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No meu tempo é que era bom…

Frequento grupos onde pessoas da minha idade celebram fatos da nossa infância e adolescência, que coincidiu com a ditadura militar, o surgimento da TV e a transformação social que o mundo experimentou pela guerra fria.

Vez por outra aparece um texto saudosista, falando de um tempo sem “frescuras” e sem “mimimi“, dizendo que na época atual damos valor demais aos direitos e menos aos deveres, que somos uma geração “floco de neve” e que criamos discussões sem propósito sobre temas irrelevantes.

Não há dúvidas que há exageros. Afinal, “como impedir que o vento bata portas mal fechadas”, como dizia Pablo Milanez, fazendo estrondo com os gritos represados? Como evitar a volúpia que se segue à contenção?

Exaltar acriticamente um passado idílico com nossas lentes seletivas só pode resultar em uma salada de frutas de racismo, misoginia, lgbtfobia misturados com o culto do “tempo perdido”, do passado perfeito e da destruição da cultura atual pelo “excesso de direitos”.

Minha adolescência foi maravilhosa, e não há porque negar isso, mas exatamente porque eu era branco, heterossexual e de classe média. Seria absurdo – ou má fé – julgar a sociedade onde eu vivia apenas pela minha estreita perspectiva. Não é justo avaliar nenhuma cultura pelos relatos dos cronistas sociais que observam o mundo ao seu redor dentro de sua bolha de privilégios.

Sim, era permitido chamar de “viado” e de “negão”, e talvez seja verdade que muitos negros e homossexuais sequer se sentissem ofendidos. É possível que muitas meninas não se importassem em ser tratadas e consideradas apenas pela sua aparência. Todavia, é impossível saber quantos realmente levavam as brincadeiras com humor e quais eram os que apenas engoliam a humilhação para não serem excluídos do grupo. Escutar hoje como eles se sentiam naquela época talvez possa nos surpreender.

Minha geração era muito cruel com os diferentes, e não há nada a lamentar que esse tempo tenha passado. Também nossos hábitos eram terríveis, no aspecto da saúde. Sim, sobrevivemos ao “Fleet”, à bala Soft, carros sem cinto de segurança e às tintas com chumbo mas muitos dos amigos que hoje morrem de câncer começaram sua contaminação cumulativa naqueles tempos. Muitos dos que morreram cedo pelos acidentes de trânsito também não estão aqui para deixar seu depoimento. Não há o que celebrar.

Abandonar paulatinamente o machismo, a violência contra a mulher, o racismo estrutural, os agrotóxicos, a educação pela violência e a segregação racial é algo a ser comemorado, mesmo que seja necessário reconhecer que muito ainda precisamos trilhar. Acreditar que o seu tempo era “o melhor” apenas denuncia falta de perspectiva e incapacidade de se adaptar ao mundo de transformações.

Acredite… o mundo hoje é melhor do que já foi, apesar dos nossos erros

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Bate boca

A ação do Zé de Abreu foi mesmo exagerada, mas foi reativa. Ele escreveu como quem “bate boca” na rua, baixando o nível, atacando a pessoa mais do que as ideias. Porém, em sua defesa, creio que não há como esperar a mesma civilidade do torturado e do torturador. São pontos diferentes no espectro do debate. O governo atual nos ataca – as minorias em especial – todos os dias, com desrespeito e violência; alguma reação destemperada tinha que surgir, mais cedo ou mais tarde.

Eu também cobro coerência da esquerda, dos negros, das mulheres e dos pobres, mas são eles que estão sendo espancados e mortos pela necropolítica dos fascistas. É natural que as respostas mais indignadas surjam de quem mais sofre, e a classe artística nunca foi tão humilhada quanto agora.

Não basta ter vagina mesmo para exigir ser respeitada. Joice, Bia, Zambelli, Winter e tantas outras bolsonaristas que o digam. Qual a novidade? O mesmo se pode dizer sobre um deputado negro que ataca a comunidade negra. Ele é Capitão do Mato mesmo, pois essa figura representa o negro que combatia ao lado dos opressores escravagistas para manter seus irmãos de cor em cativeiro. A imagem é dura, mas correta. Não basta também ser “homem de cor” para ser digno; é preciso ser consciente e encarar a realidade do genocídio negro no país como uma emergência. É necessário abandonar a farda neoliberal que coisifica seres humanos e os submete aos interesses econômicos da elite financeira branca e lutar pelos seus iguais. Estamos em um momento de crise humanitária. Ficar calado é submeter-se.

Pior do que achar que agora “todos são fascistas” é não enxergar o fascista quando ele dissemina, fomenta, estimula e aplaude o arbítrio e a tortura; o preconceito e o fanatismo. Faltaram exagerados como Ciro e Zé de Abreu na ascenção de Hitler na Alemanha. Houvesse mais como eles e não teríamos sentido na carne o horror que o nazismo produziu por lá.

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Ultrassom

ultrassom-baby

Outra sensação agradável em contraposição ao meu notável e inexorável envelhecimento físico: minha mente ainda mantém boa parte dos atrevimento da juventude. Há mais de 25 anos eu denuncio os abusos de ecografias pela obstetrícia ocidental, questionando a validade do exagero e as desvantagens econômicas, médicas e relacionais deste uso.

No podcast do Dr. Stu desta semana ele se reporta a um artigo publicado no Wall Street Journal que expõe o uso excessivo de ecografias sem a contrapartida de melhorias nos resultados pós-natais, tanto para mães quanto para bebês. Aos poucos o cerco se fecha sobre esse “modismo”…

Todas as nossas pacientes grávidas já tiveram a oportunidade de escutar a minha explicação sobre os “três tipos de ultrassom”, quais sejam: médico, sedativo e recreativo. Apesar de soar como uma “restrição” essa explicação faz parte da informação que precisa acompanhar qualquer negativa ou consentimento de exame. É importante que as pacientes e seus(suas) companheiros(as) saibam exatamente do que se trata e quais os limites de uma investigação como esta. Por isso, quando as perguntas recaem sobre a “translucência”, “a morfológica”, a “ecocárdio” – além daquelas típicas “pra ver se está tudo bem” – elas já sabem que receberão uma longa explicação conjugada com a minha visão sobre os riscos inerentes de tais exames.

Felizmente hoje escutei a opinião do meu colega “homebirther” americano, que mais pareceu uma telepatia transoceânica, explicando que se limita a pedir apenas UMA ecografia entre 18 e 22 semanas de gestação e com as mesmas razões que oferecemos às pacientes: certeza do sítio placentário, análise de malformações graves e confirmação da idade gestacional. Mas a justificativa que ele fornece para este pedido único de ultrassom é a mesma que damos: “Só peço porque algumas pacientes planejam partos domiciliares”, que é a mesma ressalva que fazemos para as pacientes que pretendem parir com seus cuidadores (enfermeiras obstetras) em ambientes extra-hospitalares.

Os rituais contemporâneos da medicina, por serem sustentados por elementos pré-racionais e ligados ao desejo, são complexos e, por vezes, impossíveis de eliminar em curto prazo. Episiotomias, enemas, tricotomias e ultrassons são apenas alguns exemplos. Todavia, quando observamos a inexistência em nosso meio de “virgens queimadas” por uma colheita ruim percebemos que os rituais, por mais fortes que sejam, um dia enfraquecem até que, por fim, desaparecerem. A racionalidade é uma luz que nos guia em meio à treva, e que mesmo custando tempo e vidas, um dia vence as resistências e ilumina o pensamento.

Práticas abusivas e exageradas podem levar séculos para serem eliminadas, mas um dia serão apenas páginas amareladas da nossa longa história de equívocos na assistência.

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