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Childfree

Sobre páginas “Childfree” – grupo de pessoas que combatem a discriminação contra indivíduos sem filhos…

Minha percepção sobre estas comunidades nas mídias sociais é que TODAS essas páginas de grupos oprimidos passam pelo mesmo processo. Observe bem: se você fizer uma página de pessoas negras que lutam contra o preconceito racial com o tempo vai aparecer alguém que odeia brancos e deseja destilar todo o seu ódio contra essas pessoas, devolvendo a violência que sofre com mais violência – agora com sinal trocado. Certamente serão uma grande minoria, mas a veemência de seu discurso, fruto de dores continuadas, fará sua voz reverberar mais alto do que a maioria silente.

Da mesma forma, se um grupo feminista se une para combater a opressão machista vão inevitavelmente aparecer mulheres com discurso de ódio – e não contra os machistas, mas contra todos os homens. É fácil descobrir quem são: rapidamente dizem que o estupro é algo “natural” para todos os homens, são todos “esquerdomachos“, não passam de “escrotos” e não são dignos de nada. Escrevem sobre a superioridade moral de um gênero sobre o outro e, apesar de serem minoria, acabam contaminando os grupos com a potência do seu ressentimento. Devolvem a opressão que dizem sofrer com ódio, exclusão, violência e vingança.

Os grupos “childfree” eu pouco conheço. Minha posição de admiração ao parto e às crianças nunca me permitiu qualquer aproximação com pessoas que desprezam esses aspectos essenciais da vida. Entretanto, a escolha PESSOAL de não ter filhos é tão respeitável quanto qualquer outra. Eu não diria o mesmo de uma postura institucional ou proselitista – pois ela atenta contra a própria continuação da vida humana no planeta – porém, esta decisão pessoal, como qualquer outra, precisa ser respeitada.

Esse grupo não poderia fugir da sina de todos os outros. Se foi mesmo criado para combater o preconceito contra sujeitos que decidem não ter filhos, rapidamente atraiu pessoas cujos traumas pessoais as levam a odiar crianças, grávidas e casais que desejam engravidar. Não há como evitar que estes nichos se tornem atraentes para o deságue de ressentimentos e rancores antigos de pessoas cuja vida é salpicada de traumas.

Cabe a quem coordena tais ambientes depurá-los de indivíduos que usam uma boa causa – combate ao racismo, feminismo e preconceito contra sujeitos sem filhos – como palco para que seu drama pessoal seja encenado e onde possa distribuir sua mágoa destrutiva.

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Médicos do bem

O fato de existir ainda uma escassez de médicos em ambientes de humanização prova a minha tese de que é preciso seduzi-los a entrar.

A questão que eu considero relevante é a posição de destaque do médico no contexto tecnocrático e em relação aos conhecimentos autoritativos.

Como exemplo trago a conversa que tive por Skype com uma ativista do parto no Japão, especificamente em Kyoto. Ela viu uma palestra minha e queria me perguntar algumas coisas sobre o Brasil e o modelo interdisciplinar de atenção ao nascimento. Ela me relatou não haver “birth doulas” na sua cidade, apenas doulas para pós parto. Disse também que fará em um futuro próximo um curso para doulas nos Estados Unidos, mas reconhece que terá dificuldade para trabalhar porque nenhum médico aceita essa função no Japão. O Japão está uns 20 anos atrasado em relação a nós no que diz respeito ao movimento de doulas. (desculpe falar assim, mas essa deve ser a unica cousa que estamos na frente deles).

Eu argumentei com minga amiga japonesa que sem essa “fissura na ordem médica” – isto é, a existência de um(a) obstetra humanizado(a) em um contexto tecnocrático – as doulas de parto ficam de mãos amarradas. Entretanto, o surgimento de UM médico apenas sendo “convertido” abrirá as portas para dezenas de doulas – e até parteiras. Eu mesmo sou um exemplo vivo disso; outros médicos no nosdo país também.

Portanto, não se trata de valorizar mais os médicos, mas de reconhecer que seu poder na atenção ao parto é estratégico. Por que não usá-lo em nosso favor?

Lembro quando Marsden Wagner dizia que odiava ser chamado de “doutor, mas notava que quando era obrigado a se anunciar assim “todas as portas se abriram facilmente”. Portanto, por que não permitir que os “doutores” possam abrir portas para os que vem atrás? Por que não usar esse poder médico a favor da humanização do nascimento?

Quem conheceria Marsden Wagner se ele não tivesse se tornado um médico rebelde e fosse – por exemplo – uma doula ou parteira? E Michel Odent? E Klauss, Kennell, Caldeto-Barcia e Paciornik? Quem leria Leonardo Boff se ele não fosse um padre heterodoxo e “herege”?

Poisceu afirmo que as suas condições DISTÓPICAS dentro de suas corporações é que lhes garantitam a merecida notoriedade, a qual estaria escondida se estivessem ocupando outras funções menos autoritativas.

Por isso os médicos convertidos são tão importantes do ponto de vista estratégico. Eles abrem as picadas e trilhas no meio da selva da tecnocracia, que depois poderão ser pavimentadas pelos outros atores da cena do parto, como as doulas e parteiras.

Eu seria o último sujeito do mundo a olhar para o movimento de humanização como uma organização “medicalizada”. Aliás, lutei toda minha vida contra a medicalização do parto. Entretanto, sou obrigado a reconhecer a importância capital dos obstetras e neonatologistas como pontas de lança na mudança de paradigma.

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