Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Sonho

sonho bebê

Há algumas semanas eu tive um sonho muito interessante…

Fui chamado para atender uma paciente em uma sala de pronto socorro. Não era uma sala de parto, e se limitava a uma maca encostada em uma parede, tendo uma cortina de plástico a protegê-la do ambiente em volta. Quando me aproximei e afastei a cortina pude ver uma moça parindo em silêncio. Percebi seu rosto tenso e o coroamento do bebê. Olhei para o lado e não havia ninguém à volta para me auxiliar; seria eu mesmo o responsável a atender aquele nascimento. Pedi que fizesse uma força e o bebê suavemente escorregou direto para as minhas mãos. Achei apenas estranho o fato do bebê nascer com uma cabeça triangular e me preocupei com isso, achando que poderia ser um defeito genético. Olhei para a moça e vi que se tratava da minha nora, que apenas sorria, sem nenhuma preocupação.

Olhei de novo para o bebê e desta vez qualquer sinal de anormalidade havia desaparecido. Enrolei o bebê em um lençol e saí caminhando para a sala contígua à procura de um neonatologista que pudesse fazer a avaliação inicial. O bebê não chorava, apenas se movia alegremente entre as minhas mãos, experimentando os cheiros e gostos do mundo recém descoberto. Caminhei alguns passos dentro daquele pronto-socorro à procura de um colega até que, no meio do caminho, me dei conta de que não sabia o sexo do bebê. Abro gentilmente o lençol e descubro que se tratava de ….

… uma menina.

Minha procura pelo pediatra continua enquanto eu me regozijo com o nascimento de uma linda menina, até que de súbito desperto do meu sonho. Entretanto, mantenho a imagem da pequena em minhas mãos por muito tempo durante o dia.

Por acaso atendi naquela mesma tarde uma paciente querida, mãe de cinco filhos, e pude lhe contar esta história. Disse a ela que talvez fosse algo premonitório, já que foi muito intenso e na minha vida os únicos sonhos premonitórios dizem respeito ao nascimento de bebês. Ela sorriu e disse que seria muito legal se fosse.

Pois hoje ela me lembrou da história que eu havia esquecido por completo. Somente depois do lembrança dela é que pude resgatar este sonho. Agora resta saber se está correto o gênero do sonho ou – mais uma vez – vou acertar errando…

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Enfermeiras

enfermeira

Elas sempre me olharam com desconfiança, mas – verdade seja dita – eu nunca consegui transmitir simpatia a elas. Algumas já reclamaram que sou sério e fechado; mal-humorado, emburrado. E, confesso, não ajudei muito, nos últimos anos, a desfazer essa impressão. Todos os sujeitos sobre quem repousam críticas ou suspeitas acabam desenvolvendo algum nível de paranoia. E não é só com enfermeiras; não converso com meus colegas também, e devo passar a ideia de que sou uma espécie de arrogante depressivo.

Não é verdade. Sou reservado e desconfiado, e tenho receio de constranger pessoas com a minha presença.

As enfermeiras me tratam como alguém que está constantemente desafiando sua autoridade no centro obstétrico, mas isso não está muito longe da verdade. A “escolha de Sofia” a que gestantes se submetem, tendo que optar entre o marido e a doula, sempre me causou inconformidade e indignação, e as enfermeiras chefes percebem isso, de forma muito evidente. Resolvi que a melhor tática seria aceitar a atitude arbitrária e esperar que a pressão das pacientes influenciasse a ação dos gestores do CO.

Minha estratégia parece estar, aos poucos, funcionando, pois sinais de reversão das medidas autoritárias começam a aparecer, de forma gradual, porém sensível. Entretanto, a desconfiança das enfermeiras sempre se mantém.

“Doutor Ricardo, não pode tomar café aqui“, disse a jovem enfermeira chefe. “Se a doula ficar infelizmente o marido tem que sair“. “Não, não pode entrar outra pessoa“. “São as normas, não posso fazer nada“. “Não Dr., ainda não está no sistema. Tenha paciência e aguarde“.

Não, não, não….

Por isso quando a jovem enfermeira me chamou às falas, em voz baixa e quase sussurrando, eu imaginei que estava, mais uma vez, cometendo alguma pequena contravenção, que poderia colocar sua autoridade em risco.

No entanto, a bela enfermeira se aproximou com um pequeno volume branco na mão e colocou-o sobre o balcão que nos separava. Abriu com cuidado até aparecer um disco, um DVD.

Jogou para mim um sorriso tímido e me falou um tanto sem jeito.

– Doutor Ric, poderia dar um autógrafo na minha cópia do ” Renascimento do Parto”? Esse filme foi muito importante na minha formação.

Deu um nó na garganta, e um peso no peito. Trinta anos de relações difíceis e agora a nova geração começava a entender pelo quê tanto lutamos.

Deu vontade de chorar. Quem não?

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Sucesso no Facebook

likes

Depois de alguns anos no espaço cibernético histérico do Facebook acabei desenvolvendo algumas manhas. Em função disso elaborei a seguinte lista:

Como conseguir “likes”:
1 – Fotos dos meus netos
2 – Fotos de doulas
3 – Textos curtos com piadas
4 – Fotos de decotes.
5 – Fotos em que aparece a minha careca, para que as pessoas escrevam frases de deboche ou escárnio e riam pelas minhas costas, sem levar em consideração meus sentimentos.

Como NÃO conseguir “likes” e ser desprezado:
1 – Textos grandes
2 – Textos chatos
3 – Textos grandes e chatos (minha especialidade)
4 – Comentários de futebol
5 – Textos em que aparecem as seguintes expressões ou palavras: “admoestação“, “inobstante“, ou “em função disso elaborei a seguinte lista…“

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Feriadão de Obstetra

Feriadão

Ebaaaa, Feriadão!!!
Sair, relaxar, viajar…
“A gente não quer só comida a gente quer diversão, balé!!!”

Jogar conversa fora, namorar, levantar tarde, se espreguiçar sem pudor. Botar aquela camisa velha e furada e tomar café da manhã de pijama e chinelo.

Ou então só ficar em casa descansando, sem culpa de saber-se inútil..

Arrumar as gavetas, escrever, postar no Face, assistir TV. Quem sabe sair para comer fora, ou ficar em casa e fazer um mega sanduíche indecente. Comer sorvete no pote, fazer um “espresso” e abrir um pacote de amendoim.

Talvez apenas visitar meu neto, contar uma história, brincar de esconder, escutar suas frases curiosas ou soprar o joelho e secar suas lágrimas quando cair no chão.

Não, melhor ler um livro. Abrir aquele da Elizabeth B. que você encomendou e ainda não leu. Ou o outro que começou e não conseguiu terminar. Talvez ir até a livraria do shopping e escolher algo que sua intuição aponte, um livro que trará nas letras algo que seu coração desordenado já dizia.

Ouvir música, quem sabe. Deitar-se de barriga para cima no quarto, sem tirar o sapato, e colocar uma coletânea de rock progressivo dos anos 70. Começarei com Tony Banks, depois Anthony Phillips e então Steve Hackett. Posso migrar para Yes, “Turn of the Century” e depois… escutar James Taylor e me sentir um adolescente que recém descobriu a paixão.

Nada disso. Vou visitar meus pais, aproveitar ao máximo todas as chances de encontrá-los, trocar ideias, escutar sua sabedoria e me deliciar com a possibilidade de, mesmo já velho e também avô, receber um puxão de orelhas do meu pai e um carinho de minha mãe.

Pensando melhor, quem sabe eu poderia simplesmente….

– Alô? Sim, é ele quem fala. Como vão as coisas? Claro. E que horas rompeu a bolsa? Ok, estamos indo para o hospital. Nos encontramos lá. Fique tranquila, chegou o dia tão esperado!

Onde eu estava mesmo? Ah, sim o Feriadão! Pensei em outra possibilidades. Quem sabe eu…

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Sobre as Tetas

ACER

Historias curtas de Porto Alegre….

Aconteceu enquanto almoçava solitário em um restaurante de Porto Alegre.

Uma senhora desconhecida se aproxima de mim enquanto eu estava terminando meu almoço. Com olhos arregalados, boca de um vermelho vivo e brincos extravagantes, ela coloca a mão no meu ombro e com olhar severo me diz:

– Você é o João Vicente, não é?

Ainda tenho tempo de terminar minha última garfada e, claramente surpreso, respondo:

– Olha, infelizmente não. Eu me chamo Ricardo.

Ela fica desconcertada e me enche de desculpas. Diz que estava me olhando há alguns minutos, mas que tinha “obrigação” de me perguntar quem eu era. Eu, também sem jeito, resolvo ser simpático e lhe digo:

– Não se recrimine. Esse João Vicente deve ser um jovem senhor muito charmoso também. É natural que as pessoas se confundam assim.

A senhora dá uma boa risada e me explica:

– João Vicente é meu sobrinho, filho da minha irmã, e ele é a sua cara. Incrível como são iguais! Na verdade, eu estava furiosa porque achei que ele estava esnobando sua velha tia.

Sorri para ela amistosamente e disse que nenhuma pessoa em sã consciência esnobaria uma senhora tão charmosa e chique, muito menos um sobrinho.

Mais uma gargalhada e ela arrematou.

– Muito verdade, Ricardo. Imagina só, mamou nessas tetas e agora me esnoba!!

Bateu forte com a mão espalmada nos seios fartos e saiu caminhando. Eu só olhei para o lado e baixei a cabeça, com esperança que ninguém tenha escutado pela metade nossa breve conversa.

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Professora de Inglês

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A vida divertida de uma professora de inglês para crianças…

Minha filha Bebel estava dando aula de inglês para crianças de 4 anos de idade em uma escola privada da cidade. A brincadeira que ela elaborou consistia em dizer em voz alta para os aluninhos uma parte do corpo em inglês, e as crianças apontarem em si mesmas. Com todos eles em pé de frente para a professora a brincadeira começou.

– Vamos lá crianças, quero ver quem acerta. Escutem a professora… “HEAD”.

Algumas crianças não sabiam, outras apontam para suas cabeças, mas uma menina linda bem à frente da professora põe ambas as mãos entre as pernas e grita:

– Xexeca!!!

Sem se perturbar minha filha Bebel explica que não é isso, que é a cabeça. Ela sorri e Bebel propõe outra parte do corpo, e fala “LEG”.

As crianças se entreolham, e algumas se abaixam e tocam nas pernas. Outras apenas sorriem sem saber o que fazer. A menina lindinha aproveita e mais uma vez coloca as mãozinhas nos genitais e dispara:

– Xexeca!!!

Minha filha começa a ter dificuldade para conter o riso, mas explica mais uma vez que não é essa parte e explica que é a perna. Ela parece desapontada, mas continua sorrindo lindamente. Mais uma charada então é proposta. Bebel diz “NOSE” e espera as respostas.

As crianças novamente titubeiam. Algumas colocam o dedo no nariz, outras nas orelhas, mas a loirinha não tem nenhuma dúvida. Coloca as mãos lá em baixo e mais uma vez exclama com plenos pulmões:

– Xexeca!!!

Aí a minha filha não contem mais o riso e, depois de explicar que era o nariz, dispensa a turma para fazerem um lanche. Quando estão todos de saída a menina se aproxima da minha filha e diz em voz baixa:

– Professora, depois a senhora vai dizer xexeca?

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Alegria, alegria

Mulher feliz

Das possíveis alegrias na vida de um médico, em especial um obstetra e ginecologista, está o relato de uma mulher, que depois de alguns anos de atendimento e tratamento homeopático – através do que se poderia chamar de “medicina narrativa” – alcançou pela primeira vez um orgasmo, com a idade de 61 anos.

Mais do que uma melhora clínica, a cura de uma “doença”, a suavização de um sintoma ou a alteração de valores laboratoriais, esta mudança em sua sexualidade nos sinaliza para um câmbio de perspectiva de vida, para um olhar mais positivo e livre das amarras pregressas de rancores e mágoas doloridas, as quais a impediam de alcançar seus mais nobres objetivos.

No ocaso de um percurso de mais de 30 anos de escuta, um relato pleno de esperança como este é capaz de nos encher de alegria e contentamento.

Patu Saleh!!

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Checkpoint

Checkpoint

“Enquanto continuarmos a valorizar os planos de saúde eles funcionarão como uma espécie de “salvaguarda da classe média” que nos alivia da tensão de ficarmos doentes e termos que dividir espaço com os pobres. No Brasil 52 milhões de pessoas usam este artifício. Para mim é apenas segregação. Um país civilizado tem saúde de qualidade para todos e não apenas pra quem paga grandes quantias de dinheiro para empresas privadas. Aqui os planos de saúde – todos – funcionam como um muro de apartheid, como na Palestina, separando os brancos europeus da escuridão epidérmica dos palestinos. Se você tem “Bamerindus Gold” pode passar o checkpoint e entrar no hospital “Middle Class Paradise”. Ah, não tem carteirinha, cabeção? Entre na fila do hospital público, e saiba qual o seu lugar…”

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Renascimento do Parto

Renascimento

Eu estava à noite em casa quando Erica de Paula me ligou falando de um projeto sobre um filme. Esta era uma ligação razoavelmente comum há alguns anos. Eu vinha recebendo mutos convites para pequenos depoimentos sobre parto humanizado e, desde o lançamento do livro de Robbie “Birth Models that Work“, eu também era convidado a fazer isso em outros lugares, fora do Brasil. Na maioria das vezes eu nem sabia o que viria a acontecer, ou mesmo se o documentário seria ou não lançado. Devo ter algumas horas de material espalhado por aí que jamais foi usado. O que Erica me contou foi que havia o desejo de apresentar no programa do Eduardo Chauvet (SBT Brasília) uma inserção de depoimentos sobre o parto normal. Como Erica é doula, além de acupunturista, juntaram-se duas energias que se complementavam: por parte dela a vontade de criar algo pela humanização; da parte do Eduardo, a possibilidade de usar um canal muito potente de divulgação de ideias.

Entretanto, logo se percebeu que com a multiplicação de depoimentos e entrevistas o conteúdo ultrapassou sua forma original prevista. Já não era possível conter décadas de experiências, histórias, dores e alegrias em 10 minutos de programa. Ficou claro também que mesmo um curta metragem seria inviável. Para que a paixão de tantos sonhadores pudesse entrar numa tela seria necessário espichar o tempo e esticar as expectativas, e a única solução, ainda que com dolorosos cortes, foi a produção de um documentário de longa metragem.

A ligação de Erica nem foi muito longa, constando de uma breve explanação do projeto: um filme que conteria – entre outros convidados – a minha visão sobre parto, humanização, nascimentos e os desafios que este movimento mundial tem pela frente. Houve, entretanto, simples pedido: pela escassez de recursos seria muito mais barato que, ao invés da equipe toda vir a Porto Alegre me entrevistar, que eu fosse a Brasília e ficasse por lá um dia inteiro gravando minha participação.

Respondi afirmativamente, claro. Posso entender as dificuldades de iniciar um projeto dessa natureza sem financiamentos ou patrocínios de multinacionais. Não temos drogas ou aparelhos para vender, mas temos um grande desejo e, quando isso ocorre, as coisas acontecem. Acompanhei as mesmas dificuldades no documentário de Debra Pascali-Bonaro chamado “Orgasmic Birth” e estava bem consciente de que era necessário que todos oferecessem algum tipo de sacrifício. Topei na hora.

– Hummm, disse Erica. Pode ser WebJet?

– Claro, pode ser sim. Vou e volto no mesmo dia.

E assim foi. Um dia inteiro perambulando por Brasília, num dia acolhedor e ensolarado, procurando o melhor ângulo, testando o som, esperando a luz adequada e tentando não tropeçar nas palavras. Ao mesmo tempo Erica e Eduardo me contavam das outras entrevistas, de Michel, Robbie, Melania, Ana Cris, Daphne, Helô, Ricardo Chaves e tantos outros que me fogem à memória, todas curiosas, criativas, intensas e acima de tudo absolutamente apaixonadas. Se existe algo que nos conecta, nos inspira e nos atrai é a paixão de participar de um grande movimento de transformação, o câmbio paradigmático do nascimento que aos poucos se configura no mundo.

Alguns poucos anos nos separam daquela tarde em Brasília, onde gaguejei sem parar e perdi algumas vezes o rumo da fala. Por misericórdia e condescendência inacreditáveis minhas falas não foram cortadas, o que me deixou endividado e agradecido. De lá para cá, e em especial depois que o filme foi lançado, vimos uma explosão positiva no debate sobre a humanização. Hoje vivemos um sonho que há muitos anos acalentávamos: os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres parindo estão na ordem do dia. O governo federal é cada dia mais parceiro, e entendeu nossa luta de mais de 20 anos. A “Caixa de Pandora” da violência obstétrica foi aberta a machado, permitindo que nossos monstros saíssem para a luz do dia, onde sabemos que, mais cedo ou mais tarde secarão com a luz das evidências e o brilho das demandas das mulheres.

Hoje, quando o Brasil pela primeira vez pôde assistir este documentário em TV Aberta, minha homenagem à Erica de Paula e Eduardo Chauvet, pelo brilhantismo, qualidade e persistência. Espero que daqui algumas décadas minha humilde participação possa ser lembrada como um depoimento honesto e sincero sobre o futuro do parto no Brasil. Mas todos nós, os sonhadores, os malucos, os “comedores de placenta”, os naturebas e os “doidos da MBE” e aqueles que sonham com partos dignos e seguros estamos de parabéns.

Um novo momento para o parto já é realidade no Brasil.

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Negros

FMUFRGS 1985

Esta é a foto da minha formatura há 29 anos, na cidade de Porto Alegre. Tenho boas e más lembranças desta época, mas vejo que alguns dos meus colegas mantiveram um espírito crítico e uma visão positiva da profissão, apesar das agruras causadas pela “máquina de moer carne” da escola médica. Todavia, como se pode ver na imagem, não há nenhum negro representado na turma que posou para a foto na escadaria da velha escola médica. Aliás, durante os anos que frequentei a faculdade de Medicina conheci apenas um, que era sobrinho de um famoso político e que acabou também por seguir a carreira do tio. Nenhum outro negro, sequer mulato, compartilhava aquele espaço conosco. Claro, havia porteiros, serventes, auxiliares do biotério, faxineiras, e esses eram mais escurinhos. De resto todos brancos, claros, alvos e cristalinos. O que poderíamos entender do sofrimento de um negro?

Lembrei uma aula de quando eu estava no terceiro ano de medicina passando pela cadeira de semiologia. No ambulatório de clínica da universidade nos dividíamos para atender os prontuários que repousavam sobre a mesa. Nosso grupo ficou composto de 3 alunos, e a nós coube examinar um homem negro de meia idade, cujas queixas se perdem na névoa do tempo. Depois de feita uma anamnese, verificados os sinais vitais e colhida a história biopatográfica chamamos o professor para nos ajudar na continuação do atendimento. Nosso professor, já falecido há muitos anos, adentrou a sala e, ao notar que se tratava de um negro, disparou:

– Queridos alunos. Quando temos pacientes “pardos” temos que pensar em três diagnósticos principais: hipertensão, escabiose e gonorreia. Já perguntaram sobre isso?

O senhor jazia deitado na mesa de exame e se manteve imóvel. Àquela época, passados mais de 30 anos, esta atitude não teria a mesma repercussão que hoje, mas mesmo assim eu fiquei estático e chocado. Olhei para o paciente deitado à nossa frente coberto com uma bata branca e esperei sua reação, enquanto eu me cobria de “vergonha alheia”. Passados alguns instantes sua atitude acabou sendo a pior possível, a mais terrível, a mais violenta e a que, por isso mesmo, mais me marcou.

Não, ele não se levantou e golpeou o professor. Sequer dirigiu-lhe palavras de indignação. Não, ele não reclamou do rótulo de promíscuo ou sujo. Ele também não tentou aclarar a situação, explicando as reais razões pelas quais ele procurava o serviço de medicina interna do hospital da universidade. Não, ele não mandou o professor se calar.

Ele apenas baixou o olhar, olhou para mim e tristemente sorriu.

Em seu sorriso eu podia ler toda a resignação com sua condição de negro, a qual nenhum de nós poderia jamais entender. Ser tratado dessa forma em um serviço público – que deveria entendê-lo e ampará-lo, acolhê-lo e tratá-lo sem julgamentos – era apenas mais um capítulo em sua longa história de humilhações cotidianas.

– De que adiantaria me indignar, jovem? disse ele em pensamentos durante seu breve sorriso amargo. Por acaso eu seria entendido? Tens alguma esperança de que o velho professor poderia entender o que é a dor de ser a vida inteira considerado inferior, sujo e indolente? Achas mesmo, menino, que meu sofrimento poderia ser captado, processado e transformado em empatia por alguém que nunca entendeu o que é nascer com “a cor errada”, ou ter o “cabelo ruim”? De que adiantaria gritar, esbofetear, reclamar ou sair correndo? De nada, meu jovem, de nada. Para vocês deixo apenas meu sorriso dolorido e meu silêncio. Talvez algum de vocês possa um dia entender o que significa nascer pintado de preto num mundo que só aceita o branco.

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