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Doações

Há alguns anos, conversando com amigos americanos ricos, eles me contaram que a escola onde seus filhos estudam no ensino fundamental precisava de uma reforma no pátio, e para isso solicitaram aos pais da comunidade doações em dinheiro.

Depois de uma visita à escola esse casal resolveu fazer uma polpuda oferta de 60 mil dólares para a escola, para refazer o pátio de forma completa. Não apenas uma reforma, mas um novo complexo de brinquedos e estruturas de esporte para as crianças se divertirem. Ambos contaram com muito orgulho a sua participação e seu desprendimento em auxiliar a escola do bairro.

É importante frisar que o ensino fundamental nos Estados Unidos é completamente gratuito e financiado pelo Estado. Apenas 10% dos estudantes estão em escolas privadas. Do jardim de infância até o fim do “high School” o aluno não paga nada, e os impostos financiam toda a educação básica dos americanos.

Entretanto, é permitido às escolas públicas receberem dinheiro e incentivo de particulares para melhorias em suas estruturas e equipamentos de laboratório, quadras de esporte, biblioteca, piscina, etc. Você pode pagar diretamente para melhorar as condições da escola onde seus filhos estudam ou qualquer outra instituição governamental.

É aí que residem os problemas. É muito comum vermos nos filmes americanos – ou quem visita suas escolas e universidades – placas em homenagem a doadores beneméritos e filantropos que ajudam instituições de ensino com gordos auxílios monetários. Isso coloca os alunos cujos pais são doadores em posição de destaque, o que cria uma espécie de dívida com a família do doador (vide link abaixo). O próprio cinema explora isso à exaustão, na cena em que o diretor vai falar com um aluno cujo avô tem uma placa de benemérito na escola.

Mas existe um outro problema mais sutil. Como as doações privadas são direcionadas a uma escola em especial – geralmente onde os filhos estudam – é do interesse do doador que a escola do seu bairro seja de excelentes condições porque isso valoriza – e muito – o valor do seu imóvel. Uma escola de excelência na comunidade faz disparar o preço da sua casa. Para além disso, esse direcionamento da doação faz com que, no mesmo sistema público de ensino, existam escolas espetaculares e escolas miseráveis. Todas pertencem ao mesmo Estado financiador, mas com estruturas absolutamente díspares, dependendo do dinheiro que circula dentro da comunidade.

Desta forma, bairros pobres —> escolas públicas pobres; ao mesmo tempo em que bairros ricos —> escolas públicas ricas. O modelo capitalista, mesmo diante de um sistema escolar público que deveria equalizar as oportunidades, acaba reproduzindo os mesmos desvios naturais que o caracterizam, incentivando desigualdades e criando castas de estudantes por escola e por bairro.

O ingresso às universidades está relacionado com o desempenho escolar nas séries fundamentais. Quem terá mais chances de sucesso? O estudante branco com um imenso laboratório de informática e química no bairro de classe média alta ou o estudante preto e latino do subúrbio, onde os banheiros estão quebrados e a biblioteca sequer existe?

Pensem nisso quando esses políticos vierem com ideias moderninhas de misturar fundos públicos com dinheiro da iniciativa privada. Nessas combinações nunca é o pobre que se beneficia.

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A nave Brasil

Depois de 25 anos como “caixeiro viajante” da humanização do nascimento um fato novo ocorreu esta semana: pela primeira vez (provavelmente última) eu viajei de primeira classe.

Claro que foi uma feliz coincidência. Meu voo de volta ao Brasil foi cancelado por causa do furacão Dorian e a minha companhia original foi obrigada a me realocar para que conseguisse chegar ao Brasil a tempo de comemorar os 90 anos do meu pai. A única solução encontrada foi evitar o foco das tempestades e fazer uma viagem para o norte, até Washington DC, e de lá seguir para São Paulo. Diante da inexistência de alternativas, aquiesci.

Para minha estupefação, ao entrar no site para marcar os assentos no novo percurso descobri que havíamos sido colocados na primeira classe.

Achei melhor não acreditar para evitar falsas expectativas mas a realidade acabou me vencendo. Os cartões de embarque não mentiam. Entramos com toda a pompa e circunstância na frente de todo mundo e quando vi o cubículo a mim reservado lembrei quando, há uns 10 anos, vi Gisele Bündchen – que viajava no mesmo voo que eu – na acomodação que agora eu ocuparia. Que emoção!!!

Claro que a atitude da companhia se deu porque o voo estava lotado e só estes assentos ainda estavam livres. Era a única forma de chegarmos ao Brasil no dia determinado. Eu não me furtei de agradecer ao Sr. Dorian pelo presente, mesmo com a inevitável culpa de saber que a dor de tantas pessoas atingidas pelo furacão nas Bahamas havia se transformado numa sorte inusitada para mim.

Ao olhar para o fundo do setor da primeira classe eu percebi uma senhora vestida de forma muito simples, como eu. Pensei “deve ser outra sortuda“. Claro que fui vítima do preconceito estrutural que nos contamina, mas não pude evitar. Quando ela se levantou para ir ao banheiro durante a decolagem – e foi contida pelos comissários – a minha certeza se acentuou. Talvez fosse sua segunda viagem de avião, mas certamente a primeira nesta classe. Assim como eu, estava em um mundo que não lhe pertencia.

Foi só depois de algumas horas que eu passei a me dar conta de que a situação, apesar de insólita, era muito familiar. Inobstante o fato de que tal regalia nunca tivesse ocorrido a mim, a situação tinha inúmeras correlações com o mundo em que vivo.

Era muito claro que eu não merecia estar ali; minha presença foi causada por um mero acidente. Fui colocado naquela situação sem esforço pessoal; não havia mérito algum em estar num lugar melhor que o das outras pessoas daquele avião. As regalias, a comida, o licor Bailey’s (não pude evitar), a cama reclinável, a “nécessaire” chique, o sorvete, o tratamento diferenciado da tripulação… nada daquilo era merecido. Não havia justiça em ser tratado de forma tão…. diferenciada.

Por outro lado, um pensamento absurdo me assaltava. Por várias vezes eu imaginava que… afinal… se isto chegou até a mim… muito provavelmente… de alguma forma tortuosa e indecifrável… eu merecia.

(Não pude conter um sorriso lembrando da menina gritando histericamente: “SE EU ESTOU AQUI É PORQUE EU… ME – RE – CI !!!)

Criava na minha cabeça mil fantasias sobre um valor pessoal que só eu enxergava. Pensava que a “justiça divina” era sábia e premiava com justeza. Entretanto, por mais que minha imaginação flutuasse sem controle, eu sabia que era tudo mentira, tudo falso, tudo engano.

Foi o Dorian, somente ele. Nenhuma justiça atrasada, nenhum mérito, nenhum pagamento por valor, nenhuma vantagem merecida. Apenas a coincidência fortuita de uma viagem e um fenômeno meteorológico.

Outra sensação curiosa – que eu procurava afastar com humor caipira – era imaginar ser realmente diferente dos passageiros que estavam na classe “popular”. Olhava lá para trás do avião e brincava com Zeza dizendo “coitados desses pobretões“. Fazia troça dizendo que nunca mais viajaria naquele “poleiro” lá do fundo e que o meu lugar de direito era onde estava agora. “Finalmente estou entre os meus iguais“, sorria em pensamento .

Nesta viagem fui transportado magicamente para a nave Brasil. Como na nossa realidade cotidiana, todos estavam no mesmo avião, haviam embarcado no mesmo lugar e desceriam no destino final, inexoravelmente. Alguns, como eu e Zeza, recebemos por pura sorte um presente que, por sua vez, causou desgraça a centenas ou milhares de pessoas atingidas por uma pequena tragédia, mas isso não nos fez deixar de brindar com o Champagne oferecido. “Não é minha culpa“, pensei eu…

Por outro lado, mesmo o caráter absolutamente fortuito de minha “posição social” não me impediu de fantasiar a respeito de uma suposta diferença que tinha com os outros passageiros. A sensação de ser alguém, superior e “especial” é muito mais inebriante do que qualquer Scotch que se possa beber.

Bastou colocar o pé para fora da aeronave e o encanto da Cinderela se desfez. Imediatamente depois de sair já estávamos na fila do passaporte como todo mundo e meu sonho encantado de primeira classe se tornou apenas lembrança, de onde restou uma boa história. Todavia, esta situação me fez pensar nas injustiças existentes por trás de muitas das nossas hierarquias sociais, onde os méritos são, com frequência, obra do acaso e dos desígnios misteriosos da deusa Álea, a divindade dos fatos aleatórios, na mitologia particular do meu irmão Roger.

Saí do avião com a ideia de que, no fundo, as diferenças que observamos em nossas vidas são artificialismos e muito mais simbólicas do que práticas e reais. O que se vende na classe alta é a ilusão de ser diferente e a fantasia de ser especial. Em verdade, saímos do mesmo lugar e chegamos no mesmo destino, em uma viagem curta, onde o que mais importa é o que carregamos em nossa bagagem de amores.

Como a vida.

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Espiritismo e compaixão

“Há muito me desiludi com os espíritas, não com o espiritismo e sua idéia renovadora centrada na mediunidade e na reencarnação. Infelizmente os espíritas via de regra cursam o mesmo caminho moralista dos evangélicos e outras denominações. Possuem um desprezo explícito pelas raízes sociais da pobreza e cultivam um discurso meritocrático ao estilo “é pobre porque na vida passada foi rico e não teve compaixão”. Acreditam que as “leis do karma” se sobrepõem às experiências explícitas de desigualdade que testemunham no seu cotidiano. Acreditam na desigualdade e na exploração como experiências kármicas que não nos cabe interferir, sob pena de interferir nas leis divinas de causa-efeito

Ora, que profunda tolice!! Quanto desprezo pelas forças sociais que condenam grandes massas à exploração ao arbítrio dos poderosos. O espiritismo – por sua origem intelectual, europeia e progressista – poderia ter sido a grande força renovadora das religiões no Brasil, mas se manteve como uma seita evangélica carola e conservadora. Uma pena.

Repito o que já disse: só as religiões de matriz africana, por conterem a massa de pobres e negros da nossa sociedade, têm a potencialidade de reverter a má imagem criada pelas religiões neste país. Só elas – e uma parcela minoriária dos católicos – tem massa crítica suficiente para produzir mudanças no cenário de desigualdade no Brasil.

O resto cultiva a compaixão burguesa mais rasteira e inócua.”

Sim, eu me desiludi com os espíritas. Isso não é uma acusação; é uma confissão. Para se desiludir é necessário, primeiro, se iludir. Mea culpa, mea máxima culpa…

Em relação à postura política os espíritas são decepcionantes. Certamente que há espíritas de vanguarda e politicamente bem posicionados, mas são exceção. A IMENSA maioria é composta de conservadores e entre eles um grupo claramente reacionário. As palmas à manifestação absurda e subserviente de Divaldo Franco para com Moro e a “República de Curitiba” (sic) em Goiás são inquestionáveis e demonstram o apoio majoritário dos espíritas às vertentes mais atrasadas e punitivistas do judiciário e à direita no espectro da política nacional.

Sim, nem todos os espíritas são reacionários, e alguns deles são bem explícitos com suas posições politicas. Entretanto, estes espíritas de esquerda são a minoria e não representam o conjunto desse movimento. São exceção dentro de um quadro de conservadorismo, elitismo e preconceito com os movimentos sociais. É muito difícil encontrar um espírita que não seja antipetê, coxinha, apoiador da Lava Jato e que se dedica a atacar Lula.

Sim… a reencarnação como forma de entender as idiossincrasias do mundo é usada de forma simplista pela maioria dos espíritas e por isso mesmo merece ser criticada. Por esta razão citei a frase que tanto escutei durante a minha vida e que revela esse primarismo. Olhar para a reencarnação e não enxergar a iniquidade fomentada pelo capitalismo é outro absurdo conservador do movimento espírita.

E para finalizar, dá para generalizar, sim. Como movimento o espiritismo é socialmente retrógrado e conservador. É moralista e crítico aos avanços sociais, de forma evidente no que diz respeito à sexualidade – em especial ao universo LGBT. Politicamente é de centro direita e se aproxima da direita clássica. Raros espíritas são progressistas ou de esquerda. Boto mesmo essa gente toda no mesmo barco, pois essa é a imagem que seus líderes difundem desde sempre, de Chico Xavier a Divaldo, passando pela FEB e por inúmeros palestrantes que cruzam o Brasil oferecendo esta postura política de forma explícita ou nas entrelinhas.

Em suma, mesmo sabendo de notáveis espíritas de esquerda – tivemos um espírita Ministro da Saúde de Dilma – ainda assim a imagem do espiritismo é conservadora e moralista, muito semelhante à percepção que tenho do movimento evangélico no Brasil.

Os espíritas estão mais próximos de Malafaia do que de Francisco.

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Médicos e Política

“As posturas dos profissionais da medicina são mais do que conservadoras e vocês não deviam se surpreender com este fato. Conheço muito bem pois convivi com essa turma durante 40 anos. Posições de vanguarda, à esquerda, solidárias, inclusivas, garantistas, distributivas ou meramente proponentes de reparação e justiça social são uma raridade absoluta. Quando expressas publicamente são sujeitas ao escárnio e ao deboche. “Vai pra Cuba”, “Vagabundos e ladrões”, “Ralei muito para chegar onde cheguei” são lugares comuns dos debates nas salas de “conforto médico”.

Por outro lado os posicionamentos elitistas, dinheiristas, punitivistas, meritocráticos são mais do que a tônica nas conversas de centro cirúrgico ou ambulatórios; eles são exaltados como a única posição possível e admissível pelos profissionais. Mais do que a maioria, as posições que tendem ao fascismo e à exclusão são uma espécie de passaporte para adentrar nos círculos autoritativos da comunidade médica.

A medicina precisa uma revolução inclusiva. Temos uma profissão médica que, a exemplo da magistratura, é dominada por setores da elite branca mais atrasada e retrógrada, a mesma que odeia uma mulher presidente e um nordestino torneiro mecânico como chefe da nação.”

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Atenção Especial

Conversa real ocorrida há uns 20 anos entre o Dr. Fulano, chefe do serviço X do hospital universitário, e o Dr. Sicrano, professor recém admitido e examinador da banca de residentes do serviço Y do mesmo hospital.

– Oi Dr Sicrano, como vai? Aqui é o Dr Fulano, tudo bem?
– Tudo, o que manda professor?
– Pois tu sabes que amanhã é a entrevista do meu sobrinho para o serviço de vocês e eu precisava que vocês dessem a ele uma atenção especial. Sabe como é, certo?
– ……
– Alô?
– Professor, o que o Sr. quer dizer com “atenção especial”?
– Ora Sicrano, não se faça de desentendido. Você sabe como as coisa funcionam aqui na Universidade.
– Desculpe professor, mas eu não sei. Poderia me explicar, por favor?
– Veja o seu próprio caso. Foi admitido como professor em um concurso há pouco mais de um ano. Havia vários candidatos qualificados, tão bons quanto você. Todavia, foi seu o nome escolhido. Certamente você teve uma atenção “carinhosa” dos seus colegas de banca, não lhe parece?
– Não sei do que o Sr. está falando Dr. Fulano. Que eu saiba fui admitido pelos meus méritos e meu currículo acadêmico. Não tive nenhuma vantagem indevida para chegar chegar onde estou.
– Ora Sicrano, agora está sendo cínico comigo? Lembre de uma regra que é muito usada aqui: uma mão lava a outra. Não é muito saudável bancar o íntegro e o honesto comigo pois logo na esquina precisará também de um favor. Pense nisso. Você está recém começando; não construa uma carreira feita de inimizades e desavenças. Avalie com cuidado o meu sobrinho e muito obrigado.

CLIK

Nesse ponto aparece o Dr. Beltrano, jovem professor e colega do Dr.Sicrano.

– Que houve Sicrano?
– Não vais acreditar. Dr. Fulano me ligou agora pedindo explicitamente para avaliarmos positivamente a entrevista do seu sobrinho amanhã. O tom foi quase de ameaça. Que absurdo…
– Hummmmm
– Hum o quê, Beltrano?
– Vais arrumar uma briga com um velho professor por causa de um “detalhe” como esse? Que diferença faz para nós quem será o próximo residente? Para que criar essa animosidade e esse clima ruim? Pensando bem, uma mão realmente lava a outra e daqui a pouco podemos precisar de uma ajuda dele no conselho da faculdade. Diz aí, qual o nome do sobrinho?
– Não ouse…
– Credo, que radicalismo…

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