Sem trabalho de base, nossos avanços serão apenas fogo-fátuo.
“O esforço de todos aqueles que lutam e lutaram pela revolução no parto – na direção da autonomia e do protagonismo pleno – não poderá jamais se restringir a uma mera transformação nas estruturas de poder, no aperfeiçoamento de instituições e na capacitação daqueles que as controlam. Para ser efetiva, esta mudança precisa ser, acima de tudo, um câmbio profundo, radical e verdadeiramente poderoso da sociedade, incluindo homens e mulheres, por meio de suas consciências, de seus costumes, hábitos, valores e relações sociais. Sem essa perspectiva, continuaremos a apostar no revisionismo estéril, que jamais atinge o cerne da questão.
Não é suficiente mudar as estruturas de poder se não capacitarmos a sociedade a um novo tipo de participação decisória sobre os seus direitos. Precisamos de novos cuidadores tanto quanto necessitamos de uma nova geração de clientes dos serviços de saúde, agora mais informados e conscientes. A revolução do parto se inicia com as pessoas e para servir a elas. Uma verdadeira transformação jamais será verdadeira, consistente e perene se não for capaz de se expressar na estrutura íntima da sociedade. Portanto, mais do que mudar condutas, protocolos, rotinas e profissionais da assistência, é essencial criar uma nova cultura do parto, que inclua respeito à fisiologia e o reconhecimento das consequências últimas do nascimento como imprint indelével no corpo e na alma dos cidadãos. Somente com essa alteração de base poderemos manter as conquistas no campo social firmes e consistentes; do contrário, teremos apenas transformações fugazes e superficiais, baseadas tão somente na autoridade. É importante entender que, sem esta estrutura sólida na consciência coletiva, todo avanço será fugaz e qualquer progresso apenas ilusório.”
É possível falar de humanização do nascimento sem ser político? Seria a humanização da atenção ao parto um tema técnico, científico, positivo, que nada tem a ver com as questões sociais ou com temas mais abrangentes como direitos humanos, reprodução e sexualidade e mesmo o direito à vivência sexual plena?
Lembro de um encontro traumático com um membro do Conselho de Medicina quando este, do alto de sua imperial arrogância, disparou: “Não existe ideologia em Medicina, apenas boa ou má prática médica“. Ou seja: para este conselheiro, a medicina é uma expressão positiva da atividade humana; aplicá-la pressupõe que a verdade precisa ser comprovada a partir de técnicas científicas válidas. Além disso, traz a ideia de ciência cumulativa, ou seja, transcultural, atingindo toda a humanidade, inobstante qual cultura surgiu ou se desenvolveu. Parte da ideia de corpos sem alma, sem história, sem subjetividade, onde um muro se ergue entre os aspectos físicos e as questões anímicas. Por certo, o que este profissional pretende se contrapõe a experiência cotidiana de milhões de médicos que se deparam com as características subjetivas de cada sujeito que os procura. Além disso, é evidente que na manifestação de doenças concorrem aspectos emocionais, psicológicos, afetivos e sociais. Desta forma, na análise das doenças como manifestações de transtornos sociais, a política é uma das ferramentas mais importantes para compreender e tratar o adoecimento.
Partindo deste pressuposto – a influência da cultura e da política na saúde e na doença – eu não acredito ser possível defender a humanização do nascimento sem assumir uma posição ideológica, o que não significa necessariamente adotar uma posição partidária. Mais ainda: eu considero o abandono do debate político um dos grandes erros cometidos pelo movimento da humanização do nascimento nos últimos 25 anos. Sem o saber, adotamos uma posição claramente revisionista, almejando uma ilusória “conciliação de classes” com os detentores do poder, sem nos darmos conta de que, assim como em qualquer luta social, aqueles que tem nas mãos o poder jamais o entregam de forma pacífica. Além disso, a revolução do parto só vai acontecer quando abandonarmos as ilusões juvenis e assumirmos a necessidade de um enfrentamento firme. Sem entendermos que o “direito de parir direito” é uma luta social e que “revolução” significa câmbio de poder, não vamos atingir os fins últimos a que nos propomos.
O mesmo descaso que observo como regra para as vozes femininas na política também observei durante décadas no silêncio das mesmas vozes no que diz respeito ao parto. Portanto, não se trata de silenciar uma mulher em especial, mas reconhecer o temor inconfesso da sociedade patriarcal em escutar vozes dissonantes que possam questionar os “poderes naturais”. Quem teria mais autoridade para questionar como as mulheres são tratadas em seus partos do que elas próprias? Quando gestantes são desprezadas e diminuídas, eu escuto o eco silencioso de centenas de vozes suprimidas, brotando do peito de mulheres assustadas com seus partos, caladas e impedidas de decidir sobre seus corpos. E aqui não ser trata de questionar a fala de Janja sobre o TikTok – sobre a qual discordo – mas de analisar a repercussão violenta contra essa personagem.
Ou seja: os ataques às mulheres que alcançaram, de alguma forma, o poder nada mais são do que reflexos de uma cultura que ainda receia escutar o que elas têm a dizer. Muito do sofrimento que escutamos das mulheres mais velhas está relacionado às palavras não ditas em sua juventude, guardadas no peito, trancafiadas em silêncios dorosos que se transformam em sintomas e lágrimas. Permitir que as energias do parto tenham vazão é cuidar da saúde de todos, tanto quando reconhecer o direito às mulheres de expressarem suas ideias e sentimentos.
A ideia de questionar autoridade não é, em essência, ruim. Em verdade, toda a ciência parte dessa insubmissão, não só à perspectiva dos outros, mas em combate constante contra a própria a ignorância. Assim sendo, ver alunos questionando cientistas e autores não é um sacrilégio ou um pecado. Faz parte de uma educação crítica o exercício da contestação. Por outro lado, as perguntas que cabem a estes “alunos petulantes” poderiam ser: “Afinal, em nome do quê você questiona este autor e como chegou a uma resposta diferente da que ele nos ofereceu?.“
A resposta dos alunos de hoje não deve variar muito. Elas se referem a revisionismos que contestam o entendimento oficial baseados em autores apócrifos, sem formação reconhecida (Olavo de Carvalho é o ícone), afirmando que toda a estrutura do conhecimento contemporâneo está corrompida e baseada em falsidades e mentiras. Os interesses que haveria por trás dessas “mentiras oficiais” são o “marxismo cultural” (uma tolice divulgada por Jordan Peterson), associada à descrença crescente nas instituições (políticos, cientistas, religiosos, Academia etc.).
Quando falamos que a burrice tomou a dianteira nas narrativas contemporâneas é importante pensar o que significa isso. Não se trata de um amor puro à ignorância, um elogio à tolice. É algo além; uma revolta contra a opressão das instituições.
Todos os dias somos assaltados por notícias de corrupção na administração pública, até porque o poder REAL no Brasil tenta de todas as formas desmerecer a política como cola social. Além disso, vemos a corrupção nas corporações, como os remédios que matam, os médicos que abusam de cesarianas, a corporação médica acabando com os Mais Médicos, com o STF fazendo política partidária, com o exército ameaçando a democracia, com o judiciário corrompido por juízes fazendo política, uma mídia corrupta e golpista e com a Academia sendo uma fogueira de vaidades onde o ensino é relegado a segundo plano e as fraudes nas pesquisas estão sendo denunciadas de forma crescente.
Desta forma, com o aparecimento da internet, a autoridade que se
afunilava nessas corporações acabou sendo diluída e espalhada de forma
crescente. Não existe mais uma única fonte de informação; podemos
questionar tudo e todos com uma pletora de informações, ideias e
contraditórios sem precedente na história.
Claro que isso abre espaço para a estupidez e a contestação tosca de verdades bem estabelecidas. Muitas burrices como “Hitler de esquerda” e “terraplanismo” apareceram, mas não há como voltar atrás. A partir de agora nossas evidências precisarão ser conquistadas palmo a palmo e as antigas autoridades intocáveis vão aos poucos desaparecer. Não há volta…
Um exemplo que demonstra como nosso enfrentamento à autoridade faz sentido basta ver a miséria que escreveram juízes como Moro e Gabriela Hardt na sentença de Lula e o que escreveu uma professora da PUC sobre Simón Bolívar e o “marxismo”.
Não há como negar que, dentro do capitalismo, todas estas instituições
estão em crise. Existem mentiras e corrupção na política, na ciência, na
religião e nas Academias, mas o convite aos alunos deveria ser para que
não se entregassem à simples contestação e o nivelamento de tudo em
torno do rótulo “opinião” – onde a minha vale tanto quanto a de Stephen
Hawking. Não, a ideia seria desafiá-los a caminhar os mesmos passos de
dedicação, pesquisa, labuta, contestação e análise que estes pensadores
percorreram, para só então nos oferecer uma visão alternativa.
Claro que isso serve para os alunos que desejam saber. Para os que
apenas escolhem no que acreditar ou duvidar, uma religião, com suas
regras e dogmas, é o caminho mais rápido e fácil.