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Abelhas

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Não acho justo que pessoas se acomodem aos seus velhos conceitos e depositem placidamente suas bundas em zonas de conforto. Eu não tenho medo de abelhas, portanto não fujo dos abelheiros. Acho importante estimular pensamento crítico e o respeito pelo contraditório, caso contrário seremos apenas depósitos ambulantes de clichês e preconceitos. Toda a minha formação médica foi recheada de tabus. Não se critica HIV, vacinas, remédios, hierarquia médica, etc. Ao meu redor eu via uma tendência a não questionar o socialismo, o mercado, a família, Jesus e o feminismo. Nunca aceitei e estou velho demais para me tornar um “concordino“.

Minhas críticas são, entretanto, no profícuo terreno das ideias. Não combato pessoas e sim propostas, modelos, sistemas e paradigmas. Tanto quanto os homens não são o problema do machismo (apesar de estarem nele envolvidos) também os médicos não são o problema na obstetrícia. Ambos são vítimas de SISTEMAS de poder, nominalmente o patriarcado e a tecnocracia, mas a mudança desses sistemas de forças não se dará tolamente eliminando (ou acusando de forma leviana) médicos e homens, mas mudando de tal forma a cultura que esses modelos serão rejeitados por não satisfazerem mais as aspirações de todos.

Para que isso possa ocorrer é preciso que alguns levem adiante essas propostas, mas exercendo sem tréguas uma autocrítica severa, sob pena de trocarmos um sistema envelhecido e anacrônico por outro, apenas com roupagem diversa.

Sobre essa questão li o texto de uma feminista que escreve na “Folha de São Paulo”, a qual é vista por algumas feministas como uma voz moderada, enquanto outras a enxergam como traidora. Aliás, nada mais natural que isso ocorra…

“Um colega escritor premiado e respeitado se desesperou ao saber que, após um texto seu falando sobre admirar uma mulher bonita, sua filha sofreu bullying das coleguinhas, “seu pai é misógino”. Outro amigo, que trabalha em um prédio na Faria Lima, ficou segurando a porta do elevador, esperando uma colega de trabalho. Ela fechou o tempo com ele: “Ah, sim, porque eu não sei chamar o elevador sozinha e preciso MESMO de um homem pra me ajudar, não é?!”. Daqui a pouco “Garota de Ipanema” vai ser proibida de tocar no rádio.” (Tati Bernardi)

Há alguns anos escrevi um texto em que elogiava as pernas lindas de uma moça (sem nome ou descrição) que passou ao meu lado no aeroporto. O texto brincava com uma evidência: a crueldade divina de nos manter desejantes quando não somos mais desejáveis. A mim cabia apenas admirar e suspirar. A experiência e o tempo, senhores da existência, se agora me sonegavam a proximidade, pelo menos me permitiam a contemplação quase religiosa dos corpos travestidos de desejo.

Entretanto, a simples confissão do impacto que a morena de pernas bonitas produziu nas memórias do velho senhor acabou desencadeando um efeito destruidor por parte de muitas feministas que outrora acompanhavam meus escritos. Nutriam elas a esperança de ver em mim um “macho domesticado” que estaria ao seu dispor eternamente para ratificar sua cruzada religiosa contra o falo opressor. A cruel confissão ao reconhecer minha admiração pela beleza, pela graça e pelo inefável encanto das mulheres foi o tiro de misericórdia. Passei a ser “intragável”, “misógino” e “machista”, e mais alguns impropérios semelhantes aos que a articulista Tati Bernardi foi obrigada a suportar.

Meu crime: amar e admirar as mulheres e deixar explícita minha devoção à sua maravilhosa capacidade de nos encantar e, com isso, manter a vida florescendo.

O texto desabafo de Tati é uma espécie de lenitivo para uma ferida que eu custava a curar. Por causa de minha atitude francamente aberta em defesa do feminino (na minha concepção, passível de crítica) cometi mais de 200 bloqueios de homens e mulheres que usaram as redes sociais para me ofender e agredir, entendendo que esse assunto só pertence a uma vertente de pensamento e que qualquer elogio à mulher feito por um homem pressupõe o anúncio público e explícito de um estupro.

Agora, ao perceber que algumas mulheres (e feministas) concordam com minha tese, passo a me sentir mais tranquilo por ter clareado minha rede social de pessoas que apostam no ódio e na discórdia como modelo de conexão com o outro.

Obrigado, Tati, por dizer o que eu não poderia dizer…

Aqui está o texto original dela: Tati Bernardi: Respeite as Mulheres, sua vaca.

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Escutar as Mulheres

Chains woman

Fiquei emocionado de ler um artigo que tratava do “Feminismo que precisa escutar as mulheres” escrito por Marjorie Rodrigues. Há muito tempo que não debato isso – por medo de esquartejamento – mas não me furto de escrever sobre o tema de uma perspectiva masculina sobre um movimento que é protagonizado por mulheres. Muito se tem escrito sobre a Violência Obstétrica e a importância de combatê-la, com o que sempre concordei. Porém, há alguns meses, recebi um “whats” de uma importante ativista preocupada com o tipo de enfrentamento que se formava, que basicamente se estruturava de forma binária: de um lado vítimas, as mulheres, e de outro os algozes cruéis e insensíveis, os médicos.

Claro que o maniqueísmo explícito dessa proposta já nos deveria alertar, mas muitas vezes a paixão pela causa nos deixa cegos para algumas idiossincrasias, e deixamos de ver todas as outras cenas que se desenrolam ao lado do túnel criado pelo nosso foco.

Não creio ser possível construir nenhum movimento que promova a equidade sem retirar a mulher da posição de vítima, passiva e estática, manipulada por uma ordem outra que não seja sua própria vontade e determinação. Vítimas nunca são protagonistas. Vitimas são sempre objetos, mesmo quando as protegemos.

Para mudar essa realidade é fundamental que a atitude das mulheres também se modifique, que elas reforcem seu protagonismo e que não aceitem imposições sobre seu comportamento, seja dos homens ou daquelas que querem falar por elas.

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Amamentação, Ativismo e o Futuro

FRANCE BREAST FEEDING
Entrevista da escritora e feminista Elisabeth Badinter…

Primeiramente eu acreditei se tratar de um texto muito antigo, talvez dos primórdios do movimento feminista contemporâneo, lá pelos anos 60. Quando vi que era uma entrevista de 2010 eu fiquei surpreso, pois percebi que a autora está absolutamente defasada no seu discurso de crítica às medidas de incentivo à amamentação, contrária a tudo que se escreveu e publicou sobre os benefícios desta ação. Ok, ela fala que amamentar é bom, mas que este estímulo só deveria ser para os países pobres com problemas de saneamento.

Como? Europeias não tem vantagens em amamentar e ficar com seus filhos? Ora, Dra Elisabeth… De onde a senhora tirou elementos para criticar tais ações? Que estudos sustentam isso?

Eu gostava muito do seu trabalho, em especial um livro que li nos anos 80 chamado “O Um é o Outro“. , mas esta sua entrevista sobre amamentação, apesar de ter já 4 anos de idade, é extremamente superficial e equivocada. As perguntas, em verdade, são muito mais conscientes e elaboradas que as respostas. Se tivesse sido escrito por uma estudante de jornalismo, ou alguém totalmente distante do tema, eu entenderia. Mas um depoimento como esse vir de uma feminista é no mínimo estranho. Ela desqualifica TODAS as pesquisas que demonstram a qualidade da amamentação não apenas do ponto de vista biológico, mas igualmente psicológico. Trata a amamentação como algo bom para “pobres” e o contato com o bebê como uma espécie de “frescura burguesa”. Tenta colocar aqueles que lutam pela humanização do parto e da amamentação como retrógrados e machistas, mas aponta para um futuro obscuro. Sim, “mulheres não são chimpanzés”, mas afinal… o que são? Se não podemos aprender com a etologia – o estudo do comportamento animal – como poderemos definir o ser humano numa era pós Darwin? O contato desses animais com seus filhotes não nos aponta para uma importância fundamental dessas atitudes? Deveríamos nós, numa demonstração de arrogância típica do século XVIII, acreditar que nada temos que ver com os milênios que nos antecederam e que moldaram nossa essência animal e mamífera?

Pois eu responderia a ela que temos muito mais de chimpanzés do que ela imagina. Nosso comportamento é marcadamente “animal”, no sentido de buscarmos vias inconscientes para a satisfação de nossas necessidades, para além do que a nossa tênue racionalidade é capaz de abranger.

Quanto aos exageros dos ativistas…

Ora… quem não os comete? Aqui no Brasil, mas creio que também em Portugal, muitos ativistas por vezes erram o alvo ao culpabilizar mulheres por não obedecerem um ideário de parto normal, sem drogas, sem intervenções e com amamentação prolongada. É claro que este não é um roteiro único, mas um mapa para que se chegue a uma satisfação no processo de maternagem. Ele NÃO é constituído de um caminho único, mas de infinitas alternativas. Entretanto, ainda é comum vermos colegas indignados com os desvios de algumas mulheres, e isso é capaz de culpabilizá-las.

Entretanto, mesmo com esses contratempos, não há como esconder que o parto normal humanizado e a amamentação efetivas oferecem benefícios inequívocos para o binômio mãe bebê. Portanto, deve ser sim uma política de governo, da mesma forma que deve ser diminuir o consumo de açúcar (principalmente por crianças), publicidade infantil e consumismo, pois, mesmo sabendo que as famílias tem o DIREITO de criar seus filhos a partir dos seus valores, é DEVER do poder público oferecer as informações e o estímulo para uma educação mais saudável e segura.

Podemos concordar com Elisabeth Badinter quando ela reclama do cerceamento de opções e de uma espécie de “patrulha ideológica” sobre a amamentação. Não devemos criminalizar estas opções, pois nunca temos pleno conhecimento dos determinantes (conscientes e inconscientes) para a sua adoção. Por outro lado, a pensadora erra feio ao deixar de enxergar os benefícios inquestionáveis conseguidos com o ESTÍMULO à amamentação e ao parto normal. Fazer que as mulheres REGRIDAM às teses feministas dos anos 60 – onde o objetivo era uma igualdade irreal e ingênua com os homens – é um desserviço ao feminismo, que abandonou estas teses em nome de uma valorização das características femininas mais preciosas, como a gestação, parto e amamentação. Se estas características femininas NÃO SÃO determinantes do feminino (que em muito extrapola estes elementos) também não são algo que deve ser extirpado das mulheres, como defeitos, fraquezas ou equívocos da natureza.

A entrevista da Sra Elisabeth Badinter pode ser encontrada aqui:

Mulheres não são Chimpanzés – Elisabeth Badinter

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The Old Feminism

Betty  Friedan

Exponho aqui a minha resposta ao artigo escrito pela feminista americana Katie Roiphe chamado “A Derrota do Feminismo” e que pode ser encontrado traduzido na Internet neste link A Derrota do Feminismo no Facebook

Neste texto a autora critica a exposição de mulheres com seus filhos nos perfis públicos do Facebook, entendendo que esta exposição das “crias” escancarava a falência dos ideias originais e revolucionários das feministas americanas, em especial Betty Friedan. Tenta mostrar que “resumir-se aos filhos” seria uma traição às propostas de liberação feminina. Para ela, a radicalidade feminina que se expressa nos filhos é a derrota inequívoca dos sonhos de autonomia e liberdade para as mulheres.

Realmente, o título está correto: para mim trata-se do fim desse tipo de feminismo antigo, que despreza o feminino e desconsidera as especificidades do ser mulher. Estamos diante do ocaso de um movimento feminista cujo desiderato máximo era transformar as mulheres em “homenzinhos de gelatina”, fortes, invasivas, transformadoras e sem a chatice perpétua dos filhos a atrapalhar seus projetos. A autora chega a usar um argumento, no mínimo, curioso:

“Mas essa forma específica de narcisismo, a exposição destes querubins para criar uma imagem do eu, é para mim mais perturbadora pela verdade que revela. A mensagem subliminar é clara: Eu sou os meus filhos.”

Para ela, “eu sou o meu trabalho” não causa, outrossim, um espanto que poderíamos prever pelas suas palavras. Amalgamar-se no seu ofício soa melhor do que apresentar a obra mais sofisticada e complexa que uma mulher é capaz de produzir: um filho saído de seu ventre. A articulista provavelmente não percebeu o que muitas mulheres conseguem ver, e que ela se nega a perceber: existe um orgulho imenso em dar à luz um filho e criá-lo com coragem, denodo e determinação. Se as mulheres podem hoje atingir outros postos de realização pessoal nas sociedades ocidentais, que foram outrora a elas sonegados, isso não desmerece o trabalho árduo, penoso e – ao mesmo tempo – gratificante de gestar, parir e maternar um filho.

Realmente, é o fim “desse” feminismo, bem chamado de feminismo caga-regras. Não precisamos mais de patrulhas feministas, comandos anti-gravidez e nem de ativistas contra o romantismo, o desejo, a delicadeza e o amor maternal. Podemos soterrar um feminismo que nada mais é do que a outra face do machismo, que olha as sociedades igualmente divididas e antagonizadas, e que não pensa em congraçamento e respeito na diversidade.

As velhas feministas traumatizadas e raivosas deixaram fiéis seguidoras e, para algumas, as marcas do rancor e do ressentimento com a devoção maternal se mantém idênticas.

Rest in Peace, old feminism…

E que seja bem vindo um “novo feminismo”, de mulheres que respeitam suas características mais profundas e que exaltam a feminilidade na sua mais intensa radicalidade: o poder de gestar e parir.

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