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Riso

Risada

“Então na derradeira força o bebê nasceu. Um suspiro seguiu-se de uma gargalhada. O pai ao meu lado ria da simplicidade da vida. Sua risada era pela maravilhosa e genuína beleza descomplicada de nascer em paz. Sua manifestação espontânea ecoou pela casa e contaminou a todos. “Riam todos, escandalosamente! Ela nasceu!” dizia sem palavras a sua sonora risada. Depois, ainda embevecido pelas cenas que seus olhos testemunharam, me disse, sem tirar os olhos de um ponto futuro: “Não pode haver no mundo sensação mais completa e grandiosa do que esta”.

Sorri e concordei… “

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A Culpa é da Mãe

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“Culpa Materna – Como livrar-se”. Minha mãe, quando havia discussões e debates entre os homens da casa (meu pai, eu e meus irmãos), sempre dizia: “Essa discussão é inútil; a culpa, no fim, sempre será das mães“… Era humor, mas também era tão verdadeiro quanto a frase que os franceses imortalizaram com “Cherchez la femme“…

Como diria o tio Ben, famoso filósofo do filme Homem Aranha, “Com grande poder vem uma grande responsabilidade“. Quanto maior a responsabilidade, maior a expectativa. Quando as expectativas pessoais não são cumpridas – o que é inevitável – sobrevêm a culpa. Quem tem mais poder nessa cultura do que uma mãe? Portanto, quem acabará sentindo-se mais culpada diante das inexoráveis adversidades que a vida nos reserva?

Todavia, eu também não creio que a mãe tenha uma culpa verdadeira. Estou falando de culpa presumida, culpa imaginária. E isso as mulheres mães tem de sobra! E, de fato, o fardo da culpa feminina é pesadíssimo. Você já deve ter tratado de mulheres que sofreram todo o tipo de abuso durante um casamento violento e insatisfatório. Você conhece muito bem este tema. Pois mesmo as mulheres que colecionam B.O.s e que se separam para salvar a sua vida e a dos filhos sentem uma culpa brutal por estarem “destruindo uma família”. Coitadas… sofrem a culpa por carregarem o fardo da mais forte das instituições humanas. A mãe, quem normalmente tem a iniciativa nas separações deste tipo, acaba sendo acusada pelos filhos e passa muito tempo sofrendo calada abusos e agressões (até dos filhos) por ser a “causadora” da separação.

Pobres mulheres! É muito pesado ser mãe e mulher em uma sociedade desigual, mas já foi muito pior…

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Game Over

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Um parto é como um casamento: uma travessia cheia de percalços, dificuldades, problemas, atrasos, recuos e vicissitudes de todas ordem. De um nascem as esperanças de uma nova vida; de outro uma parceria que nos oferece a oportunidade de crescimento pelo choque constante com o desejo do outro. Tanto quanto os partos, os casamentos são sempre acompanhados da constante sedução da desistência. Basta olhar para o lado e iludir-se rapidamente com a promessa de uma vida melhor desistindo propostas outrora assumidas. Parece-nos tão simples, tão mais fácil e tão mais adequado fazermos as malas e deixarmos para trás um processo que se desenrolava, mesmo que com toda a sorte de transtornos. A tecnologia das cesarianas e dos divórcios nos ofereceu a escapatória limpa e simples para a troca de planos.

Por outro lado, é certo que existem partos e casamentos que precisam ser cortados à faca, pois que se tornam viciosos e agridem as estruturas emocionais daqueles que dele fazem parte. Para a toxicidade de alguns processos não há paciência que resista e nem lenitivo para a tortura do convívio. Para estes, não há porque insistir em um projeto que pode levar a mais tristeza, dor e sofrimento. Entretanto, cada dia mais fica evidente que a simples desistência diante de pequenas discordâncias e contratempos não soluciona as angústias na maior parte dos casos, apesar das crescentes facilidades. Muitos processos que precisariam de um tempo maior de amadurecimento – para sedimentar cumplicidades, reforçar compromissos e aplacar mágoas – são cortados pelas lâminas vorazes dos bisturis e dos cartórios. Nem todos se beneficiam dessa ação radical, e fica claro que é preciso mais ponderação ao fazer escolhas definitivas.

Uma lástima tanta pressa quando o que mais precisamos é paciência, perseverança e vontade de vencer obstáculos. Partos e casamentos duradouros escassearam no mundo moderno, mas será que isso tornou as pessoas mais felizes?

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Mãe boa, boa mãe

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A nova edição do BBB terá uma “stripper” que também é mãe de um bebê de 1 ano de idade. Quando foi divulgado que ela ficaria “confinada” na Casa alguns ativistas da amamentação questionaram se ela poderia ser considerada uma “mãe boa” deixando seu bebê longe da sua presença e também sonegando-lhe a possibilidade de ser amamentado. Quanto a estas questões, tenho algumas ponderações.

Brincadeiras a parte, concordo que uma pessoa pode ser avaliada de diversas formas, de acordo com o aspecto que queremos ressaltar. Entretanto, escolher um critério apenas para qualificá-la é injusto e certamente cruel. Eu tive a melhor mãe do mundo mas ela não amamentou nenhum dos seus filhos. Naquela época isso era “feio”, inferior e anticientífico. O correto, o que era estimulado, o que era propagado… era a alimentação por fórmula. Eu e meus irmãos fomos alimentados artificialmente. Minha mãe foi vítima do seu tempo, dos valores que a cercavam e das ideias que naquela época circulavam.

Freud usava regularmente cocaína para se distrair; John Lennon marijuana. Jung transou com pacientes histéricas. Nietzsche era maníaco e neurótico. Sócrates se opunha à democracia. Oscar Wilde, tinha uma vida sexual dupla. Ferdinand Celine era simpático ao nacional socialismo, Heidegger igualmente. Seriam todos degenerados, patifes, perversos? Ou apenas seres humanos com virtudes, defeitos e genialidades inquestionáveis?

Os valores são dos homens e mulheres; os defeitos são de seu tempo.

Julgar “não amamentadoras” é muito mais ruim para o movimento da amamentação do que para aquelas que por alguma razão (escolha ou impossibilidade) não puderam dar seu leite aos filhos. Precisamos trazer para o movimento da amamentação o mesmo debate que propomos para a humanização do nascimento: a “AGENDA POSITIVA”.

Reconheço a importância dos esforços pela amamentação que estão ocorrendo no Brasil, a força das ONGs de proteção ao aleitamento livre, público e irrestrito, a importância de levar adiante as queixas de constrangimentos às mulheres que amamentam e a premência de ESCUTAR as mulheres, para que as suas vozes sejam levadas em consideração e não caiam no vazio. Chega de machismo disfarçado de “decência”; somos contra a moral dúbia que sonega amamentação livre e permite a pornografia desenfreada em todos os meios de comunicação. Naturalizar o corpo não é o mesmo que comercializá-lo livremente para o lucro dos que vivem do escândalo e da futilidade.

Por outro lado, não podemos perder tempo apontando dedos, mostrando o “lado negro da força”. Raio Laser e muita luz para todos!! Precisamos ressaltar a impor\tância da amamentação, e não os malefícios do desmame. Precisamos elevar a mãe que amamenta a um patamar superior na sociedade, mas não podemos perder tempo desmerecendo aquelas que assim não puderam proceder.

Precisamos caminhar em direção à luz, e deixar as trevas de lado.

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Luta Insana

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Eu sei que posso incomodar algumas pessoas, inclusive algumas que gosto muito e que apoiam este tipo de “espetáculo”. Entretanto, o que mais falta acontecer para – pelo menos – pararmos de incentivar a selvageria? Não fossem as suspeitas de fraude na primeira luta (que acabou propiciando uma revanche multimilionária, com muito dinheiro rolando para todo lado), agora o pobre lutador estraçalha sua perna na frente de milhões de espectadores do mundo inteiro. Quem sabe – baseados na mesma lógica mercadológica do “tem público para isso” – não passamos a televisionar execuções, cadeira elétrica, enforcamentos e brigas de gangues. A violência explícita e crua dessas lutas é um sinal de que as nossas pulsões destrutivas mais primitivas ainda não encontraram sublimação mais elevada do que pauleira e quebra-perna.

Eu nunca consegui assistir lutas porque acabo me identificando com os lutadores e ficando tenso, raivoso e até com dor de cabeça. Mas vejam: os esportes são TODOS sublimações das pulsões agressivas. Ao invés de atacar a aldeia vizinha e roubar propriedades e mulheres nós jogamos contra o time do outro bairro. Isso produz uma vazão da agressividade sem precisar matar ou ferir, o que é inteligente e admirável. A criação das disputas propicia esse nobre desvio nas nossas mais perigosas tendências. Como pode-se ver, o impulso é o mesmo, apenas modificado pelo processo civilizatório. Pois curiosamente, o mundo atual depois de civilizar as lutas através do pugilismo, com regras, pesos, limites e – principalmente – luvas deu uma guinada em direção à selva instintual, com a brutalidade explícita testosterônica dos lutadores lesados de MMA.Parece mesmo que produzimos na cultura uma metamorfose ao contrário, como diria Geroge Galloway: passamos da borboleta à lesma, da sublimação ao enfrentamento sem limites.

Alguns filmes, como Mad Max, anunciavam um apocalipse com octógono, onde as lutas, ao estilo gladiador,  só terminavam com a morte de um dos contendores. Porque não liberamos logo este tipo de espetáculo? Público pra isso não seria difícil encontrar…

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Exercícios Natalinos

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Ok, então está combinado. Feliz Natal, abraços, tudo de bom, lembranças pra família.

Talvez. Esse Natal eu fiquei pensando em exercícios necessários. Pensei em duas coisas. Na primeira, lembrei do meu pai me perguntando a respeito do falsificacionismo. Dizia ele: “Pense nas suas convicções mais sérias e profundas, nas coisas em que você acredita com mais fervor. Pense, por exemplo, no poder da mulher de gestar e parir com dignidade, ou na sobrevivência da alma após a falência do invólucro carnal. Pense nessas “verdades” profundamente. Agora, depois de regozijar-se com o conforto que tais certezas oferecem, imagine que elas são em verdade falsas e que há como comprovar, basta que você escute os argumentos que eu lhe oferecerei em contrário. Responda com sinceridade: você os escutaria?“

Será que eu os receberia como um contraponto válido ao meu modo especial de ver tais fenômenos ou fecharia meus ouvidos às coisas que não desejo escutar? Ficaria concentrado e confortado em minhas certezas ou aceitaria a relatividade das verdades que acalento? Teria a coragem de encarar a possibilidade de estar errado, ou me iludiria eternamente com a confiança em fatos que não suportam uma análise mais profunda?

A necessidade de questionar minhas certezas sempre me perseguiu, desde que escutei Raul Seixas cantando “Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo“. Se aquilo que acredito não pode ser questionado é por que não passa de um dogma, e os dogmas cristalizam o pensamento e congelam a criatividade. O livre pensar não aceita a petrificação dos conceitos, pois a dinâmica do conhecimento não permite paradas. Mesmo causando dor e muito medo, questionar seus próprios valores e crenças é tão essencial quanto crescer ou respirar.

Se você acredita demais em algo, que tal questionar suas crenças mais intensas? Quem sabe não seja mais honesto relativizá-las e encará-las como o que verdadeiramente são: partes de um mosaico infinito, pedaços passageiros de um caleidoscópio que muda a cada movimento minúsculo do conhecimento, fragmentos de algo indizível e desconhecido chamado “verdade”.

A segunda coisa que pensei me serve de ideia para o segundo exercício. Então é isso aí, Feliz Natal para você e sua família, felicidades e boa sorte, um ano cheio de realizações e que o menino Jesus possa iluminar sua vida, e bla, blá, blá… Tudo bem, não há nada de mal em desejar o melhor para os que nos amam e nos querem bem. Mas e os outros? O que fazer com aqueles que nos magoaram e feriram? O que desejar a eles nesse período? Nada? Desejar o “mal”? Ignorar? Maldizer?

Ok, este é o exercício. Pense nas pessoas que lhe fizeram mal, que falaram mal de você, que lhe agrediram, que ignoraram, que caluniaram ou perseguiram, que se ocuparam de denegrir a sua imagem perante os outros, que mentiram para tirar vantagens e com isso te prejudicaram. Feche os olhos e pense nessas pessoas.

De novo. Olhe no rosto dele(s). Olhe profundamente nos seus olhos. Imagine cada detalhe de sua face.

Pronto…

Agora imagine que ele é seu filho ou sua filha. Que por mais que tenha feito coisas erradas você jamais deixará de perdoar, pois que suas almas foram conectadas até antes mesmo dela nascer. Olhe para seu inimigo como se ele fosse da sua carne, tão próximo que você pode até sentir o que ele sente.

Pensou? Percebeu que, assim tornados próximos, os inimigos se humanizam? Desta maneira fica mais fácil entender a sua mágoa e o que os fez atacar e agredir. Quem sabe entender e perdoar seus desafetos seja o maior presente de Natal possível de ser oferecido.

Podemos tentar, ao menos…

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Tempos Modernos

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Se há uma coisa que me arrependo na juventude é não ter investido pesadamente nos momentos de lazer e alegria com meus filhos. Eu era muito jovem quando fui pai, e o acúmulo de atividades (faculdade de medicina e sete empregos simultâneos) aliada à escassez de recursos me dificultavam o convívio com os pequenos. Eu sei, são desculpas, mas é o que me resta e me dá conforto. As férias eram sempre entremeadas com trabalhos fora de hora, plantões que pagavam bem mas que ninguém queria fazer (carnaval, Natal, etc..), e eu sempre me sentia compelido a aceitá-los. Hoje em dia eu tenho um remorso danado dos momentos que poderia ter usufruído, mas que deixei passar por me preocupar com coisas menores e muito menos importantes do que estar ao lado dos filhos.

Vivemos em um mundo em que o trabalho desempenha um papel central em nossas vidas. Era assim que eu o via. Estudar para me qualificar, me qualificar para trabalhar, e trabalhar para “ser alguém na vida”. O trabalho define e mostra quem a pessoa é, e como se situa no mapa social. Entretanto, eu vejo com preocupação na sociedade contemporânea uma supervalorização do trabalho como tendo o “sentido mais importante na vida de um sujeito”.

Eu creio que esta questão é complexa, e não pretendo esgotá-la em meia dúzia de frases. Se posso entender o significado da função social do trabalho, também posso entender que as relações afetivas e as responsabilidades que temos com aqueles que por nós se afeiçoam não podem ser desprezadas. E na sociedade em que vivemos, trabalhar de forma ininterrupta tornou-se uma meta acima de todas as outras. Não só trabalhar, mas ser fanático pelo trabalho, doente por ele, obcecado pela produtividade e pela excelência, mesmo que esta função social assuma a posição de destaque, acima dos outros objetivos de nossa vida. No mundo atual “workaholic” – aquele que trabalha em excesso e de forma insana – passou a ser um elogio, uma marca indefectível oferecida para os “vencedores”.

Pois eu vejo de forma diferente. Acredito que trabalhar demais é para os pobres de espírito. A cultura do “workaholic” é uma mitologia para burros de carga, que valoriza e coloca em um pedestal o indivíduo que situa seu trabalho acima das relações pessoais ou de seus afetos. É uma forma sutil de escravidão moderna, onde os grilhões não são mais de ferro, mas de mitos e preconceitos urbanos. “Fulano é espetacular, um workaholic obstinado, determinado e incansável” Não, em verdade ele não passa de um tolo!!! Trabalhar acima da conta é um desrespeito consigo mesmo e com a família. Trabalhar acima do que é razoável é para trouxas ou escravos. O trabalho deve ser gratificante e produtivo, lúdico e desafiador. Ele não pode ser um FIM, mas um meio para ser útil ao mundo que nos cerca. O dinheiro que dele advém deve servir apenas para oferecer segurança, tranquilidade e conforto, e não para ser um brinquedo perverso de colecionadores de moedas.

Adrenalina sim, mas jamais sem o contraponto da ocitocina. Se é importante a influência fálica e desafiadora no mundo, onde o trabalho o esforço e a criatividade terão destaque, também serão fundamentais a placidez, o compartilhar, o descanso e o prazer. Sem essa dualidade, em que ambos os aspectos de nossa vida tem espaço para se expressar, seremos autômatos infelizes, semelhantes ao pobre operário de Chaplin em Tempos Modernos.

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Viagens e Sonhos

Paris - Eiffel

Quando eu tinha 14 para 15 anos minha mãe fez a viagem dos seus sonhos para a França. Como boa “francófila” passou a vida inteira sonhando com as ruas, os cafés, os “boulevards”, os museus, as estações de “metropolitain” e o ar que se respira na “cidade luz”. Pois, aproveitando que meu pai foi estudar na França, ela juntou-se a ele no final da sua viagem e passou um mês em pleno sonho, caminhando por cada ruela, cada praça e cada edificação resplandecente. Talvez este tenha sido o maior exemplo que tive na vida de um sonho a se cumprir…

Na volta ela nos trouxe presentes simples, que eram revestidos de um simbolismo especial. Um chaveiro, bugigangas do avião, imagens da cidade e coisas comuns que turistas compram. Entretanto, muito mais do que o valor de qualquer objeto, estava a impregnação que eles traziam de uma viagem de sonhos e de um projeto criado havia muitos anos em sua mente cheia de fantasias sobre a onírica e romântica cidade de Paris. Entre estes presentes estava um “blusão“, que hoje chamaríamos de “moletom”, em que se lia, em letras estilizadas, “Saint Michel et Saint Germain“.

Perguntei a ela do que se tratava, se eram apenas os nomes de dois santos especiais da cidade, ao que ela me respondeu, com um sorriso maternal, que estes nomes se referiam a um cruzamento de duas avenidas de Paris. “Nada de mais, meu filho, apenas um cruzamento por onde passei”. Imediatamente a minha cabeça de menino criou uma esquina cuja atmosfera era de magia palpável, um ar de sonho respirável e adocicado, um local onde as fantasias mais profundas se realizavam. Minha mãe havia cumprido o maior sonho de sua vida na esquina das ruas que eu carregava no peito. Por muitos anos, até ela ficar puída e pequena demais para um adolescente que se espichava, eu usei o blusão da cidade dos sonhos, a Paris que minha mãe amava e por quem ela tanto sonhou.

Hoje, passeando pelas ruas de Paris, tomei uma sopa de cebola em um pequeno restaurante próximo da Rue du Louvre, acompanhado de uma cerveja Leffe. Levantei-me e segui para a próxima esquina onde fica uma praça, chamada de Saint Michel. Ao lado dela a rua com o mesmo nome. Surpreso pela coincidência inesperada, continuei por ela, magnetizado ela possibilidade de encontrar o cruzamento que habita minha mente há quase 40 anos. Poucos metros adiante, próximo do Panteão, chego ao mítico encontro das ruas Saint Michel e Saint Germain. Como todo encontro por muito tempo esperado, ele nos deixa com a sensação de que algo falta. “Onde estão os fogos de artifício, as dançarinas de can-can, as luzes, os cantores de rua tocando acordeon? Ora, pensei, nenhuma realidade seria capaz de acompanhar a fértil imaginação de um menino“. Entretanto, ali estava a esquina misteriosa, o encontro das ruas que povoaram minhas fantasias infantis. Queria muito que minha mãe pudesse estar aqui comigo para poder me contar como era Paris há 40 anos, o que ela pensou quando aqui realizou seu grande sonho e o que isso significou para sua vida.

Talvez seja melhor assim. O sonho ficou apenas para ela mesma. É bem provável que ela fosse absolutamente incapaz de traduzir em palavras o sentimento que teve ao visitar a cidade. É possível também que tais emoções só existam em um terreno em que as palavras não fazem sentido algum. Além disso, outra mera suposição, a minha emoção ao encontrar essa esquina talvez não tenha tradução, e tudo o que está escrito aqui é uma tola e ridícula aproximação dos sentimentos de um menino de 14 anos ao escutar as palavras de sua mãe, cheias de afeto, esperança e carinho.

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Cyberbullying

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Quando o Orkut era o canal mais popular de conversas on line no Brasil eu criei a comunidade “Parto Humanizado”, exatamente para debater as questões relacionadas à humanização do nascimento no Brasil (e posteriormente de outras partes do mundo). De uma hora para outra a comunidade encheu, inflou-se e chegou a ter 5 mil pessoas inscritas. O sucesso dos participantes acabou atraindo pessoas contrárias à causa da humanização, que infiltravam-se nas conversas para agredir os interlocutores. Assim, o caráter anônimo destes participantes fazia com que a comunidade fosse recheada de “stalkers” e “trolls”, sujeitos interessados apenas em participar de uma recém criada modalidade de ação perversa: o “cyberbullying” (perdão pelo excesso de estrangeirismos – espero que encontremos em breve palavras em português que definam estes atores sociais e estes comportamentos perversos).

Atuando escondidos na multidão e com sua identidade escondida, a exemplo dos “bravos e corajosos” anônimos dos estádios de futebol, estes indivíduos entravam nas comunidades e despejavam ódio, rancor, ressentimento, ignorância e violência verbal de todo o tipo. A atitude era sempre provocativa, ácida e maldosa. Muitas vezes fui chamado – por ser o moderador – para acalmar (e até expulsar) pessoas cujo comportamento era absolutamente abusivo com os demais, muito além do que se admitiria perante um contraditório, uma diferença de opinião ou ponto de vista.

Mas o Orkut desapareceu, e com ele estas personalidades destrutivas e anônimas, certo? Só que não….

Elas continuam povoando os debates e as conversas. Podem ser facilmente encontradas na seção “comente a notícia” dos jornais, onde despejam, o fel de sua amargura contra os criminosos, os gays, os pobres, os políticos, os exóticos e todos aqueles que são diferentes de si mesmos. Procuram avidamente qualquer iniciativa honesta e caridosa para tratá-la como mentira, engodo ou falsidade. Pisoteiam a dor alheia, desrespeitando os mais nobres sentimentos humanos, como o sofrimento por uma perda.

Para estas pessoas, anônimas, acovardadas em seu pequeno mundo cibernético, eu recomendo que tenham responsabilidade sobre o que falam e dizem. O Bullying entre adolescentes, na sua modalidade “internet”, passou a ser um assunto de polícia e de saúde pública, em vista de tantos acontecimentos dramáticos e trágicos que acontecem ultimamente, como suicídios e assassinatos. E para os adolescentes que sofrem este tipo de agressão o conselho é que NÃO REVIDEM! Não participem do círculo vicioso de rancor, mágoa, agressão. Não retaliem, porque o ódio de quem os ataca é muito maior. Peçam ajuda – família, autoridades ou polícia – compreendam a dor de quem os ataca mas não participem desta doença.

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Parto e Sexualidade

Tais

Há algum tempo uma pessoa me perguntou “afinal, qual a diferença entre parir em um hospital e em casa“, querendo me dizer que não havia razão para ter um filho na segurança de um domicílio já que os hospitais poderiam proporcionar o mesmo cuidado ali prestado associado ao uso de tecnologia mais sofisticada.

Diante dessa pergunta eu respondi: “E difícil explicar esta questão sem uma compreensão mais ampla da transcendência desse evento, que em muito ultrapassa os valores físicos, biológicos, mecânicos e hormonais. Para usar uma comparação grosseira, a diferença entre estas duas experiência seria semelhante àquela de ter uma relação sexual com uma desconhecida e fazer amor com o grande amor da sua vida. Do ponto de vista biológico, hormonal e mecânico os dois eventos são parecidos, para não dizer iguais. Movimentos semelhantes, alterações hormonais, excitação, orgasmo e período refratário. Entretanto, qualquer pessoa que não seja absolutamente desprovida de sentimentos percebe a distância abissal entre estes dois eventos”.

Sem a dimensão do amor, da paixão e da espiritualidade (num sentido amplo) não há como a ciência contemplar os significados infinitos de um nascimento em paz. Tentar traduzir matematicamente um parto, imaginando esgotar-lhe as possibilidades de entendimento, é perder a essência e a magia incomensurável do que significa ser humano.

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