Memórias do Homem de Vidro – 01

Nascimento em Metamorfose

Deitada no leito, sua face esquálida e suada parece ainda mais branca. Os lençóis revoltos encobrem um corpo inquieto. As sombras dançam na parede, tendo a brisa que entra pela fresta da janela como melodia. O teto, a cama, o lampião — nada parece ser exatamente o que é. A casa simples e rude está em sintonia com os personagens da cena. O olhar da mulher busca avidamente por alguém. Pre­cisa de algo. Seu coração sente a necessidade de ajuda. Nem sabe porquê, mas sua alma reclama uma presença. Sua mão se ergue em direção à porta em cujo batente, encostado, está um menino. Com os olhos arregalados pela falta de luz e pelo medo, o frágil menino lhe estende a mão magra e delicada. Ela espera que uma dor cesse, respira fundo e lhe diz com uma voz fraca, porém firme:

— Chame dona Maria, meu filho. Diga-lhe que chegou a hora. Avise que a bolsa já rompeu e que não demora ele vem. Ah, e avise seu pai também.

O moleque escuta e sai em disparada porta afora. Seu coração pula no peito. Ele é um mensageiro. É Feidípedes em sua maratona. Incorpora a gravidade do mo­mento e coloca o coração nos calcanhares. Está orgulhoso e empolgado com a tarefa. O medo se mistura à excitação. Vira quatro ou cinco esquinas, atravessa algumas ruas sem olhar para o lado e chega à casa de Dona Maria. Seu peito pa­rece pular mais forte do que as batidas que dá na porta da velha casa de madeira. Repete o gesto até escutar movimento na casa. Então, a porta se abre e vê apa­recer o vulto de uma velha senhora, nos seus sessenta e muitos.

“Dona Maria… a bolsa… a minha mãe. As dores…”, balbucia. Com fôlego entre­cortado, repete as palavras que pareceriam sem sentido, não fosse a velha se­nhora uma mulher acostumada à cena. Ela sorri um sorriso quase maroto. Olha enternecida para o menino. Pousa a mão calejada em sua cabeça suada. “Calma, moleque! Respire fundo… Já entendi tudo”, diz ela com o mesmo sorriso ainda no rosto. “Corre, avise seu pai. Mas antes tome um copo d’água. Fique tranquilo, vai dar tudo certo. Arrumo minhas coisas e já vou para sua casa.”

As modificações evidentes no entendimento do parto, oportunizadas pelos últimos séculos e principalmente nas últimas cinco décadas, nos obrigam a um questio­namento profundo e crítico sobre o respeito dos caminhos que estamos trilhando, assim como da responsabilidade que temos ao tratar de um evento de tamanha magnitude como processo de reprodução. A cena acima descrita faz parte do nosso imenso repertório de histórias de parto, mas talvez estejamos perdendo aos poucos a possibilidade de reviver essas narrativas no mundo real, pela absoluta invasão da tecnologia sobre esse cenário até então dominado pela natureza e seus desígnios.

Somos inexoravelmente seres culturais. Nossa história foi marcadamente cultural depois do processo de encefalização ocorrido há dois milhões de anos passados. Depois de termos conquistado a bipedalidade, o crescimento cerebral foi o grande processo adaptativo que nossa espécie teve de enfrentar. A necessidade de cres­cimento de massa encefálica foi consequência de uma maior especialização do nosso cérebro pelas crescentes tarefas incorporadas ao nosso dia a dia. Depois disso, a criação do núcleo familiar foi claramente determinada pela altricialidade do recém-nascido. Nossos filhos nasciam cada vez mais dependentes e frágeis, obrigando, por processos adaptativos, a manutenção desse homem primitivo ao lado dessa mulher. Assim, criamos o protonúcleo cultural: a família. Apesar de não ser exclusividade do ser humano (algumas aves a utilizam), ela é única em seus significados e em sua função. A dependência de outros parceiros para a caça, coleta, segurança, manutenção de alimentos e criação de filhos consagrou nossa tendência gregária. Vivemos, sim, amontoados. Esses fatos, encadeados e soma­dos, foram os responsáveis pela nossa sobrevivência como espécie e, mais do que isso, como o grupo dominante na face da terra. Somos seres que procuram proximidade e somos “contadores de histórias”, como diria Stephen Gould. Nesse contexto, construímos o que entendemos hoje por “cultura”, que é a multiplicidade de histórias e maneiras de entender o cotidiano. Aprendemos a usar ferramentas que fazem ferramentas; aprendemos com os erros dos outros; somos os únicos animais que encaram sua finitude e sabem que estão fadados à morte. Temos a capacidade de simbolizar e de articular sons. Criamos a cultura a partir do cresci­mento de histórias e do significado que a matriz da sociedade deu a elas.

A cultura é necessariamente fundada em pilares muito sólidos. Precisamos de re­gras, leis e regulamentos que permitam que o nosso natural instinto egoístico seja mantido sob controle, para que a sociedade como um todo possa sobreviver. Mas nossa cultura repousa sobre uma matriz invisível, criada por nós mesmo em nome dos valores que erigimos como sendo os mais adequados para a nossa sobrevi­vência. Cada local e cada sociedade têm seus próprios valores, com suas caracte­rísticas próprias, apesar de que assombra muito mais a semelhança entre esses valores do que as eventuais dissonâncias. Não existem sociedades sem tabus, nem sociedades sem controle sobre a reprodução. Isso nos dá conta de um pa­drão universal adotado para o ajuste das sociedades crescentes.

Entretanto, o mudar das circunstâncias obriga a reformulação da matriz. Essa mu­dança sempre é muito lenta e gradual, para não solapar a organização que a muito custo criamos. A tecnologia crescente dos séculos XVII e XVIII, juntamente com o humanismo e o iluminismo, nos fez aos poucos derrocar a religião e a ma­gia como direcionadoras dos nossos sonhos escatológicos, colocando a ciência e a tecnocracia como suas fiéis sucedâneas.

Nesse embate, que perdura até hoje, vimos paulatinamente a ciência conquis­tando espaços até então apenas ocupados pelo misticismo e pelas explicações sobrenaturais e religiosas. A instituição passou a ser mais importante do que a natureza, porque a instituição é obra do homem, enquanto a natureza é obra do divino; foi-nos dada de presente. O que foi construído e modificado passou a ser mais importante e valorizado do que aquilo que nos foi oferecido graciosamente.

Na saúde, não poderia ser diferente. Fomos doutrinados a acreditar que a natu­reza é falha e que apenas através de um aporte tecnológico podemos manter nosso equilíbrio orgânico. As crianças ocidentais são, desde a mais tenra idade, bombardeadas de forma incessante por todo o tipo de drogas; dos antitérmicos e antibióticos, passando pelos neurolépticos e até pelos antidepressivos. Somos (enquanto médicos ou pacientes) doutrinados a acreditar em uma visão exógena de doença, cuja solução só pode ser igualmente exógena. O contraponto a essa visão antropológica da doença é, no mundo ocidental, ocupado pela homeopatia e pela psicanálise, que acreditam estar no próprio ser a origem profunda dos seus males. Entretanto, são elas ainda visões minoritárias e contra-hegemônicas na cultura.

A imagem do menino corredor, buscando o auxílio na experiência de uma mulher mais velha, dotada de saber autoritário em uma era pré-tecnológica, parece aos poucos estar desbotando no mural das nossas recordações. Apesar disso, essa cena fez parte do cenário cultural de gerações. Está em nossa memória coletiva, no nosso inconsciente. Ela está nos filmes, nas histórias, nas lendas, nos contos. Está nos estudos de antropologia e nas canções populares. O universo do nasci­mento confundia-se com o universo do feminino, e a geração de um novo ser no claustro materno inseria-se absoluta e inexoravelmente no mundo das mulheres. Era seu destino, sua sina, sua dívida. Aos homens cabia a contemplação e o en­cantamento. E a inveja recôndita, mascarada e escondida. Durante os milhares de anos em que a humanidade se desenvolveu, esta era a regra básica para o en­tendimento do fenômeno: este é um mistério, um mistério divino. Uma coisa de mulher.

Uma série de eventos, entretanto, rompeu esse vínculo do nascimento com a na­tureza. O surgimento de várias conquistas científicas na área da biologia (como a circulação do sangue, a noção mais exata da anatomia pelas dissecações, os es­tudos de patologia, etc.), aliadas ao molde conceptual e filosófico trazido pelo me­canicismo de Renée Descartes, produziu o caldo cultural necessário para a en­trada do saber médico na obscuridade mágica e úmida do nascimento humano. A tecnologia, enquanto ferramenta, começava a ocupar o lugar outrora ocupado pela intuição e pela experiência.

Os homens, a partir de meados do século XVII, iniciavam na tarefa de atender as gestantes e os partos, deslocando paulatinamente as parteiras, curiosas e “bru­xas”, que durante milênios foram as únicas “cuidadoras de mulheres” no momento de parir. Era a “vingança” daqueles que durante milênios estiveram alijados do milagre. Agora os homens também seriam co-criadores. Era a “couvade” (meca­nismo pelo qual os homens se “apoderam” do nascimento nas culturas primitivas, como os índios brasileiros, por exemplo) se manifestando de forma triunfante. Mais do que os homens, o “masculino” entrava no mundo das mulheres, trazendo com ele as luzes da razão, na tentativa de iluminar o obscuro e até então impene­trável mistério do nascer. O marco inicial dessa revolução poderia ser materiali­zado no primeiro grande instrumento masculino no atendimento ao parto: o fór­ceps. Criado pelos irmãos Chamberlain, na Inglaterra, foi mantido escondido dos olhares de curiosos, por ser uma ferramenta tão importante a ponto de tornar-se alvo da cobiça de concorrentes. A entrada dessa ferramenta fálica na história do nascimento determina um divisor de águas na obstetrícia. Nada mais seria como antes.

Com o correr dos anos cada vez mais tecnológica a obstetrícia foi se tornando. Os homens, antes espectadores atônitos e amedrontados, tornavam-se aos poucos condutores do processo. As mulheres passavam de protagonistas a assistentes passivas, seja como auxiliares dos médicos, seja na pele das próprias parturien­tes. O preço que a ciência cobraria para a sua entrada no cenário do nascimento ficou claramente estabelecido. A partir de então, não seria mais a natureza, com seus mistérios e incertezas, a conduzir o processo: a razão e a ciência assumiriam as rédeas. Com isso, muitas vidas poderiam ser salvas, muitas mulheres deixa­riam de morrer; muitas crianças seriam retiradas heroicamente do seu destino cruel pelas mãos (ou instrumentos) que os homens traziam.

Poucos séculos nos separam da obstetrícia “feminina”, mas podemos constatar, através das informações que nos chegam, a guinada que produzimos no atendi­mento às gestantes. Nos dias de hoje, no mundo ocidental contemporâneo, quase todos os partos são realizados em hospitais, estando as mulheres apartadas do seu ambiente e da sua família. O nascimento deixou de ser um evento cultural para se tornar um acontecimento médico. A intervenção passou a ser a regra. Na classe média das grandes cidades, os índices de cesariana chegam a 90%. Nos partos normais, ocorrência cada vez mais rara nos centros médicos do ocidente, cerca de 90% das pacientes usam medicações potencialmente perigosas para os bebês. A analgesia do parto tornou-se quase uma obrigatoriedade nos centros obstétricos. A intolerância com as práticas não-ortodoxas tem aspectos de perse­guição religiosa. A jornada tecnológica adentrou e apoderou-se do evento do nas­cimento, deslocando a própria mulher do papel de protagonista: os médicos e seus instrumentos tornaram-se os atores principais do parto. Às mulheres cabe a tarefa de transportar os “filhos do mundo”, para que no final do trajeto sejam rece­bidos pelos guardiões da saúde e do bem-estar, em nome da sociedade e das instituições. O apoderamento de um fenômeno humano, como o parto, por uma corporação ainda não foi suficientemente debatido para que entendamos as pro­fundas repercussões de tal mudança para a própria civilização, a cultura e a sa­úde.

Depois de um investimento pesado nas conquistas da ciência, temos o dever de reavaliar nossas posturas e no que em verdade avançamos. A ninguém parece plausível que o fenômeno do nascimento seja relegado à desassistência, mas o preço pago pela supermecanização parece estar cada dia mais alto. Surge na ca­beça de muitas mulheres, bem como de muitos profissionais da área, uma ques­tão: pode um fenômeno tão visceralmente feminino como o nascimento ser con­duzido por pressupostos filosóficos tão absolutamente masculinos? Da resposta a essa questão certamente aparecerão novos posicionamentos, novas visões e uma reavaliação do que realmente conquistamos até agora.

Os resultados negativos do tecnicismo nós os vemos todos os dias: epidemia de cesarianas, mortalidade materna alta, morbidade perinatal alta, incidência au­mentada de prematuridade iatrogênica, insatisfação das usuárias e custos estra­tosféricos. Apesar de, no mundo de hoje, uma grande parcela das crianças ainda nascer pelas mãos das parteiras, no ocidente da atualidade a medicalização cres­cente é uma realidade que nos mostra esses índices alarmantes. Ao lado de ofe­recer segurança para as mulheres no momento de parir, está na hora de garantir­mos a elas aquilo que ancestralmente possuíam e que lhes foi retirado pelo modo de vida contemporâneo: o afeto, a parceria, a feminilidade, o calor, a alegria e a sensação de aconchego que outrora recebiam em seus lares.

Nossa medicina obstétrica iatrocêntrica (centrada na figura do médico), etiocên­trica (centrada na patologia e na doença) e hospitalocêntrica (que entende e privi­legia os hospitais como centros disseminadores de saúde) não consegue oferecer a feminilidade que o parto reclama, pela incapacidade de reconhecer as necessi­dades básicas de uma mulher no momento de parir. É chegada a hora de que es­ses conceitos masculinos aplicados ao nascimento, que há alguns séculos po­voam os nossos dias, sejam revistos.

Para que o parto possa novamente ser uma “coisa de mulher”. Com segurança, com alegria e com afeto.

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Memórias do Homem de Vidro

Orelha – Prefácio – Introdução

Orelha

Ricardo Jones, MD is a physician who is both knowledgeable in evidence based – best practices and honors the wisdom of this sacred and sensitive time in a woman’s, baby’s and family’s life.  It is with this blend of wisdom and knowledge that Dr. Jones is shining a light on our current path of technocratic darkness to a new way of caring for women at this very special time in their lives.

“Memórias do Homem de Vidro”  shows us a model of physicians working in collaboration with midwives, nurses and doulas, supporting women as they reclaim the power and majesty of birth.   His strong yet gentle presence allows babies to enter the world in peace and surrounded by an environment of love and nurturing. In order to create a peaceful world, we must start by how we care for women and their babies at this sensitive and sacred time of bringing a new life into our world.

Dr. Jones in sharing his journey from doctor to healer, will encourage you to begin your own journey.   (Book Title) will have you reflect on your practices and your beliefs surrounding childbearing and transcend what is outdated and develop a new model of caring, that promotes, protects and creates peaceful births and ultimately a more peaceful world.

Debra Pascali-Bonaro, B.Ed, LCCE, CD(DONA) PCD(DONA)

Childbirth Educator, Doula Training and member of the Leadership Council Coalition for Improving Maternity Services, and the Adjunct Faculty for Continuing Education, School of Nursing, State University of New York at Stony Brook, Stony Brook, NY.

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Prefácio

Ricardo Jones é um homem com uma história para contar – uma história que começa com transparência, passa por transformação e flui para integração. Nesse maravilhoso livro, ele conta essa trajetória através das diversas narrativas dos partos que ele assistiu, e das mulheres que o ensinaram a maioria das coisas verdadeiramente importantes sobre o nascimento.

Eu conheci “Ric” – como ele se tornou conhecido no universo cibernético – no Congresso Internacional de Humanização do Nascimento de 2000, em Fortaleza, onde nós – e todos os demais participantes – pudemos presenciar o nascimento de um movimento internacional de resgate do parto e nascimento. Os organizadores do Congresso esperavam ao redor de 600 congressistas, mas no fim do primeiro dia já havia 2000 inscritos. Médicos, enfermeiras-obstetras, enfermeiras, doulas, oficiais do governo, administradores de hospitais e dezenas de parteiras tradicionais se uniram em torno de uma profunda preocupação com as condições do nascimento e cuidado materno na América Latina. A alta taxa de cesarianas no Brasil foi o principal catalisador dessa conscientização geral pela necessidade de uma mudança. No congresso havia uma grande confusão sobre qual seria o real significado de “humanização do parto”. Alguns hospitais, através de seus diretores, se pronunciavam afirmando terem se “humanizado” porque agora permitiam a entrado do pai na sala do parto. Outros médicos, entretanto, insistiam que humanização deveria ser bem mais do que isso. Neste contexto, e na condição de antropóloga ligada à reprodução e ao nascimento, proferi uma palestra com a intenção de esclarecer o que a humanização do parto genuinamente é. Sabendo que a humanização só pode ser compreendida entendendo-se o que ela não é, apresentei três paradigmas internacionais do nascimento: o modelo tecnocrático, o humanístico e o holístico.

Sintetizando, o modelo tecnocrático enfatiza a separação entre corpo e mente, e estabelece a máquina como a mais adequada metáfora para o corpo humano. Esta metáfora privilegia a percepção do paciente como objeto, a alienação do médico de seu cliente e o uso intensivo de intervenções tecnológicas durante o parto. Objetiva melhorar o funcionamento ou corrigir as assim interpretadas disfunções do corpo/máquina da mulher que está parindo. No outro extremo deste espectro de conceitos, o modelo holístico define o corpo como um “campo energético” em constante interação com outros campos de energia, e insiste que intervenções no nível energético e emocional podem ser mais efetivas e muito menos danosas do que as intervenções tecnológicas. Os proponentes da Humanização do Nascimento encontram-se no terreno intermediário dessas duas correntes, definindo o corpo humano como um “organismo” e enfatizando a importância do paciente como sujeito relacional. Estes profissionais supervalorizam a conexão e o afeto entre médico e paciente como elementos essenciais de qualquer tipo de cuidado médico, incluindo-se aí o nascimento. Os Humanistas fazem, sim, intervenções tecnológicas, mas tentam minimizar seus efeitos potencialmente alienantes com amor, tato, carinho e compaixão, mantendo sempre uma atitude de respeito pela individualidade, desejos, vontades e escolhas de seus pacientes. (Para uma descrição e análise completas desses paradigmas ver: Davis-Floyd and St. John 1998; Davis-Floyd 2001).

OS MODELOS TECNOCRÁTICO, HOLÍSTICO E HUMANÍSTICO EM MEDICINA:

O Modelo Tecnocrático de Medicina

  1. Separação mente/corpo;
  2. O corpo é visto como uma máquina;
  3. O paciente como um objeto;
  4. Alienação entre médico e paciente;
  5. Diagnose e tratamento de fora para dentro (curando doenças, reparando disfunções);
  6. Organização hierárquica e padronização de atendimento;
  7. Autoridade e responsabilidade inerentes ao médico, não ao paciente;
  8. Supervalorização da ciência e da tecnologia;
  9. Intervenção agressiva com ênfase em resultado a curto-prazo;
  10. A morte é encarada como uma derrota;
  11. Um sistema dirigido pelo lucro;
  12. Intolerância com outras modalidades;

Princípio básico subjacente: separação;
Tipo de pensamento: unimodal, cerebral esquerdo, linear.

O Modelo Humanístico (Biopsicosocial) de Medicina

  1. Mente e corpo como uma unidade;
  2. O corpo como organismo;
  3. O paciente como sujeito relacional;
  4. Conexão e afetividade entre profissional e paciente;
  5. Diagnóstico e tratamento de fora para dentro e de dentro para fora;
  6. Equilíbrio entre as necessidades da instituição e as do indivíduo;
  7. Informação, tomada de decisões e responsabilidade compartilhadas entre profissional e cliente;
  8. Ciência e tecnologia contrabalançadas com humanismo;
  9. Focalização na prevenção das doenças;
  10. Morte como um resultado aceitável;
  11. Cuidado compassivo;
  12. Mente aberta diante de paradigmas alternativos de tratamento.

Princípio Básico Subjacente: Equilíbrio e Conexão
Tipo de pensamento: Bimodal

O Modelo Holístico de Medicina

  1. Corpo, mente e espírito como uma unidade;
  2. O corpo é um sistema de energia ligado com outros sistemas de energia;
  3. Cura a pessoa “inteira”, no contexto de sua vida como um todo;
  4. Médico e paciente como uma unidade essencial;
  5. Diagnose e cura de dentro pra fora;
  6. Estrutura organizacional em rede, que facilita a individualização do atendimento;
  7. Autoridade e responsabilidade inerentes a cada indivíduo;
  8. A ciência e a tecnologia são colocadas a serviço do indivíduo;
  9. Uma focalização que objetiva criar e manter a saúde a longo-prazo;
  10. A morte é encarada como uma etapa de um processo;
  11. A cura é o foco principal;
  12. Admite várias modalidades da cura;

Princípio básico subjacente: conexão e integração

Tipo de pensamento: multimodal, cerebral-direito e fluído.

 O Espectro Médico

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Modelo tecnocrático >>>><<<< Modelo humanizado >>>><<<< Modelo Holístico

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Essa tabela foi retirada do livro “From Doctor to Healer: The transformative Journey” de Robbie Davis-Floyd e Gloria St.Jonh. New Brunswick NJ: Rutgers University Press, 1998.

Ao me virar para sair do pódio, quando do término de minha palestra no Congresso de Fortaleza, dei de frente com um grupo de jovens e entusiasmados obstetras que desejavam me conhecer. Diziam eles serem médicos de muitas cidades do Brasil, esforçando-se, à sua maneira, para realizar um trabalho verdadeiramente humanizado, ou até mesmo holístico. Grande parte deles sofria pelo fato de serem os únicos profissionais tentando trabalhar de uma forma diferenciada em suas comunidades. Isolados e escassos, foram aos poucos se encontrando uns aos outros e criaram uma rede nacional – a Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – que eles abreviaram como REHUNA. Eles pretendiam que essa rede e sua organização se tornassem parte integrante de um grande movimento de humanização da assistência à saúde no país.

Ric era um membro entusiasta desse pequeno grupo.

Em Fortaleza nosso encontro foi breve mas, 10 meses depois, em uma conferência no Rio de Janeiro, ele me ajudou como tradutor e como “professor” sobre a realidade do nascimento no Brasil. Lá, e em outras conferências que se seguiram, tive a oportunidade de ouvir suas palestras e conhecê-lo melhor. Acabei desenvolvendo uma profunda admiração pela sua jornada transformativa, afastando-se da obstetrícia intervencionista e tecnocrática e se aproximando cada vez mais de uma abordagem verdadeiramente holística. Eu fiquei surpresa ao saber que ele atendia em um consultório de ginecologia e obstetrícia, prestava assistência como voluntário em uma clínica homeopática para a população pobre de sua cidade e realizava partos em hospitais e nas casas das suas pacientes, utilizando uma abordagem multidisciplinar e atuando em equipe.  Sua equipe consiste de um obstetra (o próprio Ric), uma enfermeira obstetra (Zeza, que é a sua esposa) e uma doula (Cristina). Muito simples e muito eficaz. Juntos eles assistem partos nas casas das pacientes e, se uma transferência para o hospital se mostra indispensável, Ric como médico fará qualquer tipo de intervenção necessária. Eu pude perceber que esse modelo simples utilizado pela equipe de Ric agregava um valor que as parteiras do meu país, os Estados Unidos, emprestam muita importância, e que denominam de “continuidade de cuidado”. Percebi na arquitetura simplificada e eficiente que adota no atendimento às gestantes de sua cidade um exemplo claro de “modelo que funciona”, e o convidei a participar do meu novo projeto de livro que se chamará “Models That Work”, que congregará experiências transculturais de sucesso na abordagem ao nascimento no mundo inteiro.

Eu fiquei igualmente impressionada pela percepção que Ric tem de seu papel na assistência aos partos. Ele considera o trabalho de parto e o parto como sendo um processo por essência da mulher. Desta forma, ele tende a ficar “fora do caminho” para permitir que a doula e a enfermeira obstetra trabalhem para apoiar a mãe enquanto o processo se desenrola. Ele está lá para auxiliar com sua experiência e conhecimento, caso se faça necessário. Entretanto, gosta de brincar dizendo que sua principal função durante o trabalho de parto é como fotógrafo. Se a mãe escolhe ter um parto hospitalar ele estará lá para dar suporte junto com a enfermeira obstetra e a doula, intervindo, se necessário, com suas habilidades técnicas; o mesmo ocorrerá se a preferência for um parto domiciliar, desde que cumpridas as rígidas regras para assistência ao parto fora do hospital. A principal diferença entre obstetras como Ric e os mais tradicionais e tecnocráticos não é relacionada às habilidades, mas sim às ideologias que determinam sua prática e que estabelecem um atendimento mais baseado em evidências científicas atualizadas. Por seu profundo estudo destas evidências Ric sabe quando as intervenções são verdadeiramente indispensáveis para salvar vidas e quando essas mesmas intervenções vão apenas interferir negativamente no processo do parto e criar complicações. Suas pacientes que utilizaram ocitocina, fórceps, ou mesmo uma cesariana podem ter certeza que essas intervenções foram necessárias e apropriadas. Muitos médicos têm medo do que pode acontecer se apenas deixarem o parto fluir naturalmente, e são treinados para intervir a todo o momento para prevenir um possível desastre. Quando eles intervêem desnecessariamente essas intervenções freqüentemente causam problemas, que acabarão sendo resolvidos, ou não, com mais intervenções. Ao invés de passar por todo esse processo muitos obstetras brasileiros decidem por uma cesariana como primeira escolha, sem maiores reflexões. Poupam desta forma tempo, energia e dinheiro, livrando-se do compromisso mais rapidamente para poder retornar aos seus consultórios e atender seus pacientes privados. Ric teve o mesmo treinamento que eles médicos tiveram, mas durante o seu período de residência teve uma epifania transformadora, a qual ele relata nesse livro. Essa experiência, e as outras que se seguiram, lhe mostrou que o que estava fazendo, como um obstetra tecnocrata, era essencialmente tirar a habilidade e o poder feminino de dar a luz.

Diante desta dura constatação primeiramente ele se viu em choque. Percebeu que sua maneira de conduzir o parto estava equivocada, mas não conseguia encontrar uma alternativa de mudança. Foi então que começou a pesquisar a literatura internacional sobre humanização do parto e a estudar a enorme quantidade de evidências científicas que demonstram os efeitos negativos das intervenções mal aplicadas, assim como os efeitos positivos de uma abordagem não-intervencionista. A partir deste ponto criou o Protocolo de Atendimento Obstétrico Humanizado (PAOH) que estimula as gestantes a andar, manifestar as suas emoções, receber apoio físico e emocional de seus parceiros e da doula, ingerir líquidos durante o trabalho de parto e dar à luz em posições verticalizadas. Além disso, aboliu as intervenções rotineiras não justificadas cientificamente, como enemas, tricotomia, monitorizações eletrônicas, jejum forçado, etc. Ele acompanhou seu trabalho de mais de 15 anos através de estatísticas, realizando relatórios minuciosos de cada parto assistido, e pôde assim ver com clareza o enorme melhoramento nos resultados que essa nova abordagem humanizada estabelecia.

Não importa quão humanizado, quão competente e quão hábil seja, todo obstetra terá, em algum momento de sua carreira, de enfrentar uma morte. Esse momento veio para Ric quando sua cliente e companheira de lutas no terreno do feminino teve uma súbita embolia por líquido amniótico durante um trabalho de parto que até o momento transcorria de forma absolutamente tranqüila. Essa é uma situação que nenhum médico pode prever ou prevenir, e mesmo com todos os esforços de Ric, ambos, mãe e bebê, não resistiram. Sua paciente e amiga veio a falecer de uma infecção adquirida no hospital, quando já estava curada da embolia que a acometeu. Essa tragédia marcou a sua vida desde então, desafiando-o em todos os níveis. Eu também sei o que é ser eternamente marcado pela tragédia – três anos atrás minha filha Peyton morreu em um acidente de carro apenas quatro dias antes do seu 21º aniversário. Um dia Ric e eu estávamos discutindo a importância dessas tragédias gêmeas em nossas vidas, e percebemos que ambas ocorreram no mesmo dia, quase que no mesmo instante. Foi então que percebemos que de alguma forma estávamos ligados no esforço de transcender as tragédias que ameaçam nos destruir, para continuar no nosso esforço de melhorar o atendimento às mães e aos bebês.

Com o tempo, Ric se transformou para mim em um modelo do que pode acontecer com um médico que tem a coragem de pensar fora dos estreitos limites estabelecidos pelo seu treinamento médico e que baseia sua atitude profissional na medicina baseada em evidências científicas e no ato de ouvir e de dar poder às mães durante o parto. Eu já havia escrito um livro sobre o mesmo tipo de transformações que ocorreram nas mentes e nas práticas dos médicos americanos que tiveram a mesma coragem de abrir suas mentes e seus corações. O livro se chama “From Doctor to Healer: The Transformative Journey”.

Esse livro mágico que você está segurando em suas mãos lhe contará as histórias da jornada transformadora de Ric e de seus maravilhosos partos. Aqui você vai poder sentir os resultados magníficos que suas pacientes puderam alcançar por ele estar lá não para controlar, mas para dar apoio e poder a elas. Foi escrito com paixão e amor, e é com paixão e amor que as mulheres que ele atende podem dar à luz no lugar e da maneira de sua preferência. Se todo o obstetra oferecesse às parturientes o mesmo tipo de atendimento que Ric lhes dá não haveria mais necessidade de melhoramentos no atendimento aos nascimentos, ou mesmo de movimentos sociais para criá-los. Mas ainda não é assim que as coisas ocorrem. É minha esperança que este livro ilumine o caminho de muitos outros, para que o sonho de um nascimento essencialmente humanizado e centrado na mulher, que eu e Ric sonhamos, possa se tornar realidade.

Robbie Davis-Floyd

Pesquisadora Sênior, Departamento de Antropologia, Universidade do Texas, Austin.
Professora Associada Adjunta, Case Western Reserve University, Cleveland, Ohio.
Cleveland, Ohio, Fevereiro 2004.

Bio: Robbie Davis-Floyd PhD é uma antropóloga médica especializada na antropologia da reprodução. Como palestrante internacional, ela é autora de mais de 70 artigos e do livro Birth as an American Rite of Passage (1992); co-autora do livro From Doctor to Healer: The Transformative Journey (1998), e de The Anatomy of Ritual (ainda por ser lançado); e co-editora de oito coleções, Techno-Tots (1998); Daughters of Time: The Shifting Identities of Contemporary Midwives (um exemplar triplo especial of Medical Anthropology 20:2-3/4, 2001), and Mainstreaming Midwives: The Politics of Change (ainda por ser lançado). Sua Pesquisa em tendências globais e transformações no cuidado médico, parto, obstetrícia e no trabalho das parteiras é contínuo. Seus projetos atuais abordam mudanças em parteiras e obstetras americanos, mexicanos e brasileiros.

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Prefácio à 3a Edição

Nos últimos anos, a partir do lançamento deste livro, muitos acontecimentos mar­caram a trajetória dos movimentos de humanização do nascimento no Bra­sil e no mundo. Como poderia ser facilmente previsto, os índices de cesariana no nosso País alcançaram o ponto que Maximilian chama de “flipping point”: o momento em que a chance de realizar uma cesariana em um determinado local é a mesma que acertar a face de uma moeda que ficará para cima quando arremessada ao solo. No ano de 2012 as taxas de cesariana atingiram 52% dos nascimentos. Desde que nos erguemos sobre nos­sos membros traseiros para vislumbrar um mundo de possibilidades infi­nitas, o mecanismo complexo do parto foi a nossa mais elabo­rada estratégia. Entretanto, hoje em dia, nascer através de uma grande cirurgia abdominal é mais co­mum do que ter um filho através de um mecanismo fisioló­gico, mecânico, hor­monal e psicológico com mais de cinco milhões de anos de experimentação.

Estaremos, nesse afastamento insidioso de nossa essência humana, caminhando celeremente para uma rota de fracasso, assim como ocorreu em nossa história sempre que desmerecemos as lições que a natureza nos ofereceu?

As transformações no imaginário sempre se processam primeiramente na pa­lavra. É ela quem vai ditar a marcha dos acontecimentos. Assim como ocorreu por oca­sião do surgimento da obstetrícia contem­porânea – onde foi necessária a desvalo­riza­ção sistemática da capacidade feminina de gestar e parir com segurança – o parto imerso na cultura precisava ser depreciado para que sua concor­rente – a ce­sariana – pudesse ser tratada como a “opção prioritária” para o nascimento. As pala­vras acabam desempenhando o papel de arautos de uma nova com­preensão e tradução da realidade. O comportamento tosco das “celebridades” contemporâ­neas apenas desnuda a forma de entender o nas­cimento no mundo atual. Onde antes vicejava a hi­pocrisia – se tudo se mantiver adequado tentaremos o parto normal – e todos sabíamos que a  história terminaria em uma mesa cirúr­gica, hoje existe o cinismo das cesarianas mar­cadas sem qualquer explicação ou justi­ficativa clínica. Mais ainda, produzindo uma reversão completa de valores, tornamos o parto normal uma eventualidade a ser evitada.  Inobstante a imensa quantidade de estudos com­provando os benefícios do parto normal quando comparados à cesa­riana, o parto fisiológico passou a ser entendido como um acidente de per­curso, que pode desviar perigosamente o rumo de um acerto previamente arranjado na forma de gravi­dez→cirurgia→recuperação. Um “acesso de parto” súbito e impre­visível é uma moléstia que pode colocar em risco o percurso “natural” de uma gra­videz, impe­dindo a realiza­ção de uma cesariana que agora se instala na “lógica cyborg”. Neste mundo ciborguificado – fanta­sia ciberné­tica alucinógena de Donna Haraway em “Cyborg Manifesto”- a cesa­riana se impõe como a prótese do parto natu­ral. Mesmo que através de falácias facilmente desmontadas, as cesari­anas são vendidas como a via mais segura, mais simples, mais rápida, mais controlá­vel, me­nos dolorosa, mais ba­rata (no tempo em que se utiliza um leito para parto hos­pitalar se reali­zam cinco ou mais cesarianas) e mais eficiente. Parece ser mesmo o modelo do século XXI. O mecanismo protético que superou o processo natural; ciência superando a natureza.

Resta saber até quando as mulheres se deixarão enganar por um modelo que as mantém afastadas de qualquer decisão, alienadas e dependentes de um poder que as desconsidera. Para além das questões relacionadas à autonomia e à li­ber­dade, esse modelo contemporâneo é responsável por conservar inalteradas as taxas de mortalidade perinatal en­quanto deixa a mortalidade materna acima de qual­quer limite decente ou tole­rável. No dia em que as mulheres perceberem que nessa histó­ria elas são apenas marionetes falantes, manipuladas por interesses outros, e não pelo com­promisso de segurança e qualidade no processo de nasci­mento, talvez te­nhamos uma nova era para o nascimento.

Por outro lado, os anos que nos separam da primeira edição desse livro também foram im­portantes para a solidificação de um movimento internacional de resgate do nas­cimento como evento feminino e fisiológico. Testemunhei o surgimento de inúme­ras organizações nos últimos anos, como a Parto do Princípio (Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa), a ANDO (Associação Nacional de Doulas), os GAPPs (Grupos Apoiados pela Parto do Princípio), a HumPar (Associação Portu­guesa pela Humanização do Parto), o IPU (Instituto Perinatal del Uru­guay) e o IMBCI (International Motherbaby Childbirth Initiative), além da conso­lidação da ReHuNa como a grande organi­zação nacional em prol da humani­zação do nasci­mento. O Núcleo de Parteria Urbana da ReHuNa é um dos novos integrantes dessa rede de organizações que lutam pelo resgate do feminino e pela restituição do protagonismo do nascimento à mulher.

Outro evento especial, a criação da Casa de Parto do Realengo-RJ, foi um marco no estabelecimento de um novo paradigma na assistência ao nasci­mento neste país. Os esforços para a sua manutenção dentro dos moldes de atenção humani­zada são um capítulo fabuloso da mobilização de organizações e profissionais humanistas do Brasil. As agressões sistemáticas contra colegas que apoiam esta iniciativa, por conta de corporações que se sentem ameaça­das, surtiram o efeito contrário: produziram a coesão de profissionais de todo o Brasil (e também do exterior) no auxílio a esta iniciativa, gerando uma avalan­che de apoios, manifesta­ções de adesão e ajuda, tanto explícitas quanto públi­cas. A partir desse episódio fortaleceram-se os grupos de profissionais huma­nistas, criando-se instrumentos de proteção profissional, para garantir amparo àqueles que desejam trabalhar com respeito à fisiologia do parto, restituindo o protagonismo à mulher. O resultado dessa luta foi o incentivo a uma visão integrativa do nascimento e às condutas respaldadas pela medicina base­ada em evidências.

A criação do programa “Rede Cegonha” pelo governo federal, e a participação de pessoas com perfil humanista na elaboração de projetos em nível federal para a saúde da mulher é outro fato que só pode nos encher de esperanças. As teses, outrora “radicais” ou “irreais” propagadas por profissionais ligados à ReHuNa agora são modelos admirados e perseguidos pelos gestores da saúde feminina do Brasil. Aos poucos, o que antes era o so­nho de poucos apaixona­dos tornou-se política oficial do Ministério da Saúde. Mesmo sentindo tristeza diante do descala­bro da assistência fria, autoritária e por ve­zes violenta a que são submetidas mu­lheres no Brasil no momento sublime de trazer vida à luz, é gratificante lembrar-se dos inúmeros obstetras, enfermeiras obstetras, parteiras tradicionais, obstetrizes, doulas, epidemiologistas, pediatras, psicólo­gas, nutricionistas, fisioterapeutas e tantos outros profissionais que dedicam sua vida a oferecer qualidade, afeto e se­gurança no seu trabalho cotidiano com a humanização do parto. Não há como de­sanimar; o trabalho árduo de res­gatar a porção de humanidade que se esvai pela coisificação do nascimento precisa de profissionais apaixonados e firmes.

A verdade é que ainda muito há que fazer. Uma recente pesquisa da FIOCRUZ demonstrou que mais de 27% das parturientes deste país atendidas pelo sistema público, e 17% das mulheres do sistema privado, relatam terem sido submeti­das a algum tipo de violência durante sua estada no hospital. As práticas insti­tucionais violentas são de todos os tipos: verbais, morais e até as físicas. Esta investigação apenas deixa claro que o evento do nascimento ainda carrega os preconceitos, violências e arbitrariedades construídas pelos séculos de visão sexista e diminu­tiva da mulher. Melhorar estas condições para transformar o nascimento num evento positivo é nossa tarefa.

Existem inúmeras formas de estimular a mudança de modelo de assistência ao nascimento através de estratégias complementares e não-excludentes.  Aqui es­tão as minhas sugestões, conforme publiquei no capítulo “Team Work” do livro “Birth Models that Work”, de Robbie Davis-Floyd:

  1. Atuação Governamental: Os governos centrais devem ser os grandes esti­muladores de mudanças sistêmicas e abrangentes. Para isso é fun­da­mental que existam critérios bem definidos para a implementação de polí­ti­cas de humanização. O objetivo dessa proposta é de que não se confunda “humanização do nasci­mento” com uma proposta de cesarianas profiláti­cas, anestesia peri­dural para todas ou outras ações que não favoreçam a resti­tuição do protagonismo do nascimento à mulher. O encaminhamento por parte do governo poderia iniciar com um processo lento e gradual de des­centrali­zação das unidades obstétricas, com o estímulo à criação de Casas de Parto desmedicalizadas, um reconhecimento do parto domiciliar assis­tido e com sistemas de referência ágeis, campanhas nacionais de su­porte ao parto normal e apoio aos médicos e enfermeiras que atuam em concor­dância com os protoco­los de assistência baseados em evidências. Além disso, a humanização do cuidado à saúde de forma global deve ser esti­mulada e financiada, através de modificações arquitetônicas nos centros obstétricos dos hos­pitais (a inclusão de piscinas de parto seria um grande passo) e pelo es­tímulo constante na educação continuada dos profissionais da saúde que atendem nos hospitais públicos.
  1. Atuação do Aparelho Formador: A modificação lenta e gradual de um pa­radigma iatrocêntrico (centrado no médico), etiocêntrico (centrado na patologia) e hospitalocêntrico (centrado no hospital) por um modelo mais moderno e de melhores resultados, como o modelo de parteiras, é uma das ações que pode ser realizada em longo prazo. Não é possível mais admitir que profissionais alta­mente treinados e qualificados para atender as patolo­gias sejam desviados para a atenção ao parto normal, que é um evento fi­siológico. O modelo das parteiras tem uma relação custo/benefício melhor, além de produzir resultados superiores, o que se pode comprovar pela dife­rença entre índices de morbi-mortali­dade de países desenvolvidos da Amé­rica e Europa. Cabe às universi­dades discutir essa realidade e investir na formação de parteiras profis­sionais, afim de lentamente mudarmos para um modelo mais racional e coerente. É igualmente importante criar um currí­culo humanista nas fa­culdades de medicina, enfermagem ou obstetrícia, enfatizando os aspectos relacionais e emocionais do processo terapêutico. Por fim é fundamental uma vinculação vigorosa com a Medicina Baseada em Evidências, exa­ta­mente porque ela é capaz de colocar freios às muitas mitologias in­consis­tentes que vicejam na obstetrícia contemporânea. Os ri­tuais de em­podera­mento de profissionais e instituições que percebemos na atenção à parturi­ente frequentemente servem como potentes desempode­radores das mulhe­res e seus bebês, não oferecendo a proteção que apre­goam, além de acrescentar riscos ao processo.
  1. Atuação do Terceiro Setor (ONGs): Para que estas iniciativas te­nham su­cesso é importante que haja interlocutores eficientes desta nova men­sa­gem. Para isso será necessário fortalecer as organizações não gover­na­mentais que trabalham pela humanização do nascimento, para que sirvam de ponte de ligação entre os desejos das mulheres e as diretrizes gover­namentais. Sem esses “pontos de intensificação” os sinais isolados tornam-se frágeis e débeis, impedindo que as demandas cheguem ao seu ende­reço. O fortalecimento e a unificação destas instituições são vitais para a construção de um novo modelo centrado na mulher. A unificação dos pro­fissionais humanistas do Brasil em torno da ReHuNa é um exemplo mundi­almente reconhecido de organização em prol dos ideais de renovação do modelo obstétrico.
  1. Atuação Educativa: Esse é o capítulo mais fundamental e mais com­plexo. Não existe modificação social profunda que não passe pela alte­ração das pessoas; não ocorrerá humanização do nascimento se não for através das mulheres. As mudanças de cima para baixo têm caráter autoritário, e desta forma os resultados obtidos só poderão ser fugazes e inconstantes. As verdadeiras e profundas alterações vêm na esteira de uma nova consci­ência, e por essa razão são lentas e graduais. Não se alteram valores e mi­tos (como o mito da transcendência tecnológica) através de decretos; eles só podem ser substituído quando uma nova vi­são social estiver apta para completar as lacunas do nosso imaginário. As mulheres são as grandes responsáveis pela alteração do paradigma, e por esta razão o diálogo com os grupos feministas, de mães, de con­sumidoras, etc., assume um caráter vital para o sucesso das iniciativas.
  1. Atuação Individual: No início dos anos 90 eu trabalhava em um pe­queno hospital militar no qual atuavam três obstetras. Eu e meu colega M. éramos vivamente interessados em realizar um trabalho diferenciado, ba­seado nas evidências médicas atualizadas, no apoio ao parto normal e res­peitando o protagonismo das mulheres. O terceiro colega era um interven­cionista con­victo que não aceitava os pressupostos da humani­zação, pois acreditava firmemente na inferioridade biológica da mulher. Um dia eu ob­servei ao meu colega M. que nós dois compúnhamos 66% de todos os atendimentos do centro obstétrico e que uma modificação nos resultados obstétricos da­quele hospital dependia apenas da nossa iniciativa. Na época nossa pe­quena maternidade ostentava a vergo­nhosa cifra de 45% de cesa­rianas. Não podíamos convencer o nosso colega a trabalhar do nosso modo, pois que ele não acreditava nos valo­res que defendíamos. Decidi­mos, então, que nós dois criaríamos um protocolo de trabalho simplificado para diminuir a incidência de cesaria­nas. Ele consistia de quatro pontos:
  1. Toda indicação de cesariana precisava ser discutida com o colega,
  2. Os partos seriam preferencialmente verticais,
  3. As pacientes teriam o direito a um acompanhante de livre escolha,
  4. As condutas seriam baseadas nas evidências científicas atualizadas.

Apenas nós dois utilizamos aquele modelo, enquanto nosso colega con­ti­nuou com seu modelo pessoal de atenção ao parto. Pois com aproxi­mada­mente dois terços dos atendimentos sendo realizados neste proto­colo sim­ples, em dois meses nosso índice de cesarianas pulou de 45% para 22%. Certamente aquela pequena unidade médica militar foi, por poucos meses, a de menor incidência de cesarianas do nosso estado. A que valor chegarí­amos se tivéssemos os três médicos atuando em conjunto? Esta singela iniciativa mostrou o poder das deci­sões individuais (no caso, de uma dupla de médicos) para produzir mo­dificações significativas, mesmo que em pe­quena escala. Infelizmente como esse modelo dependia da iniciativa pes­soal (e não institucional) ela voltou à estaca zero depois da minha saída do hospital. Entretanto, os resultados animadores dessa proposta mostram que iniciativas em pequeno nível são capazes de produzir resultados. Ja­mais podemos negligenciar o poder da iniciativa pessoal, principalmente quando esta é movida pela paixão transformadora. As palavras de Marga­reth Mead continuam sendo um estímulo para aqueles que lutam contra poderes estabelecidos e estruturas monolíticas de poder: “Nunca duvide da capacidade de um pequeno grupo de dedicados cidadãos para mudar os rumos do planeta. Na verdade, eles são a única esperança de que isso possa ocorrer”.

Para finalizar, espero que os anos que se aproximam fortaleçam os movimen­tos de resgate do feminino, aproximando de uma forma definitiva os ativistas que la­butam nas áreas do parto humanizado e da amamentação. O “continuum da hu­manização” deve ser cada vez mais valorizado e respeitado, pois que a própria continuidade da nossa espécie depende da forma como entendemos o processo de reprodução. Desmerecer a complexidade e a delicadeza das forças adaptativas que criaram a estrutura física e psicológica desse ser único e revolucionário cha­mado “homem” pode ser o nosso derradeiro equívoco.

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Introdução

O sol entrava pelo vidro duplo da janela do sótão, fazendo estranhos desenhos geométricos no carpete. No quarto acanhado, distribuí meus poucos pertences sobre a cama. Livros, roupas para o frio, minha câmera fotográfica e meu indefec­tível laptop. Na rua, a neve descoloria a paisagem, enchendo de branca monoto­nia os jardins das casas. Esquilos brincavam subindo e descendo a árvore, cujos galhos espiavam minha janela. As residências sem grades me causavam o incô­modo contraponto visual com as ruas da minha própria cidade, onde vivemos en­clausurados, envoltos em barras e muros, prisioneiros de nossa desigualdade so­cial.

Apesar da tristeza pela passagem por São Paulo, onde tive uma lição de desespe­rança absolutamente desnecessária, acordei aquela manhã em Cleveland com uma maravilhosa sensação de realização. Na noite anterior, telefonei para casa, avisando de minha chegada aos Estados Unidos, e Zeza imediatamente me falou do parto de “nossa” paciente.

— Nasceu o bebê de Pramuda. Foi tudo muito bem.

Não pude conter um suspiro de alívio. Depois abri os braços, em pleno restau­rante, e gritei: “Maravilha!”. Pramuda esperava seu segundo bebê e estava com 40 semanas e cinco dias. Seu primeiro nasceu em casa, já passados cinco anos. Na­quela ocasião, estávamos eu e Zeza tomando conta do trabalho de parto. Havia sido a primeira vez em que Zeza acompanhara um parto domiciliar, e depois do nascimento do pequeno Luis ela me confessou que ficara totalmente encantada. “Nascer em casa é uma outra história”, me dizia ela.

Daquela vez, ela e Cristina deram conta do recado. Ainda emocionada, ela me contou os detalhes principais do parto. Falou do medo, da preocupação, dos cui­dados, da sensação de impotência, das orações, da fé e da paciência. Falou tam­bém dos instantes de emoção incontrolável logo após o nascimento do pequenino.

— Foi o meu rito de passagem — disse ela ao telefone.

Eu tive uma imensa sensação de orgulho e júbilo. Zeza havia cruzado sua fron­teira pessoal e havia também crescido, junto com quem auxiliara. O nascimento humano é realmente uma ferramenta das mais poderosas para o processo de transformação.

Olhei para Robbie e os amigos em torno da mesa e lhes contei a história toda. Acabei me entusiasmando e falei das dificuldades da prática obstétrica humani­zada. A conversa acabou recaindo sobre todos aqueles que, diante de uma grande descoberta, sofreram a dor de carregarem um grande fardo. Estes eram os verdadeiros “super-heróis”, que levavam seu saber através de uma longa jornada e sentiam na própria carne o sofrimento que ele produzia. Outros personagens da história da medicina mereceram nossos comentários, até que chegamos ao meu preferido: o Grande Inácio, de Budapeste.

— Como poderia ser ele culpado de algo? — perguntei eu. — Ele foi um exemplo de mártir pela causa das mulheres. Qual seu erro, se sempre perseguiu os ideais de uma medicina mais humana e mais científica?

— Ele também teve a sua culpa, Ric. Faltou-lhe a temperança, além da necessária serenidade. Acabou vítima de sua própria descoberta. Não a descreveu da melhor forma. Guardou para si a sua indignação e fez do rancor a principal causa para a perda de sua sanidade. Ele deveria ter escrito suas conclusões, desde o princípio. Deveria ter apresentado aos colegas seus documentos, suas provas e estatísticas, mesmo que estes não os considerassem. Bateu de frente contra os poderosos, mas, em vez de seduzi-los lentamente com suas ideias, optou por combatê-los. Pecou pelo silêncio ou pelo modo atabalhoado e agressivo com que expunha seus conceitos.

Robbie foi firme e dura ao me dizer isso. Queria me mostrar que mesmo os gran­des homens podem falhar, se não souberem agir ou não tiverem generosidade suficiente para transmitir seu saber. Estávamos falando de Ignaz Phillip Semmel­weiss, médico húngaro que descobriu a origem contagiosa da febre puerperal no Hospital Geral de Viena, em meados do século XIX. Nunca conseguiu saborear o sucesso de sua descoberta porque, afastado do hospital e tratado como indigno para a função de médico obstetra, voltou para a Hungria, onde morreu vítima de septicemia, a mesma enfermidade que ele tanto tentou combater em suas paci­entes. Em seus últimos anos, estava insano, triste e amargurado, talvez maltra­tado pela culpa de não ter podido auxiliar as mulheres a quem atendeu. Durante décadas, carregou solitariamente, a chave para a salvação de muitas mães re­centes que morriam nos hospitais vítimas de infecções pós-parto. Muitos anos ainda se passariam para que suas conclusões fossem respeitadas e entendidas. Os paralelos com a iatrogenia hospitalar contemporânea sempre me impressiona­ram, assim como o pesado fardo que o levou primeiramente ao ostracismo, depois ao sofrimento e à loucura. É, sem dúvida, meu maior ídolo na obstetrícia, mas Robbie me apontava as falhas humanas que até os gênios carregam.

Flashback

Vejo-me deitado no divã da pequena sala no consultório de minha analista Eliana. Minha análise se iniciou quando da minha opção aberta pela homeopatia e pelas práticas alternativas no parto. Era preciso um suporte, um amparo, uma ajuda para poder atravessar esse caminho árduo que é a troca de um paradigma mé­dico. Sem essa ajuda, minha travessia seria muito mais dolorosa. Sem essa “doula”, é provável que minha caminhada pela medicina fosse muito mais dolo­rosa.

Com os olhos pregados no teto, choro a dor da incompreensão. A agonia maior é a da solidão, a falta de interlocução; a penúria de ouvidos compreensíveis. Falo da minha indignação diante de um modelo absolutamente apartado das verdades científicas e das necessidades das mulheres, movido por uma ideologia essenci­almente misógina. Não conseguia entender porque quase ninguém entendia o que eu tinha para dizer. Eliana sorri para mim e pergunta:

— E o que você escreveu a este respeito? Acha mesmo que ficar gritando aqui essas ideias é suficiente para modificar a realidade? Acha que é correto apontar desvios sem mostrar caminhos?

Fico em silêncio e me obrigo a concordar com sua observação.

Outro flashback

Minhas pálpebras cansadas recebem o brilho ofuscante e colorido da tela do com­putador. Já são mais de 11 horas da noite, e ainda estou no meu consultório, es­crevendo mensagens para as listas de discussão de parto natural. Através das linhas cibernéticas, conto para os meus amigos de longe uma história que me co­moveu muito e que me auxiliou a entender a dinâmica espiritual, afetiva e social do nascimento. Eu me encontrava em Recife, em 2001, como consultor em huma­nização do nascimento para os médicos do CISAM, hospital situado na divisa de Recife com Olinda, que atende um dos principais bolsões de pobreza daquela ca­pital brasileira. No centro obstétrico (CO), acanhado e apinhado de pacientes, foi criada a determinação de permitir a entrada de acompanhantes junto às grávidas, porque se percebia nessa iniciativa mais do que uma maneira de tranquilizá-las: entendia-se como um direito humano inquestionável. Assim, fui levado para lá exatamente porque a direção do hospital era simpática às ideias de humanização no atendimento às gestantes.

Em uma tarde de plantão no hospital, escutei uma cantoria vinda de um dos bo­xes, onde se encontrava uma grávida acompanhada de sua mãe. Voltei minha atenção imediatamente para lá, tentando entender do que se tratava. Era um cân­tico religioso, desses que são cantados em igrejas evangélicas. Imantado pelo som, abro a cortina de plástico que separa o box do corredor e vejo uma mãe con­centrada e de olhos fechados, cantando enquanto segura a mão de sua filha. Esta contrai o rosto a cada contração, imaginando diminuir suas dores de parir. Ao me ver adentrando a intimidade do pequeno espaço, a mãe imediatamente interrompe seu canto. Envergonhada, leva a mão à boca e diz:

— Desculpe doutor. Não queria incomodar. Essa canção é um louvor a Deus e um pedido de proteção para a minha filha. Desculpe atrapalhar; apenas tentava auxi­liar minha pequena, que está sofrendo para ter seu primeiro bebê.

Olho para a menina que está deitada ao lado. Não tinha mais do que 15 anos. Sua face exprimia dor e cansaço, mas parecia colada à mão de sua mãe. Fazia com ela uma união de corpos e almas, resgatando inconscientemente uma das mais antigas tradições da humanidade, qual seja, uma mulher sendo auxiliada por sua própria mãe a parir, e assim manter a humanidade, tarefa da qual todas as mulhe­res são devedoras. A candura e a profunda beleza da cena ficaram impregnadas na minha memória. Constrangido, quase nada pude dizer.

— Desculpe, minha senhora. Por favor, continue a cantar. Eu adoraria acompa­nhá-la, mas não conheço essa música. Sua presença aqui é muito importante para a sua filha. Não interrompa seu canto por minha causa.

Fechei a cortina e saí de perto, esperando que a mãe continuasse seu cantar, e nunca mais esqueci a voz daquela mulher simples e de seu canto melodioso, nem a intimidade verdadeiramente feminina dos dedos entrelaçados de mãe e filha.

Escrevi essa mensagem na lista de discussão com lágrimas nos olhos, porque percebia que pequenas atitudes muitas vezes são fundamentais para auxiliar uma mulher que está passando pelo mais fantástico ritual de passagem que um ser humano pode atravessar. Por outro lado, quantas pessoas estariam habilitadas a compreender o significado transcendental desta cena? Recebo como resposta na lista de discussão a frase:

— Ric. Você tem algumas histórias tão bonitas. Por que não escrever um livro so­bre elas?

Mais um flashback

Estou em um estúdio de televisão de minha cidade. Fui convidado a trazer minha opinião, como ginecologista, sobre o mau humor. Queriam que eu falasse das modificações hormonais da pré-menstruação e as consequentes alterações com­portamentais e psíquicas que as mulheres experimentam nesse período. Ao meu lado e em frente às câmeras, estão escritores, diretores de cinema, psicólogos e publicitários. A conversa acaba se concentrando na dor e sua potencial capaci­dade construtiva. Resolvo extrapolar os limites impostos à minha fala como gine­cólogo e decido discorrer sobre o sofrimento através de outro viés. Trato do mau humor como a “dor da inconformidade”. Tento mostrar que as transformações do pré-mênstruo possuem valor metafórico e simbólico, e que devemos sempre estar atentos a essas mensagens. Continuo minha fala observando que a dor é a mãe de toda a genialidade. Digo que Proust, Nietsche, Dostoievski, Virginia Woolf, en­tre tantos literatos (como Roger Jones, meu irmão e notório ranzinza), eram mal humorados e que a literatura era uma forma de “exorcismo”, capaz de aliviar suas dores. Terminei dizendo que a dor é a professora mais gabaritada do nosso pla­neta e que suas lições devem ser apreendidas em um sentido construtivo, para que através de seus ensinamentos possamos dignificar nossa expiação.

Mal sabia eu quão proféticas eram essas palavras.

*   *   *

A morte trágica de V. por uma infecção causada por varicela zoster em um hospi­tal da minha cidade e os tristes fatos que se sucederam foram o estopim para a minha determinação em escrever. Era fundamental que eu deixasse minhas pala­vras a respeito do nascimento humano e suas consequências médicas, sociais, psicológicas e humanas. Não poderia me permitir incorrer no mesmo erro dos que se calaram em função da dor, da indignação, da tristeza e da injustiça.

Pensei muito nos meus filhos ao escrever este livro porque queria que eles enten­dessem que, mesmo sofrendo, ainda existem suficientes razões para continuar na caminhada e lutar pelos ideais. Eles foram minha mais constante motivação. A eles eu dedico minhas histórias, porque sei que eles serão os que continuarão a construção de uma nova humanidade depois que eu me for.

As histórias deste livro são crônicas escritas nos momentos de tristeza e solidão que passei nos últimos três anos. Fazia uso da palavra escrita como o melhor analgésico para a minha dor. Os piores momentos de desesperança e tristeza os passei grudado a uma tela de computador, trocando mensagens e ideias com os amigos do mundo inteiro. Eles foram o esteio e a mão amiga nas piores horas. Muitas das histórias aqui relatadas foram originalmente escritas em madrugadas solitárias nas listas de discussão das “amigasdoparto”, do “partonatural”, do “par­tonosso” e das “maesempoderadas”.

As crônicas e os textos aqui apresentados não obedecem necessariamente a uma ordem cronológica, e assim podem ser lidos sem uma preocupação rigorosa com continuidade. São basicamente histórias de nascimento. Trazem a visão de um obstetra humanista na sua caminhada transformativa. São também uma ótica masculina sobre um evento visceralmente feminino. Os nomes das pessoas que compõe as histórias relatadas neste livro foram trocados, em sua maioria, para resguardar a intimidade que deve sempre cercar um evento tão significativo e pessoal quanto o parto. Minha sincera intenção ao contar minha história pessoal através dessas narrativas foi traduzir uma ínfima parte do encantamento que o nascimento humano é capaz de produzir no coração de quem se permite sentir.

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Violência

Você achou justa a ação do Hamas em 7 de outubro?

Essa é uma das perguntas mais prevalentes nos últimos tempos, mas serve como régua moral para classificar aqueles que se posicionam sobre o drama da Palestina. Em primeiro lugar, nada é “justificável” numa guerra, mas tudo que nas guerras ocorre precisa ser colocado em contexto. Não podemos nos perder em armadilhas lógicas. Os mais de 75 anos de massacres não poderiam ser interrompidos com abaixo-assinados ou ações nos tribunais, até porque Israel sempre desprezou as decisões da ONU. Além disso, é preciso reconhecer que se não fosse pela violência não haveria sequer a revolução francesa burguesa de 1789, que acabou com quase todas as monarquias europeias; sem a tomada violenta dos revolucionários Franceses e hoje seriam ainda súditos do Rei, e a democracia apenas um sonho e uma utopia. Culpar a violência reativa do Hamas e nada dizer sobre o holocausto palestino continuado é a narrativa racista e supremacista do sionismo.

Sim, acho que o combatentes reunidos da resistência palestina agiram de forma justa, mesmo que eu seja um proponente da paz. Achar que o Hamas é um grupo terrorista – como faz a imprensa burguesa – é jogar o jogo do imperialismo. O Hamas lutou com as armas que eram possíveis. Aliás, a sua ação no 7 de outubro será descrita no futuro como uma das maiores ações de guerra da história moderna. Esta ação, apesar das vítimas produzidas pelo exército fajuto de Israel, era o único caminho possível para a paz, pois a libertação de um povo subjugado há mais de 70 anos jamais se faria com tapinhas nas costas. O próprio Nakba – a expulsão forçada de 750 mil palestinos de suas casas – só aconteceu através de ações de terrorismo e de massacres por parte do nascente estado de Israel, as quais se mantém até hoje. Assim sendo, a resposta Palestina só poderia ser violenta, até porque todas as tentativas pacíficas falharam escandalosamente. Todos os acordos tentados com os sionistas foram descumpridos por Israel, porque jamais houve qualquer interesse na paz ou na criação de dois estados independentes e soberanos. Criticar a reação palestina às sete décadas de assassinatos, abusos, torturas, prisões arbitrárias, limpeza étnica e estupros é aceitar a narrativa do Império e o discurso vitimista do sionismo. O Hamas apenas agiu de acordo com as regras de violência que os próprios sionistas estabeleceram ao roubar as terras palestinas.

Para manter a ocupação de Israel e a brutalidade desumana como sempre foi praticada foi necessário controlar a opinião mundial através do uso da imprensa burguesa. Essa é a razão pela qual os massacres do Nakba só há pouco foram descobertos pelas pessoas do mundo inteiro. Hoje em dia, com a proliferação de smartphones, ficou impossível esconder a realidade do genocídio que está sendo cometido contra as populações oprimidas. Por esta razão, desde o princípio dos massacres Israel procura atingir a imprensa. Eles sabem que é preciso impedir a realidade chegar à todos no planeta. Quando o mundo inteiro puder saber a verdade, o racismo e a essência pútrida do sionismo supremacista acabarão imediatamente. Exterminar o modelo opressor de Israel é uma tarefa de todo o cidadão do mundo. A Palestina somos todos nós. Ao mesmo tempo em que os jornalistas são alvos preferenciais dos genocidas sionistas, canalhas mequetrefes de Hollywood se empenharam para impedir que a jovem e premiada jornalista palestina Bisan Owda concorresse ao Emmy, entre elas Selma Blair e Debra Messing, duas conhecidas sionistas que apoiam o massacre de crianças e a morte indiscriminada de palestinos. Felizmente para a parte saudável do planeta, esses monstros não conseguiram levar adiante seu projeto de silenciamento e “It’s Bisan from Gaza and I’m Still Alive“, – Aqui é Bisan de Gaza, e ainda estou viva – venceu o Emmy como melhor documentário.

Portanto, essa crítica ao “terrorismo” do Hamas – como se o Estado de Israel não fosse uma entidade ilegal e terrorista por excelência – é tosca e historicamente injusta, além de ser mentirosa, mas apenas sobreviveu por tantos anos porque existe um controle imenso sobre a imprensa internacional. Os mesmos jornais que acusam a Rússia de ser “anti-LGBT”, ter invadido a Ucrânia sem razão, ou que chamam Maduro e Xi Jinping de “ditadores” acusam os guerreiros que lutam pela liberdade da palestina de terroristas, sem mencionar o terror de Estado que é praticado pela potência de ocupação há mais de 7 décadas. Esqueceram de noticiar o que agora é conhecimento oficial: a maior parte das mortes no ataque de 7 de outubro 2023 foram causadas pelos helicópteros israelenses, usando a “Diretiva Aníbal”. E as mortes causadas pelo Hamas – que por certo ocorreram – foram atos de resistência à uma opressão obscena e continuada, violenta e indigna. Agiram a exemplo dos “freedom fighters” da Argélia, da Resistência Francesa, dos Vietcongs, dos russos em Leningrado e dos coreanos na ocupação japonesa e americana. Em verdade, “Terrorismo” é a forma como os opressores chamam aqueles que resistem aos seus abusos, mas eles são os guerreiros da liberdade do seu povo, e usam as ferramentas possíveis para empreender esta luta.

Aqueles que falam das “vidas inocentes” que foram perdidas na ação de resistência do Hamas respondam estas perguntas simples: digam até que ponto aguentariam o abuso dos colonos israelenses, grupos formados pela escumalha da Europa e da América. Depois que seus pais fossem torturados, seus irmãos fossem mortos, sua irmã abusada e seu filho preso, vocês continuariam a pedir “licença” aos invasores? Continuariam a apostar no “amor”? Tentariam, pela milésima vez, uma alternativa pacífica? Ou usariam armas semelhantes àquelas usadas por quem lhes massacra para, pelo menos, manter o que lhes resta de dignidade e para salvar a vida da sua família? Respondam com honestidade: qual seria o limite? Até quando suportariam? Não é aceitável que tenhamos uma postura ingênua sobre as forças materiais e econômicas que produzem os conflitos. Num contexto de agressões e abusos continuados apenas a reação violenta seria capaz de salvar a Palestina. Quem acredita em “legitima defesa” do sujeito precisa aceitar a “legítima defesa do povos”, até porque a própria ONU reconhece o direito de resistência violenta e armada dos povos ocupados!!! A liberdade é uma conquista dos homens, e para isso devem usar as armas que estiverem ao seu alcance.

Hamas e Palestina, neste momento, são a mesma coisa. O Hamas representa o maior, mais armado e mais capacitado grupo de defesa da Palestina. Portanto, defender a Palestina significa dar apoio irrestrito ao Hamas que, pela sua história e pelas próprias eleições realizadas em Gaza, é o legitimo representante das aspirações de liberdade do povo palestino. Qualquer um que tente deslegitimar o Hamas, acusando-os de “oprimir” o povo palestino, estará mentindo.

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Terrorismo

Responda com honestidade: qual a diferença entre um carro bomba arremessado contra um mercado e a explosão de pagers indiscriminadamente em Beirute no Líbano, inclusive atingindo médicos, enfermeiras e crianças? Pois o primeiro era chamado de “terrorismo” há alguns anos, quando se queria acusar os palestinos de ações desesperadas cujo alvo era a população civil. Por outro lado, a explosão de artefatos de comunicação de forma abrangente, atingindo ativistas do Hezbollah – mas também profissionais da saúde e pessoas comuns – agora é chamada pela imprensa ocidental burguesa de “ação de inteligência”. O uso de “dois pesos e duas medidas” para analisar um e outro fato não nos deixa nenhuma dúvida: temos um jornalismo imundo, sionista e imperialista, que tenta cotidianamente mentir, para assim mudar a narrativa em benefício do poder da burguesia. E com todo esse poder concentrado ainda tentam criar a ideia de que o totalitarismo é uma chaga do… socialismo.

Existe totalitarismo maior do que o torniquete de informações aplicado a milhões de pessoas simultaneamente pelas empresas de comunicação no mundo todo? Como podemos entender que a barbárie e o morticínio de milhares de crianças na Palestina não provocaram a devida e necessária indignação no ocidente se não pelo controle midiático aplicado pelo consórcio internacional de telecomunicações? Se é possível comprar toda a imprensa esportiva nacional para se calar sobre a jogatina desenfreada, o roubo escancarado e a falcatrua disseminada das “apostas esportivas“, mais fácil ainda é filtrar o que ocorre no Oriente Médio para tratar os brutais opressores e abusadores sionistas como “vítimas” do ataque palestino, apagando das manchetes os mais de 70 anos de brutal opressão, abuso, fome induzida, encarceramento, assassinatos e limpeza étnica, e criando a falsa ideia de que “tudo começou em 7 de outubro”.

Que existe uma ação genocida intencional na Palestina isso já não é mais passível de debate. Todas as ações de Israel ao longo da história, foram no sentido de boicotar qualquer direito dos palestinos às suas terras e, sempre que possível, “aparar a grama” (mowing the lawn) matando o maior número possível de palestinos nestas iniciativas mortais. Jamais houve qualquer interesse em produzir um acordo, mesmo quando este foi acenado e aceito pelos representantes palestinos. Israel é uma fábrica infinita de mentiras, engodos e falsidades. Misture isso tudo com a total impunidade no plano internacional – pela adesão inconteste do imperialismo aos interesses regionais de Israel – e teremos um país onde a tortura é exaltada, o holocausto palestino celebrado e as bombas caindo sobre o campo de concentração a céu aberto de Gaza um espetáculo aplaudido pelos colonos israelenses dos territórios ocupados – a escumalha fascista do ocidente.

Sem que o mundo tome ações vigorosas de bloqueio total a Israel continuaremos a ver o crescimento vertiginoso dos massacres. Nada para a máquina de morte de Israel, a não ser a força – a única linguagem que os sionistas entendem. Nesta guerra o mundo assistiu estarrecido ao fato de que os alvos israelenses não são apenas os soldados ou batalhões, sequer somente as guarnições ou os longos túneis sob a cidade de Gaza, mas as crianças e mulheres palestinas, pois sabem que elas são as matrizes e cuidadoras dos feridos e dos pequenos, enquanto as crianças representam o futuro da resistência.

O presidente Lula deveria usar do seu prestígio internacional e iniciar uma campanha internacional pela paz, rompendo com Israel e conclamando todas as nações do mundo a se juntem no esforço para um cessar fogo imediato e um bloqueio ao sionismo. Não existirá paz sem bloquear Israel e ameaçar sua integridade através de ações militares e diplomáticas. Se foi possível derrubar o apartheid na África do Sul, por que seria impossível fazer o mesmo com os racistas de Israel?

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Pastelão

A cadeirada do Datena sobre o patético Marçal representa a pá de cal sobre a democracia liberal. Só esse modelo político facilitaria o aparecimento de duas figuras midiáticas – como um apresentador de programas policiais de viés fascista e um criminoso com passado de estelionato e pequenos golpes cibernéticos – como candidatos a comandar a maior cidade da América do Sul. Espero que esse episódio bizarro e constrangedor inicie o fim de um ciclo dos candidatos populistas e que seja um passo na direção da consciência de classe. Claro, sou um otimista. Tanto um quanto o outro são comunicadores de fala mansa, mas fica evidente em suas manifestações que só estão dispostos a debater o próprio ego. Ambos adoram desmerecer e debochar da população pobre do país. Datena inaugurou o jornalismo do “bandido bom, bandido morto”; já o Pablo é um mitômano criminoso, com uma gigantesca capivara de falcatruas em seu currículo. São vedetes cujo único interesse é se pavonear diante das suas próprias plateias. Vazios de ideias e sem a paixão da politica e do bem público a lhes direcionar, não conseguem senão falar de si mesmos.

Dois bagaceiros e chinelões, como se diz no sul. Incompetentes e de baixo nível. Pablo se escondeu atrás dos ombros de dois seguranças e de lá disparava suas ofensas, enquanto o outro abria um compêndio de palavrões digno dos estivadores do cais do porto contra seu opositor e sua família. Um show de baixarias; ema cena patética e desmoralizante. Na minha infância a escaramuça verbal entre essas personalidades era chamada de “briga de lavadeiras”, uma disputa de xingamentos que acabava revelando os podres de ambas as contendoras; hoje em dia não se usa mais esse termo, em respeito às mulheres que dignamente lavavam roupa à beira dos riachos sem falar mal da vida de ninguém. Porém, a briga acabou mostrando a miséria de propostas e o vazio de sugestões para a agenda da cidade de São Paulo de ambos os candidatos.

Tanto um quanto o outro não possuem interesse algum na comunidade, nenhum projeto específico, nenhuma proposta de governança e sequer seguem alguma ideologia. “La ideologia soy yo”, dizem eles. Arrogantes propagadores de si mesmos, são bonecos desajeitados numa vitrine midiática, preocupados exclusivamente com o próprio umbigo. “F*dam-se vocês, eu quero é ganhar essa p*rra”. Toscos e caricatos, só pensam na lacração e nos cortes que farão para os próprios canais, fórmula que infelizmente, ainda não mostrou sinais de desgaste. Vale tudo para conseguir visualizações; enquanto estas “lacradas” ainda produzem engajamento, seguem na exibição dos horrores de suas falas e gestos.

Por outro lado, a cadeirada do Datena no Marçal foi pedagógica. Ela expõem de maneira muito didática para onde pode nos levar a política do espetáculo. Como um circo do ridículo, a cadeirada expôs a verdadeira essência desses políticos que fazem da sua notoriedade trampolim para carreiras políticas. Foi esse modelo que criou o falastrão Bolsonaro, e agora a trouxe à ribalta ambos os participantes desse pastelão tosco e provinciano. É óbvio que a fórmula do “enganador sedutor” um dia vai se desgastar, mas espero que até lá seja possível olhar para estes acontecimentos com a severidade que eles demandam. Espero mesmo que esta triste cena seja um passo significativo para o fim da política do grotesco. Além disso, Datena nos deu uma lição. Talvez essa também seja a derrocada da famigerada doutrina do “o amor venceu” que vicejou nas esquerdas, contaminadas pelo reformismo, e pela ideia de paz a qualquer preço. Chega. Precisamos de ódio de classe e, se necessário, mais cadeiradas. Quem topa “bancar” essa proposta?

PS: Mais grave do que as baixarias dos candidatos é a angústia dos jornalistas por descobrir se a pancadaria rendeu votos para um ou para o outro destemperado. Imaginar que tem gente que acha que isso possa ser chamado de política é tão triste quanto a briga em si…

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Homens

Sou um defensor do masculino desde que, na condição de marido, lutei pelo direito de estar presente no nascimento dos meus filhos. E minha posição não foi baseada no benefício que isso poderia trazer à minha esposa à época; muito mais do que isso, foi pela crença de que minha presença nos partos seria benéfica para mim, na construção constante do homem que pretendia ser. Assim, minha trajetória na humanização do nascimento não se estabeleceu numa perspectiva identitária; não acredito que as mulheres devam ser tratadas com mais respeito por serem especiais ou pela sua especial condição de mulheres, mas porque compartem com todos sua condição humana. Não é por outra razão que devem ser tratadas com a máxima atenção e dignidade: por serem divinamente humanas.

Por esta razão me incomodam as publicações onde os homens são tratados como “a grande ameaça às mulheres”. Dizem “se não houvesse homens não seria necessária a proteção que oferecem a elas”, como se o único risco que as mulheres correm nesse planeta está nos homens que, com elas, compartilham os espaços do mundo. Penso que tal visão deturpada do masculino é obra destes tempos atuais, onde o necessário questionamento do patriarcado resulta em exageros e distorções inevitáveis. Ora, os homens, desde a aurora da humanidade, protegem as mulheres e seus filhos da natureza indômita, de um urso faminto, de um leão, de um tornado traiçoeiro, da chuva inclemente e da falta dela, da seca trágica que nos fez movediços, da falta de comida, da escassez de abrigos, da falta de proteínas essenciais para o crescimento encefálico e na proteção da comunidade ameaçada por outros grupos.

A campanha de desvalorização e criminalização do masculino não é capaz de elevar o feminino, mas expõe uma perspectiva curiosa sobre a imagem que as mulheres fazem dos homens. Esta visão, por sua vez, não se encontra nos homens em relação ao feminino. O que se poderia dizer de um homem que viesse a afirmar “não preciso de mulher para nada”? Ora, que tolo, diríamos; os homens já nascem com a marca dessa necessidade estruturando sua incompletude; nenhum homem ousa afirmar sua liberdade absoluta das mulheres. Trazemos na memória celular a dívida impagável com as mulheres pelo ensinamento de amor que recebemos. Já algumas mulheres acreditam numa delirante autossuficiência, como se a civilização que todos usufruímos não fosse uma construção dos homens, da sua coragem, obsessão e dedicação, e da qual as mulheres usufruem tanto quanto eles.

Os homens podem ser – e não raro são – uma ameaça real para as mulheres, e a violência contra elas é uma dura realidade, mas estas também os ameaçam – e muito. Convido a pesquisar o “mapa da violência” e os dados do IPEA sobre violência doméstica. Todavia, essa não é a definição justa para os homens, assim como mulheres que espancam seus filhos não são a definição correta para “as mulheres”. Além disso, são os homens as maiores vítimas da violência que se estabelece no patriarcado; 92% de todas as mortes violentas acontecem entre os homens. Não por outra razão, uma sociedade que os obriga a matar um leão todos os dias faz com que os suicídi*s sejam 4x mais prevalentes entre eles. Que vida fácil é esta no patriarcado que faz os homens terem uma vida mais curta, com mais sofrimento por depressão, sendo eles as vítimas preferenciais de homicídios e autocídios?

Por fim, reduzir os homens a agressores violentos ou estupradores em potencial é tão danoso e grosseiro quanto reduzir as mulheres a objetos sexuais manipuláveis e descartáveis. Estas generalizações agridem a imensa maioria de homens e mulheres deste planeta. Uma minoria ínfima de homens comete algum tipo de violência contra mulheres, e colocar esta minúscula fração como sendo a imagem definidora e emblemática do masculino é uma violência absurda contra os homens e o legado de criatividade, coragem e sacrifício que fizeram para que todos – inclusive suas mulheres – pudessem acender a luz de suas casas e beber água potável da torneira, ou mesmo pudessem ler este post na tranquilidade de suas casas.

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Bandeiras

Nessa época eleitoral é importante estar atento para as falsas bandeiras. Aqui está uma história que ficou marcada na minha memória, e que deve ter ocorrido há uns dez anos. Certa vez fui convidado a falar em uma cidade de tamanho médio no interior do Brasil. O convite veio direto da secretaria de saúde, na pessoa do seu secretário municipal. Quando lá cheguei fui amavelmente recebido pela sua assessora que me mostrou o prédio da câmara e apontou o lugar onde deveria esperar até ser chamado. Não demorou muito e pediram para que eu compusesse a mesa para os trabalhos da noite. Falei por mais de uma hora sobre a importância da garantia do protagonismo à mulher no processo de parto e nascimento e no significado de capacitar doulas – e as próprias famílias – para darem conta desse evento numa perspectiva humanista e embasada em evidências científicas. Penso que a palestra foi bem recebida pelos participantes, e a prova foi as excelentes perguntas e manifestações que se seguiram à minha fala.

Terminado o encontro, me preparei para voltar ao hotel e descansar do dia corrido, visto que meu avião sairia muito cedo. A assessora do secretário, entretanto, me fez um convite para acompanhá-lo, junto com um grupo de ativistas da cidade, a um jantar. Foi o que fiz. Lá chegando conversei animadamente com as ativistas, todas doulas e enfermeiras, que estavam entusiasmadas em trazer um curso de doulas para a cidade e para influenciar na gestão municipal no sentido de criar uma “lei de doulas”. A tudo eu respondia com o pouco de experiência que tinha pelas visitas a inúmeras cidades pelo interior do Brasil. Enquanto isso, o secretário ao meu lado apenas escutava. Era um rapaz jovem, não tinha 40 anos, estava de terno e gravata e usava “brilhantina” no cabelo. Pertencia a um partido de direita que havia elegido o prefeito três anos antes, e ele agora pretendia concorrer a uma vaga como vereador, depois de sua experiência na administração pública.

Em determinado momento, ele me disse:

– Olha doutor, muito obrigado pela sua presença na cidade. Gostei da sua palestra. Entretanto, não entendo nada desse assunto. Sou um completo ignorante neste tema. Sou da área de gestão, entende? Tenho dois filhos e ambos nasceram de cesariana, porque assim minha mulher escolheu. Sabe, para mim tanto faz, cesariana, parto normal, essas coisas todas. Afinal, o corpo é dela não é? Minha esposa não queria correr riscos, acho que o senhor entende. Também não estava interessada em sentir dor; ela é muito fiasquenta sabe? Qualquer dorzinha já a abala muito; jamais suportaria as dores de um parto.

Escutei silenciosamente e não fiz comentários. Aprendi a duras penas que as convicções fortemente arraigadas surgidas de estratos irracionais não podem ser confrontadas em curto prazo com qualquer abordagem racional, mesmo quando apresentamos fatos, estudos e evidências. Estes recursos retóricos simplesmente se chocam contra uma parede rígida de crenças, as quais ajudam a suportar as contradições. Ele continuou:

– Porém, minha assessora teve o parto dela com uma doula e descobriu seu nome na Internet. Achei que isso poderia ser uma bandeira para utilizar na próxima eleição. Serei candidato à vereança. Acho que isso pode atrair a atenção do eleitorado feminino. Que acha?

Pôs a mão no bolso, retirou um santinho e me entregou. Nele o perfil era característico dos agroboys: a mesma brilhantina e o terno com gravata, misturados com palavras impactantes como “progresso”, “renovação”, “juventude”, “dinamismo”, etc. Entretanto, neste momento eu percebi, com vergonha e um pouco de tristeza, que para ele eu era um “santinho ambulante” e uma peça de propaganda de sua campanha. Pelas suas palavras ficou claro que ele estava tão distante dos ideais da humanização do nascimento quanto um urso polar está da Antártida. Eu estava, sem o saber, fazendo parte de um esquema que pretendia angariar votos usando a isca do parto humanizado, mas para um candidato que não tinha nenhum compromisso real com a ideia. Pensei que, de certa forma, a culpa era minha por não saber o que havia por trás do convite. Por outro lado, a mensagem havia sido transmitida, o recado havia sido dado e as pessoas que participaram do evento receberam uma semente do que poderia ser um mundo em que o parto fosse mais livre, sem ser dominado despoticamente por interesses de outra ordem. Não sei o quanto estive errado em aceitar o convite, e até hoje guardo essa dúvida.

De qualquer forma, passei a pensar que, muito mais do que as palavras de apoio e de suporte aos nossos ideais, um candidato precisa ser aquele que vive intensamente o que prega. É necessário que seu discurso não fique confinado às palavras, mas que esteja em sua história, no seu trabalho, no seu cotidiano, na educação dos filhos, na forma como conversa com os colegas de trabalho e como interage com os amigos. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, as máscaras acabam caindo e por fim nos mostra a real essência que se esconde por detrás dos disfarces.

Nessa eleição vote pensando nisso…

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Arquivado em Ativismo, Política

Autoimagem

Quem já não escutou essa manifestação, carregada de arrogância e autoconfiança?

“Eu me conheço. Sei muito bem quem sou.”

Em verdade, somos as piores pessoas possíveis para avaliar em profundidade quem realmente somos. Por sermos uma construção do olhar alheio, a estrutura mais profunda da nossa alma é invisível ao olhar que lhe dirigimos. Só quem nos percebe de fora percebe o tanto que a nós é interdito. Como medida de proteção somos excessivamente condescendentes com nossas falhas, e nos tornamos propícios a exagerar pequenas conquistas que obtemos. Aliás, aqui se encontra um velho truque dos médicos antigos e perspicazes: se quiser saber da intimidade de um paciente, suas emoções mais recônditos e seus prazeres mais mórbidos, jamais peça que fale de si mesmo; tal descrição é inútil e redundante. Ao invés disso, peça que fale com minúcias dos seus desafetos; na projeção que joga sobre eles aparecerão de forma clara e reluzente as mazelas que, em segredo, carrega.

Edmond Carriére, “Les frontières de la connaissance” (As fronteiras do Conhecimento) Ed. Printemps, pág 135

Edmond Carriére é um psicanalista francês nascido em Rheims em 1942. Foi aluno dos seminários de Jacques Lacan em Paris e seguidor fiel de suas ideias. Em 1970 criou o Instituto Freudiano de Calais, cuja inauguração contou com a presença da pediatra e psicanalista francesa Françoise Dolto que fez uma palestra sobre a educação infantil na perspectiva da psicanálise. Escreveu várias obras na área da psicanálise, mas também da ficção, sendo sua obra ficcional mais conhecida o romance “Sob a Tormenta da Martinica”, onde descreve a vida de uma pequena aldeia próxima a Fort de France quando da passagem do Grande Furacão de 1780, tratado pelo historiadores e climatologistas como o mais mortífero furacão já registrado no Atlântico, assim como o ciclone tropical com mais fatalidades do Hemisfério Ocidental. É estimado que 22 mil pessoas tenham perecido nas Pequenas Antilhas por ocasião da grande tempestade ocorrida de 10 a 16 de outubro. A história do livro está centrada em Heléne Césaire e seus dois filhos, suas dificuldades como jovem mãe viúva, a pobreza, o vazio de esperanças e a chegada da tormenta assassina. Sua luta para encontrar os filhos perdidos durante a fuga desesperada foi retratada no filme homônimo dirigido por Michel Dufour com Michelle Duprat no papel de Heléne e Jean Maurais como o Capitão Rosine. Na área da psicanálise, além de “Les Frontières de la Connaissance” escreveu muitos artigos na “Revue du Psychanalyse” e sua obra sobre o transtorno obsessivo “Quand beaucoup est encore peu” (Quando o muito ainda é pouco – sem versão para o portugues). Edmond Carriére mora em Nice , é casado com Marie Carriére e tem três filhos, Michel, Paul e Fabrice.

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Cavalo de Troia

Inobstante o resultado das investigações sobre pretensos abusos, porque ainda mantemos uma representante do George Soros e da Open Society como ministra do governo Lula? O que falta para entender que haverá inexoravelmente um conflito de interesses através da interferência de Think Tanks imperialistas num governo popular? Quando iremos acordar para o fato de que a própria pauta identitária – direitista, divisionista e sectária – terá mais cedo ou mais tarde um efeito corrosivo no governo?

Muitos ainda não se deram conta que a ascensão da direita em todo o mundo está precisamente ligada ao rechaço dos trabalhadores comuns às pautas trazidas pelos identitários, desde as ideias de culpabilizar os brancos por tudo, as denúncias por abuso, o “letramento” racial, a briga por pronomes neutros, a queima de estátuas e até as trocas de palavras nos hinos. O povo não aceita isso, sejam os trabalhadores de esquerda ou de direita, mas uma parcela mais barulhenta pretende impor esse debate ao conjunto do proletariado.

Quando a direita voltar ao poder, pelo esgotamento do discurso que valoriza as identidades separando-nos em nichos estanques, talvez sejamos obrigados a suportar mais um período de trevas, com a volta ao mapa da fome, a inflação, o desemprego crescente, o isolamento internacional e o consequente desinvestimento na indústria, na educação e na saúde. Sabemos o quanto a direita aposta na transformação do Brasil numa enorme “plantation“, um engenho de cana de açúcar de dimensão continental, com os coronéis de Hilux, escravos da MEI e uma minúscula franja de classe média, a qual servirá como os capatazes da imensa Fazenda Brasil.

Se a esquerda não expurgar estas ONGs imperialistas isso é o que fatalmente irá ocorrer, e se nossa luta não for pelo fim da sociedade de classes, contra o capitalismo e o imperialismo, então teremos perdido o trem da história, e só voltaremos aos trilhos quando encontrarmos coragem para limpar a esquerda dos cavalos de Troia colocados pelo imperialismo.

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Propaganda de Margarina

Meu pai era um autodidata, um sujeito muito culto, mas nunca teve a oportunidade de fazer um curso superior. Na sua juventude, esta formação era reservada às classes abastadas da sociedade. Durante toda sua vida foi funcionário de nível médio da CEEE, as centrais elétricas do estado, e quando tinha 35 anos comprou sua casa própria. Quem tem condições de fazer isso hoje em dia? Minha mãe atingiu seus mais altos objetivos na vida através da maternidade e da criação de seus quatro filhos. Formavam um casal típico dos anos 60, quando o mundo respirava um pouco de liberdade depois de um início de século cheio de guerras.

Quando eu tinha 6 anos nos mudamos para a casa nova, um apartamento no bairro Menino Deus que tinha à frente da janela do meu quarto uma praça de 10 mil metros quadrados ao lado de uma escola pública. Se alguém pudesse criar mentalmente um cenário ideal para criar uma família de 4 filhos pequenos, não conseguiria algo tão perfeito como isso. Naquela época as famílias todas ao nosso redor tinham no mínimo 3 filhos, o que nos garantia uma turma gigantesca de crianças com quem brincar. Na escola pública havia a mistura altamente criativa de crianças pobres com jovens da classe média crescente, o que nos oportunizava conhecer um Brasil com maiores dificuldades do que a vida de propaganda de margarina que tínhamos.

Logo meu pai comprou um carro, um DKW azul de teto branco e estofamento vermelho, uma joia da indústria automobilística, com seu motor dois tempos que qualquer um reconhece a quadras de distância. Depois disso veio um marco essencial da modernidade: uma linha de telefone da antiga CRT instalada em casa. No inicio dos anos 70 o supremo luxo: uma televisão colorida, para poder assistir “O Bem-Amado” com todas as cores da obra de Dias Gomes. Nossa infância – e, por certo, falo pelos meus irmãos – é o quadro mais acabado de perfeição, o sonho mais acabado para as famílias da minha geração.

Todavia, como em todo sonho, um dia a gente é forçado a acordar. O meu despertar se deu ao reconhecer a bolha em que nossa vida infantil floresceu. Enquanto vivíamos uma vida de segurança e harmonia havia uma brutal ditadura no Brasil, além de uma crescente disparidade na riqueza do país. O ministro Delfim Neto afirmava que primeiro faríamos o bolo crescer, para só depois dividi-lo, mas esta divisão sempre funcionou como um contínuo “na volta a gente compra” em nível nacional. O que eu passei a reparar foi o número enorme de pessoas pobres ao meu redor, e como o sofrimento delas era visível quando havia disposição para ver. E, naturalmente, eu passei a perceber suas carências, não apenas de caráter econômico e material, mas deficiências de ordem afetiva e simbólica.

Com o tempo percebi que, por mais que houvesse uma tendência em valorizar minhas pequenas conquistas, elas eram fruto direto de uma criação especial, o somatório de inúmeras condições, como uma criação cheia de facilidades, com pais estudiosos, livros nas estantes de casa, escola gratuita, comida na mesa, irmãos para nos ensinar limites, harmonia psíquica e até alguns luxos de classe média. Muito pouco, ou quase nada, é possível encontrar em mim que não seja efeito direto das facilidades que a vida me ofereceu, enquanto sonegava a tantos ao meu redor. Assim, desde muito cedo ficou claro que não há nada de realmente especial em mim, e sou apenas o produto de uma sociedade que me ofereceu inúmeras facilidades, enquanto estas eram negadas à maior parte do país.

Reconhecer o quanto somos o reflexo do nosso entorno e das condições materiais e emocionais que recebemos – ou não – é essencial para reconhecer a necessidade de justiça social e equidade. Quando percebemos o quanto fomos felizes na primeira fase de nossas vidas fica mais fácil entender o quanto essa felicidade deveria ser um direito de todos.

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