sabe vou antes que você. Nunca se sabe.

– Tchau filho, fiquem em casa.

– Tchau pai, fique em paz

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Cancelamento

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”.

O cancelamento é um ritual característico de nossa época apesar de que a Inquisição já cancelava gente por pensar diferente quando tudo aqui era – literalmente – mato.

Existe um determinado roteiro para cancelar um sujeito. Primeiro ele precisa ser um expoente em sua área. Não é necessário nem que tenha qualidade ou profundidade, mas é importante que seja referência. Ninguém diz “estou cancelando o motorista do ônibus porque descobri que ele é homofóbico”. Não, “no one gives a sh*t”. Precisa ser alguém relevante para a cultura e/ou para um determinado segmento dela.

Via de regra funciona assim: o sujeito passa a vida defendendo abertamente os setores oprimidos, sejam gays, trans, mulheres, indígenas, imigrantes, etc, seja no foco específico do seu trabalho ou seja por declarações que faz por sua condição de celebridade. A partir disso seus fãs constroem uma imagem idealizada, da qual ele fatalmente se torna prisioneiro. Todas as suas falas passam a ser vigiadas, milimetricamente construídas. Alguns contratam consultores de imagem para monitorar suas ações e suas falas. Tudo para se manter dentro da caixa estreita que foi construída para si, mas que, ao mesmo tempo que o oprime, fomenta sua fama, seu poder e seu dinheiro.

Algumas vezes, por distração, falta de cuidado ou de propósito, estes sujeitos se rebelam contra essa “condição de confinamento pela opinião pública”. Resolvem falar algo que acreditam ou sentem, mas que ofende seu fã clube. Como FHC dizendo que fumou maconha ou que é ateu. Como um presidente americano dizendo que não foi à igreja no domingo, ou como alguém questionando o termo “pessoas que menstruam”.

As vezes fico curioso de saber como seriam as opiniões de algumas pessoas públicas não fossem elas presas ao controle social da opinião. Muitas vezes seria o oposto do que acreditamos.

Pois o cancelamento, via de regra, acontece pelo detalhe. Mesmo que a vida inteira de um sujeito tenha sido dedicada à diversidade, contra o racismo, contra o sexismo e a favor de minorias, basta uma piada, uma observação, uma discordância do núcleo duro dos movimentos para que seja decretado o cancelamento. J. K. Rowling foi assim. Para Woody Allen bastou uma mentira repetida à exaustão. Para outros o uso de uma palavra proibida, como “denegrir”. Para muitos apenas uma frase em momento de descontração.

Quando o processo se inicia ele atinge a moral do sujeito. Assim, retira-se o fundamento espiritual profundo do acusado, como a peça da base do jogo da Jenga, fazendo toda a vida do sujeito desabar. A obra, seu trabalho, suas relações, seus prêmios, suas conquistas são imediatamente destruídas, incineradas na fogueira da opinião pública.

É facil perceber nesse processo o gozo de quem acusa, pois que ele oferece uma imensa satisfação à pessoa comum, aquela que sempre se sentiu secretamente oprimida pelo gigantismo do seu ídolo.

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”. Essa é a vingança do fã que se sentiu traído quando sua idealização foi rompida. Essa vingança aparece na internet todos os dias quando personagens são cancelados, destruídos, atacados por apresentarem-se como verdadeiramente são, ou por não cumprirem o acordo tácito criado pela idealização: “Você será como eu quero, e eu lhe dou meu amor”.

Na verdade os ídolos contemporâneos são construções sociais em que cada um coloca um pouco de suas projeções e aguarda que ele se comporte de acordo com elas.

Em suma, uma vida insuportável.

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O problema aqui dentro…

Drogas


A medicina ocidental contemporânea, desde os tempos de Pasteur, sofre de um mal crônico e limitador do pensamento. Trata-se da visão exógena da doença, colocando sobre o agente agressor – seja ele químico, físico, biológico ou psicológico – um peso determinante no surgimento e na manutenção dos eventos mórbidos de qualquer natureza. Assim é com a antibioticoterapia, e a crença resultante do malefício das bactérias, vistas há mais de um século como agentes agressores e maléficos para o equilíbrio orgânico. Somente agora, a partir das novas concepções do “biota” e a importância dos elementos probióticos, é que estamos percebendo o imenso significado dos elementos microscópicos que compartilham o espaço físico com o ser humano.

No terreno das drogas ocorre o mesmo. Por razões óbvias acreditamos que as “drogas” – aqui entendidas como aquelas ilegais – são ruins por natureza, por determinarem uma dependência orgânica natural e inexorável. “É da essência da droga viciar“, diz a velha escola dos teóricos do vício drogal. Com isso continuamos a acreditar que o elemento externo – a substância psicoativa – é a chave para o entendimento da drogadição, negligenciando, mais uma vez, as questões do “terreno predisponente”.

A mim não parece que a ligação sujeito-droga assim se estabeleça, da mesma forma – como disse Pasteur no fim de sua vida – que para que haja uma infecção qualquer é indispensável que exista uma “diátese”, um terreno propício para a sua ocorrência. A partir desta perspectiva, tão cara aos estudiosos da homeopatia, não é a droga que merece ser combatida, mas as condições nas quais está inserido o sujeito drogado, o seu entorno biopatográfico, físico, contextual e psicológico. Sem este entendimento, que eu chamaria de “capacidade mórbida reativa”, continuaremos a investir em uma guerra absolutamente fracassada e sem futuro, e que nunca deu resultado em qualquer lugar que tivesse sido implementada. Lutar contras “as drogas” é tão equivocado como a velha piada de tirar o sofá da sala; as drogas apenas ocupam um espaço deixado vago pelas fragilidades de um sujeito previamente doente.

Por outro lado, sabemos a quem esta guerra inútil e custosa interessa: aos policiais corruptos, agentes políticos e traficantes, que se beneficiam com o submundo das drogas, infestado de propinas, lutas fratricidas por pontos e mercados, subornos e assassinatos em profusão. O que é novidade é perceber que ela também serve aos cientistas que vivem de pesquisas nesta área, e que insistem em colocar como preponderantes os agentes externos – as drogas – sem perceber que até mesmo a drogadição é algo se que processa – primeiramente – entre as orelhas.

Para um sujeito feliz e livre qualquer droga não é mais do que uma enorme perda de tempo. O problema está dentro de nós, e não do lado de fora…

Pois os mesmos questionamentos que fazemos em relação ao uso de drogas podemos fazer em relação ao parto. Para o nascimento também temos as gaiolas que modificam o evento, transformando-o em uma caricatura daquilo que foi outrora.  Tudo o que sabemos sobre a obstetrícia contemporânea é observando mulheres “enjauladas” em hospitais. As pesquisas, os valores, os dados, as estatísticas, toda a informação é colhida de mulheres inseridas no modelo hospitalar. Por mais que o ambiente procure ser menos agressivo (o que ocorre apenas em alguns contextos mais modernos), o contato com pessoas desconhecidas, os ruídos estranhos, as máquinas frias e as substâncias exógenas (como anestésicos e ocitocina) injetadas na corrente sanguínea acabam por TRANSFORMAR o evento do nascimento, descaracterizando-o de sua expressão natural e original. Não é mais o PARTO que estamos observando, mas o parto hospitalar, o parto médico, o parto confinado e o parto artificial. Como diria Max, “não é mais no parto, mas seu simulacro“.

Assim como um rato não se comporta da mesma forma estando preso em uma gaiola, as mulheres não agem com a mesma naturalidade confinadas em um ambiente hospitalar.

O ambiente, por sua vez, produz inequívocas manifestações no sujeito nele inserido, e um ambiente hospitalar inspira medo, temor, apreensão e angústia. Estes sentimentos, por sua vez, acionam o sistema simpático, através da adrenalina, que atua na economia orgânica no sentido de produzir reações de “fuga ou luta”. Além disso, este hormônio inibe a ação da ocitocina na produção do apagamento neocortical e nas necessárias contrações rítmicas uterinas. A resultante é a ativação da adrenalina e a supressão da ocitocina, produzindo a disfuncionalidade típica dos partos que ocorre em nossos hospitais. Esta disfunção é frequentemente corrigida com a adição exógena de ocitocina e o uso da analgesia peridural (pois as contrações artificiais induzidas pela primeira são dificilmente suportáveis sem o recurso analgésico) e a consequência é a perda total da possibilidade de uma vivência fisiológica do parto.

O parto da forma como é realizado nos hospitais do ocidente é prejudicial à fisiologia do nascimento exatamente pela falha do sistema médico em trabalhar e reconhecer os aspectos emocionais, psicológicos, sociais, espirituais e contextuais relacionados com o nascimento de um bebê.

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