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Preconceito

É curiosa a nossa percepção de preconceito, e sobre essa questão já me debrucei diversas vezes. A definição de “pré-conceito” seria o conceito prévio, aquilo que trazemos como verdade antes do fato ser julgado, sentimento de hostilidade baseado em uma generalização após uma experiência pessoal (ou mais de uma) ou imposta pelo meio; uma espécie de intolerância por fatos já acontecidos. Aqui é importante diferenciar “preconceito” de “discriminação”. O preconceito é um sentimento, enquanto a discriminação é uma ação de desmerecimento de pessoas ou grupos baseada em preconceitos.

Pois eu afirmo que, na realidade, ninguém é contra os preconceitos. Todo mundo os tem e os usa todos os dias. “Vamos por este caminho para não termos que cruzar pelo bairro perigoso”. Quem nunca disse isso? Quem se aproxima sem cuidado de um cachorro desconhecido? Ora, pode ser mansinho, mas experiências anteriores nos dizem que ele pode morder. Temos preconceito com cães e com a “barra pesada”. O genial Oscar Wilde já nos dizia “A vantagem de brincar com fogo é aprender a não se queimar”.

Esta semana um sujeito nos Estados Unidos expulsou uma passageira que teve uma atitude racista no seu Uber. Teria dito: “ainda bem que você é branco, fala inglês”. O jovem ficou furioso e exigiu que ela se retirasse. Foi aplaudido por todos, inclusive por mim, que acho essas atitudes odiosas e injustificadas.

A gente não sabe se essa moça já teve experiências ruins com imigrantes de pele escura – uma, duas ou mais. Não importa: seu preconceito contra negros e imigrantes é intolerável. É consenso que as experiências prévias dela não podem justificar um julgamento sobre toda uma identidade (raça, origem, identidade e orientação sexual, gênero, etc.). Guardem essa última frase.

Agora pergunto: se ela tivesse dito “Ainda bem que você é mulher”, produzindo um claro e evidente preconceito de gênero contra os homens, acaso seria maltratada e expulsa? Seria admoestada por produzir uma generalização apressada, um sentimento de hostilidade contra um grupo, intolerância com a identidade dos motoristas homens?

Não, não seria. Vi mulheres expressando isso de forma clara e até orgulhosa. Ter preconceito contra homens NÃO É um problema, não é socialmente repreensível e não causaria nenhuma comoção caso seja expressado publicamente. Todo mundo já testemunhou isso sendo feito dezenas de vezes. Assim, fica claro que não é o preconceito que deploramos, mas apenas quando o uso de generalizações negativas recai sobre grupos socialmente desfavorecidos. O preconceito em nossa cultura é LIBERADO, o que não pode ser tolerado socialmente é seu uso para estigmatizar segmentos ou identidades que já são atacados ou desmerecidos.

Falar mal de homens, brancos, cis, heterossexuais etc, é absolutamente permitido e até estimulado. Não há problema algum tratarmos brancos como um bloco uniforme chamando-os de “branquesia”, tratar os homens por “mascus” ou “macharedo” ou desmerecer a heterossexualidade. Não há problema algum em enxergar todos os homens como versões de Fred Flintstone ou Homer Simpson. Não existe nenhuma revolta pelas generalizações sobre estes grupos; pelo contrário, são até elogiadas.

Não esqueçam que racismo é preconceito de raça e o que a passageira do Uber fez foi preconceito. Não há distinção. Também não há como deduzir que ela NÃO teve mais experiências negativas porque estava rindo. O comportamento diante dessa interação é errático e não segue padrões. Talvez quisesse apenas que ele se associasse a ela no preconceito. Mas veja…. boa parte das mulheres manterão sua perspectiva de que não há problema ter preconceito de gênero com os homens porque eles são realmente maus, abusadores e violentos, mesmo que 99.99999% das interações das mulheres com os homens seja absolutamente pacífica. Minha tese, que eu gostaria que fosse debatida, é sobre o fato de que não temos problema algum – enquanto cultura – em assumir posturas preconceituosas. O problema é contra quem é o preconceito é exercido, e não o julgamento pregresso que temos de pessoas, grupos ou identidades.

E vejam, eu não reclamo dessas características da cultura sobre a forma como os grupos são tratados, e entendo o preconceito contra os grupos vistos como poderosos – brancos, homens, heterossexuais, cis gênero, etc, mas apenas acredito ser errado criar sobre estas identidades uma falha moral, como se pertencer a elas fosse errado ou indecente, o que permitiria que fossem tratados de forma generalizada como inferiores, maléficos, degenerados ou violentos. Da mesma maneira, acredito ser absurdo imaginar que a condição de oprimido garanta uma vantagem moral sobre grupos opressores. Acho também que qualquer preconceito contra identidades é deplorável, e não apenas aqueles socialmente estimulados.

E… não é necessário concordar comigo; segundo meu ídolo Oscar Wilde, “Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que devo estar enganado.”

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Quotas

Fernandinho Feriado, vereador negro e gay de SP, quer acabar com cotas para negros em concursos públicos para a prefeitura. Ele é um opositor ferrenho das cotas raciais em todos os níveis. Chama esse processo de coitadismo e vitimismo e usa a si mesmo como exemplo de meritocracia. “Se eu venci sendo negro, qualquer um consegue“.

Eu pergunto: quem seria a favor da discriminação? Se nascemos iguais deveríamos todos ser tratados iguais, certo? Portanto, seria justo pensar que qualquer sujeito que acredita que “somos todos iguais perante a lei” defenderia o fim das cotas raciais e sociais (positivamente) discriminatórias.

Verdade. Todavia, o fim das cotas não é a questão, mas quando. Eu mesmo serei o primeiro a festejar o fim das cotas quando elas não forem mais úteis e necessárias para acelerar o processo de equidade, e não precisemos mais dessa ferramenta para tapar o fosso que separa brancos e negros surgido com quase 400 anos de escravidão. Da mesma forma, quando tivermos uma sociedade economicamente mais equilibrada não quero mais que sejam oferecidas vagas sociais para pobres. Que todos lutem por seu espaço com igualdade de condições.

Enquanto houver racismo e a brutal iniqüidade social que separa os brasileiros em castas o dispensável não são as cotas, mas os capitães do mato que tanto a criticam.

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