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Outras

Meu Deus, que situação….

Eu li ainda esta semana alguém falando sobre isso e por acaso decidi fazer o mesmo. Resolvi abrir a pasta “outras” do inbox do Facebook, que por acaso há meses parou no número “99”…

Que sensação horrível !!!!

Pessoas há alguns meses dizendo: “Dr Ricardo, estou com 38 semanas e estou precisando de uma ajuda URGENTE sua, pois a minha gravidez blá, blá, blá…“. A estas alturas o bebê já nasceu, já está começando a comer papinhas e ensaia as primeiras engatinhadas. A sensação é tenebrosa, terrível, como se eu não tivesse me interessado pelo caso dela, tivesse negligenciado ou simplesmente desprezado. Alguns convites para congressos (na Paraíba!!!) que eu simplesmente fiquei sabendo apenas agora. Pessoas agradecendo pela leitura dos meus textos, estudantes entusiasmadas e compartilhando sua emoção por terem atendido os primeiros partos. Médicos se solidarizando com a nossa luta pela humanização, enfermeiras pedindo conselhos, pacientes querendo informação de Parto Domiciliar. Centenas de falas, conversas, perguntas, todas colocadas para baixo do tapete.

Entre as mensagens a de uma antiga secretária do Pronto Socorro em que eu trabalhei há 35 anos perguntando se era eu mesmo. “Sim, minha flor… sou eu sim”. Outras tantas coisas escritas e aquela sensação de ter faltado no momento em que me pediram ajuda. Que triste, desagradável e frustrante. Uma moça perguntando se eu sou o “Ricardinho” do Infante dom Henrique, escola de segundo grau em que estudei. Pior: ela era a bonitona da classe!!! Areia, areia… escorrendo pelos meus dedos. Deus me deu uma segunda chance e eu desperdicei. Agora é tarde.

Doutoras recém formadas me pedindo conselhos para a residência. Estudantes de medicina apavoradas com o que aprendem na escola médica. Alunas de enfermagem querendo informações de estágio. Agradecimentos pela palestra da semana passada. Meninas perguntando o próximo curso de Doulas. Relatos extensos de casos acontecidos, violências obstétricas de todo o tipo, mas também de partos maravilhosos que, de alguma forma, eu participei através de artigos ou capítulos dos livros que estimularam a uma mudança de postura. Pedidos de socorro para indicações fajutas de cesariana. Fotografias de absorventes manchados, me perguntando se é normal um sangramento no final da gestação. Perguntas sobre diagnósticos inusitados e bizarros.

Um mundo de informações e histórias que eu simplesmente não vi passaram ao meu lado, na janelinha “outras”, mas que se manteve fechada por todo esse tempo. A sensação que eu fico é aquela da infância, quando um irmão meu me dizia: “O Manoel ligou e disse que precisava falar contigo porque o assunto tem que ser resolvido hoje“. Eu abria o olho e perguntava: “Mas que Manoel?“, e a resposta era alguma coisa como: “Manoel, Miguel, Joel, Papai Noel, eu não lembro bem o nome, mas parecia urgente.

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Amor e Ódio

vendedor

Amor e ódio

Foi num livro de Dale Carnegie que eu entrei em contato pela primeira vez, há mais de 30 anos,  com a questão delicada das expectativas em relação ao trabalho que realizamos.

O texto, de seu célebre livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” escrito em 1936,   mostrava um profissional que oferecia um trabalho muito diferenciado no setor de vendas, com uma qualidade superior, a qual não era oferecida por nenhum dos seus concorrentes. Ao contrário dos seus colegas, fazia avaliações gratuitas depois de entregue o produto, e mais de uma, para cativar a clientela. Entretanto, não se tratava apenas de uma estratégia  para agradar seus fregueses, mas sim de um compromisso ético, algo que fazia para se sentir bem, auxiliando seus clientes com as orientações que ele julgava necessárias. Ele acreditava que a venda de um produto não se esgotava na entrega e no pagamento de uma mercadoria, mas precisava estar conectada com a utilidade, com a fraternidade e com a ideia de ajuda mútua.

Esse vendedor combinava visitar seus clientes depois de um determinado tempo, para ver se estavam se adaptando adequadamente com a nova peça. Fazia isso porque tinha prazer em ver a alegria dos compradores e para constatar o fato de que, mesmo que de forma humilde, havia sido útil para a realização de um sucesso. Entre seus colegas de venda, ninguém seguia seus passos. Acreditavam ser ele um tolo, que perdia seu tempo quando deveria estar planejando e executando novas vendas. Ele, apesar disso, continuava tendo fé na relação que estabelecia com seus clientes, que assim viravam amigos e parceiros. Hoje em dia isso tem um nome: “pós-venda“, mas na época de Dale, primeira metade do século passado, esse mentalidade ainda engatinhava.

Um dia, após fazer uma transação muito difícil, que incluiu inúmeras ligações para a indústria, fornecedores, empresas de transporte marítimo e rodoviário, alfândega e receita ele conseguiu fechar uma venda de uma máquina que resolveria os problemas graves de uma pequena fábrica. Os compradores ficaram agradecidos e ele combinou uma visita para a próxima semana. Entretanto, por problemas pessoais, não pôde comparecer à visita de cortesia que sempre realizava, e fez uma ligação pedindo que o dono da empresa fosse avisado.

No dia seguinte recebeu um telegrama duro, quase ofensivo, dizendo que a visita esperada não se concretizou e por isso estavam profundamente decepcionados com a venda. A mensagem terminava com um adeus severo, deixando claro que não mais fariam negócios com a empresa deste vendedor.

A questão que martirizava o nosso vendedor era: por que a conexão tão fácil e rápida entre amor e ódio? Por que o seu trabalho exemplar não foi reconhecido, e uma “falha” (era uma questão de saúde) humana cometida não foi perdoada? O que acabou faltando na sua venda foi exatamente aquilo que ninguém mais oferecia, apenas ele.  Por qual razão algo que era oferecido graciosamente foi considerado essencial para o julgamento do seu trabalho?

A única explicação que posso oferecer é de que o vendedor feriu algo de muito sensível para seus clientes: a expectativa.

Os compradores esperavam pouco dos outros vendedores. Sabiam o que poderiam receber. Tinham uma expectativa baixa em relação ao tipo de serviço oferecido. Nosso herói, entretanto, tinha a fama de oferecer um “plus”, algo diferenciado. Quando isso não veio, sentiram-se roubados de algo que, mesmo não sendo uma vantagem prometida ou compactuada, era conhecida por eles.

Quando se frustrou a expectativa, sobreveio o ressentimento.

Lembrei disso quando, há alguns meses, uma paciente – cujo parto natural foi uma grande vitória para todos nós em função dos inúmeros incidentes que o cercaram – queixou-se de maneira explícita e dura de pequenos detalhes que circundaram o nascimento do seu filho. Sentiu-se desconsiderada e magoada; ferida e ressentida. Ao invés de reconhecer o extremo esforço e dedicação oferecidos para garantir um parto empoderador ela preferiu fixar-se num detalhe absolutamente desimportante sob todos os aspectos.

Mas qual a razão disso?

Bem, não me cabe julgar suas razões por estar frustrada. “Cada um sabe a dor que carrega, a tristeza que sente e a mágoa que o corrói“, já me dizia um ébrio, mas perspicaz, Max. Deve haver razões suas, inexpugnáveis para mim, que justifiquem esse dissabor. Entretanto, muito do que ela me falou diz respeito à falha que tivemos em relação a tornar suas expectativas mais realistas. Não fôssemos tão dedicados à sua assistência e talvez os detalhes não ficassem tão evidentes. Tivéssemos agido como todos e nada disso apareceria. A fantasia de parto que ela sonhou não recebeu um contraponto de realidade de nossa parte: ela continuou acreditando que seu parto seria absolutamente isento de qualquer falha humana.

Quem trabalha com esse tipo de evento, como o nascimento humanizado, precisa estar atento a estes desafios. É importante educar os pacientes para que tenham metas factíveis, e que não esperem milagres dos profissionais. Cuidar de alguém também é preservar suas emoções, agindo profilaticamente em relação aos seus sentimentos.

Manter níveis de expectativas adequados e realistas  para as gestantes e seus companheiros é um dos mais importantes itens do pré-natal.

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Isabela

Megafone

Hoje à tarde entrei no shopping para tomar meu último cafezinho antes de visitar pacientes no hospital quando, vindo em minha direção, caminham duas moças jovens e bonitas aparentemente tendo uma discussão. Uma delas interrompe o passo antes de chegar na escada rolante, coloca as mãos ao lado da boca imitando um megafone e grita com voz transparecendo fúria:

É isso aí galera. Prestem atenção!! Eu comi a Isabela!!

A amiga que a acompanhava puxa suas mãos e reiniciam a discussão.

Pensei em gritar “Eu também!!” mas pelo jeito que estavam furiosas elas jamais entenderiam a piada…

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Ambrosia

Esta é uma história verídica, mas os nomes dos personagens foram trocados.

Conheci Ildo há muitos anos atrás quando fazia meus primeiros plantões como “interno” em um pronto Socorro da minha cidade. Ao contrário do Dr Emerson, meu colega das quartas-feiras, eu encontrava o Ildo apenas nos plantões de fim de semana. Diferentemente do que acontecia com o Dr Emerson eu não precisava chamar Ildo de “doutor”, pois ele não chegava aos 30 anos de idade, o que era pouca diferença dos meus 20 anos recém feitos. Ele havia se formado há alguns poucos meses em uma faculdade do exterior e estava começando seu trabalho como médico pelo lugar mais divertido: um Pronto Socorro, cheio de estudantes, colegas jovens e histórias curiosas.

Nossos plantões eram muito divertidos, principalmente porque Ildo tinha uma forma jovial e curiosa de pensar. Era cheio de frases e bordões gauchescos, já que toda sua infância foi passada na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Era recém-casado com uma belíssima mulher que se chamava Angélica. Muitas vezes saíamos de um atendimento e fazíamos uma breve parada em sua casa, na parte antiga da cidade, para um breve café e uma rápida conversa. Eu me encantava com o charme e a beleza de Angélica, que sempre me perguntava como estava a faculdade e mandava lembranças para a minha namorada. Um casal aparentemente feliz e cheios de sonhos.

Uma tarde, num plantão no pronto-socorro, encontro Ildo absolutamente alterado. Não parava de sorrir e de falar alto. Parecia excitadíssimo com uma novidade. Quando seus colegas médicos se afastaram me aproximei e perguntei a razão de tanta alegria.

– Eu fui escolhido, Ric. Fui chamado. Acabo de receber o telegrama que tanto esperava. Vou para o Rio de Janeiro no mês que vem e vou estudar com o maior cirurgião plástico de todos os tempos: Dr Ivo Pitanguy!

Claro que tamanha alegria transbordou inevitavelmente para mim. Certamente que isso parecia ser algo fora do comum, uma oportunidade única de estudar cirurgia plástica com um dos mais renomados cirurgiões do mundo, conhecido até pelas pessoas que não são da área médica. Cumprimentei-o e desejei a ele a melhor das sortes. No nosso último plantão despedi-me de Angélica, sua linda esposa, e disse que sempre me lembraria deles como um casal maravilhoso, amigos do coração. Ela me abraçou e pediu que eu transmitisse à minha namorada um grande abraço, e que um dia queria conhecê-la. Ildo nunca mais voltou àquele pronto-socorro. Seu estágio de mais de um ano com o famoso professor fez com que ele retornasse para nossa cidade já ostentando um nome, uma carreira promissora e muitas promessas. Por intermédio de amigos médicos eu ficava sabendo de suas conquistas. Uma clínica de cirurgia com seu nome, o casamento que se mantinha sólido, a fama repentina, mas merecida. Parece que as coisas tinham funcionado da maneira como ele sempre desejou. O sucesso e a fortuna haviam sorrido para ele.

Aqui faço um recorte no tempo e costuro com nosso reencontro 25 anos depois daquela despedida afetuosa em sua casa, no último plantão de pronto-socorro que fizemos juntos. Eu deixava o hospital e estava parado à frente do elevador do quarto andar, depois de uma visita pós-parto. Olhava fixamente para a porta metálica esperando que ela se abrisse quando senti uma mão em meu ombro, seguida de uma expressão e um sotaque “gaudério” inconfundíveis.

– Mas e aí vivente, que tal?

Só um guasca de fora fala assim. Era Ildo, com seu costumeiro linguajar gauchesco.

– Ildo, disse eu, !! Como vai? Quanto tempo? O que fazes aqui?

Eu sabia que ele dificilmente estaria operando um paciente naquele hospital, já que era dono de uma clínica famosa de cirurgia plástica na cidade. Sua presença era no mínimo estranha, como alguém muito “chique” para estar em um hospital comum como aquele.

– Eu… bem, eu… vim visitar uma parente minha que está internada.

Seu titubeio não passou despercebido, mas não insisti na pergunta. Talvez não quisesse me dizer o que ela tinha, ou apenas julgou que não era um assunto importante para interromper um reencontro que ocorria depois de um quarto de século. Ildo continuava um homem muito bonito. Estava bem mais magro do que quando o conheci, mas guardava uma nobreza facilmente identificável. Roupas caras, andar portentoso, um relógio dourado e extravagante. Um homem de sucesso.

– E a …..

– Zeza? Vai bem. Tivemos dois filhos, que já são grandes.

– Parabéns Ric!!

– E Angélica como vai? Eu, obviamente, me lembrava muito bem do nome de sua esposa.

– Vai muito bem, melhor do que nunca.

– Eu não acredito que ela ainda está com você!! Ela não conseguiu arrumar nada melhor? Que desperdício!!

Conversas de homem, como sempre tolas e divertidas.

Subitamente ele ficou sério e me olhou de uma forma diferente. Fixou-se em meus olhos e perguntou:

– E você Ric, o que fez da sua vida? Resolveu mesmo ser obstetra? E então, ficou rico?

Eu sorri e respondi que ser rico era uma possibilidade praticamente nula, mas que nunca foi meu objetivo. Trabalhava com o que gostava e da forma como desenhei muito cedo na minha vida. Humanizar o nascimento era um ofício e uma bandeira; um trabalho e um sonho de vida. Ele continuou a me olhar como que tentando me decifrar. Finalmente falou de si.

– Pois eu fiquei rico, muito próximo do que se pode chamar um milionário. Comprei casas, apartamentos, mansões, uma clínica, um pequeno Iate, dinheiro no banco, viagens pelo mundo todo. Fui o introdutor no nosso meio de uma técnica que vi no Rio de Janeiro e que estava apenas começando a ser utilizada. É a lipoaspiração, conhece?

Abanei a cabeça sorridente. Como não conhecer algo que havia revolucionado a cirurgia plástica? Ele continuou.

– Pois choviam paciente para fazer isso. Eu ganhava em dólares. Cinquenta, as vezes cem mil dólares em um único mês. Era muito dinheiro. Fiquei muito rico mesmo.

Curiosamente, eu não percebia na conversa do meu colega nenhuma arrogância. Não era exibicionismo o que eu presenciava; era algo bem mais profundo. Ildo parecia trazer à tona o relicário de sua vida, uma avaliação de suas conquistas e do valor real que elas possuíam. Parecia ter perguntado sobre o meu percurso apenas para relativizar o seu. Não havia uma expressão de vitória ou de pedantismo em suas palavras. A imagem que eu via era a de um homem que desejava ansiosamente saber o valor do que conquistara, e se o que ocorreu com ele havia valido a pena.

– Não, Ildo; minha vida passou longe disso. Não nasci com este talento. Gosto de atender minhas pacientes, tenho um grande prazer em atender partos, mas nunca serei rico. Não tenho nada contra ser milionário, mas jamais me esforcei nesse sentido.

Ele não ficou constrangido com a minha resposta, e sequer achou que eu estava desprezando sua capacidade de fazer dinheiro. Seu olhar era de sincero questionamento. Parecia querer saber o que havia acontecido naqueles 25 anos que nos separaram.

– Bem, foi um grande prazer lhe reencontrar, Ric. Continue seu trabalho sempre. Eu vou indo, pois estão me esperando. Um abraço para ….

– Zeza, disse eu.

– Isso, mande um abração para ela.

Desejei o mesmo para Angélica e olhei sua silhueta virando a curva do corredor, enquanto eu aguardava a chegada do elevador. Caminhei até o estacionamento do hospital e liguei meu velho carro.  Antes de sair ainda olhei para os lados, esperando encontrar a Mercedes ou BMW que eu imaginava ser do meu colega. Não os vi, mas me diverti pensando nos 25 anos e nos milhões que nos separavam.

Algumas semanas depois encontro sobre minha mesa, ainda dentro da capa plástica, o exemplar de uma revista médica da minha cidade. Normalmente eu nunca leio nada dessas publicações, pois as matérias são essencialmente corporativas, enfadonhas e recheadas de propagandas de remédios. Entretanto, desta vez fiquei tentado a folhear suas páginas acetinadas. Entre matérias insossas e fotos de medalhões da medicina da província, encontrei na última página o quadro de obituário médico. Nela apareceram nomes de médicos falecidos naquele mês e, entre aqueles que eu nunca ouvira falar, meus olhos repousaram sobre um nome conhecido.

– Dr Ildo Buaiz.

Cheguei a me assustar ao ver o nome do meu colega na lista de falecimentos. “Como poderia ter morrido, se há poucas semanas o encontrei no hospital, quando pudemos trocar ideias e recordar o nosso passado nos plantões do Pronto-Socorro?

Como isso teria acontecido? Pensei num homônimo, mas dois médicos na minha cidade com o mesmo nome não parecia razoável. Achei que a melhor hipótese seria um acidente. No nosso país as pessoas morrem todos os dias nos mais absurdos desastres de automóvel, e meu colega Ildo poderia ter sido mais uma vítima dessa tragédia cotidiana. Passei vários dias com esta pergunta na cabeça até que, alguns dias depois, indiquei uma cirurgia no hospital e pedi para minha colega Andréa para que viesse ao hospital me auxiliar. Durante o procedimento eu comentei que ainda estava abalado pela morte de um colega nosso, de forma repentina e sem explicação até então. Contei o episódio de nosso encontro na frente dos elevadores do hospital e da minha surpresa com a notícia.

– Como é o nome dele, perguntou minha colega.

Eu disse que se chamava Ildo Buaiz, um antigo amigo e colega do tempo do Pronto-Socorro.

Ela ficou estática me olhando e exclamou:

– O Ildo é da minha cidade, lá da fronteira. Eu não sabia!! Mas ele é jovem, não tinha sequer 50 anos! Que será que houve?

Expliquei a ela que não tinha ideia, e que ele me pareceu bem durante nosso breve encontro, apesar de estar bem mais magro do que no tempo que fazíamos plantão.

– Deixe comigo, Ric. Vou descobrir o que houve.

Passaram-se algumas semanas e reencontrei Andrea em outra cirurgia. Perguntei se ela tinha notícias daquele caso do nosso colega e ela disse que me contaria depois de terminada a operação, na sala do café. Depois de finda a nossa tarefa, nos encontramos na sala de conforto médico, e ela me relatou a história que havia desenterrado.

– Câncer, Ric. Fulminante.

– Sério? Que coisa!!

– Um tumor galopante. Ele fazia tratamento nesse hospital, foi por isso que você o encontrou aqui.

Visitar uma parente”, disse ele. Em verdade ele estava se tratando, mas não quis me dizer.

– Sim, Ric. Ele teve um tumor raro e absolutamente inoperável. Em poucos meses ele passou de um cidadão rico e feliz para um quadro desesperador. Foi rápido demais, até para poder se adaptar à essa realidade. A vida às vezes tem dessas surpresas.

Enquanto ela me descrevia as informações que colhera com seus familiares na sua cidade eu tentava recuperar da memória os detalhes do nosso breve encontro. “E você Ric, ficou rico?”. Essas palavras agora tinham um outro sentido, mas confirmavam a clara impressão de que não se tratava de exibicionismo ou arrogância. Não, ele apenas queria saber o que significava toda a sua vida, os seus sucesso, sua fama e seu dinheiro. Naquele dia, tudo parecia estar escorrendo pelos dedos.

– Ele faleceu aqui no hospital, continuou Andrea. Ele sempre foi muito discreto, mas lá na minha cidade todos acabaram sabendo. Ele era muito querido pela família. Seu pai foi político e era um homem influente. Uma tristeza isso. Jovem, bonito e bem sucedido.

– Muito triste, respondi

– Conheço uma tia dele que mora lá, e falei com ela há alguns dias. Nos últimos dias antes de falecer ele pedia a ela que trouxesse de nossa cidade um presente muito especial, algo que o fazia voltar aos seus tempos de criança, quando tomava banho no rio e caminhava descalço pelo campo.

– O que era?

Ambrosia. Ele era louco por ambrosia, mas se privava de comer para não engordar. Durante muitos anos não fez o que seu desejo mandava, mas quando percebeu que seus dias estavam contados resolveu aproveitar seus últimos momentos fazendo o que lhe dava tanto prazer: uma deliciosa ambrosia com calda açucarada.

As palavras do meu colega ainda ecoavam na minha cabeça. Seu olhar fixo era em busca de respostas para o sentido de sua vida. Provavelmente por muitos anos ele pensou que a vida era feita para obter sucesso e usufruir das coisas que o dinheiro pode comprar. Seus dólares, entretanto, não foram suficientes para comprar o mais caro de todos os bens: o tempo. Antes de chegar à terceira idade seu tempo se esgotou, e toda a riqueza que ele conquistou na vida perdeu completamente seu sentido. Era isso que Ildo perguntava para mim: “Qual o sentido da vida? Qual a importância de lutar para conquistar valores que se esvaem por entre os dedos?

Eu não sei Ildo, não posso lhe dizer. Mas creio que a próxima vez que tiver vontade de comer uma ambrosia lembrarei de você, e vou saborear sabendo que esta é uma das melhores coisas da vida. E que as coisas mais importantes não podem ser compradas com dinheiro, mas são os afetos que plantamos durante nossa existência.

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Sonho

sonho bebê

Há algumas semanas eu tive um sonho muito interessante…

Fui chamado para atender uma paciente em uma sala de pronto socorro. Não era uma sala de parto, e se limitava a uma maca encostada em uma parede, tendo uma cortina de plástico a protegê-la do ambiente em volta. Quando me aproximei e afastei a cortina pude ver uma moça parindo em silêncio. Percebi seu rosto tenso e o coroamento do bebê. Olhei para o lado e não havia ninguém à volta para me auxiliar; seria eu mesmo o responsável a atender aquele nascimento. Pedi que fizesse uma força e o bebê suavemente escorregou direto para as minhas mãos. Achei apenas estranho o fato do bebê nascer com uma cabeça triangular e me preocupei com isso, achando que poderia ser um defeito genético. Olhei para a moça e vi que se tratava da minha nora, que apenas sorria, sem nenhuma preocupação.

Olhei de novo para o bebê e desta vez qualquer sinal de anormalidade havia desaparecido. Enrolei o bebê em um lençol e saí caminhando para a sala contígua à procura de um neonatologista que pudesse fazer a avaliação inicial. O bebê não chorava, apenas se movia alegremente entre as minhas mãos, experimentando os cheiros e gostos do mundo recém descoberto. Caminhei alguns passos dentro daquele pronto-socorro à procura de um colega até que, no meio do caminho, me dei conta de que não sabia o sexo do bebê. Abro gentilmente o lençol e descubro que se tratava de ….

… uma menina.

Minha procura pelo pediatra continua enquanto eu me regozijo com o nascimento de uma linda menina, até que de súbito desperto do meu sonho. Entretanto, mantenho a imagem da pequena em minhas mãos por muito tempo durante o dia.

Por acaso atendi naquela mesma tarde uma paciente querida, mãe de cinco filhos, e pude lhe contar esta história. Disse a ela que talvez fosse algo premonitório, já que foi muito intenso e na minha vida os únicos sonhos premonitórios dizem respeito ao nascimento de bebês. Ela sorriu e disse que seria muito legal se fosse.

Pois hoje ela me lembrou da história que eu havia esquecido por completo. Somente depois do lembrança dela é que pude resgatar este sonho. Agora resta saber se está correto o gênero do sonho ou – mais uma vez – vou acertar errando…

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Enfermeiras

enfermeira

Elas sempre me olharam com desconfiança, mas – verdade seja dita – eu nunca consegui transmitir simpatia a elas. Algumas já reclamaram que sou sério e fechado; mal-humorado, emburrado. E, confesso, não ajudei muito, nos últimos anos, a desfazer essa impressão. Todos os sujeitos sobre quem repousam críticas ou suspeitas acabam desenvolvendo algum nível de paranoia. E não é só com enfermeiras; não converso com meus colegas também, e devo passar a ideia de que sou uma espécie de arrogante depressivo.

Não é verdade. Sou reservado e desconfiado, e tenho receio de constranger pessoas com a minha presença.

As enfermeiras me tratam como alguém que está constantemente desafiando sua autoridade no centro obstétrico, mas isso não está muito longe da verdade. A “escolha de Sofia” a que gestantes se submetem, tendo que optar entre o marido e a doula, sempre me causou inconformidade e indignação, e as enfermeiras chefes percebem isso, de forma muito evidente. Resolvi que a melhor tática seria aceitar a atitude arbitrária e esperar que a pressão das pacientes influenciasse a ação dos gestores do CO.

Minha estratégia parece estar, aos poucos, funcionando, pois sinais de reversão das medidas autoritárias começam a aparecer, de forma gradual, porém sensível. Entretanto, a desconfiança das enfermeiras sempre se mantém.

Doutor Ricardo, não pode tomar café aqui“, disse a jovem enfermeira chefe. “Se a doula ficar infelizmente o marido tem que sair“. “Não, não pode entrar outra pessoa“. “São as normas, não posso fazer nada“. “Não Dr., ainda não está no sistema. Tenha paciência e aguarde“.

Não, não, não….

Por isso quando a jovem enfermeira me chamou às falas, em voz baixa e quase sussurrando, eu imaginei que estava, mais uma vez, cometendo alguma pequena contravenção, que poderia colocar sua autoridade em risco.

No entanto, a bela enfermeira se aproximou com um pequeno volume branco na mão e colocou-o sobre o balcão que nos separava. Abriu com cuidado até aparecer um disco, um DVD.

Jogou para mim um sorriso tímido e me falou um tanto sem jeito.

Doutor Ric, poderia dar um autógrafo na minha cópia do ” Renascimento do Parto”? Esse filme foi muito importante na minha formação.

Deu um nó na garganta, e um peso no peito. Trinta anos de relações difíceis e agora a nova geração começava a entender pelo quê tanto lutamos.

Deu vontade de chorar. Quem não?

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Sucesso no Facebook

likes

Depois de alguns anos no espaço cibernético histérico do Facebook acabei desenvolvendo algumas manhas. Em função disso elaborei a seguinte lista:

Como conseguir “likes”:
1 – Fotos dos meus netos
2 – Fotos de doulas
3 – Textos curtos com piadas
4 – Fotos de decotes.
5 – Fotos em que aparece a minha careca, para que as pessoas escrevam frases de deboche ou escárnio e riam pelas minhas costas, sem levar em consideração meus sentimentos.

Como NÃO conseguir “likes” e ser desprezado:
1 – Textos grandes
2 – Textos chatos
3 – Textos grandes e chatos (minha especialidade)
4 – Comentários de futebol
5 – Textos em que aparecem as seguintes expressões ou palavras: “admoestação“, “inobstante“, ou “em função disso elaborei a seguinte lista…

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Feriadão de Obstetra

Feriadão

Ebaaaa, Feriadão!!!
Sair, relaxar, viajar…
“A gente não quer só comida a gente quer diversão, balé!!!”

Jogar conversa fora, namorar, levantar tarde, se espreguiçar sem pudor. Botar aquela camisa velha e furada e tomar café da manhã de pijama e chinelo.

Ou então só ficar em casa descansando, sem culpa de saber-se inútil..

Arrumar as gavetas, escrever, postar no Face, assistir TV. Quem sabe sair para comer fora, ou ficar em casa e fazer um mega sanduíche indecente. Comer sorvete no pote, fazer um “espresso” e abrir um pacote de amendoim.

Talvez apenas visitar meu neto, contar uma história, brincar de esconder, escutar suas frases curiosas ou soprar o joelho e secar suas lágrimas quando cair no chão.

Não, melhor ler um livro. Abrir aquele da Elizabeth B. que você encomendou e ainda não leu. Ou o outro que começou e não conseguiu terminar. Talvez ir até a livraria do shopping e escolher algo que sua intuição aponte, um livro que trará nas letras algo que seu coração desordenado já dizia.

Ouvir música, quem sabe. Deitar-se de barriga para cima no quarto, sem tirar o sapato, e colocar uma coletânea de rock progressivo dos anos 70. Começarei com Tony Banks, depois Anthony Phillips e então Steve Hackett. Posso migrar para Yes, “Turn of the Century” e depois… escutar James Taylor e me sentir um adolescente que recém descobriu a paixão.

Nada disso. Vou visitar meus pais, aproveitar ao máximo todas as chances de encontrá-los, trocar ideias, escutar sua sabedoria e me deliciar com a possibilidade de, mesmo já velho e também avô, receber um puxão de orelhas do meu pai e um carinho de minha mãe.

Pensando melhor, quem sabe eu poderia simplesmente….

– Alô? Sim, é ele quem fala. Como vão as coisas? Claro. E que horas rompeu a bolsa? Ok, estamos indo para o hospital. Nos encontramos lá. Fique tranquila, chegou o dia tão esperado!

Onde eu estava mesmo? Ah, sim o Feriadão! Pensei em outra possibilidades. Quem sabe eu…

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Sobre as Tetas

ACER

Historias curtas de Porto Alegre….

Aconteceu enquanto almoçava solitário em um restaurante de Porto Alegre.

Uma senhora desconhecida se aproxima de mim enquanto eu estava terminando meu almoço. Com olhos arregalados, boca de um vermelho vivo e brincos extravagantes, ela coloca a mão no meu ombro e com olhar severo me diz:

– Você é o João Vicente, não é?

Ainda tenho tempo de terminar minha última garfada e, claramente surpreso, respondo:

– Olha, infelizmente não. Eu me chamo Ricardo.

Ela fica desconcertada e me enche de desculpas. Diz que estava me olhando há alguns minutos, mas que tinha “obrigação” de me perguntar quem eu era. Eu, também sem jeito, resolvo ser simpático e lhe digo:

– Não se recrimine. Esse João Vicente deve ser um jovem senhor muito charmoso também. É natural que as pessoas se confundam assim.

A senhora dá uma boa risada e me explica:

– João Vicente é meu sobrinho, filho da minha irmã, e ele é a sua cara. Incrível como são iguais! Na verdade, eu estava furiosa porque achei que ele estava esnobando sua velha tia.

Sorri para ela amistosamente e disse que nenhuma pessoa em sã consciência esnobaria uma senhora tão charmosa e chique, muito menos um sobrinho.

Mais uma gargalhada e ela arrematou.

– Muito verdade, Ricardo. Imagina só, mamou nessas tetas e agora me esnoba!!

Bateu forte com a mão espalmada nos seios fartos e saiu caminhando. Eu só olhei para o lado e baixei a cabeça, com esperança que ninguém tenha escutado pela metade nossa breve conversa.

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Professora de Inglês

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A vida divertida de uma professora de inglês para crianças…

Minha filha Bebel estava dando aula de inglês para crianças de 4 anos de idade em uma escola privada da cidade. A brincadeira que ela elaborou consistia em dizer em voz alta para os aluninhos uma parte do corpo em inglês, e as crianças apontarem em si mesmas. Com todos eles em pé de frente para a professora a brincadeira começou.

– Vamos lá crianças, quero ver quem acerta. Escutem a professora… “HEAD”.

Algumas crianças não sabiam, outras apontam para suas cabeças, mas uma menina linda bem à frente da professora põe ambas as mãos entre as pernas e grita:

– Xexeca!!!

Sem se perturbar minha filha Bebel explica que não é isso, que é a cabeça. Ela sorri e Bebel propõe outra parte do corpo, e fala “LEG”.

As crianças se entreolham, e algumas se abaixam e tocam nas pernas. Outras apenas sorriem sem saber o que fazer. A menina lindinha aproveita e mais uma vez coloca as mãozinhas nos genitais e dispara:

– Xexeca!!!

Minha filha começa a ter dificuldade para conter o riso, mas explica mais uma vez que não é essa parte e explica que é a perna. Ela parece desapontada, mas continua sorrindo lindamente. Mais uma charada então é proposta. Bebel diz “NOSE” e espera as respostas.

As crianças novamente titubeiam. Algumas colocam o dedo no nariz, outras nas orelhas, mas a loirinha não tem nenhuma dúvida. Coloca as mãos lá em baixo e mais uma vez exclama com plenos pulmões:

– Xexeca!!!

Aí a minha filha não contem mais o riso e, depois de explicar que era o nariz, dispensa a turma para fazerem um lanche. Quando estão todos de saída a menina se aproxima da minha filha e diz em voz baixa:

– Professora, depois a senhora vai dizer xexeca?

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