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Passagens

Eu passei a melhor parte da minha vida observando a transição das mulheres – em menor intensidade também a dos homens – em direção à maturidade, como mães e pais. O parto, como corte brutal na percepção egoística do mundo, nos joga de forma mais ou menos intensa nas agruras da insegurança e da tarefa de cuidar dos que chegam. Todavia, ainda me surpreendo com a velocidade com a qual essa transformação ocorre. Muitas vezes fiquei espantado ao falar com pacientes apenas algumas semanas após o parto quando já era possível perceber – na forma como se posicionavam diante dos temas – as mudanças de perspectivas, de ênfases e de posturas. É como se a partir do parto fosse aberto um portal pelo qual a realidade ampliada pelo fórceps da experiência lhes permitisse enxergar o mundo de forma mais alargada.

O malho da dor aguda, da espera e da angústia produz a transformação, que será tanto mais intensa e profunda quando maior forem os significados depositados sobre ela. Por isso continuo a achar que a experiência da maternidade e da paternidade são dores e angústias que valem a pena ultrapassar. Por certo que saímos um pouco menos piores, menos arrogantes e mais humildes depois de termos a carne triturada na passagem por este purgatório de êxtase e lágrimas.

Além disso, tais experiências pelo vale da paternidade e da maternidade nos permitem olhar os próprios pais com mais condescendência. Fico feliz de estar vivo para ver meus filhos passando por esta transição.

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Sonho

sonho bebê

Há algumas semanas eu tive um sonho muito interessante…

Fui chamado para atender uma paciente em uma sala de pronto socorro. Não era uma sala de parto, e se limitava a uma maca encostada em uma parede, tendo uma cortina de plástico a protegê-la do ambiente em volta. Quando me aproximei e afastei a cortina pude ver uma moça parindo em silêncio. Percebi seu rosto tenso e o coroamento do bebê. Olhei para o lado e não havia ninguém à volta para me auxiliar; seria eu mesmo o responsável a atender aquele nascimento. Pedi que fizesse uma força e o bebê suavemente escorregou direto para as minhas mãos. Achei apenas estranho o fato do bebê nascer com uma cabeça triangular e me preocupei com isso, achando que poderia ser um defeito genético. Olhei para a moça e vi que se tratava da minha nora, que apenas sorria, sem nenhuma preocupação.

Olhei de novo para o bebê e desta vez qualquer sinal de anormalidade havia desaparecido. Enrolei o bebê em um lençol e saí caminhando para a sala contígua à procura de um neonatologista que pudesse fazer a avaliação inicial. O bebê não chorava, apenas se movia alegremente entre as minhas mãos, experimentando os cheiros e gostos do mundo recém descoberto. Caminhei alguns passos dentro daquele pronto-socorro à procura de um colega até que, no meio do caminho, me dei conta de que não sabia o sexo do bebê. Abro gentilmente o lençol e descubro que se tratava de ….

… uma menina.

Minha procura pelo pediatra continua enquanto eu me regozijo com o nascimento de uma linda menina, até que de súbito desperto do meu sonho. Entretanto, mantenho a imagem da pequena em minhas mãos por muito tempo durante o dia.

Por acaso atendi naquela mesma tarde uma paciente querida, mãe de cinco filhos, e pude lhe contar esta história. Disse a ela que talvez fosse algo premonitório, já que foi muito intenso e na minha vida os únicos sonhos premonitórios dizem respeito ao nascimento de bebês. Ela sorriu e disse que seria muito legal se fosse.

Pois hoje ela me lembrou da história que eu havia esquecido por completo. Somente depois do lembrança dela é que pude resgatar este sonho. Agora resta saber se está correto o gênero do sonho ou – mais uma vez – vou acertar errando…

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Aventurar-se

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Muitas pessoas que conheço fizeram o árduo percurso de abandonar suas vidas insossas em busca do prazer e da realização pessoal. Largaram facilidades ou carreiras para se dedicarem a uma grande paixão. E isso não é uma opção de “riquinhos” ou “playboys“, mas de pessoas que valorizam suas experiências pessoais acima dos valores mundanos, como dinheiro ou “sucesso”.

Eu fiz esse caminho, mas o desaconselho a todos os desavisados que me perguntam se vale a pena segui-lo. Não estimulo que ninguém embarque nessa trajetória, até porque “quem disse que a chegada é o prêmio maior, e não o próprio caminhar?“. Uso dessa estratégia porque buscar sua própria realização só tem sentido se for natural, e quando essa for a única saída nobre para quem se aventura na busca pelos altos fins de sua existência. Não se força uma opção radical como essa; ela precisa ser livre e espontânea.

O que é preciso entender é o tipo de “escolha” que foi realizada pelo sujeito. Podemos pensar, erradamente, que todos os que escolhem a paixão e a realização pessoal tem “fontes alternativas de renda“, ou um “lugar quentinho para voltar“. Para isso precisamos acreditar, como única possibilidade, o estereótipo do playboy que ganha mesada e cria uma banda de rock para “fazer o que ama”.

Não é verdade, e esta generalização é pobre e injusta; muitos visionários arriscaram TUDO pelos seus sonhos. Albert Schweitzer é um bom exemplo, Nietszche também. Freud abandonou a “medicina” (queria se dedicar à neurologia), e a possibilidade de um trabalho tranquilo e estável com seu mentor Breuer, para se aventurar na Salpetriére com Charcot e estudar as histéricas. Dessa opção pela aventura no desconhecido pariu-se a psicanálise, e descortinou à humanidade os mistérios do inconsciente. Entretanto, Freud com 40 anos não tinha um mísero tostão no bolso, e apesar disso apostou na força que o impulsionava a seguir suas ideias.

Acreditar que é preciso aceitar a mediocridade de seus horizontes é um péssimo guia para a vida. Somos feito da poeira multimilenar das estrelas, e por isso mesmo fomos criados para brilhar. Se é preciso adaptar-se às contas, impostos, dívidas e dias de chuva, mais necessário ainda é exigir de si um compromisso com a paixão e o sonho.

Sem isso somos apenas corpos caminhantes, desprovidos de alma.

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Ativismo e Julgamentos

cabo de guerra

É impossível exercer ativismo sem parecer estar julgando. Quando comecei a falar sobre partos humanizados, partos em paz, partos com prazer, amamentação por livre demanda e autonomia para as gestantes fazerem escolhas informadas muitas mulheres se sentiam atingidas pela força das minhas palavras. Qualquer elogio à uma mulher que havia parido livremente parecia ser uma ofensa àquelas que haviam optado pela cesariana, ou mesmo que haviam realizado uma com indicações dúbias. Falar da alegria e da suavidade de parir parecia – apesar do paradoxo – algo rude e insensível.

Não culpo as mulheres que se sentiram atingidas por estas descrições de parto. Escutar tais relatos parece ofensivo; é como relatar a nossa felicidade diante de alguém que sofre. Entretanto, se é importante manter a chama de paixão sobre estes temas, pois que eles nos falam de nossa vinculação mais profunda e perene com a vida, há também que se cuidar dos interlocutores, os quais podem se ferir com as nossas palavras, mesmo quando repletas de esperança e otimismo.

Aprendi errando, sem dúvida. Entretanto, entender a visão diferente que as mulheres podem ter do próprio corpo e seus partos é fundamental, assim como compreender os diferentes estágios de percepção que temos diante de um determinado problema. Algumas pessoas podem discordar à primeira vista dos pressupostos da humanização do nascimento, ou do combate ao consumismo infantil, da alimentação saudável e tantas outras questões, mas podem mudar sua ideia de acordo com o amadurecimento de suas concepções. Propostas como estas, que atingem valores muito profundos de uma cultura, não podem ser impostas; precisam ser cozidas em fogo lento, vagarosamente, com a chama das evidências. Por isso é que elas precisam ser necessariamente vagarosas, para que possam ser efetivamente assimiladas.

Nunca abandone teus sonhos, tuas lutas e tua dedicação a estas causas, e continue com esta postura de acolher a todas que porventura quiserem aprender com tua experiência. Auxiliar sem julgar, oferecendo a mão a quem desejar, é o centro de qualquer proposta de sociedade digna e justa, que entende e estimula a diversidade.

Qualquer postura radical e que não respeita a visão discordante do outro tende a produzir uma atitude defensiva dos oponentes. O que me parece mais sensato é cultivar a paciência e aguardar o amadurecimento, mesmo que demorado. Aliás, é assim que educamos crianças: com paciência, amor, carinho e a inevitável paixão, que deve permear todas as relações humanas.

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