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Tristes solilóquios

“Muitos insistem em vociferar verdades nas mídias sociais, mesmo que elas não venham acompanhadas de uma prova sequer do que afirmam. São sujeitos carregados de certezas e ideias simples, repletas de embates do “bem contra o mal”. Acusam a todos, julgam e condenam sem piedade. São carrascos virtuais, prontos a colocar seus desafetos no pelotão de fuzilamento.

Porém, é fácil perceber que estas pessoas se comportam tal qual os fanáticos religiosos que gritam versículos bíblicos na praça. Seus discursos cheios de fervor não servem para que os outros se convertam; são ferramentas para que eles mesmos acreditem em suas palavras. Diante da incerteza do que afirmam insistem na veemência de suas convicções, mesmo quando tudo à sua volta lhes prova que estão no caminho errado. Não são discursos reais; são tristes solilóquios.

Seus gritos funcionam como uma proteção contra o medo de estarem errados. Com este discurso tentam bloquear a realidade, porém esta, mais cedo ou mais tarde, acaba mostrando sua face dura. Triste o momento em que percebem que suas convicções não eram mais do que seus desejos transformados em discurso. Mas não será esta a verdadeira iluminação?”

André Capuani Riggo, “Mídia e psicanálise”, Ed. Lambert, pág 135

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Escutar as Mulheres

Chains woman

Fiquei emocionado de ler um artigo que tratava do “Feminismo que precisa escutar as mulheres” escrito por Marjorie Rodrigues. Há muito tempo que não debato isso – por medo de esquartejamento – mas não me furto de escrever sobre o tema de uma perspectiva masculina sobre um movimento que é protagonizado por mulheres. Muito se tem escrito sobre a Violência Obstétrica e a importância de combatê-la, com o que sempre concordei. Porém, há alguns meses, recebi um “whats” de uma importante ativista preocupada com o tipo de enfrentamento que se formava, que basicamente se estruturava de forma binária: de um lado vítimas, as mulheres, e de outro os algozes cruéis e insensíveis, os médicos.

Claro que o maniqueísmo explícito dessa proposta já nos deveria alertar, mas muitas vezes a paixão pela causa nos deixa cegos para algumas idiossincrasias, e deixamos de ver todas as outras cenas que se desenrolam ao lado do túnel criado pelo nosso foco.

Não creio ser possível construir nenhum movimento que promova a equidade sem retirar a mulher da posição de vítima, passiva e estática, manipulada por uma ordem outra que não seja sua própria vontade e determinação. Vítimas nunca são protagonistas. Vitimas são sempre objetos, mesmo quando as protegemos.

Para mudar essa realidade é fundamental que a atitude das mulheres também se modifique, que elas reforcem seu protagonismo e que não aceitem imposições sobre seu comportamento, seja dos homens ou daquelas que querem falar por elas.

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Mídia inconsequente

amor a vida

“Se vc tem “Amor à Vida” não faça uma cesariana sem justificativas, pois ela aumenta a sua chance de assistir a próxima novela no céu…”

Que desastre…

Preparem-se para mais uma “Campeã de Porcaria” da Rede Globo.
A cena da novela de hoje vai retratar um “parto que deu errado”, causando a morte da mãe e do bebê. A “tecnologia salvadora” foi usada “tarde demais”…

A Globo investe mais uma vez na estratégia de enaltecer a assistência tecnológica, cara e de pífios resultados em detrimento de uma visão mais abrangente e respeitosa com as mulheres. As mortes de mulheres continuam a ser retratadas como a “insistência de apostar em um corpo defeituoso de mulher”, ao invés de entregá-las à ação salvadora das tecnologias

Pois é! Mais uma vez os roteiristas de novela fazem um trabalho negativo para a saúde brasileira, ajudando a aumentar o fosso que nos separa das nações desenvolvidas no que diz respeito à prevenção de danos à saúde. O que mais uma vez aparece é uma mídia mitológica e interessada em cativar anunciantes (como as grandes instituições hospitalares) ao invés de esclarecer, orientar e dissipar ideias errôneas. É por esta razão – entre outras – que o Brasil amarga a vergonhosa marca de campeão mundial de cesarianas.

Para cada mulher que poderia sofrer o que a novela insinua, DEZENAS acabam morrendo por causa de cesarianas, com suas consequências cirúrgicas, infecciosas, hemorrágicas e anestésicas. Isto não é opinião: é evidência científica, corroborada por instituições idôneas e comprometidas com a saúde das mulheres.

A TV Globo consagra a mentira que a gente escuta todos os dias: de que o parto normal é o culpado sempre pela morte, como sinônimo de negligência, e quando ocorre o óbito de uma criança ou de sua mãe em decorrência de uma cirurgia a sociedade ingenuamente se resigna, e vemos as pessoas balançando as cabeças e dizendo que “foi feito de tudo para salvá-los”. Ledo engano, brutal equívoco.

É quase impossível melhorar a atenção ao parto no Brasil enquanto grandes corporações de TV disseminam desinformação e criam, no imaginário feminino, conceitos preconceituosos e equivocados sobre uma pretensa fragilidade feminina e sobre uma falsa defectividade na forma de parir.

O que me deixa triste e desanimado é que, se era realmente importante criar um “viúvo”, marcar um personagem com as cicatrizes da morte trágica de sua família, porque não o fizeram como consequência de uma cesariana???? Porque não se alinharam às recomendações da Medicina Baseada em Evidências? Quais os determinantes obscuros para – mais uma vez – se juntarem àqueles que desejam que as taxas vergonhosas de cesariana permaneçam no mesmo lugar? Qual a verdadeira intenção da Rede Globo? Será apenas burrice dos roteiristas? Falta de informação ou imaginação? Será que esse clichê maldito ainda não se esgotou nos dramalhões tupiniquins? “Senhor Alberto Roberto, teremos que escolher entre sua esposa ou seu filho. O senhor terá que decidir…” Ora, que cafonice, que falta de respeito com o telespectador, que ausência de senso crítico e atualização!!

Eu creio que o fracasso da última novela, que foi considerada como a pior novela daquela autora, forçou os diretores e a cúpula da Vênus Platinada a apostar nos dramas maniqueístas e nas tramas moralistas mais antiquadas. Só isso, ou uma teoria por demais persecutória, pode explicar tamanha bobagem da Rede Globo.

As pessoas que lutam pela liberdade de escolha e recusas informadas no parto não descansarão até que tais mentiras sejam esclarecidas, até que parem de retratar os partos como ruins e negativos, e que deixem de oferecer a falsa ideia de que a intervenção tecnológica no nascimento é melhor do que os recursos que a natureza nos ofereceu.

E que Deus nos perdoe por mais este crime contra o parto natural, que poderá produzir um estrago nas intenções do governo brasileiro de diminuir a mortalidade materna e as cifras alarmantes de cesarianas…

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