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Vacinas, cesarianas e cadeias

Será o nosso pedido desesperado por “vacinas” mais um clamor pelas soluções mágicas, o qual esconde nosso temor de encarar os verdadeiros desafios?

Ainda hoje eu escutava pessoas sendo entrevistadas no rádio e pedindo às autoridades nacionais e mundiais que se encontre de imediato a solução para esta pandemia e um apelo pela criação e distribuição de vacinas. Não é difícil entender que, nesse momento de angústia disseminada, pedidos como este sejam voz corrente entre a população. Todavia, é necessário ir além dos pedidos desesperados para entender o significado dessa busca por soluções.

Da mesma forma, logo depois de um caso dramático de crime, os gritos são por mais segurança, mais polícia, mais repressão aos delitos e mais rapidez nas sentenças. Criar presídios, cadeias, justiça mais rápida e encarceramento parecem soluções adequadas e ágeis. Acreditamos que quanto maior a repressão melhores os resultados, na crença de que a impunidade é a grande estimuladora das contravenções. A experiência acumulada sobre o encarceramento, em especial em países com doutrinas positivistas hegemônicas, mostra o oposto: o encarceramento em massa jamais solucionou o drama da criminalidade.

Também com as cesarianas pensamos dessa forma imediatista; basta um caso isolado de problemas no parto normal para pedirmos mais cesarianas e mais tecnologia aplicada ao parto, com a fé de que as intervenções tecnológicas no nascimento produzem mais segurança, mesmo que as evidências apontem o contrário.

Vacinas, cesarianas e cadeias tem espaço nas sociedades contemporâneas, sem dúvida. Todas elas podem salvar vidas, ou evitar que outras vidas sejam perdidas. Entretanto, o uso dessas alternativas aponta para inequívocas falhas estruturais, erros na arquitetura básica da sociedade, e estas soluções podem servir apenas para nos oferecer um alívio temporário para doenças crônicas e insidiosas.

Não acredito que a solução para os dilemas do parto será pelo incremento de mais tecnologia, mas pela compreensão que grande parte dos transtornos do parto ocorre pela sua inserção numa cultura capitalista e que enxerga as mulheres e seus ciclos de forma diminutiva, olhando-as com lentes invertidas que as tornam defectivas, incapazes, insuficientes e indignas de confiança. A falta de protagonismo das mulheres aos seus ciclos é a falha essencial, e o incremento das intervenções aparece como o sintoma, mas não será jamais sua solução.

A repressão policial violenta vai ocorrer em sociedades desiguais e inerentemente injustas, e sempre será usada para conter a natural reação dos oprimidos às injustiças e à iniquidade. A força bruta será o meio de controle social enquanto a ferida aberta da desigualdade continuar sangrando, fazendo um enorme e crescente contingente de pobres e miseráveis ser contido através da violência. Sem que a real doença social do capitalismo seja curada, não haverá polícias e presídios suficientes para conter a revolta dos esquecidos.

Hoje gritamos por vacinas porque elas entram como a solução tecnológica para uma relação absolutamente disfuncional do homem com a natureza. Da mesma maneira, se não for modificada a nossa relação com ela, nenhuma vacina será suficiente, pois para cada anticorpo produzido dezenas de outros antígenos esperam na fila para atacar os corpos humanos. A raiz deste problema não se encontra na falta de tecnologia para encontrar os remédios, mas no excesso de intervenção na delicada tessitura da natureza, onde somos apenas um dos tantos prejudicados.

Vacinas, cesarianas e cadeias jamais serão soluções definitivas para o dilema humano. Nossa relação desequilibrada com a natureza, com a distribuição das riquezas e o desrespeito com o feminino e seus ciclos são expressões de violência que denunciam paradigmas disfuncionais subjacentes. Somente olhando de frente para estes dilemas teremos um mundo mais justo, igual e saudável.

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Vírus Maldito

Nosso erro reiterado: acreditar que o vírus é o nosso inimigo, que precisa ser destruído, porque é ruim e malévolo, dotado de uma consciência perversa que deseja nos destruir. Ele representa a desgraça e a crise que se abateu sobre nós. Mas, é certo que mais uma vez estamos olhando para o inimigo errado…

Antes foi a selva, os animais “perigosos”, as feras, as serpentes, as aranhas, as formigas assassinas, os tubarões e os mosquitos. Os rios que inundam, os furacões, as chuvas, a ventania e a seca. A natureza era a inimiga, que precisa ser controlada ou domada. Caso resistisse só nos restaria puni-la ou levar a cabo sua destruição.

Depois nosso ódio se voltou àqueles próximos à ela, os nativos, os indígenas, os povos originários. Os que tentam dialogar com ela sem a perspectiva do extermínio. É a sanha desenvolvimentista que a tudo deseja asfaltar, cimentar, ladrilhar, esterilizar.

A chegada da microbiologia, nos finais do século XIX se adapta maravilhosamente a uma ideologia anti-bios, contrária às outras formas de vida que, por definição, nos desafiam. Daí resultam os antibióticos, que destroem as vidas que nos ameaçam, enquanto as cidades avançam pelas matas com a mesma intenção, levando de roldão a vida e a diversidade biológica do planeta. Espécies inteiras são dizimadas, destruídas, aniquiladas. A vida perde, para o homem sorver, mais uma vez, a bebida inebriante da supremacia mortal.

Porém, é preciso ser justo; também quero me livrar desse vírus o quanto antes. Matá-lo até que não possa mais destruir tudo à sua volta. Todavia, não me refiro a estas minúsculas hélices de DNA que por hora se voltam contra nós, os humanos, em claro movimento de defesa contra as incessantes agressões.

Não, falo do vírus da ganância, do capitalismo, do modelo acumulador que ameaça nossa existência. Falo de nós mesmos, os humanos, infectados pelo consumo desenfreado e sem consciência ecológica. Falo do nosso desejo destrutivo de tudo abocanhar com nossa garganta infinita. Esse vírus que há muito nos acomete precisa ser destruído para que reste alguma esperança de sobrevivência para a nossa espécie, e para este pequeno planeta azul.

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Mãe Floresta

O mundo não verá nenhuma mudança significativa através da caridade interesseira dos bilionários, por aplicativos maravilhosos que facilitam a vida burguesa, pelas doações de 1% de sua bebida predileta para os pobres da África, pela eliminação de canudinhos ou banhos de chuveiro mais rápidos. Nenhuma das transformações superficiais de que somos estimulados a participar tem capacidade de produzir qualquer impacto real na vida deste planeta, mas cumpre a função de nos enganar de que algo está sendo feito, o que permite ao capitalismo continuar a exploração do planeta de forma predatória, destruidora e injusta.

O que poderá mudar nosso destino serão coisas antigas e fora de moda: política, leis, mobilização popular e a penalização da usura através da taxação das fortunas. Tudo isso da base para o topo, através da conscientização das massas para que deixem de ser manobradas pelas elites, as mesmas que hoje espoliam o planeta em nome da imobilidade das castas – da qual são beneficiárias.

Kabir Patel, “एक हेरानका दा मोए फ्लोरस्टा”(A Herança da Mãe Floresta), Ed. Aichologi, pag. 135

Kabir Padel é um escritor indiano nascido em Lucknow, em Uttar Pradesh na Índia em 1962. Cresceu entre a alta sociedade da casta brahmane porque seu pai era um industrial da área de tecidos e sua mãe uma artista plástica. Muito cedo foi morar na Inglaterra para estudar economia a pedido do seu pai, mas rapidamente se deu conta que seu caminho não era nas salas climatizadas das empresas do pai, ou comandando empregados nas fábricas de corantes. Seu percurso seria compreender as disparidades da sociedade onde cresceu, nos limites da Índia, quase na divisa com o Nepal. Sentiu a necessidade de investigar as estruturas que sustentam tamanhas diferenças, onde a opulência e o desperdício convivem com a escassez e a miséria. Abandonou os estudos de economia e entrou para a faculdade de Sociologia onde passou a estudar os elementos de organização popular, em especial os grupos de mães e mulheres que surgem espontaneamente nas comunidades indianas. Escreveu um livro baseado na sua tese de doutorado, “Matriarcado na Índia Rural”, que foi muito bem recebido pela crítica e abriu suas portas para o interesse de outras editoras. Em “A Herança da Mãe Terra” Kabir traça uma linha entre a pobreza extrema de algumas regiões da Índia e o modelo neoliberal que pauperiza milhões em nome da acumulação predatória de poucos, dentro de um contexto de destruição sistemática da natureza que ameaça a própria sustentabilidade de Gaia.

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Greta

As atitudes de Greta incomodam o “establishment” por servirem de contraponto às posições hegemônicas. Greta ataca o cerne do capitalismo destruidor e autocida. Esta é a origem do “backlash” às suas palavras e atos. O que incomoda em seu discurso não é o fato de ser mulher, autista ou jovem, mas por representar uma vertente política que se contrapõe ao modelo de desmonte da natureza que agora está em curso. As ações de Greta são muito mais importantes do que seu gênero, idade ou condição. Ela é atacada por trazer evidências incontestes da nossa estupidez e egoísmo e jogá-las na cara dos poderosos. Seu rosto infantil e sua figura miúda funcionam como um potente veículo para transmitir a ideia de que, como ela, o meio ambiente é frágil e delicado e, por isso mesmo, precisa ser protegido.

Não é difícil entender a revolta de setores conservadores, nem sua natural virulência.

Por muitos anos testemunhei o peso que representa pensar fora das caixas estreitas da corporação. Atender em hospitais com 90% de cesarianas e ainda assim lutar pela autonomia das mulheres e seu direito de escolha pelo parto normal sempre foi visto como uma grave ofensa. As atitudes dos “diferentes” os “do contra” são tomadas como agressões a um modo de pensar que é assumido pela maioria, mesmo quando ilegal ou agressivo.

O parto humanizado no ambiente da cesariana oportunista, o respeito aos direitos humanos no universo policial, a lisura na política e a postura ecológica e sustentável no trato do meio ambiente ofendem aqueles que lucram com as posturas violentas, agressivas e desrespeitosas, em especial para os que estão em posição de poder.

Como o debate racional se torna perigoso – pois os argumentos e as evidências sustentam as posturas em oposição aos modelos atuais – a forma mais eficaz de combater as ideias incômodas – verdades inconvenientes – é atacar os mensageiros e destruir sua reputação. Com Greta não seria diferente.

Entretanto, seria ingenuidade imaginar que alguém tocasse na ferida exposta do capitalismo predatório e suicida sem receber os ataques inevitáveis do paradigma moribundo. Greta terá o mesmo tratamento cruel que muitos recebem quando decidem expor suas paixões e suas propostas.

Sua resiliência será posta à prova.

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