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Cesaristas

Sejamos justos: criar a imagem do cesarista oportunista e antiético é um erro. Não é isso que move estes profissionais, mas elementos inconscientes e mesmo inconfessos.

É claro que existem profissionais que são comandados pela ambição e falta de escrúpulos, mas não são a maioria. A maior parte dos cesarianas tem fé no seu trabalho. Acreditam mesmo na superioridade da tecnologia sobre a natureza. Acreditam piamente na defectividade do corpo feminino e na sua excelsa tarefa de salvar as mulheres da crueldade de uma natureza injusta. Medicina funciona como uma religião e para exercê-la é necessário acreditar em seus postulados. Como qualquer religião tem os seus oportunistas, enganadores e perversos, mas eles são minoria. A grande parte se associa a ela pela fé.

O que comanda as ações destes profissionais é o MEDO e o despreparo para atender partos em toda a sua complexidade bio-psico-social. Médicos absorvem parto com a mesma lógica que assimilam todos os outros dilemas médicos: a escolha do procedimento mais simples, mais fácil e com menores riscos PARA SI MESMOS. A cesariana é a solução rápida, mágica e tecnológica para as angústias do nascimento.

Repito o que já disse anteriormente: o maior erro da medicina no século XX foi a expropriação do parto normal das parteiras. Milênios de experiência acumulada jogados ao lixo em nome de uma experiência cientificista e intervencionista sobre um evento fisiológico. O desaparecimento do parto normal nas sociedades ocidentais, em especial no Brasil – onde menos de 5% das mulheres têm acesso a um parto sem intervenções – nos cria, pela primeira vez na história, um estranhamento com a própria essência natural deste evento. Este, subjugado à visão artificial criada há pouco mais de um século, só pode ser conhecido através do mapa desenhado pela obstetrícia. Tão distante está da realidade e da essência do parto que este mapa em nada mais se assemelha ao caminho percorrido por tantos milênios.

O PARTO em sua plena capacidade transformativa, só pode ser visto e sentido na marginalidade, nos partos domiciliares, na assistência das parteiras e no suporte das doulas. O resto da população precisa se subjugar a um modelo centrado no médico e nas instituições, objetualizando a mulher e deixando esse evento cada vez mais longe de sua essência feminina e sexual.

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Campanhas

No Brasil as campanhas que criticam a atuação de parteiras e doulas tem um endereço evidente: renovar a crença preconceituosa de que enfermeiras e obstetrizes oferecem uma assistência de “segunda classe”, aumentar o poder médico e deixar o campo livre para as cesarianas abusivas. Dá até para escutar alguns médicos dizendo às pacientes: “Vai querer mesmo arriscar ser abusada durante o parto ou quer marcar uma cesariana já?

O modelo atual deixa a cesariana absolutamente impune, enquanto o parto normal um pode significar um risco grave para o médico ou a parteira. Com um bisturi na mão os profissionais são intocáveis; com as mãos nuas estão desprotegidos.

A culpa não está em um lugar apenas; está disseminada na cultura e atinge pacientes e cuidadores. O signo é o medo e a cesariana um refúgio para as agressões. Cesarianas em alta significam o acionamento de uma cascata de eventos, que transitam da morbimortalidade materna e neonatal aumentadas até o desmame precoce. Por outro lado o respeito aos estudos que apontam o parto normal como superior podem ameaçar o bem estar e a própria continuidade do trabalho dos atendentes de parto.

É preciso entender o que este tipo de campanha significa e onde pode nos levar.

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Parteria

Call The Midwife Christmas

Sempre fui inspirado pela palavra “parteira”.

Antes de continuar é importante explicar que quando falo das parteiras estou explicitamente me referindo às profissões que atendem partos. Estas estão englobadas no conceito de “skilled attendants” da OMS. Minha ideia ao falar em parteira(o) é debater esta questão por cima das divisões corporativas que, aliás, apenas atrasam as discussões sobre o nascimento humano.

Eu não gosto do termo “obstetriz”. Quando fui, há alguns anos, convidado a falar no curso de obstetrícia da USP (EACH) dei um especial destaque a este tema para os alunos, apesar de não ser algo que pareceu muito importante para eles naquele momento. Segundo Robbie, sempre que uma mulher que atende partos se nomeia PARTEIRA ela está se conectando – de forma inconsciente, mas consistente – com os milênios de cultura e aprendizado de atuação junto às mulheres no momento de parir. Elas trazem consigo a alma das parteiras, a conexão feminina do “estar ao lado”, o respeito à fisiologia, o culto à paciência e o desejo de ajudar as mulheres a suplantarem seus desafios.

Por outro lado, sempre que estas profissionais insistem no termo “obstetriz” elas procuram, igualmente de forma inconsciente, se conectar ao modelo de atenção dos profissionais médicos, que surgiram muito depois, e acabam fazendo deles o paradigma de suas ações. Portanto, estas últimas tendem a ser mais intervencionistas, menos pacientes, mais técnicas e mais próximas do discurso médico. Também acredito que o termo adequado para descrever a ação das parteiras é a parteria, que tem o mesmo significado de midwifery.

Eu mesmo, desde há muitos anos, me descrevo como “parteiro”, quase numa provocação, pois este termo agora é utilizado de forma pejorativa pelos meus colegas. A arte de partejar, de atender partos normais e de respeitar a rota de fisiologia foi perdendo considerável terreno nos últimos anos. Passamos de uma espécie de “orgulho” de parteiro, no passado não muito distante, para um desprezo explícito a estas capacidades, na modernidade. E tal mudança tem a ver com o domínio total de vertente médica de atenção ao parto, que se tornou absolutamente hegemônica exatamente quando a última geração de profissionais que haviam aprendido a partejar com parteiras se aposentou. Hoje em dia, os alunos das escolas médicas aprendem obstetrícia com profissionais que nunca viram o trabalho de uma parteira, e isso é muito triste, mas explica de forma muito clara a atual situação.

Lembro um fato, ocorrido no hospital de periferia em que realizei meu treinamento enquanto estudante de medicina, e que me ofereceu uma imagem muito clara do que seriam os modelos de atenção ao parto vistos através distintos vieses.

Um colega recém-formado adentrou o espaço do refeitório enquanto tomávamos o lanche da tarde. Ele estivera ocupado no centro obstétrico atendendo um parto, e chegou atrasado ao nosso encontro vespertino para o café. Sentado na ponta da mesa eu era o estudante de medicina que vivia “peruando” plantões, perguntando coisas, investigando palavras, discursos, atitudes e olhares. Enquanto acercava-se da mesa simples coberta por uma capa plástica de estampa floral, meu colega exclamou:

– Vocês perderam uma maravilhosa aula de aplicação de fórceps de Kielland agora mesmo.

Sentou-se ao nosso lado na mesa e comeu seu sanduíche ainda orgulhoso de suas confessas habilidades. Para ele, a capacidade “positiva” de indicar um procedimento, produzir uma ação, aplicar uma técnica, usar uma ferramenta e conseguir um resultado eram o ápice do proceder médico. Eu conseguia perceber com clareza as razões para a felicidade e o orgulho que ele ostentava. Estava claro para mim, menino de 23 anos que cursava a escola médica, que o desiderato máximo da nossa profissão passava por essa sucessão clara de ações: diagnosticar, propor, intervir e reparar.

Mas a alegria do meu colega me provocou uma consideração um pouco mais profunda. Fiquei pensando que este discurso médico se assentava sobre um paradigma interventivo, masculino, racional e objetivo. Poderia, sem dúvida, produzir resultados muito bons nas inúmeras patologias que encontramos na experiência diária com o tratamento de pacientes. Entretanto, com o parto – a feminilidade em sua mais intensa radicalidade – a abordagem precisava ser diversa, pois existia uma formatação original, “de fábrica”, implantada em toda a mulher desde seu nascimento, que a conduzia para a realização do parto, sem que a ação interventiva humana fosse necessária. A maneira de enxergar o evento precisaria ser obrigatoriamente diversa e passaria longe do modelo de intervenção. Não há, via de regra, algo a ser consertado, ajustado ou corrigido. Assim deveria ser, a não ser que…

A não ser que considerássemos todo nascimento como uma patologia, um erro, um equívoco perigoso. Para entender o parto como um ato disfuncional seria necessário enxergar a própria mulher como essencialmente defectiva. Assim, a ideia de uma mulher “malfeita” produziu a necessária autorização social para a intervenção extemporânea ou intempestiva, mas que com o passar dos anos tornou-se a norma.

Minha brincadeira mental mais engraçada é imaginar a cena do meu colega em um universo paralelo, no mesmo refeitório do hospital de periferia, os mesmos pães na cestinha, o queijo fatiado em retângulos irregulares, o presunto magro, a térmica de café e as xícaras velhinhas com as bordas lascadas. Pela mesma porta entra uma parteira com um sorriso largo, os dentes brancos enfileirados e felizes, os olhos brilhando, os cabelos revoltos pelo gorro recém tirado, os olhos ainda vermelhos pela emoção que acabara de passar.

– Vocês perderam uma maravilhosa aula de parteria avançada agora mesmo, meninos.

Diz sem tirar o sorriso do rosto, enquanto pega nas mãos o pãozinho que aguardava sua vez de ser devorado.

– E o que você fez? pergunto eu, entre curioso e afoito para ouvir sua história.

Então ela responde com um suspiro triunfal:

– Nada. Nada mesmo. Precisamente nada.

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