Arquivo do mês: março 2017

Governo do PT?

Na entrevista do Jo Soares com Luciana Genro na última disputa presidencial este perguntou-lhes como faria para governar sem parlamento caso fosse eleita. Sua resposta mostrou como sua candidatura era muito mais uma fantasia e uma propaganda do partido (o que acho válido e importante) do que um real projeto de poder. Disse ela:

– Não importa; eu governarei com o povo.

Temos que lembrar que ainda está viva na nossa memória o impeachment (forçado, ao meu ver) do “caçador de marajás”, o Collor. Seu problema foi EXATAMENTE esse: imaginar que poderia governar sem um parlamento. Nunca esquecerei dos votos austeros dos parlamentares que faziam parte dos “anões do orçamento” – bandidos que assaltavam o orçamento da nação – a favor do impeachment e contra a “roubalheira”. A história se repetiu como farsa, e nos dois casos o presidente acabou como refém de parlamentares fisiológicos e canalhas, como estes que protagonizaram o espetáculo bufão da votação na câmara.

Ainda não aprendemos que, por pior que seja o presidente, é melhor para a nação mantê-lo e reforçar a democracia e respeitabilidade do país do que mantermos esta postura de republiqueta de bananas que nunca sustenta o voto dos seus cidadãos. Levaremos mais uma geração inteira para recuperar a imagem do Brasil no exterior e para mostrar a nós mesmo que democracia é um valor e não apenas uma conveniência.

Essa tese, da pureza doutrinária, eu me lembro muito bem nos primórdios do PT, e ela foi derrotada no processo de amadurecimento do partido. Sabia-se que, a continuar com o maniqueísmo que ainda contamina uma parte considerável da esquerda, o partido jamais teria a possibilidade de chegar ao poder. Na verdade, esta é a arte da política: engolir ou beijar “sapos barbudos”.

O problema é que as críticas feitas aos governos Lula e Dilma foram em muitos aspectos injustas porque seus críticos – em especial aqueles da esquerda – não quiseram entender que para governar é necessário que haja um parlamento capaz de oferecer as condições para a aprovação de leis. No parlamentarismo isso é automático: o primeiro ministro é o RESULTADO de um parlamento favorável. No Brasil o presidencialismo não permite isso, e os governos do PT sempre foram grandes composições de um partido à esquerda com seus parceiros fisiológicos, entre eles o PMDB. Assim, o PT nunca governou pelas suas vontades e planos, mas para garantir uma maioria suficiente com elementos até da direita em nome da governabilidade. Eu compartilho com o assombro de tantos quando dizem que o PT fez uma grande revolução social sem possuir uma maioria garantida.

Esse mesmo tipo de problema existe nas críticas à Obama, sem levar em consideração uma casa parlamentar fortemente republicana que sempre foi muito contrária aos seus projetos, em especial o Obamacare. Por outro lado, essa crítica NÃO SERVE ao alcaide golpista e traidor que ocupa a presidência com 88% de apoio dos parlamentares, num golpe jurídico-midiático que atravessará a história como uma das grandes vergonhas desta nação.

O PT nunca governou por suas ideias e projetos: governou no limite do que podia suportar a tênue aliança com partidos, a maioria deles sem ideologia e sem projetos, mas que sempre sobreviveram como rêmoras no entorno dos tubarões. Sim, o PT fez uma grande revolução social sem ter uma maioria garantida.

O preço da governabilidade era esse. Quisesse governar por suas próprias ideias, sem fazer concessões e conchavos, e ainda teríamos o PSDB governando o país para os interesses internacionais, não teríamos revolucionado o ensino e não teríamos oferecido aos pobres e miseráveis a dignidade que alcançaram com os governos do PT. Se os acertos espúrios precisam ser criticados e condenados, é também necessário entender que na encruzilhada da esquerda ela se colocava entre a pureza virginal do PCO e do PSTU e a possibilidade de, entrando no jogo sujo da política, construir mais do que palavras, e fazer do Brasil um país em que os menos favorecidos pudessem ter dignidade e orgulho de nascer aqui.”

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Youtubers

Uma coisa chata e repetitiva: os jovens YouTubers. Todos usam o mesmo formato, fazem o mesmo estilo de edição, falam do mesmo jeito, mendigam para gente se inscrever no canal e usam o mesmo humor debochado. Parece que todos contrataram o mesmo roteirista. Outro problema é fazer vídeos sobre assuntos que desconhecem por completo.

Esses dias assisti um cara que é um youtuber famoso por ser ateu e atacar os fundamentalistas. Acho até digno, importante até, mas aí ele resolve fazer um vídeo sobre “porque odeio o PT“, cheio de incorreções e análises rasas, mas querendo que as pessoas acreditem que ele parte de uma uma posição “isenta”.

Não há problema algum em atacar o PT. Algumas críticas são essenciais e até podem ajudar o próprio PT a se “recriar”. Entretanto, na primeira frase do seu comentário ele diz: “cresci num ambiente em que fui ensinado desde cedo a odiar o PT“. Podia ter parado ali, mas me obrigou a assistir mais 15 minutos de tentativas ingênuas de provar uma isenção tão inexistente quanto impossível.

Eu acho que os “comentaristas jovens” da Internet se depararam com uma ferramenta poderosa e ainda não perceberam o quanto é fundamental ter embasamento para tratar de assuntos complexos.

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Ratinhos

Um teste que vi em um filme há muitos anos e nunca mais esqueci.

Você visita um restaurante para provar aos seus amigos que ele não tem condições de higiene. Subitamente vê um camundongo andando por entre as mesas. Faz um gesto para pegar o celular e fotografar, mas o camundongo se assusta e entra em uma fissura da parede. Você viu, mas não conseguiu fotografar, o que seria a prova inequívoca.

Então você tem uma ideia: no dia seguinte passa em um terreno baldio próximo e captura um camundongo com uma armadilha. Coloca no bolso e vai até o restaurante. Põe o bichinho no chão e discretamente o fotografa.

Pronto. Ali estava a prova. Claro, não era o mesmo camundongo mas que diferença faz? Não havia dúvida alguma em seu peito sobre a existência de um camundongo(s) no restaurante. Sem a prova não haveria como mover uma ação e o restaurante sujo permaneceria funcionando. Usar o outro ratinho serviu a um fim nobre: a saúde de todos. Não havia prova…. mas havia uma convicção pessoal muito forte.

Os fins justificam os meios?

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Beijo de Chico

O que (ainda) me chama à atenção é a presença de um político como Chico Alencar na casa de um jornalista político como o Noblat (Rede Globo) para “confraternizar”. Eu acho que festinha na casa de jornalista é comprometedor e anti profissional. Não se assume comportamentos promíscuos com quem se deveria fiscalizar.

Jornalista tornado garoto propaganda de produtos é o fim da várzea. Os grandes conglomerados de mídia transformam o jornalista em vendedor de pasta de dente e divulgador das ofertas das “Casas da Banha”, misturando as notícias com o departamento comercial. Isso retira a credibilidade da mídia de fiscalizar as empresas. Utiliza-se a respeitabilidade do jornalista para associá-la a produtos e assim vender mais. Pergunto: como poderia um jornalista denunciar o “cartel dos dentifrícios” ou as possíveis falcatruas da varejista se estas empresas pagam indiretamente o seu salário?

Se não houver liberdade plena para o exercício do jornalismo teremos apenas um poder alinhado com os poderosos, aqueles que pagam mais, sem a capacidade de fiscalizar e denunciar. Como dizia o grande jornalista americano Joseph Pulitzer (que dá nome ao prêmio de jornalismo e literatura) “Jornalista não tem amigo”. Ao meu ver o jantarzinho regado a champanhe e canapés na casa de um jornalista político tem um nome: conchavo entre poderes, acertos entre a política e a mídia.

Ou também, usando as palavras do filósofo Jucá, é uma suruba “petit comité”.

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Mensagens

Aquilo que usamos do lado de fora do corpo são mensagens de conteúdos, valores e desejos que carregamos por dentro. Mesmo uma sunga, um chapéu, paletó, gravata, cueca e meia são mensagens. São mensagens até quando estão escondidas.

Mas é bom entender que as diferenças de estrutura sexual entre homens e mulheres (e não apenas a cultura) produzem mensagens diferentes. É pela estrutura sexual narcísica feminina que o mundo da moda é gigantesco. Se dependesse da moda – roupas e mensagens – masculina nós compraríamos apenas sacos de algodão no empório da esquina para nos vestir e aquecer. Ok, um exagero, mas a indústria de moda masculina é uma fração minúscula do que é aquela feita para mulheres.

Para quebrar o estereótipo do médico como um ser superior ou “diferente” do resto da população eu jamais usei um jaleco para atender pacientes em consultório durante toda a minha vida profissional. Nunca me senti bem com a fantasia de superioridade que os médicos usam, muitas vezes para esconder a insegurança que tem diante da angústia de decidir sobre a dor e o sofrimento alheios.

Roupa é mensagem. Biquíni é mensagem. A gravata vermelha do Trump é mensagem. Decote é mensagem e jaleco com estetoscópio no pescoço é mensagem. É importante decifrar estes códigos para que o seu significado seja trazido à consciência.

O jaleco é uma forma de impor autoridade através da vestimenta, da mesma forma – e pelas mesmas razões – usada por pajés e xamãs. Se o objetivo é estabelecer um debate de igualdades entre médico e paciente, onde a assimetria técnica se estabeleça na transferência (e não na aparência) então é melhor abandonar estas parafernálias externas.

Em um encontro médico-paciente não apenas as roupas são mensagens, mas todo o entorno também faz está função. A mesa de exames, a escrivaninha, o aspecto asséptico do consultório, os diplomas na parede, a linguagem técnica e empolada (a mais importante mensagem, mais pela forma que pelo conteúdo), a distância dos corpos, o “Dr”, a secretária, a dificuldade de acesso são todas poderosas mensagens subliminares de autoridade e, acima de tudo, comunicam ao paciente que ele está diante de um ser superior.

A confiança deveria se estabelecer pelo exemplo, pelo discurso e pelas atitudes e não através dos adereços

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Fidelidade

Talvez reste como única infidelidade aquela que parte do engano da alma. Eu costumava brincar com meus amigos fazendo-lhes uma pergunta capciosa, apenas para analisar (e me divertir)  com os malabarismos lógicos para se adaptar a uma ou outra alternativa.

Sei que essa é uma pergunta muito mais dramática quando feita aos homens, até porque sua sexualidade objetual lhes oferece uma possibilidade muito maior de exercer a posse sobre o corpo da mulher, o que é respaldado pelo machismo contemporâneo. O domínio sobre o corpo alheio, resumido a objeto, é muito mais uma questão masculina do que feminina. De qualquer forma, respondam, mesmo que apenas em pensamento.

–  Diante destas duas opções, e sendo obrigado a escolher uma delas apenas, qual seria a menos dolorida e cruel? Saber que sua mulher lhe foi infiel, mas sempre o amou e desejou OU saber que sua mulher SEMPRE lhe foi fiel, mas passou toda a vida ao seu lado desejando, sonhando e fantasiando com alguém que não era você?

O que os homens me disseram variou no tempo. Quando eu fazia essa pergunta há 30 anos os amigos diziam que o corpo precisava ser só deles; esse era o acordo, e a mente delas era impossível de controlar. Hoje em dia os homens tendem a falar mais da alma, e eu atribuo isso à lenta degradação dos valores do patriarcado. Não só o tempo social mudou, produzindo mais limites sobre o desejo de posse sobre o outro, mas a idade do interlocutor também parece ser um fator importante.  Quanto mais jovem mais importância se dá ao controle do prazer alheio; conforme a idade avança mais significativa é a fidelidade afetiva, aquela que vem da alma e não do corpo.

Qual das fidelidades lhes é mais cara, a do corpo ou a da alma?

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Coalizões e Conchavos

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O problema é que as críticas feitas aos governos Lula e Dilma foram em muitos aspectos injustas porque seus críticos – em especial aqueles da esquerda – não quiseram entender que para governar é necessário que haja um parlamento capaz de oferecer as condições para a aprovação de leis. No parlamentarismo isso é automático: o primeiro ministro é o RESULTADO de um parlamento favorável. No Brasil o presidencialismo não permite isso, e os governos do PT sempre foram grandes composições de um partido à esquerda com seus parceiros fisiológicos, entre eles o PMDB. Assim, o PT nunca governou pelas suas vontades e planos, mas para garantir uma maioria suficiente com elementos até da direita em nome da governabilidade. Eu compartilho com o assombro de tantos quando dizem que o PT fez uma grande revolução social sem possuir uma maioria garantida.

Esse mesmo tipo de problema existe nas críticas à Obama, sem levar em consideração uma casa parlamentar fortemente republicana que sempre foi muito contrária aos seus projetos, em especial o Obamacare. Por outro lado, essa crítica NÃO SERVE ao alcaide golpista e traidor que ocupa a presidência com 88% de apoio dos parlamentares, num golpe jurídico-midiático que atravessará a história como uma das grandes vergonhas desta nação.

O PT nunca governou por suas ideias e projetos: governou no limite do que podia suportar a tênue aliança com partidos, a maioria deles sem ideologia e sem projetos, mas que sempre sobreviveram como rêmoras no entorno dos tubarões. Sim, o PT fez uma grande revolução social sem ter uma maioria garantida.

O preço da governabilidade era esse. Quisesse governar por suas próprias ideias, sem fazer concessões e conchavos, e ainda teríamos o PSDB governando o país para os interesses internacionais, não teríamos revolucionado o ensino e não teríamos oferecido aos pobres e miseráveis a dignidade que alcançaram com os governos do PT. Se os acertos espúrios precisam ser criticados e condenados, é também necessário entender que na encruzilhada da esquerda ela se colocava entre a pureza virginal do PCO e do PSTU e a possibilidade de, entrando no jogo sujo da política, construir mais do que palavras, e fazer do Brasil um país em que os menos favorecidos pudessem ter dignidade e orgulho de nascer aqui.

Essa tese, da pureza doutrinária, eu me lembro muito bem nos primórdios do PT, e ela foi derrotada no processo de amadurecimento do partido. Sabia-se que, a continuar com o maniqueísmo que ainda contamina uma parte considerável da esquerda, o partido jamais teria a possibilidade de chegar ao poder. Na verdade, esta é a arte da política: engolir ou beijar “sapos barbudos”.

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Beijo gay

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Entrei em uma breve treta sobre o fato marcante do primeiro beijo gay em uma animação Disney. Encontrei muitas opiniões de “direita”, criticando a “ideologia de gênero” (que até eu tenho críticas à fazer) e dizendo as coisas de sempre como “sinal dos tempos”, “absurdo”, “frouxidão parental”, “plano macabro”, etc. Eu normalmente não dou bola para argumentos violentos, radicais ou claramente fascistas porque estas pessoas sinalizam, desde o enunciado, que o objetivo NÃO é debater, mas impor uma visão de mundo que não aceita contraditórios, pois :tal perspectiva se assenta sobre uma “Verdade” monolítica e impenetrável. Entretanto, resolvi responder a proposição de uma senhora que falou sobre “sexualização precoce”, que é um tema muito importante e atual, sobre o qual já pensei bastante e até escrevi.

Uma coisa é um baile onde crianças de 7 ou 8 anos de idade dançam músicas que simulam atividade sexual com outras crianças,  ou cantam músicas cujas letras estimulam tapinhas, agressões, promiscuidade e abusos. Não precisamos debater essa ponta do espectro; quase todos os profissionais acreditam que avançamos demais e que algo precisa ser feito para barrar está inserção extremamente precoce das crianças no universo do sexo.

Todavia, a imagem na animação da Disney foi de um beijo, que parece nos mostrar um gesto pleno de carinho, intimidade e afeto. Por que tanta angústia?

Essas crianças realmente poderão ficar traumatizadas e se tornarem gays se testemunharem afeto entre pessoas do mesmo sexo.” 

Sério que uma criança fica sexualizada precocemente ao ver “beijo”? Crianças não sabem o que é beijo? Por acaso não são beijadas ou não assistem novelas? Seus pais não se beijam?

Ah, mas é um beijo entre dois homens. Então podemos parar com a falácia da “sexualização precoce”, porque o que incomoda de verdade é o afeto entre pessoas do mesmo gênero. Mas eu pergunto: vocês acham mesmo que é essa exposição à realidade (sim, eles existem) que determina a orientação sexual de uma criança? Acham que confrontá-las com a diversidade sexual do mundo adulto fará com que elas se decidam pelo homoerotismo? Vocês acreditam que essa simples experiência é capaz de mudar algo que está profundamente enraizado na estrutura mais primordial do sujeito?

Eu creio que nem vocês acreditam nisso. Acho mesmo que não é o olhar das crianças que os incomoda, mas o olhar que vocês mesmos tem sobre isso. O que verdadeiramente tortura é a insegurança sobre nossa dualidade sexual e nosso temor de enfrentá-la. Por isso fingimos que um beijo entre dois homens sexualiza precocemente as crianças, quando na verdade apenas desnuda a nossa criança interna, temerosa e indecisa. 

Privar crianças da verdade, diante de suas PRÓPRIAS demandas, nunca foi um caminho adequado para o desenvolvimento de pessoas saudáveis.

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Democracia

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Quanto mais eu debato com pessoas na Internet mais eu me convenço que democracia é um conceito absolutamente abstrato. Para muitas pessoas (eu acho que a maioria) ela representa o direito de dizer suas verdades sem constrangimentos ou coerção, assim como a possibilidade de calar todos aqueles que discordam delas. A prova mais evidente para esta distorção da visão sobre a liberdade de expressão é a postura de grupos que se vangloriam de terem calado a voz dos seus opositores, sejam eles de direita ou de esquerda.

No fundo não queremos liberdade ou espírito democrático; a gente gosta mesmo é de obter vantagens. É como no futebol: não queremos ser roubados mas quando a falha nos beneficia achamos natural e até merecido. Precisamos amadurecer estes conceitos, em especial no discurso da esquerda.

Fico muito triste ao ver manifestações autoritárias sendo celebradas como vitórias, atitudes violentas sendo tratadas como “direito do oprimido”. Não, o que a gente quer mesmo é adquirir os mesmos privilégios indecentes que reclamamos daqueles que nos oprimem.

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Visitas Íntimas

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Existem maneiras de avaliar o nível espiritual de um lugar, desde uma cidade a um país. Costuma-se dizer que se pode medir pela capacidade de cuidar dos mais frágeis: as minorias, as mulheres, as crianças, os deficientes e os idosos. Nesta curta lista eu apenas acrescentaria os prisioneiros. Nenhuma sociedade pode-se dizer verdadeiramente civilizada e justa enquanto o sistema prisional for um “depósito de lixo humano”. Se não formos capazes de guardar uma porção, por pequena que seja, de nossa compaixão para os que erraram não poderemos nos considerar minimamente civilizados.

Escrevi isso porque é incrível o número de pessoas que se ofendem com as visitas íntimas dos prisioneiros. Acham que o exercício da sexualidade só deveria ser exercido pelas “pessoas de bem”, as que estão fora do cárcere. Bem, não vou falar minha opinião sobre o que eu considero como “pessoas de bem”, mas o fato de ser esse o nome do jornal da KKK já dá uma pista sobre a minha opinião. Entretanto, a questão destas visitas é humanitária e prática.

Quando você diminui a tensão sexual masculina a violência dentro das prisões cai dramaticamente. Os casos de estupro em presídio desabaram com a instituição das visitas de esposas e companheiras. Acima de tudo, um prisioneiro não pode ser tratado como um animal. A sexualidade privada leva a neurose. Freud estudou a histeria em sociedades onde as mulheres tinham COMO REGRA esta privação sexual, e o resultado era a somatização e a histeria. Se achamos indigno o cerceamento da liberdade sexual das mulheres, por que deveria ser diferente com prisioneiros? Some-se a isso uma cultura falocêntrica e o acúmulo de testosterona e temos um barril de pólvora nas penitenciárias. Sem sexo, desumanizados e privados da liberdade, por que razão não se comportariam como animais ferozes enjaulados?

Visita íntima devolve calma e tranquilidade ao ambiente terrível de uma penitenciária e, mais que isso, oferece um pouco de amor próprio e dignidade ao prisioneiro.

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