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Indústrias mortais

Repito: o major problema desse embate Hidroxicloroquina X Vacinas” é que, em nome da ciência e contra o obscurantismo, acabamos colocando em evidência e tratando como vestais as indústrias mais poderosas, imperialistas, mafiosas e criminosas do mundo. É como se, para nos livrarmos de uma invasão estrangeira, fosse necessário se ajoelhar aos milicianos e pedir ajuda aos jagunços que agem para os latifundiários.

Digo isto porque está circulando um texto ingênuo que, a pretexto de combater o negacionismo científico, exalta empresas como a Pfizer, com larga história de crimes contra a saúde pública.

Deve haver uma solução mais profunda para estas pandemias. Devemos analisar esta atual crise sanitária mundial como a ponta do iceberg porque as razões de seu aparecimento – a continuada agressão ao meio ambiente – não estão sendo combatidas pelas grandes nações industrializadas.

Talvez a forma para exterminar o risco de pandemias seja mesmo através do extermínio do capitalismo e sua lógica predatória. Mas para isso será preciso acordar as massas de sua letargia.

Veja o que nos diz Dr. Peter Gotzsche, fundador da Biblioteca Cochrane:

“Some pharmaceutical companies have been caught and fined for their activities. For example, Gøtzsche details how during 2007–12, in the USA, Abbott, AstraZeneca, Eli Lilly, GlaxoSmithKline, Johnson and Johnson, Merck, Novartis, Pfizer, and Sanofi-Aventis were fined from $95 million to $3 billion for illegal marketing of drugs, misrepresentation of research findings, hiding data about the harms of the drugs, Medicaid fraud, or Medicare fraud. However, some companies seem not to be deterred and apparently regard fines as marketing expenses.

“Fundamentally, I think capitalism and health care go very poorly together”, Gøtzsche told The Lancet. In his book, he recommends several reforms to address this issue. He claims that, like tobacco marketing, drug marketing is harmful and should be banned. Gøtzsche also stresses the need to remove the for-profit model and to radically reform the currently impotent or too-permissive drug regulation. His unequivocal opinion is that the pharmaceutical industry should not be allowed to do trials of its own drugs because being both the judge and defendant is a conflict of interest. Ideally, non-profit enterprises should invent, develop, and bring new drugs to market.

Removal of the link between the costs of research plus development and the price of drugs would, Gøtzsche believes, address the unaffordability and unsuitability of the current medical innovation model, and reduce the incentives for the development of me-too products (ie, variations of known substances) and marketing and promotion of drugs that might not be used rationally or are no better than the existing alternatives.”


Veja aqui a matéria completa publicada no Lancet.

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A ciência

Quem trabalhou como eu durante 40 anos em um ramo que se percebe científico, mas que funciona com os mesmos dogmas e sistemas de poder como qualquer igreja, entenderia mais facilmente minha crítica à ciência como expressão humana. Falo da ciência com “c” minúsculo, aquela construção humana, e não a “Ciência” abstrata, o conhecimento racional. A primeira é uma produção contemporânea, feita por mentes humanas e carregada com sua falibilidade e corrupção; já a segunda é o ideal racional, a ferramenta da transcendência humana, mas que quase nada existe no mundo real, sendo uma habitante do mundo das ideias.

Existem fatos inequívocos que mostram a veracidade dessa visão cética sobre a ciência. Estudos demonstram que metade das condutas médicas correntes não tem uma conexão com as evidências científicas. Outras pesquisas denunciam que que as próprias pesquisas – que deveriam dar suporte às condutas médicas – não são tão confiáveis como gostaríamos de acreditar. Veja aqui.

Por vezes parece que existe um totalitarismo dos cientistas, que seguem uma espécie de “ciência soviética”, a qual produz um monobloco de visões que se colocam na posição de saber acima de todos os demais, e que condena todos os outros saberes à extinção.

Isso torna a ciência a irmã dileta da religião…

Lembro de um encontro da UNIMED do Paraná em que fui convidado a falar sobre humanização do nascimento, um evento perdulário que se realiza todos os anos. No jantar fui colocado à mesa junto com uma psiquiatra que me falou: “Há muitos avanços na psiquiatria no mundo todo, mas nenhum maior do que a extinção de todo o resquício de pensamento freudiano. Hoje sabemos que tudo o que pensamos e sentimos se resume a alterações bioquímicas dentro do cérebro. Isso inclui dor, prazer e até o sabor dessa sobremesa“.

Fiquei esperando ela terminar dizendo “… e Fiel é o Senhor”, mas ela apenas sorriu com um olhar que apenas aqueles que falam de uma posição de certeza e fé inabalável possuem.

Quando trabalhamos dentro de um hospital ou de um laboratório é muito mais simples perceber de forma clara as incongruências e paradoxos do sistema. Da mesma forma, se você trabalhar na justiça verá que a mulher que segura a balança NUNCA está usando vendas e estará sempre com os olhos bem abertos para manter e garantir o poder para quem tradicionalmente o controla: as castas superiores que detém o domínio sobre os recursos e a produção.

E digo mais: quem trabalhou por muitos anos em traduções sabe que as traduções são realmente “traições” e não existe uma sequer que seja “isenta” ou “neutra”; sempre haverá a ideologia do tradutor na obra que traduz. A ideia positivista de uma tradução sem viés é tão ingênua quanto a de uma medicina ou uma justiça não ideológicas.

Por isso não é difícil dizer que na ciência não poderia ser diferente. O quê – e como – investigamos, assim como os próprios resultados que atingimos, são determinados pelas nossas ideologias e sustentadas pelos dois grandes pilares da civilização contemporânea: o capitalismo e o patriarcado. Ambos decadentes, mas ainda vigorosos o suficiente para ditarem as regras para o mundo em que vivemos. Enxergar a ciência pelo que ela verdadeiramente é, sem as fantasias de isenção ou neutralidade, não a diminui, mas a conduz à condição de criação social digna dos valores do seu tempo.

Perceber a complexidade da cultura é fundamental para não nos deixarmos engolir pelas visões ingênuas de imparcialidade que nos tentam impor. A decisão de passar um bisturi e rasgar a pele de um doente, ou de bater o martelo para condenar são produzidas no âmago de nossas convicções mais profundas, mais afetivas e menos racionais. Somos governados por nosso fígado, pelos nossos instintos menos nobres como medo, angústia e egoísmo, muito mais do que pela tênue camada de massa cinzenta que envolve nosso cérebro.

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