Certa vez eu fui abordado por um sujeito na rua que se postava em frente a um cavalete (desses que se usa em aula, com um bloco grande de papel) onde ele escrevia com um marcador de texto. A cena inusitada chamou a atenção de algumas pessoas, entre elas eu. Esta cena aconteceu em Nova York, no início dos anos 80. Parei para olhar por alguns momentos sem perceber que se tratava de uma espécie de “bispo” da seita do Reverendo Moon tentando fazer prosélitos entre os incautos passantes. Esta seita fez muito sucesso há 30 anos, principalmente nos Estados Unidos, onde organizavam reuniões gigantescas, com milhares de participantes, inclusive casamentos instantâneos de milhares de casais ao mesmo tempo. Na realidade ela em nada diferia das religiões contemporâneas que se baseiam no carisma de um guru e no investimento de milhões de dólares em propaganda. Bastaram 2 minutos de atenção com as marcas incompreensíveis que ele fazia no papel sobre o cavalete para que ele voltasse sua atenção para mim e explicasse o que fazia ali.
Em verdade, seu interesse com os gráficos era mostrar os importantes eventos sequenciais que se produziam a cada 500 anos e que mostravam que, exatamente naquele ano (acho que 1981), surgiria uma “nova ordem cósmica” liderada pelo patrão dele, o tal do reverendo. Pediu que eu olhasse os gráficos e confirmasse o nascimento de grandes líderes mundiais a cada lapso de meio milênio – dos filósofos pré-socráticos, passando por Sócrates-Platão-Aristóteles, pelo Nazareno, os Maias, os líderes da ciência na Europa iluminista, os enciclopedistas e por aí afora, até chegar exatamente no ponto onde ele pretendia: o surgimento do ápice de todos esses grandes líderes: o Reverendo Moon.
Mesmo sendo eu um menino de não mais de 20 anos, percebi claramente que se tratava de uma história contada em retrospectiva. Tipo: eu sou o máximo, ok? Preciso que todos vocês acreditem nisso e vou utilizar uma fórmula bem simples: mostrarei que minha importância não está apenas no que digo (na maioria das vezes uma mera repetição de adágios antigos com roupagem nova), mas que a minha “chegada” ao planeta Terra teria sido planejada por uma “ordem invisível cósmica”, que governa o mundo para além do nosso conhecimento. Bem, vou inventar agora que a cada século um novo gênio nasce na humanidade, certo? Para isso usarei de uma análise retrospectiva da história, e procurarei os meus “precursores”. Para fazer isso preciso encontrar alguém muito especial nascido no ano da graça de 1859, outro em 1759, 1659 e assim por diante, e desta forma construo uma pseudo causalidade que ocorre em lapsos de 100 anos.
Claro, eu pensei logo no meu mestre Freud, que nasceu em 1856, mas é fácil construir uma explicação para esta pequena inexatidão. Posso dizer que, por exemplo, são cem anos “lunares”, ou “por volta de um século”, ou Freud foi registrado apenas em 1859, por um erro de seu pai, etc. É evidente que, dependendo do que quero provar, esses detalhes são desprezíveis, e no fim tudo pode ser encaixar, como em um passe de mágica.
Por isso é que essas histórias de que “as coisas estão escritas para acontecer de uma determinada maneira, obedecendo uma ordem cósmica previamente estabelecida” me irritam, pois elas, em última análise, falam de um determinismo paralisante, que sufoca a natural diversidade humana, a imprevisibilidade da vida e o livre arbítrio. A vida, assim conduzida, pareceria uma versão do filme “Premonição” onde os eventos (trágicos, felizes ou bizarros) estão predeterminados a acontecer. Infelizmente (ou, ao meu ver, felizmente) o mundo não se ordena desta forma. Se realmente existisse um “sentido” oculto no Cosmos, o preço a pagar seria alto demais: a perda da liberdade e da autonomia. Prefiro um mundo caótico e imprevisível construído pelas nossas próprias imperfeições e falhas do que um mundo onde “tudo acaba bem” por que Deus (ou o Reverendo Moon) escreveu nosso destino com as tintas do determinismo.
Uma conhecida colunista de minha cidade escreveu uma matéria no site de uma grande empresa jornalística cujo título era “Rodrigo Faro me fez adiar a maternidade”. A palavra “maternidade” me despertou a atenção, e instintivamente procurei saber do que se tratava.
Ao clicar no link aparecia a foto acima, em que um apresentador de televisão aparecia capitaneando a primeira festa de aniversário de seu filho ao lado de uma esguia esposa e de duas outras filhas vestidas com fantasias “rosa choque” de gosto duvidoso. (Ok, eram apenas fantasias de Miss Piggy, dirão alguns…).
Interessado pelo teor e curioso pelo título resolvi investigar o conteúdo da crônica, até porque me interesso pelas questões dos ritos de passagem e a questão do consumismo exagerado à que são expostas nossas crianças. Muito mais do que uma festa as celebrações de um ano de vida, principalmente entre as celebridades (ou aspirantes a famosos) tais eventos costumam ser festivais de exageros, breguices, apelações e exibicionismo descarado.
Claro que a festa do Sr Faro não fugiu à regra, pelo que ficou demonstrado na foto. Mas para mim foi muito pior o comentário da colunista de minha cidade.
“O aniversário das filhas do Rodrigo Faro me fez ter insônia essa noite.”
Eu nunca imaginei que se tratasse de um texto tão superficial. Achei que que a chamada da crônica pudesse me levar a uma crítica ao consumismo sem freios, ao desejo incontido de “coisas” ao invés de momentos para serem lembrados ou talvez uma análise mais profunda sobre a importância dos ritos no desenvolvimento emocional infantil. Achei mesmo que a referida coluna se ocupasse de uma apreciação da glamorização de figuras desimportantes do cenário artístico nacional e de suas festinhas suntuosas. Tais eventos que são produzidos com esse formato exuberante e extravagante apenas para que os enxerguemos como diferentes de nós. Colocam-se como seres superiores, uma espécie de “nobreza republicana” que olha para nós com o mesmo olhar de desprezo que a realeza olhava para a plebe faminta.
Todavia, o texto que encontrei é superficial e até infantil. Com um tema tão complexo, intrigante e até estimulante a jornalista conseguiu construir uma história boba de “como arranjar dinheiro para fazer uma festinha igual”. Uma pena, pois poderia ter feito algo muito mais interessante com este fato.
Mas… vai ver eu entrei mesmo na porta errada, e o blog da referida colunista é para quem curte preços de vestido de noiva, enxoval chique para bebês, onde fazer a cesariana mais chique, a numerologia do nome daquele que vai nascer e os obstetras operadores de barriga da moda. Resolvi escrever para ela a criticar a forma inadequada de abordar o consumo infantil, as festinhas suntuosas e os gastos com tamanhas futilidades.
A resposta à minha crítica, por parte da jornalista, foi a seguinte:
(…) várias pessoas comentaram aqui sobre gente que faz festa mais para si do que para os filhos. Eu, modestamente, acho que quem tem dinheiro faz a festa do tamanho que quiser (que graça tem ser rico se não puder usar a grana?). Só me preocupa – e foi esse o sentido do meu post – que esteja se estabelecendo um padrão. Festa de criança é de arromba ou não é. Daí tem gente que se mata pra poder dar uma para o filho. Meu medo é justamente esse: que a coisa descambe de tal forma que meu filho não pense em festa a não ser assim. Mas aí vai da criação que eu vou dar pra ele, como bem pontuou uma mãe aqui.Um beijo!
Voltei para o post que ela havia colocado e resolvi reler, a seu pedido. Tinha esperanças de ter lido de má vontade e não ter entendido o “sentido oculto”. Foi em vão.
Normalmente quando o autor pede para “lerem de novo” é porque não conseguiu comunicar adequadamente o que desejava ou porque se arrependeu e está suplicando uma interpretação diferente e mais condescendente. É clássica a desculpa “Vocês não entenderam que eu estava sendo irônico(a)?“
Não, ela não estava. Havia mesmo um desejo de glamorizar as festinhas perdulárias de astros desimportantes da TV brasileira. E não é à toa que escreveu em uma das respostas sobre o “corpão da mulher do Rodrigo” (elogiando a silhueta esguia da mulher do apresentador), por que isso está no pacotão da futilidade do post.
Veja bem, aqui não há nenhuma ironia na sua fala: “Ver as fotos da festinha da família me fez abrir uma poupança para o primeiro aninho do meu piá. O dinheiro ficará no banco como garantia: se sobrar, eu e o pai dele partimos para uma viagem romântica.”
Isso não foi ironia: foi uma ameaça de entrar de cabeça no modelo exibicionista de criação de filhos. Só depois que fui ler outras crônicas desta jornalista e percebi que uma festa deste tipo faz todo sentido em sua trajetória. Ok, se isso satisfaz o ego da moça, nenhum comentário. Cada um glamoriza sua vida como quer, colocando glacê sobre o bolo da vida.
Mas precisava mesmo envolver o seu futuro filho em algo tão tolo e comercial? Ao invés de questionar a importância de uma maternidade consciente, de uma gestação sadia, de um parto humanizado para fugir da carnificina do modelo cesarista e para LIVRAR seu filho do consumismo que destrói a mentalidade infantil, ela ressaltou EXATAMENTE o que existe de mais fútil no desenvolvimento de um sujeito: a festinha de primeiro ano de uma criança que sequer participará (menos mal) do absurdo exibicionismo de seus pais.
Cheguei a ficar constrangido e até culpado por ter dado audiência para crônicas fúteis e que ressaltam o consumismo e a deseducação de crianças, colocadas como troféus parentais e bichinhos de estimação, com roupas ridículas para “enfeitar” a festa dos pais. Mas o grande número de críticas que eu vi, de pessoas maduras e que levam o nascimento de uma criança a sério, me fez ver que provavelmente esta crônica cafona e fora de lugar é que prestou um desserviço ao amadurecimento de uma maternidade e uma parentalidade maduras. Ao falar de forma tão frívola das festinhas de “exaltação do dinheiro”, ela trouxe à tona a importância de exigirmos um jornalismo mais responsável e maduro.
Tenho certeza que a jornalista não escreveu nada disso por “mal”, e nem com más intenções, mas por descompromisso com a seriedade na educação das crianças e uma falta de noção sobre a importância de livrá-las da doença do consumismo.
Recomendei a ela o brilhante documentário brasileiro “Criança – A Alma do Negócio”. Talvez ela consiga ver o estrago que este tipo de atitude pode produzir em um ser em desenvolvimento.
Saí da loja de componentes eletrônicos e senti a súbita compulsão de tomar um café. O shopping estava “bom” hoje, e com isso me refiro ao fato de que não estava lotado. Procurei uma mesa e chamei o garçom. Ele se aproximou e, antes que pudesse me estender o cardápio, eu disse “Um expresso, por favor?”. Ele guardou o menu embaixo do braço e respondeu “Pois não. Só um expressinho?”
“Sim”, respondi eu, mas com a clara sensação de que minha condição de pobre, miserável e incapaz foi descaradamente revelada. Afinal, só isso poderia explicar que, podendo comprar um “Extra-supreme café italiano com chantilly e canela” que custa 15 reais, eu me resignei a pedir apenas um mísero expressinho de 3 reais e cinquenta centavos. Para disfarçar a minha vergonha abri meu tablet e conectei com o Facebook, vício do qual me considero irrecuperável. Encontrei Kalu on line, que falou sobre o estatuto do nascituro e me disse da necessidade de debatermos mais sobre esta questão. Ponderei com ela que este documento pretende transformar o feto em sujeito, colocando o pátrio poder abaixo das determinações do estado. Falei para ela do perigo que significa o extermínio do protagonismo feminino sobre seu corpo, que ficará sacramentado como algo tutelado pelos poderes estabelecidos. Em outros países iniciativas como essa, capitaneadas por grupos religiosos, produziram aberrações terríveis, como o “advogado do feto” e as cesarianas por demanda judicial. Veja também esse excelente artigo, que tem mais de 25 anos sobre o tema, escrito por Susan Inwin e Brigitte Jordan.
Repentinamente fui atraído pela conversa que se desenrolava na mesa ao lado. Alguns fragmentos de frases soltas acabaram despertando minha atenção. “A cesariana”… “O médico disse que…”, “Então ela foi para o centro cirúrgico…”. Dois jovens, por volta dos 30 anos, conversam sobre… partos. Sim, o assunto era sobre os nascimentos dos filhos deles, ambos ocorridos recentemente. Um deles estava sentado, e é um cabeleireiro. Sei disso porque ele estava de uniforme, e a cafeteria fica exatamente em frente a um famoso Salão de “Haute Coiffure”. O outro, que se mantinha de pé, era provavelmente um amigo que o havia encontrado tomando um café no intervalo de suas tarefas.
O cabeleireiro toma a palavra e dispara, fazendo minha xícara de café chacoalhar. “Meu médico disse que marcou a cesariana para eliminar os riscos, e eu concordei com ele. Por que deixar passar do tempo e se arriscar?” O rapaz nada mais fez do que reproduzir os preconceitos arraigados no imaginário popular, centrados na “mitologia da transcendência tecnológica” que Robbie nos alertava. O conhecimento autoritativo do profissional conquista, na alienação do marido, um aliado importante. Eliminar riscos através de cirurgias só pode ser entendido se acessarmos as questões ideológicas que estruturam a nossa cultura. O que é do feminino e da natureza não é confiável, mas o que vem da razão e da ciência é digno de total apreço e respeito.
A resposta do seu amigo, o que se mantinha de pé, foi surpreendente. “Pois é, mas uma cesariana é uma cirurgia. E ela abre sete camadas. Existem riscos inerentes em realizar um procedimento assim, não é?” Havia, pelo que pude perceber, pelo menos um pouco de discernimento e informação no seu questionamento sobre as cesarianas.
A conversa rolou mais um pouco sobre o tema e continuei a espichar o ouvido, no melhor estilo “velha fofoqueira”. Que me perdoem os rapazes, mas precisava saber o que dois jovens homens adultos, e que acabaram de passar por esta experiência, tinham a dizer. Na conversa que se seguiu pude perceber que as duas esposas tiveram filhos através de cesarianas. Ambos pequenos, um de 2600g e o outro 2900g. Como saber se não saíram muito antes do que deveriam? Não havia nenhuma justificativa clara nos discursos de ambos, apenas a determinação autoritativa de profissionais que gozavam da confiança de ambos. Não percebi nenhuma indignação, estranhamento e muito menos revolta, apenas resignação com os fatos. O cabeleireiro o tempo todo reforçava as palavras do seu médico, com frases do tipo “Quando ele me disse eu imediatamente concordei…”, ou “realmente não há porque arriscar”, entre outras expressões de concordância.
Tive vontade de levantar, puxar os dois pela gola da camisa e gritar: ”Meninos, ACORDEM!!!!!”
É um pouco triste, e um pouco trágico.
Pensei no que Maximilian, com sua positividade e otimismo, me diria ao ouvir o diálogo dos rapazes. “Olhe pelo lado positivo, Ric. Quando é que você se sentou com um amigo e pôde debater o parto de seus filhos? Achas que o seu pai um dia conversou com alguém sobre o seu nascimento?”
Está certo, Max. Prefiro ver a conversa que se estabeleceu ao meu lado como um sinal de que os homens estão se interessando mais por partos, nascimentos e amamentação. Mesmo sabendo que se trata de escolhas tolas, como cesarianas sem justificativas, ainda é melhor isso do que a suprema alienação de tempos idos. Tristemente, ainda hoje presenciamos inversões de valores que nos agridem os sentidos. Os casais grávidos ainda se fixam em detalhes desimportantes do nascimento ao invés de procurarem um atendimento com as características fundamentais da humanização: o protagonismo da mulher, a visão interdisciplinar e as condutas baseadas em evidências. Infelizmente muitos ainda querem um parto no “Sheraton”, muito chique, com piso de mármore e enfermeirinhas de tailleur. Procuram a tecnologia explícita como um artigo de consumo que o dinheiro pode comprar, e não como um recurso extremo, usado em situações limite. O atendimento ainda é equivocado e violento, do ponto de vista humano e médico, mas tem aparência de produto sofisticado.
O amigo em pé coloca um pouco de dúvida sobre a correção das escolhas feitas. “Sabe que a mulher do leito a lado da minha esposa estava dando banho no bebê no mesmo dia em que aconteceu o seu parto, pois para ela foi normal. Isso me chamou a atenção, pois quando olhei para a minha mulher percebi que ela não podia nem se mexer na cama.”
O cabeleireiro ainda respondeu: “Pois é, quando puder ser normal é melhor, não? Infelizmente no nosso caso não foi possível”. Até eles perceberam as diferenças, mas o medo da autoridade médica ainda impera. Como diria Maximilian: ”Ignorantia stercore est” (A ignorância é uma merda)
Mas, não há razão para ser pessimista. Muito conquistamos nos últimos anos. Veja só que beleza essa ultima publicação holandesa sobre parto domiciliar. Há poucos anos ninguém falava desta questão no Brasil, e hoje em dia há uma legião de ativistas questionando local de parto, violência institucional, lei do acompanhante, obstetrícia baseada em evidências e tantas outras questões.
Em 1999 estive em um congresso de humanização do nascimento no Rio de Janeiro e até entre os humanistas o assunto parto domiciliar era tabu. Ninguém atendia, ninguém tinha ideia dos equipamentos essenciais, não tínhamos a proposta de equipes interdisciplinares, e muitos achavam que este era um assunto menor, que sequer merecia ser debatido. Naquela época a gente achava que Casa de Parto era uma pequena clínica fora do hospital, com bloco cirúrgico, e com atendimento feito por médicos. Chegamos a fazer uma assim, que acabou fechando. O modelo de parteria, com a proposta centrada na atenção pela enfermeira obstetra e na obstetriz, só veio muito depois, com o amadurecimento do debate o fortalecimento ideológico, principalmente pelo trabalho da professora e antropóloga Robbie Davis-Floyd. Essa primazia, sou obrigado a reconhecer, é dela. Antes dos seus livros – em especial “Birth as na American Rite of Passage” – ninguém sabia exatamente o que fazer, apesar de já sabermos o que não queríamos mais continuar fazendo.
Robbie estruturou, a partir do seu modelo antropológico, a humanização do nascimento. Ela deu consistência e direcionamento à nossa indignação.
Assim, quando vejo a conversa de dois homens falando sobre o nascimento de seus filhos percebo o alvorecer de um novo tempo, onde a participação masculina ficará cada vez mais intensa e constante. Mesmo que a fala deles seja ainda recheada de equívocos e inconsistências, ainda prefiro encarar como um avanço. Talvez ambos tenham voltado para as suas casas com uma semente de dúvida. A farpa, “ardente e corrosiva”, como me dizia Max. “Será mesmo que era necessário?”
Fazemos mobilização social pela humanização na Internet desde 1998, ainda no tempo dos modens de 4.8 e da conexão discada, quando iniciamos os debates cibernéticos contra a violência institucional e a barbárie das cesarianas no Brasil. Naquela época a crítica que recebíamos era de que o meio – a Internet – produzia um movimento tímido, sectário, apenas para “mulheres burguesas” que tinham tempo para “perder” na frente de um computador. A proliferação da Internet para todas as classes sociais mostrou que nossos críticos estavam errados. No tempo em que iniciamos a luta através das listas de discussão não havia parto domiciliar no Brasil, e hoje este debate ganha as ruas. Não havia um movimento de doulas, quanto menos instituições que lhes dessem respaldo. Não havia lei do acompanhante e nem obstetrizes formadas pela mais prestigiosa universidade brasileira. Não havia uma consciência de que o parto se expressava de forma violenta, numa assimetria de poderes em que as mulheres tinham a sua voz abafada, seus corpos manipulados e os profissionais faziam deles objetos sobre os quais aplicavam uma ciência cada dia mais questionável.
Igualmente não existia conexão com as outras lutas, como a amamentação, e não tínhamos contato com grupos de fora do Brasil. Éramos “ilhas”, isolados em nossas indignações e sonhos. Começamos como um grupo pequeno de internautas que acreditavam em suas ideias e utilizavam uma ferramenta nova e estranha. No mesmo dia eu falava com meninas sonhadoras em São Paulo e com um colega humanista em Florianópolis. Criamos um espaço sem distâncias, uma proximidade até então jamais experimentada. Essa realidade parecia a nós uma fantasia louca, devaneios de ficção científica. O longe desapareceu. Um artigo criticando as episiotomias era publicado em um dia e no outro já estava impresso em minhas mãos. Logo após, era espalhado pela rede, nas nossas valorosas “list servers”. As oportunidades de difusão de ideias e propostas tornaram-se realidade ao alcance da ponta de nossos dedos.
Imediatamente o conservadorismo percebeu que a Internet era uma arma poderosa e ameaçadora para acordar mentes morfetizadas. Como reação, iniciaram uma campanha de ataque a estes projetos. “Você não pode acreditar em tudo que lê na Internet, minha filha”, nos dizia o velho profissional, acostumado com uma retórica em que suas “verdades” não podiam ser questionadas. Quem abriria um livro de medicina para se contrapor à autoridade do profissional à nossa frente? Tornaram-se jargões entre os profissionais frases como “Não existe essa coisa de violência institucional. Isso é coisa de Internet”. Ou então diziam, com um supremo desprezo, “Quem te falou isso das episiotomias? O Dr. Google?”.
Não há mais como desprezar o poder da mobilização da Internet e das redes sociais. Ano passado em questão de poucas horas o NuPar – Núcleo de Parteria Urbana da ReHuNa – mobilizou milhares de pessoas em 32 cidades (31 no Brasil e uma na Itália) contra um ato de terrorismo de uma corporação do centro do país, que desejava impedir a livre manifestação de opinião, agredindo um dos pilares da democracia. Milhares marcharam contra a arrogância e a prepotência e a favor das escolhas informadas, o protagonismo feminino no nascimento e o embasamento das condutas em boa ciência.
Os movimentos de conscientização na Internet mudaram a face da democracia. Ela não se expressa mais apenas através dos modelos partidários e da união em torno de megaprojetos. Não temos apenas este meio de expressão. Hoje podemos mobilizar multidões para projetos específicos, como a defesa de um colega que está sendo vítima de perseguição por uma entidade profissional, como vimos no Rio de Janeiro, ou contra práticas abusivas como episiotomias, Kristelleres, cesarianas, e até contra ilegalidades, como o impedimento ao acompanhante no parto.
Não precisamos mais aguardar a manifestação de um “representante” do nosso partido: somos todos protagonistas da mudança. Cada um de nós tem seu próprio megafone, sua arma contra as injustiças e seu fuzil contra a barbárie. As vozes multiplicadas amplificam os desejos e mostram uma nova face na participação social. Estamos num verdadeiro “admirável mundo novo”, mas prefiro acreditar que se trata de um mundo mais justo, mais responsável e mais participativo, onde as palavras de todos receberão acolhimento e respeito.
Poucas mulheres, percentualmente, chegam ao meu consultório “planejando” engravidar. A ideia de uma preparação prévia, que poderia ser o modelo mais racional possível, não é o mais prevalente. A maioria das mulheres chega à primeira consulta com um papelzinho na mão e um sorriso maroto nos lábios. As explicações são variadas, mas contém uma linha que pode ser percebida nos espaços dos discursos. “Não estávamos pensando para agora, mas já que veio, que seja bem recebido“. Ou então “Ah, estávamos com uma relação cheia de idas e vindas, e eu acabei engravidando numa dessas voltas“. As gravidezes nos surpreendem mais do que seria de esperar. Afinal, se temos tanta informação, como podemos cair nas artimanhas de uma gestação “fora de hora”?
Todavia, existe mais em nossas ações do que a fina e tênue camada de racionalidade que nos recobre. O que eu percebo, de forma clara e intensa, é que o desejo é o mestre soberano a comandar nossas ações. Essas determinações inconscientes são o vento que empurra a embarcação da vida, e a nossa consciência não passa de um tímido leme, pequeno e frágil, que apenas corrige, quando possível, as rotas sopradas.
Aliás, ainda bem. A previsibilidade racional da vida sempre me assustou. Quando vejo a ponta do desejo aparecendo na teia do cotidiano eu penso na arquitetura inconsciente que arbitra a existência, para além do pensado e planejado. Como diria uma colega psicanalista, “não existem gravidezes indesejadas, apenas aquelas em que o desejo não ascendeu à consciência“. E, nas gestações assim como em outros aspectos da sexualidade humana, a libido se manifesta à despeito da vontade expressa, comandando nossa vida adiante do que as conveniências determinam. Se pode ser adequado, tanto do ponto de vista da saúde como dos aspectos logísticos, um planejamento gestacional, eu ainda consigo ver uma beleza recôndita nas surpresas que a vida reserva, pois elas mostram a roupagem mais humana que vestimos.
Agarrado à vida, o replicante espera o derradeiro momento.
Como pode algo ser tão bonito e tão triste ao mesmo tempo?
E porque por tantas vezes tais momentos se conjugam, bizarramente acoplados na teia do tempo? São eventos que parecem nos falar de uma beleza estranha, que se esconde atrás de momentos tão solidamente tristes a ponto de baterem contra o nosso peito como um tijolo arremessado pelo destino.
Mas, se a escolha do olhar ainda me pertence, prefiro enxergar aquilo que verte de belo e resplandecente no breu das lágrimas.
Vi Blade Runner, de Ridley Scott, na adolescência, e a cena final nunca me saiu da memória. O desespero do protagonista, o replicante Roy Batty – o melhor trabalho do Rutger Hauer para o cinema – para descobrir o sentido da vida, que só poderia ser elucidado através da morte, sempre me tocou de uma forma muito especial. As memórias, os amores, as tristezas, as alegrias, as perdas, os fracassos e as vitórias, todas elas desaparecendo, diluindo-se como lágrimas na chuva no triste momento do “desligamento”. E o apego à vida, qualquer uma, mesmo à vida daquele a quem pretendia matar. O replicante salvou seu desafeto porque viu nele algo precioso demais para ser desperdiçado: a própria Vida, preciosa por ser frágil, que agora se esvaía melancolicamente de seu corpo de máquina. Momento épico do cinema…
A piada é boa e faz sentido. Problemas dentários podem, SIM, levar à morte, basta pensar em infecções dentárias levando à febre reumática ou endocardite. Raras, fortuitamente, mas possíveis de ocorrer para quem tiver dentes. Transtornos dentários estão também relacionados a transtornos na gestação, podendo levar ao parto prematuro, e este último é um dos principais problemas de saúde pública na Europa (baixo peso ao nascer). Mas a pergunta pode ser levada mais adiante: quem aí estaria interessado em retirar os testículos para evitar o câncer nesta região do corpo? Sim, este mata, sem dúvida. E agora? Porque mutilar as mulheres é tão facilmente aceito, mas mutilar os homens causa desconforto?
Só para lembrar: as cirurgias mais realizadas nos Estados Unidos são cesarianas e histerectomias. Ambas sobre o mesmo órgão (o útero, a Matriz, a “mãe do corpo”) e sobre o mesmo gênero, as mulheres. Ambas com caráter ablativo; ambas aplicadas sobre o cerne da feminilidade.
A ideia a ser vendida por trás desta amputação é a de que a pesquisa genética pode fazer PREVISÕES certeiras e “matemáticas” de doenças e morte. Isso é uma fantasia. Não somos controlados por nossos genes, mas por uma série de fatores (principalmente o estilo de vida que temos) dentre os quais se encontra a bagagem genética e as “possibilidades de adoecimento” que carregamos. Ninguém adoece do que quer, e sim do que “pode”. Mas esta construção tem nos genes apenas um elemento, e não o mapa completo de nossa história futura. Foi a partir desta constatação – de que esta ultra estrutura não é capaz de prever o futuro, mas apenas uma gama limitada de tendências – que criou-se o termo “epigenética”, que tenta combinar os aspectos da constituição física com os outros tantos aspectos de ordem emocional, circunstancial, ambiental, afetiva, psicológica e até mesmo as questões aleatórias. Posso carregar um gene defeituoso – como a propensão para o câncer pulmonar – pela vida inteira sem que ele NUNCA se manifeste apenas porque decidi não fumar, não me contaminar com substâncias tóxicas (como as anilas), não viver em local poluído e ter uma alimentação detoxificante. Pronto: toda a minha má herança foi soterrada, sem precisar de amputações. Mas estilos de vida não geram patentes milionárias, e nem vendem drogas milagrosas. É natural que este tipo de “tratamento comportamental” não receba muita atenção da mídia.
O caso de Angelina Jolie é emblemático muito mais pelo entusiasmo da comunidade científica do que pelo ato em si. Ao invés de agirem com cautela, os profissionais imediatamente se apaixonaram pela ideia, a exemplo do que ocorreu com as “células tronco”, que já enriqueceram muita gente, mas que ainda não forneceram provas concretas de sua eficácia no tratamento de qualquer afecção conhecida. Falta um freio, um anteparo às aventuras interventivas da ciência, mas isso não significa proibir ou censurar a pesquisa, mas incentivar um bom senso, evitando o exagero nas invasões sobre o corpo, as quais frequentemente se baseiam em meras suposições ou maquiagens estatísticas.
Falta também uma visão mais respeitosa sobre o corpo da mulher. Mas isso ainda é resquício de oitenta séculos de cultura patriarcal.
Esta é uma velha discussão que eu carrego há muitos e muitos anos. Sempre que eu perguntava para algum colega meu – que havia começado a praticar uma obstetrícia mais “gentil”, suave, baseada em evidências e com um respeito ao protagonismo feminino no processo – sobre quais os fatores preponderantes que o levaram a produzir uma modificação significativa no paradigma de atenção, eu sempre me deparava com um tipo específico de resposta que não era exatamente aquela que eu esperava. O ponto deflagrador, o estopim de um processo transformativo da envergadura que se faz necessária para a humanização do nascimento era invariavelmente descrito como um processo de ordem afetiva, e não um choque “cognitivo”. NÃO nos tornamos médicos humanistas pela via da razão! Se por um lado isso pode produzir uma frustração de nossas ilusões racionalistas, pelo menos nos oferece um anteparo à arrogância cientificista.
Na história de cada profissional que optou por uma postura humanizada existe uma ferida aberta, um processo que ainda sangra, uma lesão na alma que se mantém ardente e corrosiva. A tal “farpa” da qual Max me falava. Assim, a mudança ocorre pela via da emoção. Um vídeo, uma palestra, um parto, um bebê, uma mãe que chora, um pai que se derrete, um grito (como o da “Glamour Girl”), uma conversa, um silêncio. Tanto faz, e não importa. É necessário apenas que seja algo suficientemente sonoro para nos acordar e para levantar a ponta do véu de algo profundamente recalcado nas memórias mais primitivas, numa época em que nossa vida era ausente de palavras, permeada somente por sons, cheiros, gostos e toques.
Somente depois, quando tais sentimentos atingirem as estruturas subcutâneas, e tal tumoração produzir a vermelhidão, a dor, o calor e o desconforto na alma, é que o saber científico, tal qual um “bisturi de evidências”, poderá cortar a carne e aliviar nossa angústia. E só aí você precisará “saber”, pois o mundo racional e estatístico pedirá passagem para normatizar suas ações dentro de parâmetros aceitos e confiáveis.
Eu sei que é por causa dessas ideias que não sou convidado para festas desde a época da faculdade, mas eu sempre acho oportuna uma reflexão sobre a humanização do nascimento um pouco diversa daquela que a gente se acostumou a fazer para outras questões. Entender a dinâmica inconsciente que nos “empurra” para uma determinada posição ideológica é sempre salutar, e nos ajuda a criar barreiras contra a idealização, o sectarismo e os radicalismos.
Conservadores saem as ruas no Brasil, a exemplo do que fizeram na França há poucas semanas.
No Brasil, quase à mesma hora, ocorreram a Marcha das Vadias e a Marcha para Jesus. Mais do que uma demonstração de ativismo feminista ou uma demonstração de fé no “Senhor Jesus”, vejo em tais demonstrações um claro divisor de classes sociais. Há poucas semanas um fenômeno semelhante: Daniela Mercury e Joelma dividiram as opiniões entre os pobres e a classe média. A cantora baiana por assumir publicamente um relacionamento homoafetivo e a musa do Calypso por defender posturas conservadoras em relação à homossexualidade.
Se você é de classe média pega mal se posicionar contra homossexuais e os direitos que estes reivindicam, da mesma forma que pega mal escutar Latino ou Luan Santana. Muitas opiniões que vemos a respeito destes temas são, em verdade, aprisionamentos ideológicos determinados pelas castas sociais, e não avaliações maduras sobre os temas em questão. Mesmo que você curta cantar músicas do Latino enquanto toma banho, se você quer se manter na classe média não fica bem declarar publicamente que gosta delas.
Desta forma os gostos estéticos (musicais, artísticos, literários, etc.) e sua expressão explícita no convívio público, são senhas, códigos e “palavras passe” para a classe social onde você se encontra. Lembro de escutar uma conversa de duas meninas adolescentes em que uma dizia a outra: “Que tipo de banda você ouve”? A outra respondeu incontinenti: “Ramones”. Quando ouviu o nome da banda a primeira lhe abriu um enorme sorriso. Era o código: a tribo específica à qual você se liga. Era possível, a partir desse reconhecimento, uma vinculação. Eu penso em fazer isso na sala do café dos médicos no hospital onde atendo: iniciar uma conversa animada com uma colega a respeito de música, e citar elogiosamente várias duplas sertanejas, apenas para observar a cara de espanto dos colegas médicos, como que a dizer “O que esse indivíduo está fazendo aqui, entre nós?”
Quanto aos objetivos da “Marcha das Vadias” ninguém discorda. Pelo menos os objetivos explícitos e conscientes, o que não tem necessariamente que ver com os objetivos verdadeiros e inconscientes. Mas veja bem, na “Marcha para Jesus” também havia o interesse de exigir direitos, fazer uma demonstração de fé de forma contundente e firme e estava cheio de homens conscientes e parceiros, todos em prol da família e da religião. Eram nitidamente pessoas do “bem”, cheias de boas intenções. Mas, se as intenções e a essência das pessoas era a mesma (nas Vadias e em Jesus havia gente bacana, e muita gente histérica também, claro), o que salta aos olhos é a diferença de classe social.
Por isso é que afirmo que muito mais do que um interesse ideológico existia uma imantação por classe social. Pega mal para a classe média se ligar à Jesus, e fica estranho para as pessoas de classe baixa entrar no meio da parada das Vadias. A classe média é notoriamente progressista, mas as classes C e D (emergentes no Brasil contemporâneo) são eminentemente conservadoras. É por isso que o Feliciano recebeu mais apoio que paulada, e é por esta razão que o discurso político brasileiro da atualidade apresenta uma nítida guinada conservadora (Jesus, família, sexualidade, etc.) e para a direita (capital, mercado, competitividade, lucro, etc.).
Somos um núcleo de medos, envoltos por uma faixa de crenças, sobre as quais repousa um verniz de intelecto.
Nos últimos anos como divulgador de um conjunto de ideias agrupadas com o nome de humanização do nascimento eu tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas da área médica que mostravam interesse em se aproximar de um modelo que apregoava mais respeito e dignidade no parto. Muitas tinham um perfil que eu chamaria de “clássico”: boas intenções, bom trabalho, gentileza, boa experiência, um certo enfado com o excesso de intervenções e uma legítima vontade de fazer mudanças em suas condutas. Entretanto, quando oferecíamos um olhar mais profundo sobre as reais motivações, o verdadeiro cerne do processo de nascer, as implicações políticas, econômicas, sociais, psicológicas, antropológicas e médicas do nascimento, muitas delas estabeleciam de imediato um discurso defensivo, e iniciavam uma retórica de contra-ataque. Bastava falar que “fazemos demais”, “intervimos demais”, “cortamos em demasia”, ou que “nossa proposta passa pela defesa de um parto fisiológico de acordo com os desejos das pacientes”, para sermos taxados de “ditadores”, “arrogantes”, “xiitas”, “fanáticos” e até “salvacionistas”. Tantas foram as vezes que tal fato ocorreu que eu acho até estranho quando não percebo o processo de retração.
Para mim este discurso desvelava uma característica tão humana quanto inexorável: o medo. Sim, medo de que, expostos a uma realidade mais ampla seremos obrigados a rever conceitos antigos, os quais, de certa forma, muito nos haviam beneficiado. Medo de mudar, de reconsiderar posturas, de despir-se de conceitos que durante muitos anos foram caros para nós.
Eu acho compreensível isso, até porque também faço isso (tenho consciência dessas limitações). Portanto, quando as pessoas se colocam para trás e dizem: “Quer saber? Vocês são radicais demais, falam muito em parto normal. O que importa é o bem estar de mães e bebês. Não importa como veio ao mundo. cesarianas também podem ser humanizadas. É um horror obrigar uma mulher a ter um parto normal e etc” tudo o que vejo na minha frente, quando se dissipa a névoa de preconceitos contra ideais bem simples (repetindo: protagonismo restituído, visão integrativa do parto e medicina baseada em evidências) é o medo de mudar. Medo de reconhecer que fomos muito além do que devíamos. Pânico de ver o castelo de conceitos recebidos na escola ruir por falta de sustentação.
Tenho certeza que as pessoas bem intencionadas – TODAS – passam por esse processo de rejeição. Eu sempre conto a história, que ocorreu há muitos anos, quando Zeza me contou que sua amiga de escola havia decidido ter seu parto de cócoras. Eu estava no quinto ano de medicina e recém havia me decidido a fazer a residência em obstetrícia. Não tinha nenhuma ideia do que seria uma postura mais “suave”e respeitosa em relação ao nascimento. Ao ouvir a afirmação de Zeza, que continha a determinação da paciente em ter seu parto numa posição diferente, eu disparei incontinenti: “O que? Ela sobe em coqueiro? Ela é índia? Ela não tem períneo para isso. Se fizer tal estultice vai se rasgar toda!“
Sim, eu disse isso, com toda a convicção. Com toda a empáfia, toda petulância e com todo…. o medo. Mas medo de quê? Medo de não ser aceito pelos meus pares, de não ser reconhecido, de que zombassem de mim. Medo de ser diferente e de poder estar errado. Medo das consequências de ver o mundo por um outro prisma. É assim que somos: um bando de medrosos. Eu tinha MEDO, muito medo.
Quis o destino que alguns meses depois desse rompante de arrogância e estupidez me caísse nas mãos um exemplar do livro do Dr. Moysés Paciornik chamado “Aprenda a Nascer com os Índios“, e eu acabei sendo, por causa dessa paixão avassaladora pelas ideias que ali encontrei, o introdutor dos partos de cócoras nessa parte do Brasil (muito antes de eu tomar conhecimento de qualquer conceito a respeito de humanização).
Portanto, ficar em pânico e retrair-se diante da novidade é natural. Entretanto, para ser realmente um agente de mudança é necessária uma espécie de força extra, algo intenso o suficiente para suplantar a inércia das posturas recalcitrantes. E isso só é possível para aqueles que não têm alternativas além de seguir em frente.
Eu costumo receber muitos estudantes de medicina, enfermagem e obstetrícia para conversar comigo sobre a humanização do nascimento. Para eles eu sempre apresento uma visão propositalmente sombria. Olho para seus olhos sequiosos de respostas e esperança e digo: “Se você tem alguma alternativa, não me dê ouvidos. Saia daqui, tome a pílula azul e acorde amanhã no seu quarto com o livro do Resende todo babado embaixo de sua cara. Mas se quiser tomar a pílula vermelha lembre que ela não tem volta, não há como retornar de um passeio que te leva a uma consciência maior de si mesmo e da sua profissão. Mas só a tome se não houver mais nenhuma escolha, pois no mundo dos que nadam contra a corrente cada braçada é dolorosa e angustiante“.