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A batalha dos corpos

A batalha pelos partos dignos está inserida na luta pelo domínios dos corpos. Não por acaso as parteiras, que durante milênios se ocuparam da atenção ao parto e nascimento, foram desalojadas pelos médicos no início do século XX, usando como principal arma o domínio da tecnologia. Desde o surgimento do fórceps pelos irmãos Chamberlen nos estertores do século XVII até a incorporação das mais sofisticadas tecnologias de diagnóstico e intervenção, a jornada médica na atenção ao parto se configurou como um aumento crescente e sem limites do ferramental tecnológico para a intervenção no parto. Entretanto, ao mesmo tempo em que o parto se tornava mais seguro para a pequena fração de mulheres que sofria de algum desvio da normalidade, a imensa maioria das mulheres era impedida de transitar pelo território do nascimento de forma livre e tranquila. A invasão médica se tornou um transtorno para o bom curso do processo de parto, exatamente porque as sociedades industrializadas, através de uma visão mecanicista do fenômeno, deixaram de levar em consideração os aspectos fisiológicos, sociais, psicológicos, contextuais e espirituais do nascimento humano. O parto, outrora um momento familiar e envolto em familiaridade e suporte emocional, tornou-se um evento frio e angustiante, deslocado do ambiente psiquicamente seguro do entorno familiar.

A entrada da medicina produziu um espantoso sucesso na correção dos problemas advindos, em especial, das dificuldades com a passagem do bebê por um canal estreito pelo processo evolutivo da espécie. Entretanto, o preço começa a ser sentido na atualidade, onde a expropriação do processo pelos cuidadores deixa as mulheres abolutamente alienadas de qualquer decisão. Os movimentos de humanização do nascimento surgido em várias partes do mundo procuram costurar as partes separadas do processo. Acreditam que estamos – pela primeira vez na história da humanidade – diante da possibilidade de oferecer o “melhor de dois mundos”. Podemos ofecerer o que foi criado pela obstetrícia tecnológica dos últimos dois séculos – que garante segurança para os casos patológicos – ao mesmo tempo que podemos prover o protagonismo às mulheres e o suporte emocional a elas, que foi a marca da atenção ao parto em 99.99% do tempo em que vivemos nesse planeta.

Esta decisão, entretanto, esbarra em muitas dificuldades. De um lado temos a ordem patriarcal e sua sanha de dominação e domínio, que não aceita que as mulheres possam ter controle ou que possam escolher caminhos. Muitos médicos se situam nessa posição, resistindo à ideia de oferecer escolhas informadas às mulheres. Do outro lado estão todos aqueles que percebem que a evolução para uma sociedade mais justa e equilibrada passa pela garantia do protagonismo a todos nós, sejamos homens ou mulheres. Desta forma, a humanização do nascimentose situa na rtincheira daqueles que pretendem combater as forças autoritárias da sociedade oferecendo propostas democráticas de ampla e irrestrita liberdade de escolha.

“Parto não é algo que acontece às mulheres; é algo que elas fazem”. Assim, o nascimento humano é uma construção onde os aspectos físicos e emocionais precisam estar em perfeito equilíbrio para garantir o máximo de segurança ao binômio mãe-bebê, para promover crescimento pessoal e um futuro digno aos que nascem. Mulheres caladas, vítimas de violências múltiplas e cotidianas, não podem oferecer o melhor de si para seus partos, e nem para os seus filhos.

Humanizar nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos tão somente a sofisticação de uma tutela anacrônica e ultrapassada.

Veja mais aqui, na coluna do Diário da Causa Operária

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Patrulheiros

Na foto um policial multa uma banhista em uma praia da Itália em 1957.

Há algum tempo li nas redes sociais os ataques a um músico, um garoto de 20 anos, negro e de periferia, que ganhava a vida compondo músicas de funk. Depois que ficou famoso, e passou a ter notoriedade e dinheiro, descobriram em seu twitter várias manifestações questionáveis.

Eram piadas inocentes, apesar de serem claramente homofóbicas e misóginas, cheias de deboche e humor adolescente. Por causa disso, ele passou a ser duramente atacado pelos identitários e suas patrulhas morais de cancelamento. Continuei a leitura e li que as manifestações eram antigas, feitas ao redor de 6 anos antes da data do cancelamento.

Ou seja, ele escreveu os posts (brincadeiras de mau gosto) quando não tinha mais que 14 anos de idade, o que explicava o tipo de humor infantil utilizado. Fiquei lembrando das coisas tolas e até desrespeitosas (para os padrões atuais) que eu dizia na infância e as piadas que eu contava aos 14 anos de idade e me dei conta do quão violentas e brutais são essas patrulhas.

Imediatamente me veio à mente as patrulhas de costumes do Irã e as polícias que multavam mulheres pela ousadia dos seus biquínis em meados dos anos 50 do século passado. Qual das ofensas é mais perigosa: a nudez do corpo ou aquela da alma?

Punir um garoto recém entrando na vida adulta por piadas bobas que contou durante a puberdade é a suprema injustiça. Mais ainda… quantas dessas pessoas de dedos apontados também não foram preconceituosos nessa fase da vida?

Quando é que vamos superar este tipo de controle moralista, reacionário e religioso sobre o comportamento? Não existe nada de progressista nesse retrocesso das relações, e muito menos humanista e de esquerda.

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Formato de Corpo

Das expressões que a Zeza usa uma está entre as melhores: “formato de corpo”. Sempre que eu experimentava um roupa qualquer ela dizia “Não ficou bem pro teu formato de corpo”. Isso não significa curto, grande, folgado, apertado e também não significa que você está gordo ou magro. É uma concepção estética complexa e de difícil definição. Uma espécie de “desacerto”. Tipo, você pode ser bonito e a roupa ser linda mas seu “formato de corpo” não deu match. É um Tinder estético. Nao adianta serem ambos bonitinhos, tem que “fechar”.

“Formato de corpo” é um conceito parecido com “temperamento”. Quando você não consegue entender a reação de uma pessoa você diz: “Pois é, infelizmente é do temperamento dele agir desta maneira”. Pronto. Não explica nada, nao dá nenhuma esperança, apenas estabelece um ponto de partida inamovível; uma fatalidade sobre a qual não há o que debater. Com o “formato de corpo” é a mesma coisa. Não adianta você perder peso, ou ganhar; nem mesmo fazer academia ou lipoaspiração. Nem tente implante de gordura pois de nada vai adiantar: é o formato de corpo que não ajuda.

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