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Habilidades precoces

Há alguns dias me envolvi em um debate (nome culto para “treta”) por causa da imagem de uma criança de menos de 3 anos que foi treinada para dar saltos mortais para trás (back flips). Nas imagens estava acompanhada por um treinador, que poderia ser seu pai. (vide acima)

Eu sempre me incomodo quando aparecem “crianças prodígio” no Facebook ou no Youtube. Fico pensando o quanto essa criança não foi forçada a apresentar uma performance que não faz parte do repertório normal da infância. Já pararam para pensar como essa criança foi treinada para fazer essa “micagem”?

Penso que esse tipo de treinamento é o mesmo usado para treinar um cachorro para fazer essas coisas no circo. Pode ser até uma atividade lúdica, mas qual o sentido de uma criança dessa idade fazer saltos mortais? Para quem? Apenas para o nosso aplauso? Será que essa escolha é consciente? Será que ela não se submete a treinamentos não compatíveis com sua idade – a exemplo de muitos virtuosos da música – apenas para ser explorada como um “mico amestrado”? Eu nunca vejo habilidades especiais em crianças com bons olhos; sempre penso que muitas vezes existe abuso para fazer a criança se tornar um performático por obra de adultos.

Eu pergunto: dá para afirmar que estas crianças escolheram livremente um regime alimentar e de exercícios para se tornarem acróbatas ou fisiculturistas? Para quem? Certamente que eu não posso afirmar isso (que teria sido forçada), mas eu prefiro ver criança se comportando como criança e me choca ver agindo como adultos em miniatura.

Para aqueles que argumentam que a criança “escolheu livremente uma atividade penosa e difícil”, eu pergunto como é possível diferenciar isso de estimulação precoce para se adaptar a um desejo – em verdade uma pressão velada – por parte dos pais? Como saber se a criança realmente deseja uma tarefa – via de regra árdua e penosa – ou apenas tenta se adaptar a uma expectativa dos adultos que a cercam?

Nenhuma criança de menos de três anos de idade se interessa por saltos mortais para trás sem que haja por trás dessa escolha um exemplo que ela adquiriu em casa e um estímulo para além do que seria lúdico. Tais manobras não fazem parte do nosso desenvolvimento normal. Crianças dessa idade nadam por diversão, correm muito, fazem exercícios, dão saltos, contam histórias, cantam… mas não fazem acrobacias como saltos mortais. Esses saltos acrobáticos são originados de um treinamento específico que, que quando impostos nessa idade, não são naturais. Foram incentivados pelos pais ou por quem cuida delas. Exercícios e brincadeiras ocorrem desde que o mundo é mundo, mas acrobacias precoces ocorrem a despeito do real desejo ou da necessidade de crianças pequenas.

A diferença entre praticar natação e dar saltos mortais é que somos “homo sapiens aquaticus” e nos desenvolvemos como espécie perto de mananciais e rios por causa do nosso sistema de resfriamento cerebral à base de água. Somos atavicamente ligados à água, mas criança tem que ser criança. Aqueles que são muito jovens e não passaram pela fase – por volta dos anos 80 – de ensinar crianças a escrever e ler com 3 ou 4 anos não participaram do debate decorrente dessa corrida desenfreada pela precocidade. Hoje em dia muitas publicações relacionam a precocidade do letramento com graves problemas de dislexia e outras questões psicológicas. É a mesma lógica.


Um argumento recorrente é quando dizem que este tipo de estímulo seria fundamental em um mundo competitivo em que, para se alcançar o sucesso, as crianças precisam adquirir habilidades especiais e serem os melhores em seu campo de ação. Diante desse tipo de argumento eu digo que eu jamais desejei que meus filhos tivessem “sucesso”. Eu apenas me esforcei para que meus filhos fossem felizes. “Sucesso” é um conceito capitalista que tentei afastar dos meus filhos e não quero que influencie meus netos.

Estimulação precoce infantil é um erro que por muito tempo foi disseminado por behavioristas e comportamentalistas e causou grandes estragos. Não é à toa que as escolas mais modernas não se ocupam mais em ensinar escrita ou habilidades especiais – como cambalhotas sofisticadas – e insistem que crianças sejam apenas crianças e desenvolvam suas potencialidades junto com outros iguais a si. Não só escolas adotam essa postura, mas SISTEMAS DE EDUCAÇÃO de vanguarda (vide o norte europeu) apregoam isso ao abolir até as provas para crianças pequenas.

Crianças tem o direito de serem tratadas como são: crianças, sujeitos em formação, criativas, curiosas e que devem ser estimuladas a construir seu mundo de acordo com seu desejo, sem imposições externas e sem serem obrigadas a performances que apenas servem para a admiração (muitas vezes exploração) de adultos.

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Estratégias

Tenho visto nos últimos 30 anos algumas iniciativas que objetivavam “humanizar” a atenção e aumentar o índice de partos normais (vaginais) em serviços públicos e privados. A quase totalidade dessas propostas foram fracassos retumbantes, o que se pode perceber facilmente ao se analisar a curva ascendente de cesarianas nos ambientes hospitalares de ambos os modelos.

A maioria das estratégias se fixava no “treinamento” e capacitação de profissionais ou nas modificações ambientais dos centros obstétricos. Lembro do hospital escola da minha cidade onde, durante minha passagem pela residência médica, construiu-se uma cadeira de parto de cócoras para incrementar a prática de partos verticais. Quando fui visitar o hospital dois anos após minha saída a cadeira era um ferro velho jogada em um almoxarifado; ninguém se interessou em realizar partos verticais e o aparelho acabou esquecido. Hoje em dia o mesmo ainda ocorre: passados mais de 25 anos e os partos neste hospital universitário continuam sendo no modelo antigo, com a paciente deitada imóvel de costas em uma maca. A liberdade para escolher a melhor posição de parir não é uma escolha da mulher: é do sistema.

Os treinamentos de profissionais também se mostraram totalmente inefetivos para modificar condutas. Evidências científicas são sementes que germinam apenas se o “terreno” onde foram plantadas tenha sido previamente fertilizado por uma abordagem que inclua elementos mais etéreos como o sentimento, a ética e o afeto.

Carl Rogers dizia que perdemos tempo demais em “treinamento”, que seria mais bem utilizado em “seleção”. Pedir para profissionais educados na lógica da intervenção que atuem de forma suave e humanizada nunca surtiu efeito, e não creio que a insistência nessa visão possa nos levar a uma modificação no resultado. “Se quer chegar a lugares diferentes, não trilhe os mesmos caminhos“.

A diferença, ao meu ver, não virá com as mesmas pessoas e nem com aparelhos e apetrechos. Estes últimos, desprovidos de alma, são facilmente esquecidos e desprezados se não houver material humano que os ilumine e lhes dê vida. A diferença, como é fácil de confirmar, está nas pessoas.

A presença das Doulas no cenário do Parto é o grande diferencial surgido a partir dos anos 80. O acréscimo do componente emocional, afetivo e psicológico que elas oferecem é capaz de suprir a falha – apontada pela antropóloga Wenda Trevathan – do sistema médico em “reconhecer e trabalhar com as necessidades emocionais relacionadas com esse evento“. Assim, a incorporação dessas personagens criou o terreno adequado para recriar o “Círculo de Apoio”, marca ancestral na atenção aos momentos de passagem como o nascimento, a morte e o parto.

Reconhecer a importância do suporte oferecido pelas doulas é essencial para valorizar o parto normal humanizado. Muito mais do que treinar profissionais, comprar aparelhos ou mudar a ambiência (que também tem importância, porém menor) é fundamental mudar a face da atenção ao parto. Isso precisa ser feito acrescentando os elementos que constituem a essência do suporte ao nascimento desde as eras mais primitivas, as quais se perdem na bruma dos tempos: o auxílio amoroso, cálido e contínuo que as doulas oferecem às gestantes durante o mais sagrado dos rituais.

Os resultados estão aparecendo, basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir…

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Rifles e Bisturis

O problema com o uso excessivo da tecnologia obstétrica não depende de pessoas ou profissionais. Nós precisamos nos livrar da ideia anacrônica de “Doutores = maus” e “Parteiras = Anjos”. Isso não é verdadeiro, e todos nós já tivemos a oportunidade de conhecer grandes médicos humanistas e parteiras “não tão maravilhosas e angelicais”. O importante não é apenas mudar as pessoas, mas mudar o sistema, transformar o paradigma, resgatar o parto para as mulheres e deixá-las decidir sobre seus corpos e nascimentos. Com o modelo de assistência ao parto que temos nenhum profissional consegue trabalhar de forma humanizada, da forma como é preconizada pelas grandes instituições. O problema no meu país, o Brasil, é que 90% dos nascimentos são assistidos por médicos, exaustivamente treinados no tratamento de patologias e no emprego de cirurgias. Os médicos, egressos das escolas médicas do meu país, não estão interessados na fisiologia “alargada” do parto, e são, em sua maioria, incapazes de compreender os dilemas psicológicos, emocionais, sociais e espirituais implicados no parto.

Precisamos, evidentemente, de profissionais largamente treinadas na fisiologia do parto: as parteiras. Nós, médicos não fomos ensinados a ver o nascimento como um processo vital; em vez disso, nós o vemos como uma doença, ou um “evento vital potencialmente ameaçador“. A grávida é frequentemente entendida como uma “bomba relógio” prestes a explodir. Normalmente nós obstetras somos bons para resolver problemas no parto (muitos deles criados através de excesso de intervenções), como as pré-eclâmpsias, diabetes, partos obstruídos, etc. Além dos medicamentos, possuímos uma ferramenta maravilhosa para ajudar nos casos que se afastam da fisiologia do processo de nascer: a cesariana. O problema é que uma vez que oferecemos para uma categoria profissional a capacidade de “resolver” o nascimento de forma tecnológica, a sedução para usá-la de maneira abusiva é tremenda. Vivemos na “mitologia da transcendência tecnológica”, e ainda acreditamos cegamente que seu uso faz mais bem do que mal. Infelizmente, as pesquisas nos mostram que já fomos longe demais.  

A respeito disso, eu me lembrei de uma história interessante sobre o uso de tecnologia. Em uma específica “reserva natural” na África do Sul, os guardas ocupados com a proteção da vida selvagem eram recrutados entre os moradores locais, grupamentos populacionais que viviam próximos da selva por séculos. Certo dia, um guarda da reserva foi morto por um leão, algo muito raro naquela região. Em função dessa fatalidade, o diretor do parque foi acusado de não cuidar adequadamente dos seus funcionários oferecendo-lhes armas para a proteção pessoal. Pressionado pela mídia e pelos outros guardas, ele decidiu comprar um rifle para cada um, como forma de defendê-los de possíveis ataques. “Ok, feito; agora eles estarão protegidos“, ele pensou.  

Certo tempo após essa decisão, ele notou que vários animais haviam sido mortos por guardas, em um ritmo nunca visto antes. Logo ele descobriu que, uma vez que eles tinham armas pessoais, qualquer risco, por menor que fosse (como a proximidade de um rinoceronte, ou um leopardo), era suficiente para assustar os trabalhadores do parque, e eles se tornaram propensos a usar a sua “arma tecnológica”.

Depois de alguns meses, o diretor do parque estava convencido de que as habilidades milenares desenvolvidas para lidar com os animais (o silêncio, o contato visual, os sons, a posição do corpo para encarar os felinos, a “linguagem” utilizada, o respeito pelos seus habitats, etc.) estavam sendo exterminadas por causa do atalho sedutor de “resolver” as ameaças dos animais com tiros de rifle. Os animais estavam perdendo suas vidas por causa da crescente incapacidade de compreender a forma como viviam, e a maneira de conviver com eles. Após essa constatação a decisão da reserva foi radical: os guardas do parque nacional voltaram a receber treinamento intensivo para proteger os animais, e as armas não foram mais permitidas na reserva. Estaremos destruindo a capacidade dos profissionais que atendem o nascimento de ajudar as mulheres em trabalho de parto e nascimento através do uso excessivo e abusivo da arma da cesariana? Para quantas mulheres e bebês ainda vamos recusar o direito de passar pelo processo mágico, transformador e natural do parto por causa de nossa ignorância sobre os intrincados segredos do processo de parir? Estaremos perdendo completamente as nossas habilidades de ajudar mulheres no nascimento de seus filhos seduzidos pelo canto das sereias tecnológicas?  

Eu espero que nós estejamos no meio de uma grande revolução, e eu sonho com o dia em que as mulheres não serão mais prejudicadas pelo sistema objetualizante que criamos.

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