Arquivo da tag: mentira

Diagnóstico

Mas doutor, afinal o que tenho?

Tudo o que o paciente mais quer é um nome, uma categoria diagnóstica, um rótulo para colocar por sobre sua dor. Esta ação simples, inobstante a complexidade do mal que escolhermos para lhe oferecer, é capaz de produzir, ao menos, um alívio. Nomear é basicamente delimitar, oferecer um começo e um fim.

– Pelo menos agora já sabemos, não?

O problema é que ao batizar o mal que lhe aflige calamos todos os seus outros sintomas, as expressões múltiplas do seu sofrer. Obrigamos o paciente a se conter dentro da caixa do que nós esperamos dele, e não escutamos a voz única e surpreendente do que ele em verdade sente. Sem o diagnóstico o paciente fica livre para sentir o que desejar, mas quem suporta tal liberdade?

Experimente, diante de um quadro de sinusite, dizer ao seu médico que sente frio, ansiedade ao anoitecer ou saudade de um amor do passado. Imagine contar ao medico que sente sua alma vazia e seu ânimo escorrer como a agua do banho. Como se comportaria seu doutor se voce lhe dissesse que, além da tosse produtiva – que ele chamou de bronquite – você sente coceira nos pés, peso no estômago e que este mal estar veio depois de um grande pesar?

O diagnóstico é a grande mentira da medicina. Ele distorce a realidade como a foto de um sorriso: mostra o fragmento de uma expressão e esconde todas as outras faces possíveis.

Médicos não deveriam ser catalogadores ou rotuladores. O exercício mais interessante e produtivo é atender seu paciente como se ele fosse o único doente do mundo.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Sobre a Verdade e os Velhos

Eu confesso que usei a estratégia de confrontar a realidade com minha sogra e minha mãe quando suas consciências começaram a dar sinais de enfraquecimento. A principio, como quase todos fazem, eu apresentava a elas o mundo real que seu entendimento desafiava. Mostrava à minha sogra que nao se ajustava os óculos no horario de verão, e à minha mãe que ela não morava mais na velha casa da Anita Garibaldi onde viveu na infância. Sorria pelo constrangimento e pela confusão que passavam. Eu achava que devia trazê-las para o meu mundo, para nāo perdê-las de vez

O tempo passou. Minha sogra faleceu e minha mãe tem hoje a alma enclausurada em um envoltório de matéria. Quase não fala, apenas se alimenta… e sonha.

Hoje eu tenho dúvidas se devia mesmo falar a elas a verdade. Até porque, é preciso definir o que é a “verdade” a ser dita. Quando em minha mãe se aprofundou a demência senil eu mudei de postura. Depois de um tempo parei de lhe dizer a “verdade” porque percebi de forma nítida que ela habitava em um mundo paralelo, onde os valores e os parâmetros eram bastante diferentes dos meus. A verdade, em sua alma, tinha outro formato. Falar para ela que já havia me ligado três vezes para falar do mesmo assunto, ou que seu pai (falecido há 50 anos) não viria buscá-lá não fazia mais sentido. Não via razão alguma em trazê-la para o meu mundo concreto e fazê-la provar reiteradamente o gosto amargo da angústia e do abandono.

Com a mesma lógica que privamos as crianças de verdades que elas não podem alcançar (papai Noel, morte, abandonos, violência, separações) adaptando estas informações no tempo e na capacidade delas, assim eu resolvi fazer com minha sogra e depois com minha mãe. A “tirania do real” não poderia ser uma arma de tortura constante, obrigando uma mente limitada a lidar de forma repetida com a dor de suas perdas.

A verdade não é fim, é meio. Usá-la sem um objetivo de mitigar a dor e a angústia retira seu sentido libertador.

Entendo as disposições em contrário, até porque já usei a estratégia da verdade crua, mas o tempo me fez mudar de visão sobre aqueles cujo apagamento insidioso da mente nos obriga a olhar a verdade com outra perspectiva.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Preconceitos

A publicidade que foi dada ao escritor medíocre que afirmou não gostar de sexo com mulheres de mais de 50 anos é muito mais chamativa do que sua frase tosca e provocativa. Primeiro, vamos deixar claro que seus gostos pessoais não podem ser julgados; seus conceitos generalizantes, sim, mas este é um outro assunto. Eu, por acaso, acho as mulheres de 50 esplendorosas, mas esta é uma visão subjetiva sobre a qual não cabe julgamento.

Entretanto, ficou muito curiosa a reação a esta afirmação grosseira. Homens e mulheres (em geral coroas como eu) indignados com a manifestação o chamaram de “feio”, “horroroso” e de “maracujá de gaveta” (uma mistura de velho, feio e enrugado). Pergunto: por acaso preconceito com a idade é pior que preconceito com feiúra alheia? A resposta ao preconceito dele foi uma chuva de…. preconceitos. Eu, como feio, me senti ofendido por tabela. Não somos nós também dignos de receber amor?

Esse escritor completamente desconhecido conseguiu, através dessa estratégia de marketing, fazer como o assassino na cena final de Se7en: obrigar os outros a mostrar o mal que tem dentro de si mesmos, mas que só enxergam nos outros.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos