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A Fissura Bizarra

É bem sabido que um bebê de 9 meses de idade (atingindo o estádio do espelho) tem habilidades de um chimpanzé recém nascido. Ao nascer somos incompetentes ao extremo. Nascemos todos despreparados para a vida extra uterina e por meses ainda nos comportamos como fetos fora do útero. Por isso foi necessário estabelecermos um cuidado muito intenso por parte da mãe como estratégia de sobrevivência. A altricialidade (dependência do cuidado alheio), decorrente dessa fragilidade, acabou gerando esta “fissura bizarra na ordem cósmica”, chamada “amor”.

Somos, portanto, produtos de uma conjunção de fatores adaptativos surgidos há 5 milhões de anos com a bipedalidade e posteriormente pela encefalização – que se acelerou com o surgimento de nosso gênero há 2 milhões de anos. Como os cangurus temos dois partos: um ao sair do útero e subirmos para o “marsúpio do colo materno”, onde encontramos leite, calor, afeto, a voz e o olhar da mãe; já o outro parto vai ocorrer lentamente na primeira infância, ao nos afastamos paulatinamente da dependência extremada desse cuidado.

A marca da altricialidade determinou o gozo e a tragédia dessa espécie. Sem ela não haveria o sentimento dela derivado: o amor profundo de um bebê por sua mãe. Em decorrência desse amor desmedido, também nas mães brota um sentimento inusitado e estranho. “Se existe amor, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, já diria Freud. Assim, a base edipiana de nossa estrutura psíquica surge pelo fenômeno adaptativo de grandes cérebros conjugados com pélvis estreitas levando ao parto de um bebê totalmente dependente, onde a semente do amor será acolhida em campo fértil. “Somos o que somos porque nascemos de uma forma bizarra, e esse nascimento produz a inevitável dor de ser o que se é”.

Por outro lado, na história da humanidade a maternidade sempre foi exercida de forma cooperativa, grupal e distribuída por várias figuras femininas, uma imagem completamente diferente do que observamos no cotidiano de tantas mães modernas. A tônica de hoje é o cansaço, a dúvida, a depressão e a insegurança, elementos psíquicos relacionados com o isolamento das mães contemporâneas.

Mães solitárias e muito sobrecarregadas na maternagem são uma coisa nova na história da humanidade. Não é de se espantar que o resultado seja a tragédia do desmame precoce em sociedades que negligenciam o contato íntimo entre mães e bebês nos primeiros meses de vida. É tempo, portanto, de revisitar a história humana e reverter nossa vivência para esse período anterior, onde, além do cuidado compartilhado, havia um profundo aprendizado das recém mães com a experiência de outras mulheres ao seu redor.

Só assim poderemos resgatar a amamentação como evento natural e fisiológico. Sem acolher estas mães, nenhum bebê será bem cuidado.

“É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança“, parafraseando um famoso provérbio africano.

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Antropologia do Nascimento

Homo erectus man. Model of a male Homo erectus, an early type of human. Homo erectus, or erect man, lived between roughly 1.8-0.3 million years ago and originated in Africa. They were the first humans to leave Africa, reaching Asia and possibly southern Europe. H. erectus had prominent brow ridges and a projecting face, and some specimens had brain volumes of over a litre. They stood upright, being a bit shorter than modern humans, but more heavily-built. They were nomadic hunters and gatherers. This model, from an exhibition by Nordstar, was photographed at the Naturkundemuseum in Stuttgart, Germany.

A tese sobre a inadequação evolutiva das cabeças fetais é do Michel Odent, mas não tem nada a ver com bebês grandes ou comorbidades, ou mesmo com mães diabéticas que engravidam. Ela tem o ver com os limites do crescimento encefálico e o fim da barreira que se criou ao longo dos milênios para obstaculizar seu aumento. É simples de entender. A gestação humana foi abreviada exatamente por causa do crescimento cerebral. Por isso a exterogestação e o crescimento fetal fora do útero. Essa “fetação” se tornou obrigatória pela pequenez pélvica (relativa) e a duplicação do volume craniano com o surgimento do gênero “homo”. Assim sendo, uma criança que tivesse cérebro maior teria que nascer antes da maturidade neurológica, sob pena de entalar e morrer. Isso criou a altricialidade – dependência extremada do outro – e a humanidade desejosa e sofredora como a conhecemos.

Todavia, se a “penalidade” (a desproporção e a morte) para cabeças maiores for retirada através do recurso cirúrgico – a cesariana – os genes ligados a esta característica podem passar às gerações seguintes e imprimir um novo padrão, tornando paulatinamente mais difícil, doloroso e até impossível o parto normal.

Os animais artificialmente construídos geneticamente como os buldogues ingleses já sofrem dessa desproporção, tornando a cesariana um recurso muito necessário. Este é um caso em que a troca genética não natural apressou o processo, mas que na espécie humana poderia ocorrer em um futuro não muito distante.

Isso não tem nada a ver com bebês gigantes por alimentação inadequada. Em uma população de veganos com IMC padrão, mas que usa cesariana como recurso salvador, isso também tenderia a ocorrer, mas não se trata de condenar a operação de extração fetal nesses casos, apenas uma ponderação sobre o destino sombrio e/ou incerto do parto humano.

A questão é que nós interrompemos o curso natural, o caminho da natureza. Sabe porque existe diabete tipo I no mundo? Por causa da insulina!!! Se não houvesse insulina a maioria dos diabéticos morreria ainda criança, antes de ser capaz de se reproduzir, e assim não passaria adiante seus genes. A insulinoterapia permite uma vida praticamente normal para estas pessoas e com isso são competentes para atingir a maturidade sexual e manter os genes da diabete no pool genético da humanidade.

Com a cesariana a mesma coisa. Imagine um feto que tenha genes para nascer mais tarde, uma gestação mais prolongada, e com isso desenvolver uma cabeça ainda maior. Se isso acontecesse há 100 anos morreria, mas agora sobrevive. Um cabeçudo nascido de uma gestação de 43 ou 44 semanas. Ele tem genes mutantes que deixam sua cabeça maior no útero, mas não é “penalizado” pelas leis de adaptação. Com isso poderá transmitir essa tendência aos seus descendentes, da mesma forma como o foi com a bipedalidade há 5 milhões de anos passados.

Mais uma vez, não se trata de condenar os recursos salvadores da medicina. Salvamos diabéticos de uma morte precoce e os fetos com desproporção ainda mais precocemente. Mas é importante saber o preço que pagamos. No diabete é bem claro, mas os “cabeçudos” podem ser o fim do parto como nós o conhecemos dentro de alguns milhares de anos.

Resta repetir a pergunta: o que será da humanidade quando nenhuma criança mais nascer do esforço de sua mãe?

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