Memórias do Homem de Vidro – 11

Fátima e o Protagonismo Devolvido

Fátima veio à consulta carregando uma sacola de exames e trazia estampado no rosto um olhar de resignação. Grávida de 37 semanas, procurou-me porque sua obstetra estava de férias, e a substituta que esta havia indicado não lhe agradou. Vinha, portanto, à procura de um terceiro médico naquela gestação, o que tornava a consulta um pouco diferente das demais. Quando entrou no consultório, eu me impressionei com o seu ventre. Era real­mente muito grande, mesmo para uma mulher alta e corpulenta. Veio com a fa­mosa pilha de ecografias, é óbvio, sendo que a última prenunciava um feto com 4,5 quilos. Diante disso, tanto sua médica quanto a substituta foram taxativas: “É cesariana, porque não vai passar”. Para complicar a situação, essa paciente tinha uma cesariana prévia, com um bebê 8 meses por pré-eclampsia e que, mesmo sendo prematuro, pesou 4,3 quilos. Tinha uma leve alteração da glicemia no último exame realizado há uma semana. Macrossomia, cesárea prévia, diabete gestacional leve. Precisa mais? Ela me disse que queria deixar marcada a cirurgia, “já que precisava ser cesariana”.

Foi então que eu perguntei a ela:

— O que você gostaria que fosse?

*   *   *

“A lógica dos encontros médicos necessita de uma reversão”, dizia Maximilian. Durante anos da minha prática diária de consultório, sofri com a postura de algu­mas de minhas clientes diante do desafio do encontro médico-paciente. Por muito tempo, o padrão era este: elas se aproximavam, me avaliavam com os olhos e perguntavam: “Como é sua conduta quando atende um parto?”. A partir dessa pergunta, eu explicava os pontos importantes da humanização do nascimento, como a posição verticalizada, a presença de um acompanhante de livre escolha, a utilização restrita e judiciosa de intervenções, a valorização do parto vaginal, etc. Entretanto, a pergunta, e minha subsequente resposta, a partir de uma determi­nada época, passaram a me deixar insatisfeito e inquieto. Alguma coisa parecia fora de lugar, produzindo uma espécie de irritação, um incômodo, uma inconformi­dade.

Acho que foi durante uma entrevista para a televisão que eu tive a clareza, pela primeira vez, sobre a questão do protagonismo na assistência ao parto. A produ­tora de uma emissora local me telefonou, convidando para uma entrevista sobre “parto de cócoras”. No dia combinado, lá fui eu engravatado para a TV. A entre­vistadora, uma conhecida e simpática jornalista, me cumprimentou e disse que as perguntas seriam sobre esse tipo especial de partos, e que a matéria tinha sido escolhida por ser 19 de abril, Dia do Índio. Sorri da ideia, aparentemente precon­ceituosa, de que “parto de cócoras é coisa de índio”, quando na verdade a imensa maioria das sociedades primitivas adotou instintivamente essa postura para parir, inclusive os índios brasileiros. Longe de ser uma particularidade indígena, é uma característica de quase todos os grupamentos humanos. Abriu o programa me apresentando e fazendo a chamada de uma “nova velha técnica de trazer os be­bês ao mundo”. Pediu os comerciais e, quando o programa retornou, voltou-se para mim e perguntou:

— Então, doutor, como é essa história de fazer partos de cócoras? Desde quando o senhor faz partos assim?

Quando eu estava me preparando para responder, acendeu uma luz. Acho que talvez tenha tido mais luminosidade que os spots do estúdio, mas apenas eu per­cebi. Hoje em dia eu creio que isso poderia ser definido como insight. É provável que sim.Uma confluência de emoções, sentimentos, pensamentos, antigas análises, lem­branças, tudo entrando em sincronia e produzindo uma espécie de erupção. Fiquei por alguns instantes olhando para a bela apresentadora, até que respondi:

— Eu não faço partos de cócoras — respondi eu. — Minhas pacientes é que ficam nessa posição, quando lhes convém. Na verdade, eu não deveria fazer nada, eu só…

A entrevistadora me olhou com indisfarçável contrariedade. Achou que eu estava criticando a sua pergunta ou querendo ser engraçadinho. Não era isso. Eu não estava achando graça nenhuma; estava, na verdade, em meio a um redemoinho de pensamentos e dúvidas sobre o que realmente eu fazia, ou o que deveria fazer.

— O senhor utiliza uma técnica que é o parto de cócoras, certo? Pois essa téc­nica, usada pelos índios, agora está sendo redescoberta, é isso? — A expressão da jornalista era de franca impaciência.

A ideia prevalente era a de que, ao contrário de uma técnica de partos horizontais, eu estava utilizando outra técnica sobre as minhas pacientes. Uma técnica alter­nativa. Um método de fazer partos. Novo e velho. As palavras de Maximilian apareceram à minha frente e atingiram em cheio o plexo solar. Senti o soco potente de uma verdade há tempos escondida, e que agora podia se manifestar. Por alguns instantes, fiquei olhando a jornalista sem saber o que dizer. “Humanização do nascimento, meu caro Ric, é a devolução do protagonismo à mulher. O resto é apenas sofisticação de tutela.” As palavras fa­ziam eco na minha cabeça, e eu não conseguia falar. Não queria parecer evasivo, mas naquele instante eu não poderia responder o que ela estava a me perguntar, porque a pergunta já não fazia mais sentido. Percebi naquele fragmento de ins­tante a razão da extrema irritação de Leboyer quando lhe questionavam sobre o “método Leboyer”. Ele odiava essa forma de encarar seu trabalho, e sempre res­pondia com clara impaciência a essa pergunta, dizendo que nunca quis criar mé­todo algum. Naquele momento, eu estava me dando conta de que, se você criar uma “técnica de partos de cócoras” estará em verdade mantendo o cerne da questão intocado, mas nutrindo-se da ilusão de que algo diferente está sendo feito.

Ou você entrega o poder de parir às mulheres, ou apenas estará sofisticando seu controle sobre elas, sua dignidade, sua autonomia e sua feminilidade. Fazer “par­tos de cócoras”, como a jornalista me perguntava, me aliava à grande massa da obstetrícia contemporânea que julga as mulheres incompetentes e incapazes de escolher a postura que mais lhes agrada. Determinar para elas uma posição de parir mais fisiológica e racional, como o são as posições verticalizadas, pode pa­recer interessante do ponto de vista dos resultados observados, mas continua sendo uma imposição ditatorial sobre um fenômeno natural e feminino. Estava tornando meu jugo sobre as pacientes menos agressivo e mais suave, mas conti­nuava sem lhes oferecer o protagonismo. Eu estava, enfim, “sofisticando a tutela”.

Naquele instante, percebi que a maior batalha ainda estava por ser travada. Era preciso entregar de volta às mulheres o controle dos nascimentos, e ao mesmo tempo encontrar uma função digna para um obstetra, que não passasse pela ex­propriação do nascer em nome de uma tutela anacrônica. Por outro lado, eu intuía que não seria fácil essa mudança no cenário do nascimento, dominado pela visão tecnocrática há três séculos e meio. Peça a um homem que recuse qualquer acréscimo na sua vida e terá sucesso, mesmo que com dor e privação, mas retire alguns de seus antigos privilégios e você terá luta. Olhei para a bela entrevistadora mais uma vez, e depois de um suspiro respondi:

— Uma mulher pode encontrar por si mesma a posição que mais lhe parece ade­quada para ter seu filho. Minha função é apenas ajudá-la a encontrar essa pos­tura, criando as condições psicológicas e ambientais para isso. A posição de cóco­ras é uma das mais escolhidas pelas gestantes, porque permite uma ampla aber­tura das conjugatas, que são as distâncias entre os ossos da pelve. Além disso, a posição vertical, ao contrário da posição horizontal, não comprime os vasos ma­ternos do abdômen, nem interrompe o retorno venoso criado por essa compres­são. A força da gravidade e a facilidade de fazer prensa abdominal são excelentes fatores coadjuvantes. Mas nada disso pode ser imposto a essa grávida. Ela deve estar no comando, escolhendo por si o melhor caminho.

Respirei fundo mais uma vez, e, depois de um sorriso de alívio, terminei:

— Sem garqantia de protagonismo, não existe humanização do nascimento. Sem que as pacientes possam livremente escolher a posição para parir, seu acompa­nhante, o local, suas roupas, suas tradições e suas inúmeras vontades, apenas estaremos reproduzindo uma história de abusos e interferências desnecessárias, que não tem mais cabimento em um mundo que se propõe democrático e igualitá­rio.

Não recordo de mais nada do que disse na entrevista, mas a bela jornalista parece não ter gostado de minhas respostas. A partir daquele dia, eu não mais falei sobre “partos de cócoras”, porque a questão da autonomia feminina passou a ser o foco de minha atenção. Em algum lugar, Max sorria e brindava, levando ao alto um espumante copo de cerveja.

*   *   *

Voltei a olhar para Fátima, que parecia um pouco aturdida com a minha pergunta. Ela certamente não esperava pela minha reação. Joguei a “batata-quente” de volta, e ela sentiu o calor nas mãos. Depois de alguns instantes me olhando atur­dida, respondeu:

— Ora, doutor, eu preferiria parto normal, que a gente pode ir para casa mais rá­pido. Tenho uma filha de nove anos que precisa da minha ajuda. Sei que uma ce­sariana é uma cirurgia, e que a recuperação é muito mais lenta.

As pesquisas realizadas no Brasil pelo Dr. Joe Potter e pela professora de antro­pologia da Universidade do Texas, Kristine Hopkins, assim como uma recente­mente publicada pela FIOCRUZ, apontam para uma realidade muitas vezes dissi­mulada: mulheres preferem majoritariamente realizar partos normais. Elas sabem das vantagens de um nascimento natural, tanto para elas quanto para os bebês. A perversidade das cesarianas desmedidas não pode mais ser contabilizada como uma culpa dessas mulheres, porque a inversão do desejo de um parto vaginal ocorre quando elas adentram os centros obstétricos. Fátima tinha conhecimento da qualidade superior do parto normal, mas só agora estava podendo expressar.

— Fátima, o destino do seu parto depende mais de você do que de qualquer outro fator externo — disse eu. — Se você deseja ter seu filho de parto normal, esse é um direito seu, que ninguém pode lhe retirar. O que mais conta nessas situações é o desejo, a vontade e a confiança que você deposita em si mesma. Acho que seu caso inspira cuidado e atenção redobrados, mas penso também que temos uma esperança, e é agarrado nela que eu acho que devemos nos manter. Ela sorriu e respondeu:

— Mas doutor, eu quero ter meu filho de parto normal. Mas meus médicos disse­ram que era impossível por causa da cesariana anterior, da diabete, do tamanho do bebê, e…

— Posso entender a preocupação dos seus médicos Fátima, pois, como eu mesmo disse, seu caso tem muitas complicações. Porém, nenhuma delas é cla­ramente impeditiva para um nascimento normal e com menos riscos. Nada, nem ninguém, é mais forte que a sua força de vontade e seu desejo. Se você deseja ter seu filho de parto normal, temos a obrigação de tentar, mesmo sabendo que será um desafio difícil.

Ela sorriu e combinou de voltar com o marido. Consultou novamente alguns dias depois, logo que começou a apresentar algu­mas contrações. Ao exame de toque, ela tinha um bebê muito alto na pelve e a dilatação de uma polpa digital. As contrações uterinas eram ainda esporádicas e fracas. Pedi que me ligasse se viessem a ocorrer com maior intensidade.

No mesmo dia, ela me ligou dizendo que estava com contrações mais fortes e pedi-lhe que retornasse ao meu consultório para uma nova avaliação. O cenário havia se modificado. Agora já se havia instalado a fase ativa do trabalho de parto, e ela tinha de três a quatro dedos de dilatação. Apesar disso, o bebê continuava alto. Pensei comigo: Será que desce? Será que não está apenas dilatando pra depois trancar no estreito médio? Esses meus pensamentos se exteriorizaram com um sorriso benevolente. Pura encenação, confesso. Mas era para uma causa nobre: insuflar confiança nas suas capacidades; apostar na sua força e competên­cia para ter seu filho. Eu estava apostando minhas fichas nela, “pagando para ver”.

Pedi que retornasse para casa e aguardasse mais algumas horas antes de ir para o centro obstétrico. Os hospitais sempre produzem um efeito complicador sobre o desenrolar do trabalho de parto e, portanto, quanto mais longe as pacientes de baixo risco puderem ficar dele durante o período inicial de pródromos, melhor. Um centro obstétrico, por melhor que seja, sempre produz nas mulheres um estado ansiogênico de percepção do meio circundante. Na nossa história adaptativa como espécie, o local de nascimento sempre teve como signo fundamental a se­gurança. Para todos os mamíferos superiores, e mesmo para os primatas, preva­lece a atitude de procurar abrigo seguro quando as contrações se iniciam. A multi­plicidade de ameaças e a natural fragilidade com que uma grávida se encontra fazem com que esse local seja escolhido para oferecer o máximo de proteção, tanto à mãe quanto à cria. Além disso, a presença de um suporte técnico e afetivo foi uma marca de nossa ancestralidade, talvez se iniciando com os primeiros exemplares do gênero homo há dois milhões de anos. Aí se inseria a função da parteira, tão antiga que se perde nas brumas do tempo.

A ida de Fátima para casa, longe do estresse propiciado pela hospitalização, tinha esta função: aguardar a dilatação no seu domínio. O hospital, por ser “um local estranho, onde estranhas pessoas operam estranhas máquinas”, no dizer de Marsden Wagner, cria um cenário de temor e apreensão, que facilmente coloca a gestante no temido, mas pouco compreendido, círculo vicioso de medo-tensão-dor. Manter a paciente em casa tem essa grande vantagem: conservá-la em um lugar da sua confiança e, portanto, de segurança. Algumas horas mais tarde, ela me ligou (na verdade o marido, dizendo que Fátima estava “quase desmaiando”) e eu solicitei que se dirigissem ao hospital. Por morar em uma cidade vizinha, além do tamanho fetal presumido e da cesariana prévia, nem se cogitou em realizar um parto domiciliar. Fátima não se conformaria a ne­nhum protocolo estabelecido e, portanto, essa possibilidade jamais foi aventada nas conversas prévias. Chegando ao hospital, às 14 horas, fiz uma avaliação da situação e percebi que ela já se encontrava com seis centímetros de dilatação, mas com uma apresentação ainda muito alta.

— Vamos caminhar, mulher — disse eu com uma risada. — Precisamos fazer este bebê descer. E, para isso, nada como um bom passeio.

Nos velhos tempos da residência, eu aprendi, com Maximilian, a importância da deambulação das parturientes. Ele tinha a mania de tirá-las para dançar, e não sei se pelo riso que isso provocava, ou pela dança mesmo, o resultado era um incre­mento da contratilidade uterina. Muitos anos depois, escutando as palavras da parteira americana Ina May Gaskin, pude confirmar a ideia de que o riso tem uma poderosa capacidade terapêutica durante o parto. “Faça a paciente rir, dar garga­lhadas, e você terá resultados incríveis”, dizia-me ela. As posições verticalizadas auxiliam na descida da apresentação fetal pela ação da gravidade sobre o feto, porém mais importante talvez seja a mobilidade incrementada do quadril, que fa­vorece a adequação da apresentação ao estreito canal que o bebê terá que atra­vessar. A bipedalidade, e depois o aumento craniano, determinaram que esse feto tivesse que realizar um caminho tortuoso dentro da pelve, para poder ultrapassar as barreiras ósseas do percurso. A entrada do canal é mais larga no sentido lá­tero-lateral, enquanto a saída é mais larga no sentido ântero-posterior. Com isso, nosso pequeno herói precisa cumprir um sinuoso trajeto dentro da pelve e postar-se com a nuca encostada no osso púbico da mãe, ao contrário dos grandes ma­cacos pongídeos, nos quais esse movimento não ocorre e seus partos são em geral mais rápidos e fáceis.

A deambulação e a mobilização constantes são de extremo auxílio para essa situ­ação. Mais uma razão para que as mulheres de baixo risco não sejam monitoriza­das eletronicamente durante o trabalho de parto, porque assim, atadas ao monitor, têm sua mobilidade extremamente prejudicada. Zeza me acompanhava no hospital, e lá se foram as duas caminhando pelos cor­redores do centro obstétrico. Às quatro horas da tarde, Fátima já estava com oito centímetros de dilatação, au­mentando para nove centímetros duas horas mais tarde. A dilatação já estava concluída às oito e meia da noite, mas o bebê continuava alto. O que fazer? Seria um bebê grande demais? Seria uma impossibilidade clara e incontornável? Ou uma tentativa inútil e frustrante? Como ter certeza? Valeria a pena tentar, correndo o risco de não conseguir e ter que apelar para uma cesari­ana?

O físico Niels Bohr já dizia que “certezas são fruto de nossa presunção, e nada tem a ver com ciência”. Aristóteles, por sua vez, falava aos seus discípulos que, “quanto maior a capacidade e o saber de um homem, maiores as suas dúvidas. As certezas foram dadas pelo criador aos medíocres, como um prêmio de consola­ção”. Minha angústia por não ter certezas sobre o melhor a fazer era, pelo menos, premiada com excelente companhia. Entretanto, as falsas certezas são caracte­rísticas do modelo médico contemporâneo, em que a encenação e o discurso au­toritário são mais constantes do que a conversa franca e o embasamento das condutas na solidez das evidências científicas. Depois de um tempo saí da sala para tomar um café. Minha saída fora mais pelo desafogo das tensões do que pela cafeína. Pouco depois, Zeza me chamou ao quarto novamente e disse que Fátima precisava conversar comigo, pois tinha algo muito importante para dizer. Adentrei a sala e a encontrei acomodada de costas para a porta. Ela parecia can­sada e abatida. Sentada na beira da cama, apoiava as mãos sobre os joelhos, como se fosse uma asmática. Levantou a cabeça e me falou, com um ar contrari­ado:

— Doutor, não estou gostando nada disso. Eu devia ter escolhido aquela outra médica. Ela já teria me livrado desse suplício. Por que esperar tanto? O senhor não me diz a que horas vai nascer, e eu continuo aqui com minhas dores. Por que isso tudo? Por que não inventaram uma forma mais humana para se ter filhos?

Uma forma mais “humana” de ter filhos? O que pode haver de mais visceralmente humano do que ter filhos de forma natural?,pensei, enquanto encarava Fátima e tentava entender suas dúvidas.

Desde muito cedo, ainda na faculdade de medicina, eu me preocupei com a questão do “sentido oculto das palavras”. Muitas vezes, conversei com Nadine e Max a respeito de algo que eu chamava de “patologia da palavra” e que Max cos­tumava chamar de verbose, que é a potencialidade mórbida do que é dito, fre­quentemente usada pelos profissionais de saúde. Antes das atitudes inadequadas, das condutas equivocadas ou dos procedimentos errôneos, muitas das falhas no sistema médico iniciam-se com o uso errôneo de palavras, expressões e gestos. Durante um congresso no México, tive a oportunidade de falar sobre a palavra dita e seus significados com Debra Pascali-Bonaro, que é uma das mais importantes doulas americanas. Nessa ocasião, ela me falou algo muito interessante a respeito de safeword, ou seja, os códigos de comunicação entre a equipe de assistência e a grávida em trabalho de parto. Essa animada conversa me remeteu a uma outra, que tive com Max alguns anos antes.

*   *   *

Uma vez Maximilian me trouxe um artigo escrito pela psicóloga Eliana Calligaris a respeito de um congresso de sadomasoquismo que ela tomou conhecimento nos Estados Unidos. Claro que Max achava a maior graça o pessoal da “Leather Community” se organizar em congressos. Ficava fazendo piadinha o tempo todo, imaginando os cartazes pregados nas portas: “Antes de entrar no auditório, pen­dure seu chicote aqui”. Ou então o cara que ia fazer uma palestra sobre maso­quismo e não conseguia segurar o microfone por causa das algemas. O que ele achou interessante no artigo escrito pela Eliana, foi o conceito de “palavra-chave”. Sua intenção era me chamar à aten­ção para um detalhe no artigo que falava sobre a forma específica de lidar com as demandas durante um processo de alteração consciencial. Entregou-me o artigo com um misto de surpresa e entusiasmo, e me disse que aquilo um dia poderia ser utilizado em trabalho de parto.

— Max, só você mesmo para discutir similaridades entre sadomasoquismo e parto. O que tem a ver uma coisa com a outra? — dizia eu.

Max dava uma risadinha e dizia:

— As coisas estão entrelaçadas no universo. Só existe verdade em um aspecto da vida se pudermos formar analogias em escalas superiores. Leia o artigo e depois comentamos.

Comecei a imaginar o que Max queria dizer, tentando estabelecer as analogias possíveis entre esses mundos aparentemente tão díspares. A leitura do artigo foi uma estimulante surpresa. Facilmente pude perceber o que Max estava me propondo. O ponto de contato entre as práticas sexuais e o traba­lho de parto estava no “princípio do prazer”, que havia muitos anos eu lera no livro A Good Birth, a Safe Birth, de Roberta Scaer e Diana Korte, e que depois foi dis­secado no livro de Michel Odent, A Cientificação do Amor. A chave está em que, nas duas situações, na excitação do jogo sadomasoquista e no “tesão” do trabalho de parto, os envolvidos estão em estados alterados de consciência. Era essa a ligação que Max me apontava. As práticas na “comunidade do couro” são simbolicamente sexuais e reportam o indivíduo à dubiedade de um mundo sexual primitivo, em que a submissão e o comportamento autoritário fazem os papéis principais em um envolvimento de de­sejo. A questão toda, para a articulista, era onde terminava o ilimitado mundo fan­tasioso dos participantes e onde se iniciava o mundo da realidade carnal. Nesse fino liame se estabeleciam os riscos. Max continuava a me descrever cenas engraçadas do encontro, e eu tentava ter­minar o artigo para compreender as possíveis interfaces que ele apontara.

— Se era para me incomodar, para que me emprestou o artigo? Dá licença de eu me concentrar?

Finalmente chego na parte do artigo em que Eliana fala da palestra de um “mes­tre” sádico em que ele explica as vantagens do safeword, que poderia ser tradu­zida por “senha”. Pois ele se dizia extremamente preocupado com casos aconte­cidos havia alguns anos em que, durante práticas sadomasoquistas, ocorreram violências, traumatismos com certa gravidade e, com uma frequência inaceitável, alguns casos de morte. A história, segundo o mestre, era sempre contada da mesma forma. A prática se­xual entre a dupla (às vezes eram mais pessoas) fazia com que estas entrassem em um tipo de transe sexual (acrescido ou não de drogas e álcool), em que o que menos importa é o intercurso sexual. Seria levar as “preliminares” às suas últimas consequências. No meio desse transe, você faz uma prática qualquer, por exem­plo, dar tapas, bater no rosto, dar com chicotes ou sufocar com as mãos. Faz parte do ritual que o masoquista reclame, que chore, que grite, que diga “não”. Entretanto, o perigo residia em que a mesma palavra usada no jogo seria a pala­vra a ser utilizada no retorno ao mundo real, criando-se uma confusão na intersec­ção dos planos (fantasia – realidade). Esta palavra de três letras — NÃO — (com as suas óbvias variações “não quero”, “pare”, “chega”, etc.) perdeu a validade nos jogos sadomasoquistas, por ser demasiadamente abusada como peça do discurso de quem “sofre” a brincadeira.

Diante dos perigos de se avaliar as reais necessidades de alguém envolvido em uma alteração de consciência, faz-se necessário estabelecer regras para o per­feito entendimento do que se quer. O que o palestrante pretendia era a criação e a adoção de palavras que substituíssem de forma inquestionável as manifestações que pudessem significar algo além do pronunciado. Aqui, então, se encaixa a analogia de Max. Que valor possui, no contexto do tra­balho de parto, a frase Eu quero uma cesariana agora!?

Em muitas vezes em que ela é dita, existe uma alteração do estado de consciên­cia e, portanto, as palavras não possuem o seu verdadeiro valor. Essa compreen­são do valor relativo das expressões é fundamental para não cairmos na armadi­lha de fazer uma cesariana no primeiro pedido, que nada mais é do que uma soli­citação de atenção com suas dores, uma necessidade de carinho, esperança e reasseguramento. Assim sendo, essa expressão, e esse pedido, precisam ser entendidos de forma abrangente. Os participantes da “Comunidade do Couro” encontram na negativa, o “não” repe­tido e chorado, um estímulo para as suas brincadeiras, porque a graça está em oprimir e obrigar o parceiro a um estado de escravidão.

Mas como saber se a coisa é séria? Aí se encaixa o conceito de senha. O “Mes­tre” falava da importância das senhas previamente estabelecidas nas brincadeiras. Dizia que, sem ela, o sadomasoquismo se tornaria uma prática perigosa e que atentaria contra a vida das pessoas. Mortes poderiam ter sido impedidas se os participantes entendessem a importância de respeitar os limites de cada um dos envolvidos, e fazer com que a comunicação fosse plenamente entendida. Com isso, muitas dores e tristezas poderiam ser evitadas. Debra me falava que o pedido de cesariana deveria ser muito conversado durante o pré-natal. E ela acenava com a possibilidade de se criar uma “senha” para a ce­sariana, que seria a palavra ou gesto que cumpriria a função de explicar que todos os esforços foram feitos, que todas as tentativas foram realizadas, mas que o li­mite das suas capacidades foi extrapolado, e que não haveria mais espaço para tentativas. É um momento extremamente tenso, mas que deve ser respeitado e previamente estabelecido em suas regras. Concordei com minha amiga, porque percebi nessa postura a compreensão do momento especial que é o trabalho de parto, resguardando para a paciente a ga­rantia do protagonismo. Eu digo que sempre obedecerei às determinações da minha paciente, mas não de uma forma cega e automática, desreconhecendo a mudança do significado das palavras nos estados alterados de consciência. Entretanto, temos que estar aber­tos para o fato de que uma mulher, lá pelas tantas, venha a dizer:

— Abacaxi! Quero uma cesariana!

“Abacaxi” era, hipoteticamente, a senha previamente combinada. Ela só seria dita no caso de uma mulher não suportar mesmo e, depois de muito pensar, decidiu-se por uma cesariana. Mesmo sabendo da possibilidade de uma analgesia, ou aguardar mais um pouco, ou mesmo relaxar e ir para o chuveiro, ela preferiu de­sistir da proposta do parto natural e ir para a cirurgia. Eu escutei isso de uma paciente, fazia uns dez anos. Ela olhou nos olhos, com uma face brava, quase colérica, e disse:

— Chega. Não quero mais saber dessa história de parto natural. Nem de parto de cócoras, nem parto normal. Nada. Quero uma cesariana agora, já!

Eu percebi que ela havia desistido mesmo. Estava apenas com seis centímetros, e o bebê era grande. Não me deixou nenhum espaço para tentar demovê-la da ideia. Fiz a cesariana na mesma hora. Mesmo assim, ela ficou brava comigo, di­zendo que eu não deveria tê-la deixado entrar em trabalho de parto, porque as dores eram horríveis, e que é algo insuportável e todas as outras coisas que paci­entes magoadas dizem. Ela teve uma chance de ter um filho de parto normal, e empoderadamente decidiu-se pelo que achava melhor. Foi protagonista de sua escolha, escolhendo a via que achava melhor diante de seus valores. É necessário ter a sabedoria para entender os sentidos últimos escondidos nas palavras. É fundamental valorizar a participação e o protagonismo pleno do nas­cimento humano. As palavras de “senha” podem cumprir o papel de avisar ao mé­dico (ou à equipe) que a cliente cruzou o limite do jogo; está desistindo de uma proposta e uma possibilidade. E isso deve ser sempre respeitado.

*   *   *

Olhei mais uma vez para Fátima e pude perceber que ela tinha medo. Mesmo tendo chegado tão longe, ela ainda sentia temor diante do seu parto. Depois de respirar fundo e ficar em silêncio, resolvi fazer um novo toque. Dilatação completa, bolsa íntegra, a cabeça do bebê estava mais baixa na pelve do que no exame anterior. Ainda estava alto, mas já havia descido. Foi então que eu dei mi­nha cartada final.

— Ok, minha flor. Você é quem sabe. Se você diz que não pode aguentar mais, eu acreditarei no que você diz. Se você quer terminar esse “suplício”, como você mesmo chama, então vamos lá.

Ela não tinha muita dor. Conheço “cara de mulher com dores”. Ela tinha medo, angústia, apreensão. E cansaço.

— Se realmente você chegou ao fim de suas forças, sou obrigado a acreditar em você, e não me restará outra opção a não ser acabar com tudo isso e operá-la. Para isso, basta chamar o anestesista e o auxiliar cirúrgico. Entretanto, eu impo­nho apenas uma pequena condição: só farei essa cirurgia se você olhar no fundo dos meus olhos e me disser que não suporta mais, que está no seu limite, que não pode mais esperar, e que vai querer uma cesariana, mesmo estando com a dilata­ção completa. Essa decisão vai ser sua, e seja qual for eu vou obedecer. Se eu fizer essa cesariana, será com tristeza, mas eu acreditarei em você e obedecerei à sua decisão. Eu estava solicitando a senha, a palavra que me confirmaria a sua desistência. Estava preparado para escutá-la, porque me mantinha fiel à ideia do protagonismo devolvido às mulheres. Peguei pesado, fui firme. Será? Disse a exata verdade dos fatos, mesmo com uma ênfase propositalmente dramática, mas estava realmente preparado para aceitar sua decisão. Minha postura era clara: “Você vai decidir. Você é responsável pelo seu parto. Você tem o poder nas mãos. Use-o”. Ela me encarou com olhos de súplica. Tentou balbuciar algo tipo “mas quanto tempo ain..”, mas eu lhe cortei:

— O tempo vai depender de você. Podem ser alguns minutos ou algumas horas ainda. Nada posso prometer, a não ser ficar ao seu lado aguardando e avaliando você e seu bebê. Nesse exato instante, ambos estão ótimos.

Ela estava com dilatação completa, e, mesmo que ainda não tivesse apresentado puxos, poderíamos considerá-la como estando dentro do segundo estágio do tra­balho de parto, que é quando o período de dilatação já se completou. Mas quanto tempo poderíamos aguardar até o nascimento do seu filho? Essa questão torna-se crucial nos casos em que a descida da apresentação fetal é mais lenta do que o normal, mesmo após ter se completado a dilatação do colo uterino. Em verdade sobre essa questão, a biblioteca Cochrane de medicina ba­seada em evidências é taxativa: “Se houver progressão do trabalho de parto, e ambos (mãe e bebê) estiverem bem, não há justificativa para se estabelecer um limite máximo para o segundo estágio do trabalho de parto”. Além disso, a relação entre períodos expulsivos mais lentos e morbidade fetal não existe. Os trabalhos bem acompanhados no mundo inteiro deixam bem claro aos profissionais que tra­balham com o nascimento humano que não existe vantagem alguma em interrom­per o desencadear de um processo de nascimento mais vagaroso pelo medo de uma alteração perigosa. Entre as técnicas e habilidades a serem utilizadas nessa situação, a mais efetiva e, no entanto, a mais difícil de ser encontrada, é a… paci­ência. Fátima ficou alguns segundos pensativa e cerrou fortemente os olhos quando a nova contração se deu. Passada mais essa “onda”, olhou novamente para mim e disse, depois de liberar mais um suspiro:

— O que eu preciso fazer, doutor?

Ufa… Por uns instantes, temi por ela, mas ela foi mais forte do que eu pensava.

Aí é que entrou a magia das mulheres. Eu lhe disse:

— Você está com a dilatação completa. Está sem nada “na frente” do seu bebê. Pode até fazer força se quiser ou sentir uma forte vontade. Pegue na mão da Zeza e saia caminhando com ela até o chuveiro. Fiquem lá vocês duas. Deixe que a água quente da ducha a acalme e relaxe.

Ela concordou e lá se foram as duas. Saí da sala e anotei em um papel o nome e o telefone do anestesista e da minha auxiliar. Pensei comigo: não vou usar esses números, ela vai conseguir. Seria um otimismo exagerado, ou apenas uma tenta­tiva de convencer a mim mesmo da possibilidade? Passaram-se uns 20 minutos, quando vi a entrada de Zeza na sala dos médicos esfregando as mãos. Olhei pra ela sem entender.

— Coroou — disse ela. — Já está ali! Eu vi, eu vi!

Não acreditei. Estava muito alto quando a examinei há alguns minutos. Poderia ela ter progredido tão rápido assim? Fui até o chuveiro e entrei quase debaixo da ducha. Incrível. Lá estava ele! Estava saindo mesmo! Pedi a Fátima que saísse do pequeno box e subisse na cama para parto de cóco­ras. É uma mesa da JICA que o hospital recentemente havia adquirido. Mais alguns minutos e lá vinha vindo ele. Devagar e lentamente. Assustei-me com o tamanho da cabeça. Era muito grande. Mas o desprendimento era suave, tran­quilo. O períneo suportou muito bem. Vinha vindo, vinha vindo. Ela olhou para mim, como que a perguntar o que fazer, e eu lhe disse:

— Sei que você está com uma contração. Deixe-o nascer. Não tenha medo. Você vai conseguir. Relaxe; tenha confiança.

Uma última força e a cabeça nasceu. Grande, redonda, sem nenhuma bossa. Tive que fazer uma manobra suave, porém firme, para o desprendimento dos ombros. O “resto” do bebê veio logo depois. Quando ele nasceu, eu não acreditei… Era enorme! Um gigante. Muito maior do que a previsão. Chorou logo depois. Era vermelho e redondo. Eu brinquei com ela: “Parece um chinês!” A pediatra não estava na sala porque havia sido chamada, minutos antes, para uma emergência, mas sua auxiliar ficou por perto para qualquer imprevisto. Nada aconteceu, apenas risos e alegria.

O mais surpreendente verificamos depois. O bebê pesou nada menos do que 5,355 quilos. Um trabalho de parto rápido e sem nenhuma laceração perineal. Eu falei para as enfermeiras presentes que, contando, ninguém acreditaria. Essa pa­ciente deveria estar em uma sala de recuperação pós-anestésica, cheia de soros e medicamentos, dopada e sonolenta e, no entanto, estava amamentando seu bebê gorducho, sem nenhum ponto, sem nenhuma droga e sem nenhum pro­blema. Apenas felicidade. A equipe de enfermagem foi maravilhosa, o que reforça a minha convicção de que bons hospitais não são feitos de máquinas sofisticadas ou instalações suntuosas; são feitos de gente, a matéria-prima mais complicada, rara e valiosa. As enfermei­ras e auxiliares permaneceram o tempo inteiro nos prestando auxílio sem interferir, e quando vinham ter conosco sempre traziam uma palavra de encorajamento e confiança.

A presença da Zeza foi fundamental; um capítulo à parte nessa história. Sua can­dura e paciência foram o toque mágico que despertou as capacidades que Fátima trazia consigo. Sem ela, não teríamos tido sucesso. A feminilidade com que esse nascimento ficou impregnado é que possibilitou que sua capacidade de parir vi­esse à tona. E ficou para mim uma grande lição: acreditar sempre, porque as mu­lheres merecem esse crédito. Ao ver Fátima agarrada ao seu filho, lembrei que todas as mulheres do mundo estavam de parabéns. Uma vitória como essa é uma conquista de cada uma das mulheres do mundo. Uma vitória contra o descrédito e a desconfiança.

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Memórias do Homem de Vidro – 10

Mensagens

— Quanto sairia a mesma configuração de CPU, o mesmo processador, mas com um monitor de 15 polegadas?

O rapaz soltou a placa de vídeo que levava nas mãos e segurou a calculadora. Doentes por computador, como eu e o meu colega Rivail, acabam conhecendo todas as bibocas que vendem equipamentos, placas, cabos, HDs, etc. O vício nos obriga a procurar múltiplos “fornecedores”, porque às vezes estamos atrás de um detalhe que apenas os mais aficionados têm em estoque. É dura a vida do viciado. Sempre atrás de um driver perdido, babando por uma placa 3D, sofrendo por falta de RAM. Acho que já tive até síndrome de abstinência durante as minhas últimas férias na praia. Nessa época, eu costumava ter sonhos com Pentium e me via correndo pelos campos segurando um notebook prateado nas mãos e sendo per­seguido por um Bill Gates furioso que me xingava por usar um Windows pirata. Esses pesadelos às vezes terminavam com um banner: “Este sonho tem o patro­cínio da Intel”.

Enquanto o rapaz fazia (ou fingia fazer) as contas, meu celular vibrou na cintura. Rivail continuava a observar a placa-mãe, e eu me afastei para responder ao chamado. Era do hospital. Minha paciente estava lá me aguardando, e parecia estar com bastante vontade de fazer força. Seu nome era Maria Rita, e me aguardava junto com a doula Cristina na sala de emergência do hospital.

Puxa. Incrível. Exatamente no dia “D”. Que coincidência! Mas essa não seria a primeira, e nem a última coincidência do caso, que havia começado havia alguns meses. Rita chegou no meu consultório com a indefectível montanha de exames. Ultrassons, hemogramas, exames de urina, etc. Trouxe junto com ela, colado em sua face, um semblante de preocupação. Colocou os exames em ordem sobre a mesa e começou a desfiar seu calvário de tormentos:

— Eu vim aqui para ver o que posso fazer da minha gravidez. Estou com 27 se­manas. É minha primeira gestação, mas há três anos fiz uma conização porque tinha um carcinoma no colo uterino. Isso nunca me causou problema, e a minha doutora me disse que eu estava curada. Mas, como o senhor já sabe, eu estou com contrações e muito nervosa. Tenho medo de perder meu bebê.

O senhor já sabe?, pensei eu. Sei mesmo? Fiz uma sinapse de emergência com meus neurônios de reserva. Ok, agora estava me lembrando. Maria Rita. Havia me ligado várias vezes durante a semana, por ser amiga da psicóloga Flávia, e estar acompanhando seu curso para gestantes. Disse-me ao telefone que não estava entendendo as recomendações de sua médica e, além disso, estava des­confiada da quantidade de medicações que estava utilizando. Queria uma se­gunda opinião. Respondi que teria imenso prazer em ajudá-la, mas que não ficava bem eu ficar minando a relação que ela tinha com a sua doutora. Coisas da ética médica. Ficar dando palpites por telefone do tratamento que um colega está fa­zendo parece papo de botequim. Pedi que marcasse uma consulta para que a gente pudesse calmamente conversar.

Alguns dias depois, lá estava ela. Contraía o cenho, como se assim fazendo pu­desse também contrair o resto de colo uterino que possuía. Estava nervosamente segurando seus papéis, com um olhar de súplica nos olhos. Ela estava amedrontada, e percebi que sua médica também estivera. Entre os pa­péis de Maria Rita estava uma receita de corticosteroide, medicamento usado para acelerar a maturação pulmonar dos bebês nos casos em que se suspeite que possa ocorrer um parto prematuro. Apesar disso, no momento ela estava sem ne­nhuma das contrações que a atormentaram há alguns dias. O exame clínico me mostrou um colo uterino apagado (chato, plano), porém fechado. Mesmo que ela tivesse tido muitas contrações nas últimas semanas, estas não foram capazes de dilatar esse colo.

— Tenho medo — disse ela.

— Sei disso — respondi. — Mas tenho uma proposta para fazer.

— Qual?

— Suspenda todas as medicações e tome apenas medicamentos homeopáticos. Não use nenhuma droga. Faça repouso e uma dieta que evite alimentos “fortes”. Acima de tudo, tenha fé em si mesma. Acredite que você pode. Tome uma ducha de autoconfiança. Que acha? Ratifiquei minha posição de aguardar sem usar drogas, porque no momento ela estava sem nenhuma contração, mas investir pesadamente se fosse necessário. Ela saiu da minha sala aparentemente mais confiante.

É complicado ser um médico que se pretende humanista. “Humanização do nas­cimento é a garantia do protagonismo à mulher”, já me dizia Maximilian desde a época da residência médica. Mas estarão essas mulheres preparadas para o pro­tagonismo? Querem de verdade tomar as rédeas do próprio destino? E se não quiserem? Devo agir como um pai todo-poderoso que impede que seus filhos saiam de sua sombra protetora, alijando-os da árdua tarefa de serem responsá­veis pelos seus atos? Ou devo empurrá-los para suas responsabilidades, tal qual a leoa com seus filhotes, para que procurem o crescimento pelas suas próprias forças, aprendendo com os tombos que a vida inexoravelmente lhes oferecerá? Nenhuma dessas perguntas tem resposta fácil. Todas produziriam polêmica, dis­cussão e tantas interpretações quanto forem as cabeças a julgar. Mas o médico tem que decidir, baseado muitas vezes no sentir, no intuir, na sua estrela e nas percepções outras que nos ajudam a seguir.

Achei que Maria Rita merecia essa oportunidade de andar com suas próprias per­nas, dar seus próprios passos. Senti nela, e no seu marido Jean, uma força e uma confiança admiráveis. Imaginei que a força que manteria sua filha por mais tempo na segurança do mundo uterino seria a força dessa certeza. Apostei. Poderia per­der, mas achei que valia a pena tentar. Na consulta seguinte, eu lhes disse que queria fazer um acordo com eles e com a nenê: que aguardassem até o dia 30 de março, quando estariam completas 36 semanas, oito meses, e portanto o risco de síndrome de angústia respiratória seria mínimo. Eles se olharam como se não entendendo o porquê do “acordo”.

— Depende de vocês. Essa é a sua parte. Falem com ela. Expliquem porque é importante esperar até este dia, e que vai ser muito melhor ficar aí dentro, no ca­lorzinho da mamãe, do que sair antes. Digam-lhe para aguardar com paciência, porque assim a mamãe, o papai e principalmente o doutor vão ficar bem felizes.

Ambos riram das minhas palavras, mas deixei bem claro que estava falando sério. Olhei para o calendário em cima do computador da loja: 30 de março! “Eles cum­priram a promessa! Exatamente no dia combinado. Gente de palavra!” Despedi-me do amigo Rivail e lhe falei que o dever me chamava, mas que depois conver­saríamos sobre o seu novo computador. Saí da loja apressado, olhando para o relógio e preocupado com o tempo que levaria para chegar até o hospital. Quando fui colocar o telefone na cintura, senti uma sensação muito estranha, tão estranha que me deixou perturbado. Um aviso piscava na minha cabeça, diáfano, insistente, sem parar. Tão estranho e inusitado quanto forte.

Ligue para Berenice – Ligue para Berenice – Ligue para Berenice.

Que diabos seria isso? Por que esses pensamentos? Por que essa sensação de premência? Por que deveria ligar para a minha amiga Berenice?

Sem perder tempo, me dirigi ao carro. Não tinha muito tempo porque Cristina ha­via me dito que ela estava fazendo força. Será mesmo? Tão rápido? Tentei insistentemente ligar para Berenice. Nada em casa. Celular não estava na área ou desligado. Cáspite, o que será que a Berenice quer? Estaria precisando de algo? Alguma coisa com a Vitória, sua filha de um ano? Que mensagem tele­pática seria essa? Continuei tentando ligar, enquanto rumava em direção ao hos­pital. Fiquei imaginando a desculpa que daria para o policial, se fosse pego. “Des­culpe seu guarda. Recebi uma mensagem mediúnica e estou tentando fazer con­tato”. Não ia colar. Cheguei ao hospital e encontrei Cristina, Maria Rita e a enfermeira de plantão.

— Ricardo — disse a enfermeira. — Pressão boa, batimentos ótimos, bolsa rota e líquido amniótico francamente meconial, e a dil…

— Meconial? — disse eu, preocupado com o significado do mecônio, as fezes fe­tais, no líquido da bolsa. Puxa, que droga. — Como está a dilatação?

— Era o que eu ia explicar agora, seu apressado. Dilatação de nove centímetros, baixo e… pélvico.

— Putz — disse eu. Prematuro de 36 semanas e pélvico! A posição pélvica expli­cava a presença de mecônio, que nessas circunstâncias não tem a gravidade que possui nas apresentações cefálicas. Era só o que faltava. Maria Rita não escutou nada dessa conversa, mas percebeu meu semblante tenso quando fui lhe falar.

— Rita, disse eu. — Seu bebê está bem, sua pressão ótima. Entretanto, ela se encontra sentadinha. Bebês sentados com prematuridade apresentam melhores resultados se são atendidos por cesariana, pois os riscos são menores. Acho que o mais indicado seria operar. Mas antes disso vou fazer um exame.

Luvas colocadas, paciente posicionada. Meu Deus… Dilatação completa e baixo. Estava quase no “visual”. Olhei para os lados, procurando por Nossa Senhora, ou algum orixá, mas encontrei apenas o olhar fixo do marido.

— Não dá mais tempo, virá por baixo mesmo. Não dará tempo de chamar o anestesista. Chamem o pediatra com urgência. Lembro do rosto do Jean, sorrindo nervosamente para a mulher e dizendo:

– Calma, Rita. Eu estou calmo; o doutor está calmo. Todos estão calmos. Tudo vai dar certo. Se ela quis vir de “bundinha”, tudo bem. Fique tranquila.

Saí da sala de exames e liguei para o Cláudio, pediatra. Pedi que viesse o mais rápido possível. Andei de um lado para o outro, tentando deixar tudo pronto. Corri até o vestiário para botar uma roupa apropriada e, ao desabotoar o cinto, vi mais uma vez o celular. Lembrei da ligação da Berenice, e antes de me dirigir ao tele­fone do Centro Obstétrico, fiquei paralisado. Não conseguia me mover. Minha gar­ganta secou e meus olhos ficaram mareados. Uma lágrima quis correr pelo meu rosto, e o coração pulou mais forte. Tinha acabado de entender a mensagem.

*   *   *

Berenice foi minha amiga de infância. Primeira infância, eu diria. Falo para os ami­gos dela até hoje que brincamos de roda, de mãos dadas, junto às calçadas do Menino Deus, bairro que Caetano cantou e onde vivemos nossa meninice. Depois da adolescência, ficamos por muitos anos separados e apenas sabíamos da vida de um e de outro por amigos em comum. Em uma dessas coincidências da vida, sua mãe, dona Linda, veio consultar com minha colega de consultório, e, ao me reconhecer, me encheu de beijos, abraços e lembranças. Retribuí os abraços e mandei um beijo especial pra Berenice, de quem eu tinha muita saudade. Não cheguei a contar para dona Linda, mas Berenice foi uma das minhas primeiras paixões platônicas, lá pelos nove ou dez anos de idade. Nada mais justo que eu mandasse um beijo especial pra ela.

Depois desse encontro, Berenice me ligou. A mesma voz, o mesmo jeitinho, a mesma meiguice. Estava solteira e ficou apavorada de saber que meus filhos já eram adolescentes. Estávamos ambos quase com 40 anos. Marcamos de nos en­contrar e o fizemos. Entre uma e outra cerveja, tomada nos bares de Ipanema, demos infinitas gargalhadas lembrando-nos de velhos conhecidos e de histórias engraçadas. O tempo passa e vez por outra Berenice me ligava, perguntando dos meus filhos, da vida e das pequenas e fundamentais coisas desimportantes do dia a dia. Meses mais tarde, Berenice me liga.

— Adivinha… Acabo de chegar do laboratório. Estou grávida. Preciso de ajuda. O que eu faço? Olha. Eu tenho 39 anos. Nunca engravidei antes. Sou “primigesta idosa”, como vocês médicos maldosamente nos tratam. Tenho um médico há muitos e muitos anos, mas gostaria que você me desse a sua opinião. Que devo fazer?

— Nem precisa me dizer… venha aqui falar comigo.

— Mas Ricardo. Você é meu amigo. Sei lá… Tenho vergonha….

— Azar o seu — brinquei eu. — Venha aqui e vamos conversar.

Conversamos longamente na primeira consulta. Estava apreensiva com a gravi­dez, mas sabia que era provavelmente a sua última chance. Queria que seu filho nascesse de parto normal, mas tanta gente dizia o contrário! Que fazer?

— Calma, boneca, calma. Vamos levar as coisas um dia de cada vez. Seja o que for necessário realizar em relação à sua gravidez e ao seu parto, nós discutiremos e você decidirá, ok?

Ela concordou e passou a fazer o pré-natal comigo.

Quando ela estava com 36 semanas, percebi que seu nenê não estava bem posi­cionado. Mesmo tendo certeza da posição, pedi uma ultrassonografia, que apenas confirmou o que eu dissera.

— Ela está sentada, Berenice, mas ainda acho que temos um tempo para ela vi­rar.

Ela começou a usar medicamentos homeopáticos específicos para bebês mal po­sicionados, mas o tempo foi passando sem que se observasse nenhuma modifica­ção. Chegou às 42 semanas, e me disse entre lágrimas.

— Ric, minha mãe teve seus três filhos de partos fáceis e tranquilos. Se essa guria não virar, terei mesmo que fazer uma cesariana? Por que ela sentou? Por que não entro em trabalho de parto?

Que poderia eu dizer? Que decisão terrível! Uma paciente de 39 anos, primigesta, 42 semanas, com apresentação pélvica e minha amiga de infância. O que eu de­veria fazer? Respeitar seu desejo? Operar sem questionar, e acabar com a possi­bilidade dessa mulher/amiga vivenciar a glória de um parto normal? Colocar riscos e benefícios na mesa e dividir responsabilidades? Fiquei com a última alternativa. Expliquei o que significava tudo aquilo. Os riscos de uma cesariana e os riscos de um parto pélvico. As vantagens de ambos.

— Agora a bola está com você. O que você disser eu faço. Estou contigo e não abro.

— Você estará comigo o tempo todo? — perguntou ela. — Vai estar lá para segu­rar a minha mão? Minha mãe pode ficar comigo?

Respondi afirmativamente a todas essas perguntas. Isso a fez decidir-se pelo parto normal.

— Mas e as contrações? Por que não as tenho? Já estou com 42 semanas, e não aguento mais a pressão emocional.

— Amanhã é o dia. Você vai ter contrações esta noite — brinquei eu. — Confie. Tudo vai dar certo.

Dito e feito. As contrações vigorosas vieram no início da noite, e no raiar do dia seguinte eu estava indo para encontrá-la no hospital. Berenice estava confiante, segurando a mão de dona Linda. Caminhava de um lado para outro, e sua dilatação foi progredindo suavemente. Poucas horas de­pois, lá estava a bundinha da Vitória, branquinha como a da mãe. Duas ou três forças foram necessárias e lá veio seu corpinho, dobrado como um envelope de carta. A pelve, depois o abdome e os braços. Por último a cabeça, que se libera com a manobra de Bracht. Um dois e… não foi dessa vez. Mais uma tentativa e… Lá estava ela, linda, chorona e de braços abertos. Viu as primeiras imagens na vida de ponta-cabeça, mas reconheceu o sorriso da mãe e as lágrimas da avó. Conseguimos! Vitória! … Por isso o nome. Berenice confiou na sua intuição, e eu confiei nela. Elas (Linda, Berenice e Vitória) foram as grandes vencedoras.

*   *   *

Meus músculos agora voltavam a se mexer. As lembranças do parto de Berenice, naquele mesmo hospital apenas um ano atrás, passaram por mim como um re­lâmpago. Esta era a mensagem; tinha que ser! Berenice queria me dizer para ter confiança. Vitória também estivera sentadinha, e tudo ocorreu bem. Por que não ocorreria agora? Minha ligação com a intuição sempre foi de uma distância respeitosa. Aceito o by­pass das conclusões diretas, mas ainda prefiro o caminho seguro da racionalidade cartesiana. A leitura de um artigo de Robbie Davis-Floyd, “Intuition as Authoritative Knowledge”, me abriu os olhos, ao mostrar como as parteiras lidam com a intuição como uma ferramenta poderosa. Por isso mesmo, aos poucos começava a me render às evidências que se colocavam à minha frente. Berenice e Vitória estavam a me enviar uma mensagem. O mesmo fato se repetiria. Confie. Leia sua intuição.

Expand your Mind, diria Morpheus a Neo, em Matrix.

Volto para a sala e encontro Maria Rita em posição. As contrações haviam dimi­nuído de intensidade, provavelmente pelo estresse típico ocasionado pelo hospi­tal, além das circunstâncias do momento. Deu tempo, e até sobrou, para aguardar o pediatra. Teoricamente até teria sido possível chamar o anestesista, mas quando pensei fazer isso Maria Rita teve uma contração forte e o bebê desceu quase até o períneo. Melhor aguardar. Mais alguns minutos e a pequena nádega apareceu, afastando os lábios vaginais. Mais uma força e já estava ela nas minhas mãos. Nenhuma resistência. Nenhum esforço extra. Fácil, rápido e bonito. O casal se abraçara chorando. Eu, de minha parte, agradeci as mensagens que recebera. Foram decisivas para o que ocorreu. Agradeci também pela data, por­que Júlia, a nenê que nascera, cumpriu rigorosamente o contrato estabelecido nas primeiras consultas de pré-natal. Percebi, como na música dos Titãs, que as mensagens — ideias — estão no chão… Você se abaixa e encontra a solução…

Aprendi a confiar mais no que está escrito entre as linhas do consciente e do ra­cional. Se eu ainda tenho dificuldade em enxergar, pelo menos que não feche os olhos.

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Memórias do Homem de Vidro – 09

Madalena e os Mistérios do Nascer

— Boa tarde, doutor.

Assim ela se apresentou para mim naquela tarde. Seu cumprimento despojado trazia algo de uma profunda simpatia. Seu sorriso era suave como um toque de criança; difícil descrever sua leveza e doçura. Os olhos transmitiam uma segu­rança altiva, e a voz era melodiosa e calma.

Minha secretária havia avisado que se tratava de uma primeira consulta, e quando trouxe a ficha me alertou que a paciente estava “bem grávida”. Pensei que essa poderia ser mais uma das pacientes “troca de última hora”, que é uma classe de pacientes que me acostumei a atender nos últimos anos e que mudam de médico algumas poucas semanas antes do parto. Normalmente são aquelas que percebe­ram em tempo que seu médico não estava realmente interessado em levar adiante um parto normal. De maneira dissimulada, ou às vezes de forma clara e explícita, o antigo médico acabava demonstrando que não esperaria muito para realizar uma cesariana, complementando com uma série de argumentos previsíveis na tentativa de provar que um parto normal era cheio de possíveis intempéries e que a cesariana poderia ser programada e realizada dentro de padrões de razoável segurança. Normalmente, as pacientes fragilizadas pelo próprio estado gravídico acabavam aceitando as explicações dadas pelo profissional e recolhiam-se à sua posição de dependência e subserviência. Por outro lado, existe um grupo de mu­lheres carregadas com uma carga explosiva de autoestima. Não sei exatamente onde elas se armam dessa coragem e dessa determinação (suspeito que isso ve­nha da primeira infância), mas quando as vejo fico impressionado. Lutam pelo que acreditam, e acreditam em si mesmas. Confiam na sua inata capacidade de ges­tar, parir e ser mulheres de verdade, sem os artifícios masculinizantes da contem­poraneidade. Possuem uma imagem de mulher poderosa, e, quando sua feminili­dade mais profunda é ameaçada ou posta à prova, as bases constitutivas dessa estrutura feminina se mostram suficientemente fortes para suportar o desafio.

Entretanto, como acabei observando mais tarde, Madalena (esse era o nome es­crito na ficha) não fazia parte do grupo de mulheres desse perfil. Não trazia con­sigo a indefectível “sacolinha de ecografias”, tradicional no grupo das “decepcio­nadas”, nem sequer colocou uma montanha de exames na minha frente. Em com­pensação, lançou-me mais um sorriso e, depois de um suspiro, uma frase estarre­cedora:

— Doutor, o meu nome é Madalena. Eu vou ter meu bebê em casa. O senhor po­deria me ajudar?

Disse de maneira firme, sem titubear. Seu olhar parecia pressentir minha estupe­fação.

— Parto em casa? De onde você tirou esta ideia? Por que gostaria de ter seu parto fora de um hospital? Pense bem… Imagine as coisas que podem ocorrer quando uma mulher está longe da tecnologia sofisticada do ambiente hospitalar. Não poderíamos considerar essa conduta uma irresponsabilidade sua? Por que então se arriscar dessa forma, abrindo mão da segurança que a modernidade nos oferece?

Ela continuava sorrindo. Parecia saber de antemão todos os meus argumentos. O parto domiciliar é um tabu, algo que sequer é pronunciado nas escolas médicas. Na minha residência de obstetrícia, isso nunca foi citado, falado, comentado, quanto mais estudado ou debatido. Falar desse evento é tratar de falhas e erros. No contexto ocidental e contemporâneo, um parto em casa só poderia ocorrer em um cenário de desassistência ou na falha do sistema em providenciar atendimento ou transporte para um hospital. Um equívoco, um erro. A imagem transmitida durante minha formação médica foi de uma sujeira social. Algo que deveria ser limpo. Quando vemos análises de assistência pública ao nascimento, frequentemente observamos os administradores falando da erradica­ção do parto domiciliar como sendo um avanço da medicina contemporânea. Por­tanto, um nascimento em casa é entendido como uma mácula, uma mancha.

Certa vez, no Rio de Janeiro, Robbie me perguntou:

— O que deixa uma camisa suja?

Diante do meu silêncio, complementou:

— O que faz uma piada ter graça?

Perguntas tão simples quanto complexas são suas respostas. Que elementos pro­duzem o estranhamento em uma determinada situação, permitindo que o choque estético produza uma modificação conceitual?

O que deixa uma camisa suja é a sujeira, terra, pó, areia, tinta, gordura. Mas nem tinta, nem pó, nem terra são “sujeira”, a não ser que estejam na camisa. Ou na mão, ou em outro lugar que determinemos como limpo. A sujeira é determinada pela justaposição de estruturas, que se supõe estarem, em essência, separadas. A graça, por sua vez, está na justaposição de situações não convencionais. Uma piada sempre vai enfocar o deslocamento, o choque, o que “não devia estar lá”. A piada é a elegia dos avessos e tortos. Uma ode à luxação das coisas. Trecos fora do lugar. Ectopias. Distopias conceituais.

Um parto é contaminado e perigoso se está fora do lugar. O lugar de um nasci­mento seria no hospital, portanto os partos domiciliares se inserem em um espaço de afronta e de perigo para o sistema de crenças contemporâneo. Tornam-se ameaçadoramente “imundos”. Falar em parto domiciliar é falar de um incômodo social. Experimente falar isso em uma roda de mulheres e notará que elas pró­prias encaram o parto em casa como algo inaceitável nos nossos dias. O mundo da tecnocracia criou uma estética própria, cibernética e asséptica, em que a volú­pia dos sons, a sexualidade imanente e o aconchego de uma casa não têm lugar. É falar de algo deslocado no espaço; dizer de uma coisa que está onde não devia. Um choque estético e sensorial amplo, para quem o sente, vê e percebe.

Para bloquear a energia advinda desse choque, apenas com a contraposição de uma outra, de igual ou maior intensidade, em sentido oposto. Energia que brota da feminilidade indignada. Apesar de estarmos em uma sociedade que criminaliza o nascimento fora dos hospitais, podemos encontrar mulheres que preferem parir assim, tendo seus filhos no seu domínio, no “seu” lugar. Divinamente sujas, hu­manamente imundas, escancarando sua sujidade a quem quiser ver, a quem tiver coragem de olhar. Mostrando seu desejo e sua vida, com a sensualidade transpa­recendo em cada vinco de seu sorriso. Mas, quando Madalena se sentou à minha frente e sorriu, eu ainda percebia o parto domiciliar como um risco que deveria ser evitado.

— Porque você quer fazer isso — continuei eu. — Não acha que é um perigo des­necessário para você e seu bebê?

Ela continuava sentada segurando sua bolsa sobre o colo. Não se percebia nela um ar provocativo, nem uma postura de enfrentamento. Parecia não querer me convencer de nada, apenas solicitava minha atenção e, talvez, minha compreen­são.

— Eu não farei meu parto em casa porque quero, doutor. Farei porque é imprová­vel que seja de outra maneira.

— Como assim? — disse eu, sem compreender o que ela estava querendo me dizer.

Madalena respirou fundo e voltou sua cabeça levemente para o lado. Sorriu para mim e começou a me contar sua incrível história de nascimentos.

— Doutor, este é meu terceiro filho. Meus outros dois nasceram de parto natural. No primeiro, logo que eu percebi algumas leves dores em casa, pedi ao meu ma­rido que fosse buscar um táxi, porque achei que o nascimento estava próximo. Pura intuição. Nunca havia passado por essa experiência, então resolvi seguir para o hospital assim que percebi a presença das primeiras cólicas.

Quando meu marido retornou para me buscar, minha filha já estava nos meus braços. Eu a tive sozinha no banheiro, embaixo do chuveiro. Foi rápido demais, intenso demais, fácil demais. Assim nasceu Raquel, minha primeira filha. Meu se­gundo filho seguiu o mesmo roteiro. Percebi uma leve contração no baixo ventre e pedi ao meu marido que fosse buscar um copo d’água na cozinha. Quando ele retornou, segurando o copo d’água com as mãos, pôde me ver abraçada ao meu filho recém-nascido, ainda molhado com o líquido da bolsa. Meus filhos nascem como mágica, doutor; como um mistério divino. Madalena sorria docemente ao descrever seus partos. Notei que repousou a bolsa na cadeira ao lado. Sinalizava estar “baixando a guarda”. Sua intuição talvez esti­vesse avisando que eu seria alguém de confiança, alguém em quem poderia con­fiar suas angústias e temores.

— Tenho os partos muito rápidos, doutor — prosseguiu ela. — Não acho que seja culpa minha. Eu realmente não recebo avisos, não tenho sensações premonitó­rias. Não creio que serei capaz de ir para um hospital; não terei tempo. Procuro na verdade alguém que possa me atender em casa, para que não seja necessário passar novamente por tudo aquilo que eu passei.

— O que aconteceu? — perguntei.

Pela primeira vez, Madalena desfazia o sorriso que trazia no rosto. Colocou as mãos sobre a mesa do consultório e liberou outro suspiro, desta vez mais longo e pesado. Seus olhos baixaram e sua voz tornou-se mais grave.

— Isso aconteceu no meu segundo parto. Quando meu marido me viu com meu filho André nos braços, ficou preocupado e fomos direto procurar o auxílio de um médico. Nos dirigimos ao posto de saúde, mas a médica que nos atendeu achou por bem ir até um hospital. O táxi ficara nos aguardando e acabamos indo para lá, mas meu marido teve que voltar para casa para cuidar de nossa filha Raquel. Em lá chegando, o médico de plantão me disse que, por ter nascido em casa, era ne­cessário que o menino ficasse em “observação”. Olhei para o meu filho e não con­segui entender porque era necessário que uma criança absolutamente normal ficasse internada. Voltei para casa para falar com meu marido sobre a indicação surpreendente de internar nosso filho e, como já estava tarde, resolvi ficar com meus filhos em casa. Para minha surpresa, no outro dia uma representante do Conselho Tutelar apareceu na minha porta, dizendo que eu deveria levar imedia­tamente meu filho recém-nascido ao hospital. Assustada com a visita inesperada e ameaçadora, resolvi concordar e voltar com o pequeno André ao hospital.

Fui recebida e tratada como uma criminosa. As pessoas de lá me acusavam de não ser responsável, de não me preocupar com meu filho. Diziam que eu tive muita sorte, porque ambos poderíamos ter morrido por falta de assistência. Eu não tive nenhuma laceração, portanto não precisei levar pontos, mas meu filho teve que ficar internado por sete dias apenas porque disseram que ele nasceu em um “lugar contaminado”. Minha casa, um lugar contaminado? Por quê, doutor? Fiquei sete dias tendo que pedir licença para ver meu menino e poder pegá-lo nos bra­ços. Fomos afastados ao nascer; não pudemos ficar juntos porque não nos permi­tiram. Não pude amamentá-lo do jeito que eu queria. Isso me magoou demais, e me deixou muito triste e deprimida; humilhada e envergonhada. No parto da minha filha Raquel, consegui, com muito esforço, convencer os médicos a me liberarem junto com ela do hospital depois de 24 horas. Por que no meu segundo parto, com uma criança absolutamente normal, eu deveria passar por tanto sofrimento? Não gostaria de sofrer tudo isso de novo. Não quero novamente essa vergonha.

Estava chorando. Um choro triste, antigo, de uma ferida que não havia cicatrizado. Lembrei-me do meu atendimento na sala de emergência do hospital, há alguns anos, quando me dei conta de como inconscientemente tratamos mulheres como se fossem seres incompetentes e incapazes, e pude entender a dor da qual Ma­dalena se recordava com tanto pesar. Ela havia sentido o gosto amargo de uma medicina mitológica, arrogante, preconceituosa e dissociada das evidências cien­tíficas. Com o tempo, aprendi a perceber o quanto esses momentos são marcantes na vida de uma mulher. Como a medicina e a obstetrícia contemporâneas são deter­minadas por pressupostos filosóficos essencialmente masculinos, esses fenôme­nos afetivos, emocionais, espirituais e claramente femininos facilmente fogem à percepção daqueles que controlam o nascimento humano. Madalena tinha uma dor que ainda não havia parado de doer. Tinha sofrido o preconceito do sistema médico em entender os diferentes e as opções individuais. Foi tratada como uma “delinquente”, como uma ameaça a um sistema que se sustenta sobre a ideia da supremacia da instituição sobre a natureza, que se ergue sobre o conceito da de­fectividade feminina e sobre a visão mecanicista do mundo, e que transforma or­ganismos em máquinas ilusoriamente controláveis. Olhei para minha paciente de forma compreensiva, tentando imaginar verdadeiramente o que ela passou para ter seus filhos.

— Madalena, eu não tenho experiência com partos domiciliares, mas entendo o seu problema. Nós, médicos, não fomos treinados para entender e assistir o nas­cimento humano de forma livre e natural. Há muito que perdemos o contato com esse fenômeno da forma como ele se mostra naturalmente. Conhecemos apenas o nascimento humano controlado, cerceado, medicalizado. O parto, artificializado pela cultura, não é mais entendido como algo ligado à natureza. Hoje em dia, é praticamente impossível entrar em um centro obstétrico de um grande hospital e encontrar um parto que não seja medicamentosamente assistido. Mesmo assim vou ajudar. Estarei contigo quando seu filho nascer. Pode contar comigo.

Conversamos sobre algumas trivialidades do pré-natal, que seria reduzido a algu­mas poucas consultas pelo adiantado da gravidez, e nos despedimos. Madalena agradeceu minhas palavras, e quando saiu da sala ainda secava as últimas lágri­mas. Percebi que ela havia sofrido uma discriminação violenta por não se portar em consonância com os padrões que esta sociedade determina. Sua natural faci­lidade para ter filhos era vista como uma anomalia e uma ameaça e, portanto, não podia ser bem vista pelo sistema. Estranhamente aquilo que seria visto como uma benção pela grande maioria das mulheres, Madalena vivenciava como um fardo. Mulheres foram ao longo dos últimos séculos reduzidas a contêineres fetais, ma­nipuladas pela medicina e sem que fosse respeitada a sua capacidade de realizar aquilo para o que a natureza lhe proveu de recursos. Nós, médicos, apenas repro­duzimos um paradigma, um modelo que ritualiza as condutas hospitalares para perpetuar os valores centrais do nosso código de crenças.

A conduta de manter André, o filho de Madalena, internado por sete dias apenas por ter nascido em casa é típica dessa visão preconceituosa. A criança, na ver­dade, ao ser internada após um parto domiciliar absolutamente normal e eutócico, passou por um “ritual de purificação” para ser aceita como um membro da socie­dade tecnocrática. Quando eu assistia a partos humanizados — sem drogas, de cócoras, com o companheiro na sala, com doula e em um ambiente mais tranquilo — em um tradicional hospital da cidade, alguns pediatras internavam rotineira­mente os bebês nascidos dessa forma, para que ficassem em “observação”, pois tinham nascido de parto “não convencional” e, portanto, tinham que ser avaliados de forma intensiva. Evidentemente que muitas dessas crianças desenvolviam “Síndrome de Angústia de Separação” — por ficarem longe de suas mães —, mas alguns pediatras afirmavam para a família que se tratava de “dispneia transitória”. O propósito do ritual de colocar a criança em observação era de que apenas se­riam aceitos como membros da “comunidade de crianças normais” aquelas que tivessem passado pelo ritual iniciático da internação, e o seu bem-estar só poderia ser determinado por aqueles que detêm o saber autoritativo sobre a saúde de ne­onatos. Nosso modelo tecnocrático e biomédico nos condiciona a entender uma mulher como essencialmente incapaz de saber se seu filho está bem, e isso é o que se percebe por detrás das inúmeras rotinas/rituais hospitalares.

Madalena sequer tinha escolha. A natureza havia lhe fornecido um mecanismo de parto tão suave que ocorria despercebido. O que levava em média 12 horas para uma mulher comum, para ela ocorria em segundos. Depois de tomar conheci­mento do seu caso, aprofundei meus estudos sobre a importância do tempo de espera para o nascimento entre os humanos, e percebi que o massageamento produzido pelas contrações uterinas e pela passagem no canal de parto é impor­tante para o amadurecimento do sistema respiratório e digestivo do recém-nas­cido. Esta é uma das razões pelas quais entre os seres humanos não existe o costume de “lamber as crias”, a exemplo do que fazem outros mamíferos superio­res, como cães, cabras, cavalos e gatos. A explicação para isso seria a de que esse procedimento instintivo não seria necessário, porque o trabalho de parto mais prolongado teria essa função de preparar esses sistemas para a vida ex­trauterina. Então, o que seria dos filhos de Madalena, que praticamente não apre­sentam esse período preparatório? Talvez a alternativa fosse “lamber” manual­mente o bebê, assim que se desprendesse do ventre materno, para auxiliá-lo na adaptação. Guardei essa reflexão comigo, para quando fosse chamado.

Madalena compareceu acompanhada de seu sorriso e sua doçura em mais algu­mas consultas. Percebi que sempre se mostrava confiante em si mesma, mas guardava medo em relação ao que poderia acontecer. Temia que se repetissem os fatos do seu segundo parto. Não suportava a ideia de separar-se de seu filho recém-nascido. Notei, entretanto, que parecia confiar em mim. Senti-me respon­sável por essa confiança, e tentei de todas as formas passar para ela esse com­promisso de ajudar no que fosse possível, respeitando a sua singularidade como pessoa e mãe. Solicitei os exames necessários para uma avaliação laboratorial básica, que se mostraram todos normais. Por outro lado, a ideia de assistir um parto em casa ainda me deixava confuso. E se desse algo errado? E se alguma coisa ocorresse fora do esperado? E se hou­vesse um descolamento placentário, um prolapso de cordão, um bebê com distúr­bios respiratórios graves? Que fazer? Aceitar essa incumbência seria arriscar-se, colocar-se como responsável pelos acontecimentos. Valeria a pena correr esse risco em nome do respeito à minha paciente e aos seus desejos?

Auxiliar uma paciente a ter um parto de acordo com seus desejos e aspirações é algo extremamente complicado na sociedade paranoica e oportunista em que vi­vemos. Muitos anos mais tarde, acabei entendendo isso da pior maneira possível, quando atendi mulheres que clamavam por respeito e dignidade no parto. As acu­sações mais leves que escutei de profissionais da medicina foram as de que uma mulher, por ser “leiga”, não poderia tomar decisões sobre o seu parto; caberia apenas aos médicos a tomada de decisões sobre o destino do nascimento hu­mano. Mulheres continuam sendo objeto de troca entre os homens, sem autono­mia, dignidade ou autodeterminação. Parto, para esses colegas, é um ato médico, e não um evento humano.

Nessa época, os textos de Robbie, que desvendavam o sentido oculto nos discur­sos médicos a respeito da “segurança no parto”, recém estavam vindo à tona nos Estados Unidos, através da publicação de sua tese de doutorado. Levaria mais de um lustro para que chegassem às minhas mãos. Compreensíveis, então, as mi­nhas indagações e temores sobre as eventualidades negativas em um parto.

Minha única experiência anterior com o parto domiciliar havia sido com Rosa, em 1993. Casada com Ronald, meu amigo de infância, era uma mulher que já havia tido seu primeiro filho em casa, sozinha com o marido. Dessa vez, me procuraram para conversar a respeito dos seus anseios e seu projeto de ter um filho nova­mente da forma mais natural possível. A ideia de irem para uma maternidade, se­rem submetidos às rotinas hospitalares e serem desrespeitados nos seus valores lhes era insuportável. Por outro lado, a idade de Rosa, 39 anos, era um entrave que até eles consideravam digno de preocupação. Conversamos algumas vezes no meu consultório e percebi que a decisão para eles seria difícil. Se, por um lado, reconheciam que Rosa mereceria uma atenção um pouco maior por causa da sua idade, por outro rejeitavam a ideia de “comer comida de hospital”, que represen­tava toda a recusa que tinham em relação às rotinas despersonalizantes das ma­ternidades. O tempo passou e nenhuma decisão foi por eles tomada, até que em uma certa tarde recebo um chamado pelo bip (naquele tempo, início dos anos 90, não havia telefones celulares) com o seguinte aviso. “Rosa está ganhando nenê”. Ponto. Só isso, nada mais.

E agora? Onde ela está? Foi ao hospital? Ficou em casa? Eles não tinham tele­fone, mas eu sabia onde moravam. Cancelei minhas últimas consultas, botei al­gumas luvas esterilizadas no bolso e me dirigi imediatamente à casa de Ronald e Rosa. Era uma tarde quente de maio. Cheguei à casa deles, cuja porta de entrada era mantida aberta para permitir a entrada de uma aragem fresca. A casa simples, praticamente sem móveis, guardava um silêncio misterioso. Não podem estar aqui, pensei eu. Nada se ouve. Entrei sala adentro e resolvi me anunciar batendo palmas. “Ó de casa. Tem alguém aí?” Ouvi passos se aproximando e avistei meu amigo se achegando à porta.

— Olha só quem apareceu! — disse Ronald sorridente e apressando-se em me cumprimentar. — Você veio!

— Bem, imaginei que Rosa estava precisando de auxílio. Recebi sua mensagem no bip. Ela ainda está aqui?

— Claro que está. Venha até o quarto comigo.

Segui meu amigo até o quarto simples e despojado, onde Rosa estava ajoelhada sobre um colchão colocado diretamente sobre o chão e forrado com um plástico escuro. Olhou para mim com o sorriso sereno e dócil das parturientes. Estava em pleno trabalho de parto, mas isso apenas se podia dizer pela leve contração de seu rosto durante as contrações e pela alteração do seu padrão respiratório. Nem um som, nem um gemido. Ao me ver, sorriu um sorriso de quem acorda, e depois me perguntou:

— Não queres tomar um chá? Ronald acabou de preparar um chá de flor de lótus que é uma delícia.

Rosa parecia absolutamente tranquila. Ajeitou-se em uma posição que os iogues usam e manteve-se assim.

— Rosa, antes de tomar chá, eu acho que seria interessante que a gente reali­zasse um exame de toque para saber quanto de dilatação você tem. Que acha?

Ela aquiesceu, e eu tirei minhas luvas esterilizadas do bolso. Pedi que ficasse de joelhos e realizei o exame. Colo apagado, bolsa íntegra, apresentação cefálica e com oito centímetros de dilatação. Puxa, falta pouco mesmo!, pensei eu. Aviso os dois da provável proximidade do nascimento. Rosa esboça um sorriso, interrom­pido pelo início de uma nova contração. Ronald faz um gesto com a cabeça e pede que eu o acompanhe até a cozinha para tomar um chá. No meio do caminho, eu penso que seria importante escutar os batimentos do bebê, mas lembro que na pressa de sair do hospital nem lembrei de pegar um fetoscópio de Pinard. Que fazer?

Ronald serve o chá e tomamos conversando sobre banalidades. Escuto com aten­ção as explicações que Ronald me dá sobre os efeitos terapêuticos do chá de ló­tus. Falamos de velhos conhecidos que nunca mais encontramos e demos algu­mas boas risadas. A cozinha era simples como o resto da casa, mas em um canto havia um rolo de alumínio que Ronald usa para enrolar o pão caseiro que vende na feira de sábados no Parque da Redenção. Olhei para o objeto e sorri.

— Ronald, achei o nosso Pinard!

Tirei todo o resto de alumínio e fiquei com um tubo grosso de papelão nas mãos. Voltamos ao quarto onde Rosa estava e pedi-lhe que ficasse novamente de joe­lhos para que eu pudesse escutar seu bebê. Toc, toc, toc. O coraçãozinho dele pulsava maravilhosamente sereno. Havia uma cumplicidade entre as serenidades; uma sintonia entre mútuas confianças. Rosa novamente sorriu, um momento antes apenas de franzir novamente a testa e apertar os olhos. Mas dessa vez foi um pouco diferente. Um som grave se ouviu. Algo mais profundo. Um som que conecta o colo uterino com a traqueia, fazendo um ruído intenso e longo. Era um puxo. Somente muitos anos depois, eu escutei a explicação, entre fisiológica e poética, da conexão entre a tonalidade da voz e a abertura do colo uterino.

— Ronald. Vai nascer em alguns minutos — disse eu. — Precisamos de mais al­gumas coisas. Água fervendo, uma tesoura esterilizada e algo para amarrar o cor­dão.

Ronald levantou-se e foi ferver a água em uma panela de alumínio, deixando a tesoura repousando aberta no fundo. Para clampear o cordão, me trouxe o bar­bante que usa para embrulhar o pão. Pronto. Tínhamos tudo que precisávamos. Restava apenas esperar. Enquanto aguardávamos as contrações, continuávamos nossa “busca pelo tempo perdido”, contando histórias da nossa infância. Velhos amigos, antigas namora­das, ninguém foi perdoado. Ronald, além de músico e poeta, era dotado de um senso de humor fino. Rosa apenas sorria de nossas besteiras. Mais alguns minu­tos apenas foram necessários para que os primeiros fios de cabelo aparecessem no introito vaginal. Pude perceber claramente a profunda inutilidade dos “coman­dos verbais” que nós, obstetras, produzimos nos hospitais, iludindo-nos de que orientamos os esforços expulsivos das grávidas. Rosa era pura instintualidade, e seus movimentos estavam coordenados por uma ordem muito aquém da raciona­lidade. Mantive-me atento e estático, mas para mim ainda era complicada a “lenti­dão que tende à imobilidade” apregoada por Leboyer.

Rosa gritou. Ergueu o rosto para o alto e abriu sua voz. De sua voz surgiu seu fi­lho. Ele veio direto da úmida e cálida obscuridade do ventre para os braços do pai, e desse espetáculo de vida eu fui um espectador privilegiado. Guardei um silêncio respeitoso e uma postura de reverência. A penumbra do quarto contrastava com a luminosidade que emanava do rosto de Rosa. Ela continuava olhando vivamente para o rosto do seu bebê, e mantinha um sorriso doce nos lábios. Sua atitude era de ternura e calma.

A imagem de suavidade no nascimento do filho de Rosa até hoje me impressiona. Nada foi rápido. Praticamente nenhuma pressa. Nenhuma laceração vaginal se fez, e o sangramento foi absolutamente normal. Essa suavidade do nascimento não intervencionista me deixou marcas importantes na memória, mas naquele momento eu tinha muito mais perguntas do que respostas. A mais importante de­las era: O parto de Rosa foi calmo e sereno porque ocorreu na tranquilidade e na paz da sua casa ou as características específicas de Rosa e do seu bebê é que permitiram esse resultado? Provavelmente as duas afirmações estavam corretas, mas a noção clara dessa verdade eu ainda estava por receber.

Ronald era só orgulho. Suas mãos de artista vaidosamente acarinhavam seu filho, com a mesma delicadeza com que desenham no papel a fina harmonia de uma poesia. Sorria para Rosa um sorriso silente, pleno de significados escondidos, histórias antigas, segredos compartilhados. Cortamos o cordão umbilical com a tesoura que tiramos da água fervente. O barbante que Ronald usa para embrulhar o pão foi usado logo após, para manter a hemostasia do coto umbilical. Enquanto Ronald estava com o filho nos braços, tracionei gentilmente o cordão que pendia para fora da vagina, para avaliar se a placenta ainda se encontrava aderida ao fundo uterino. Ronald me encarou com um olhar de censura, e com um sorriso me repreendeu:

— Não vai puxar a placenta, vai?

— Não, doutor — respondi eu, devolvendo-lhe o sorriso. — Não se preocupe. Va­mos esperar que ela saia no momento adequado.

Foi o que ocorreu. Alguns minutos apenas e o disco carnoso e vermelho despren­deu-se suavemente do útero, que por tanto tempo o abrigara. Foi analisado por mim e constatei que estava perfeito. A última cena de que me recordo é ver Ro­nald e Rosa no chão do quarto, enquanto eu sorrateiramente me retirava, para não atrapalhar a alegria e invadir a intimidade do casal em um momento tão belo.

Apesar de ter sido um parto bonito e tranquilo, com pessoas suaves e conscien­tes, o parto de Rosa não havia sido suficiente para me despertar da minha letargia tecnocrática. Mesmo com um tamanho exemplo de normalidade e brandura, eu ainda continuei preso aos sedutores conceitos de segurança do manejo hospitalar do nascimento. Ainda não havia lido Robbie Davis-Floyd, nem tinha a clara noção, despertada por ela, de que, em obstetrícia, a “segurança é o disfarce que oculta o verdadeiro valor subjacente, qual seja, o poder”.

O parto de Madalena colocava para mim outro tipo de desafio. Não se trata mais de convencer uma paciente (ou um médico) das conveniências ou não de um parto fora do ambiente de um hospital. Ela teria seu parto em casa, quer eu qui­sesse ou não. Cabia a mim aceitar a imposição da natureza e auxiliar minha cli­ente da melhor forma possível, ou recusar-me a ajudá-la, alegando que um mé­dico não pode prestar ajuda contra seus princípios ou colocando em risco a segu­rança de seus pacientes. A segunda opção pareceu-me covardia, essencialmente porque não havia para mim nenhuma prova de que ter um filho em casa signifi­cava aumentar risco, mesmo que a ideia me causasse medo e apreensão. Assim foi. Algumas poucas semanas apenas haviam se passado após nosso pri­meiro encontro e recebo o telefonema do seu marido. Passava da meia-noite, e estava sozinho em casa com meus filhos. Zeza estava de plantão.

— Doutor, a Madalena acabou de ter o bebê.

— Já? — gritei eu. — Não deu tempo de me ligar antes?

— Não deu tempo para nada, doutor — continuou ele.

— Ok. Estou indo aí.

Antes de chegar à casa de Madalena, passei no hospital onde Zeza estava de plantão e pedi que me acompanhasse até lá. Achei que alguns pontos poderiam ser necessários, e queria que ela me auxiliasse com o atendimento ao bebê. Ela solicitou uma troca de horários com sua colega e me acompanhou até a casa da minha cliente.

Madalena morava na parte sul da cidade, próximo ao rio. Lá chegando encontra­mos um ambiente de completo silêncio. As peças simples do apartamento térreo eram rabiscadas de cima a baixo, com desenhos feitos pelas crianças com lápis de cera. Uma música celta tocava em um aparelho de CD colocado no canto da sala de estar. Uma gata grávida vagava pela escuridão do ambiente, encostando o pelo sedoso contra a parede, e nos cumprimentou com um preguiçoso ronronar. As luzes estavam apagadas, com exceção da luz que vinha da cozinha, onde o marido de Madalena preparava um chá. Os dois filhos de Madalena dormiam no quarto, cuidados pela amiga Janaína, alheios ao que ocorria na casa. Entramos mais um pouco no pequeno apartamento, e quando estava me preparando para entrar no quarto escutei um “psiu” vindo do banheiro.

Lá estava ela, embaixo do chuveiro. A luz do pequeno aposento também estava apagada, mas pude perceber na penumbra que ela estava abraçada ao seu filho, formando com ele uma unidade indivisível. Era impossível saber onde terminava Madalena e onde começava seu bebê. Uma união que apenas se iniciava a rom­per, mas que ainda mantinha uma coesão perceptível, simbolizada pelo cordão umbilical que pendia até o joelho.

Aproximamo-nos de ambos e logo pudemos perceber que, em razão da escassa luz do ambiente, o bebê estava com os olhos arregalados, como querendo absor­ver toda a informação que lhe fosse possível. O cordão umbilical já não pulsava, e os batimentos cardíacos do menino estavam absolutamente normais. Havia nas­cido há menos de 20 minutos, mas estava em estado de plena tranquilidade. Cor­tei o cordão com o material esterilizado que trouxera e pedi a Zeza que segurasse o pequenino, para permitir que Madalena terminasse seu banho. Enquanto isso acontecia, fomos examinar o recém-nascido, que se mostrou perfeito em todos os aspectos. Nesse momento, lembrei-me da ativação neurossensorial produzida pelo massageamento do trabalho de parto e resolvi oferecer àquele bebê o que ele não recebera pela rapidez de seu nascimento. Recordei de meus estudos an­teriores e de uma observação do famoso antropólogo britânico Ashley Montagu:

“As contrações do útero proporcionam uma intensa estimulação na pele do feto. Estes estímulos são imensamente intensificados durante o trabalho de parto, para que os sistemas de sustentação sejam pre­parados para um funcionamento pós-natal, que é diferente daquele utilizado no ambiente aquático. (…) Ainda não entendemos que o to­que de uma mão pode fazer toda a diferença para outro ser humano; algumas vezes literalmente a diferença entre a vida e a morte. Médi­cos não tocam seus paciente o quanto deviam, e a ideia de afastar re­cém-nascidos de suas mães é absurda por mais uma centena de pontos de vista.”

No seu livro pioneiro Touching, Ashley Montagu nos deixa claro que a pele é, em verdade, o “sistema nervoso externo”, e que inicia seu funcionamento cedo ainda na gravidez. Por essa razão, o toque é nossa primeira linguagem e um importan­tíssimo meio de comunicação para os bebês, dentro e fora do útero. Negligenciar essas evidências poderia colocar todo o amadurecimento dessa criança em risco. Realizei uma massagem instintiva, baseada apenas na minha sensibilidade. Nunca havia aprendido nada sobre técnicas específicas, e do assunto apenas co­nhecia Shantala, a mulher indiana que, massageando seu filho, impressionou Fre­derick Leboyer. Não cumpri nenhuma técnica especial, mas tive a nítida sensação que o pequenino gostou de ser acarinhado. Quando Madalena retornou do banho avaliei seu períneo, que também não mostrou nenhuma anormalidade ou lacera­ção. Tudo perfeito, tranquilo, normal.

No dia seguinte, voltamos à casa de Madalena. Com o bebê no colo e os filhos pequenos embaixo da asa, recebeu-nos com seu sorriso angelical de costume. O bebê, batizado de Rafael, estava tão tranquilo quanto ao nascer. O peso, as medi­das, a análise do bem-estar — tudo estava adequado. Madalena irradiava alegria e confiança. Zeza ficou encantada com o parto. Mesmo que não estivéssemos lá no momento exato do nascimento, pudemos perceber a paz e o clima positivo que reinava na casa. Mesmo assim, a impressão positiva criada não conseguiu ainda me fazer acreditar na possibilidade de um modelo alternativo de parto e nasci­mento. Eu ainda não havia cursado minha trilha completa. Entretanto, minha mais importante lição acabou vindo alguns anos depois, através da mesma mulher.

Quando minha secretária a anunciou, eu não imaginava que ela estivesse com uma gravidez tão adiantada. Sua barriga denunciava a quarta gravidez. Veio ao consultório já com oito meses de gestação. Madalena continuava com o mesmo sorriso, apesar de terem passados três anos daquele nosso último encontro.

— Madalena, como vai? Tem alguma novidade para me contar? — disse-lhe eu de forma zombeteira.

Ela sorriu carinhosamente do meu gracejo e respondeu:

— Como pode ver, doutor, estou aqui novamente a precisar de sua ajuda. Gosta­ria que tudo ocorresse como da última vez. Seria possível?

— E por que não? — respondi. — Creio que temos todas as condições para que esse parto seja tão fácil e tranquilo como os demais. Como estão as crianças?

Madalena então falou de seus filhos como quem fala de seu maior tesouro. Disse como eles ficaram felizes da última vez, pois, quando acordaram, foram apresen­tados ao irmãozinho menor que havia nascido na madrugada. Combinamos os detalhes de praxe e nos despedimos. Houve apenas mais uma ou duas consultas de pré-natal, onde foram realizadas avaliações de praxe e solicitados exames de rotina. Feito isso, ficamos à espera do momento do parto.

O telefone tocou enquanto eu dirigia meu carro. Estava indo para o ambulatório de ginecologia de um hospital da cidade em que eu trabalhava. A voz, a entonação e a própria frase eram familiares.

— Doutor, o nenê da Madalena acabou de nascer.

Eram por volta das 15 horas e lá fui eu mais uma vez para o apartamento de Ma­dalena. Girei os pneus do meu caro para a direita e troquei meu itinerário. Minhas pacientes teriam que aguardar um pouco mais a minha chegada. O ambiente na casa estava praticamente intocado. Os mesmos móveis, as mes­mas músicas, os mesmos rabiscos nas paredes, o mesmo clima. Apenas a escu­ridão da noite não estava presente, mas para compensar as persianas da sala estavam completamente fechadas, deixando apenas uma réstia de luz passar por entre as tiras de madeira. Não esperei que me chamassem, e instintivamente es­piei para dentro do pequeno banheiro à procura de Madalena.

Lá estava ela, na mesma posição que a minha memória mostrava, e com a mesma amálgama de corpos da vez anterior. Seu filho nos braços igualmente não chorava, e a penumbra do local o deixava a vontade para abrir despudoradamente suas pálpebras. Repeti o ritual da vez anterior, desta vez sem o auxílio de Zeza. A placenta saiu sem dificuldades enquanto ainda se mantinha em pé debaixo do chuveiro. Logo após cortar o cordão, pedi que Madalena me alcançasse o bebê, que eu trataria de secar e vestir enquanto ela terminava de se arrumar. Enrolei o pequenino em uma toalha e cruzei o corredor para entrar no seu quarto logo em frente.

Foi aí que tive a minha primeira grande surpresa.

Ao entrar no quarto de Madalena, deparei-me com uma das mais belas cenas que já havia presenciado. Até então não havia me apercebido da ausência dos seus filhos no cenário, até porque da vez anterior eu não os encontrei por ser muito tarde e estarem dormindo. Mas desta vez eles estavam presentes.

Quando transpus o marco da porta e olhei para o lado direito, vi os três pequenos perfilados, por ordem de idade, ao lado da cama. O menor, de três anos, foi o que nasceu naquela madrugada em que vim pela primeira vez à casa de Madalena. Estavam absolutamente excitados com o nascimento do caçula. A maior, Raquel, era muito parecida com a mãe. Quando me viram carregando o bebê enrolado em uma toalha, começaram a pular e gritar de emoção. A mais velha falou primeiro: “Eu é que vou vestir o bebê!”. Ao que o do meio, André, emendou: “Mas quem vai escolher o nome sou eu!”. O menorzinho, Rafael, para não ficar atrás nas reivindi­cações, completou: “Mas eu também quero segurar no meu colo, porque eu sou forte!”.

— Calma! Vamos combinar o que a gente vai fazer. Eu proponho que todos nós juntos arrumemos o bebê enquanto a mamãe não vem, ok? Alguém aí já separou a roupinha dele?

A mais velha rapidamente abriu uma porta de armário e trouxe uma roupa de bebê dobradinha, que provavelmente já tinha sido vestida por todas as crianças da casa. Agora seria a vez do recém-chegado.

— Ok — disse eu. — Façamos o seguinte. Eu coloco o casaco e vocês colocam o tip-top, certo? E você, meu amiguinho, vai me ajudar a botar as meias, está bem?

Rafael, o menor dos três, sorriu um sorriso de juntar orelhas e aproximou-se de mim. Assim acertados, terminamos rapidamente de vestir o bebê, e ainda deu tempo pra cada um deles segurar o bebê no colo por alguns segundos. Tão logo o bebê estava arrumado, Madalena entrou no quarto. Estava usando um robe branco e surrado, mas parecia um anjo. Não parecia caminhar; volitava sobre o chão do quarto. Sem dizer palavra, abriu os braços e eu lhe passei seu filho, quase com vergonha de ter ficado com ele por alguns momentos. Na sala, o marido de Madalena terminava de colocar as xícaras sobre a mesa. As crianças, ainda eufóricas, correram para tomar o café da tarde, enquanto eu dava as últimas orientações para Madalena. Quando saímos do quarto, Madalena sen­tou-se ao lado dos filhos na mesa e me perguntou:

— Doutor, íamos tomar café agora, mas nos atrasamos um pouco porque o bebê nasceu. Gostaria de nos acompanhar?

Os olhares todos se concentraram em mim. A cena acabaria se tornando inesque­cível.

— Infelizmente, meus amigos, não tenho como ficar. Estava indo para o hospital para atender minhas clientes, e não posso deixar de ir. Talvez elas ainda estejam me aguardando por lá. De qualquer forma, amanhã virei aqui com a Zeza e vamos pesar o bebê e completar a avaliação. Vocês têm meu telefone, qualquer coisa me avisem, ok?

Pedi que todos continuassem sentados, pois eu sabia como fechar a porta ao sair. As crianças me lançaram acenos efusivos, e Madalena apenas me sorriu com do­çura.

Aconteceu quando escutei o barulho da tranca da porta estalar. Voltei-me para a porta do edifício que dava para a rua, mas notei que, ao meu lado, os azulejos mostravam mais uma vez um semblante distorcido. Olhei para a minha figura grotescamente reproduzida na parede e minha memória deu um salto para o pas­sado. Cada pequeno quadrilátero ao meu lado mostrava uma cena em que a mi­nha atitude como médico estivera desafiada. O olhar da paciente na sala de emergência, o grito da bela Glamour Girl, o sorriso de Rosa amparada por Ronald, meu escárnio quando Zeza pela primeira vez me falou nos “partos de cócoras”. Todas as imagens se reuniram na parede, tentando me mostrar que meu caminho poderia ser outro. Viro o rosto para o lado e vejo a porta envidraçada do edifico que me leva à rua, ao mundo. Pelo vidro posso ver a tarde se esvair.

Vidro. Um cristal…

A música de Vitor Ramil atravessava meus ouvidos. A porta do edifício permitia que a luz passasse, mesmo estando fechada, porque era feita de… vidro. A me­táfora me atropelou e me deixou estatelado, caído. Indefeso.

O homem de vidro encontrava a sua essência, finalmente.

A transparência presente; a ausência em carne e sílica. A possibilidade de afastar o medo, mas permitir a passagem da luz. A ideia de que aquele que cuida do nas­cimento deve ser o que reflete, e não o que brilha. Estar, sem estar. Ir-se, mas manter-se ao lado. Diáfano e translúcido, mas atento e presente como Faramir, para lançar a flecha certeira quando o Názgul doentio e ameaçador se aproximar.

Novamente me vi transportado para a sala de emergência do hospital, dando or­dens, gritando, esbravejando. Revivo as distorções e os vícios de uma atitude pro­fissional distante dos pacientes. A mesma sensação de vergonha me invadiu, mas dessa vez não havia tantas dúvidas. Eu já sabia a razão.

A farpa na mente, corrosiva e dolorida. A velha cicatriz que voltava a doer, pul­sando insistentemente, não deixando que eu ultrapassasse o portal do velho edifí­cio. Agora eu sabia que havia ido longe demais, e que minha caminhada não per­mitia retorno. Eu estava só, e a passagem atrás de mim havia se fechado. À mi­nha frente uma realidade difícil e dura, porque poucos me entenderiam. Final­mente o destino havia brindado o pequenino peixe com a visão do mundo fora do oceano da tecnocracia. Deslumbrado com o ar, a visão das nuvens e a imensidão azul dos céus, ele experimenta desconforto por voltar à água. Percebe que nunca havia se apercebido do mundo que o rodeava porque jamais fora exposto a outra realidade. Agora era impossível negar o que os seus sentidos denunciavam.

Olhei mais uma última vez para trás e encarei a porta do apartamento de Mada­lena. Pude então me aperceber da dura realidade do que ocorrera ali. Tantos anos estudando e atendendo grávidas e nascimentos e só agora havia me apercebido do que era um parto de verdade. Finalmente eu havia entendido como poderia ser um nascimento inserido na natureza e na cultura, respeitando a famí­lia, o convívio, a alegria e a esperança. Tamanha foi a intoxicação que eu rece­bera na minha formação obstétrica através da medicalização do nascimento que ficara cego ao que um nascimento realmente poderia ser quando conduzido em outro modelo.

“Chegando em casa ele chorou, e pro inferno ele foi pela segunda vez”.

Os versos de Renato Russo me vieram à mente quando pensava nos significados profundos da experiência. O parto de Madalena havia me conduzido novamente ao inferno da minha arrogância, assim como o parto na sala de emergência havia me levado pela primeira vez, havia muitos anos. Já não era mais possível ignorar o impacto que um nascimento desmedicalizado é capaz de produzir na família e nas pessoas que dele tomam parte. O nascimento hospitalar medicalizado, a que eu me acostumara nos tantos anos de prática obstétrica, a partir daquele dia pas­sou a ser motivo de uma crítica cada vez mais intensa. A lição que Madalena me ofereceu foi inestimável. A sensação de ter participado da festa do nascimento de seus filhos é uma emoção que jamais poderei esque­cer. A epifania trazida à tona pela participação nesse nascimento ficou marcada no mural das minhas lembranças de uma forma por demais intensa.

Seu bebê chamou-se Miguel, aquele que é como Deus. Como seus irmãos, tinha um nome bíblico, uma tradição que Madalena e seu marido utilizavam para em­prestar um simbolismo religioso aos seus filhos.

Alguns anos mais tarde, Madalena novamente engravidou, talvez pela última vez. Novamente eu e Zeza fomos auxiliá-la, agora no seu quinto filho. O cenário e os personagens mudaram muito pouco. As crianças, um pouquinho maiores, volta­ram a se divertir com a chegada da irmãzinha. O chamado no meio da noite, a cena no pequeno e cálido banheiro, a amálgama de corpos entrelaçados, tudo se repetia com a mesma intensidade e a mesma energia. Enquanto Zeza cuidava da menina recém-nascida, batizada de Sara, sentei-me com Madalena na acanhada sala de seu apartamento e lhe perguntei:

— Esse é o último Madalena?

Ela sorriu e disse:

— Não sei. Gosto tanto de ter filhos que não seria justo dizer que não mais os te­rei.

— Madalena — disse-lhe eu fitando doces olhos castanhos —, você é uma mulher abençoada. Tem o dom da maternidade e a dádiva de ser mãe de tantos filhos e todos saudáveis. Seus partos são rápidos, indolores e belos. Você devia doar seu corpo para a ciência, para que no futuro descubram qual o gene responsável por ter filhos com tamanha facilidade e tanta paz.

Madalena me encarou com aquele olhar maravilhosamente doce e me respondeu com um sorriso:

— Doutor, não vai adiantar procurarem no meu corpo. Aqui não vão encontrar nada. Melhor procurarem na minha alma.

Abençoada seja para sempre, Madalena.

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Memórias do Homem de Vidro – 08

Beatriz e a Origem do Sintoma

Achei que até eu já havia bebido demais. Levantei-me da cadeira de lata e me espreguicei, menos pelo alongamento e mais para testar meu equilíbrio. Nadine me encarava tentando achar alguma vermelhidão em minha esclerótica, sinal ine­quívoco do meu exagero. Não estava bêbado, sequer “alto”. Quando isso me acontece, escuto o mundo de dentro de uma concha. E perco a noção de distân­cia. Não fico como aqueles ébrios que falam perto demais, misturando o hálito car­regado com a falta de compostura, mas enxergo tudo de uma forma distorcida, com a profundidade prejudicada. Nada disso estava acontecendo, porque eu via Nadine e Maximilian nos exatos lugares em que estivéramos sentados nas últimas duas horas, conversando no bar do hospital onde Nadine é plantonista do centro obstétrico, nutrindo nossas filosofias com cerveja e batatas fritas.

— Não entendo essas atitudes de exagerada impaciência com que às vezes você me trata, Nadine. — Disse isso olhando diretamente para minha colega, com um ar de dissimulada severidade. Continuei: — A última é esta: “não considera a questão discutível, já que não respondeste”. Meu silêncio a ofende tanto assim?

Dei alguns passos em direção à porta do bar e confirmei minha sobriedade. Per­miti que a brisa da tarde desarrumasse meus poucos cabelos. O frescor me ani­mou a continuar.

— Quando eu fico em silêncio para, entre outras coisas, não “alugar” os ouvidos dos amigos ou me tornar o foco das atenções, sou acusado de “não considerar a questão discutível”. É justo isso? Putz… Já não basta sofrer de “Peremptória Lo­quacidade Paroxística”, ainda sou acusado quando guardo um silêncio respeitoso em relação à opinião alheia? O verdadeiro democrata luta para que seus pontos de vista possam receber o merecido contraditório, sob pena de transformar suas ideias em dogmas!

Terminei a frase com os braços abertos e o olhar para o teto, mas não consegui conter uma risada diante de tamanha canastrice. Maximilian debochadamente bateu palmas e me abraçou. Fazia essa encenação comigo, sempre que eu con­cordava com ideias suas. Nadine olhou para o relógio. Uma indireta?

— Então responda minha pergunta sobre a relação entre psiquismo e sintoma, especificamente da náusea na gravidez — disse ela.

Sua simpatia e beleza eram absolutamente sedutoras. Nadine tinha um charme inquestionável, mesmo quando estava impaciente. Respondi com a brandura que seu meio-sorriso demandava.

— Apenas tenha paciência comigo. Não respondi porque não achei que poderia acrescentar nada de novo ao que já havia dito. Tente lembrar o que conversamos anteriormente sobre os vômitos durante a gravidez. Minha posição é clara. Falei a minha opinião sobre a sintomatologia como emergência de transtornos mais pro­fundos do psiquismo, e você falou da importância, com o que concordo, do estado hormonal alterado da gestação. Não considero sequer que sejam pontos de vista francamente conflitantes, apenas uma questão de ênfase. Eu prefiro olhar o sin­toma dessa forma, porque essa maneira me parece ser mais criativa e construtiva. Você vê como algo passageiro e contornável, o que também é correto. Nada mais.

Nadine continuava a me encarar. Continuava a mesma mulher de uma beleza só­bria, mas triste. Parecia faltar à Nadine o brilho de uma grande paixão. Ou seria preconceito meu? A completude do feminino só é encontrada no amor? Ou estaria errada a canção de João Bosco, “Quem pode querer ser feliz se não for por um grande amor?”? Continuei meu discurso sem me importar com as caretas que Max me fazia.

— Você acredita que os sintomas do início da gestação seriam basicamente oca­sionados pelas alterações bioquímicas características do período gravídico, certo? Quanto à sua comparação entre náusea gravídica e a intoxicação etílica, lembre-se de que uma bebedeira faz parte de uma intoxicação. Não é fisiológica, nem está programada pelo organismo. A náusea gravídica, por seu turno, está inserida em um projeto fisiológico — a gestação — e está dentro da normalidade orgânica. Não é intoxicante, nem requer doses altas e não naturais de substâncias exóge­nas. De cada dez indivíduos que tomam meio litro de vodka dez ficam bêbados, o mesmo não ocorrendo com os sintomas da gravidez.

Maximilian, que estava acompanhando algumas ancas com o rabo do olho, sorriu com o canto da boca quando citei esse exemplo: “Meia garrafa só, companheiro?” Sem me deixar atrapalhar pela gozação de Max, continuei com minha explanação.

— Quanto às grávidas, apenas uma parcela variável sente efeitos nauseantes, o que reforça a subjetividade e a característica de suscetibilidade específica do transtorno. Não é o hormônio que solitariamente produz o quadro, ao contrário do álcool da bebedeira. É a pessoa que é, ou está, suscetível. Acrescentem-se a isso as pressões culturais que fazem com que sintomas apareçam em decorrência das latitudes e de padrões específicos de comportamento social. A sintomatologia pós-menopausa é um excelente exemplo, por ser tão comum em países industrializa­dos e praticamente ausente em algumas populações da América Central, mesmo com igualdade na atividade hormonal. Existe mais do que patologia no sintoma; existe simbolismo. O sintoma é uma forma alterada do organismo de buscar equi­líbrio. Ele é uma maneira de mudar o padrão energético para alcançar a harmonia perdida pelo choque entre a suscetibilidade e um agente externo. Em homeopatia, chamamos de diátese. Por isso, o conflito emocional, que é o caso frequente em uma gravidez, pode gerar alterações de tal monta que o organismo tende a se adaptar à necessidade de homeostase através da modificação física. Além disso, acho que a escolha do sintoma específico utilizado pelo sujeito tem um aspecto metafórico. Daí a necessidade de “botar para fora”.

Nadine me interrompe com um gesto. Parecia ter esperado um determinado mo­mento para falar algo que a estava incomodando. Seu movimento foi brusco, cor­tando com um só golpe minha frase que se iniciava.

— Tudo bem, Ric. Posso até concordar com algumas das suas ideias, mas você também disse que nem toda grávida desenvolve essa sintomatologia, apesar de sofrer as mesmas alterações hormonais. Com isso eu concordo, mas, se eu en­tendi, você deixou claro que pode existir uma relação inversa, que me daria a en­tender que, se uma grávida não vomita, é porque não tem nada a “colocar para fora”. Dessa forma, poderíamos construir um modelo simplista e reducionista, no qual a emergência de uma sintomatologia criaria uma linha reta com a presença de distúrbios psicológicos. Isso me parece um exagero.

Aprumei-me na cadeira. Sempre respeitei as opiniões de Nadine, mesmo quando não concordava com elas. Sua postura, além de ponderada e honesta, é de uma dignidade imbatível. Ela funcionava como um freio às minhas ilações demasiado etéreas e filosóficas, trazendo-me para o mundo real e cru, mas o fazia com a candura que só uma verdadeira amiga é capaz de oferecer. Sendo tão doce e maternal, porque ainda estaria sozinha? Essa resposta nem Max possuía. Conti­nuei minha explicação.

— Concluiu mal, minha flor. Eu não disse que ela não tinha nada para botar fora, nem pensei isso. É possível inclusive que elas não consigam botar para fora, o que é muito ruim. Ou é possível que elas não precisem desse sintoma, por exem­plo, se puderem falar das suas angústias com a vizinha, com o queixo apoiado no muro. Ou pode ser que ela tenha urticária, que também é uma forma de “botar para fora”, através da pele. Ou pode ser que elas chorem no meio da noite ou te­nham enxaquecas. Ou pode ser que gritem, mordam ou façam terapia, etc. Vomi­tar é apenas uma das maneiras de reagir, na miríade de alternativas que a vida nos apresenta, e é apenas uma das mais facilmente utilizadas pelas grávidas, em função do estado hormonal alterado.

Maximilian ergue a taça e brinda.

— Bebo — diz ele — mas faço isso por amor à humanidade. Poderia estar sóbrio e atrapalhar a conversa de vocês, o que seria uma lástima.

Momentaneamente perdoo seus exageros etílicos. Lembrei-o de uma frase sua, quando juntos estávamos na residência: “O sintoma, muitas vezes, é o espelho do desejo embotado”, me disse, enquanto tomávamos cerveja preta em uma viela escura e soturna próxima ao hospital universitário.

— Além disso — retomou Nadine — o mal-estar provocado pela náusea não de­termina reflexões positivas, apenas desconforto. Que benefício psicológico poderia surgir disso? Que acréscimo de valor eu poderia trazer à minha vida por ter vomi­tado até virar o estômago do avesso?

Seu rosto se contorceu. Nadine sempre sofrera de transtornos pré-menstruais in­tensos, que incluíam cólicas uterinas, náuseas e vômitos insuportáveis. Nesse aspecto, ela carregava uma vantagem irretorquível. Sua careta era uma memória mímica de momentos de mal-estar.

— Nadine — disse eu — concordo com você, porém acredito que o sintoma pro­duz, sim, uma possibilidade de reflexão e reavaliação. Pouca coisa na vida produz mais resultados no sentido criativo do que o mal-estar, a dor, a perda e o sofri­mento. Nossa angústia surgiu quando diabolicamente nos separamos da unidade primitiva, e iniciamos nossa jornada em busca da recuperação do idílio perdido. Isso se deu através de uma dor, que criou o mundo como o conhecemos. Essa angústia de separação é a mãe de toda a ciência e todo o conhecimento. E de todo o horror.

Uma risada e um franzir de sobrancelhas de Maximilian. Ele repete mais uma de suas indefectíveis frases de efeito: “O gozo se goza, mas o sofrimento é que constrói”. O garçom se aproxima, e eu faço um gesto negativo com o indicador, dando a entender que Max já havia ultrapassado sua cota.

— Sigmund Freud — continuei eu — escreveu um texto chamado “O Mal-Estar na Civilização”, em que analisa a força repressiva do projeto civilizatório e as suas repercussões no proceder social. Ali ele tece sua análise da construção de uma cultura baseada na repressão e o que significa essa obliteração do desejo para cada um de nós. Uma de nossas ferramentas para lidar com a energia acumulada pela negação à livre manifestação do Id é o sintoma, que nos auxilia a desafogar essa pressão interna.

— O mal-estar é o gérmen da criatividade — disse Max, depois de sorver o último gole de cerveja.

Estaria “alto”, ou apenas fingindo uma bebedeira, para assim fugir à responsabili­dade dos seus atos? A primeira opção me pareceu mais verdadeira, principal­mente depois que ele se ergueu da cadeira do bar, caminhou alguns passos, olhou para trás apontando o indicador para os céus e finalmente disse:

— Ric, você não terá feito nada de importante na vida enquanto não tiver o direito de se comportar como um menino de nove anos.

— Posso contar uma história? — perguntei para Nadine, que ainda sorria da cri­ancice de Max. — Talvez ela possa explicar o que quero dizer.

Nadine balançou a cabeça afirmativamente. Cruzei as pernas e repousei as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.

*   *   *

Groddeck, psicanalista contemporâneo de Freud, dizia que toda a sintomatologia carrega consigo uma simbologia recôndita. Algo “escrito por detrás do véu que encobre o que é meramente manifesto”, como nos diz Maximilian. Aquilo que liga o sintoma ao seu sentido último, que quase sempre é invisível ao olho desavisado.

Pois uma vez eu estava de plantão na maternidade e me pediram para atender uma paciente que estava na internação obstétrica do hospital onde eu trabalhava. Era uma paciente com 20 semanas de gravidez e que aparentava ser muito jo­vem. Estava com vômitos incoercíveis. Sempre tive uma dúvida e uma questão pessoal com esse sintoma. Como eu já disse, Nadine, a gente aprende na facul­dade que elas vomitam porque estão cheias de hormônios ditos “eméticos”, tipo estrogênio, progesterona, HPL, etc. Mas isso não me parecia suficiente. “Por que umas têm e outras não, já que todas estão cheias de hormônio?”, perguntava eu, o aluno chato. Diziam-me que cada uma tem a sua sensibilidade e etc. Isso eu já sabia. Mas será que o vômito não era um sintoma de algo mais profundo, emocio­nal, psicológico? Lembrei-me de uma amiga minha que odiava o marido, e algum tempo antes de se separar este lhe implorou que fizessem amor. Ela aquiesceu por medo da reação do marido, mas tamanha era a repulsa que sentia por ele que logo após terminar o ato, ela… vomitou. Imaginei que o vômito dessa grávida po­deria conter o mesmo tipo de mensagem. Quem sabe? Mas deixem que eu lhes conte a história…

Entrei no pequeno quarto do hospital militar. Era uma manhã fria na cidade. Lá estava ela, envolta num cobertor. Emagrecida, com olheiras e com o indefectível soro fisiológico, que era a sua ligação simbólica com o hospital, com o sistema, como bem pontuou Robbie Davis-Floyd em Birth as na American Rite of Passage. Olhou-me sem pressa. Seu olhar era de medo, de cansaço. Seu nome era, diga­mos, Beatriz.

— Oi — disse eu. — Sou o médico que vai atendê-la.

— Oi, doutor — respondeu ela.

Sua voz era sussurrada. Parecia fraquinha, débil. Não comia quase nada, e o pouco que conseguia era devolvido. Havia emagrecido muito desde o início da gravidez. Pedi licença e levantei o cobertor. Lá estava a barriguinha, saltando para fora do abdome encovado. “Engoliu um caroço de abacate”, diria a minha avó. Que será que faz essa mulher vomitar? Por que ela rejeita comida?

— Por que isso, Beatriz? Por que você está vomitando? — indaguei de supetão.

Às vezes entro “de sola”, para produzir um reboliço. Fazer uma pergunta dessas é um risco, porque a paciente pode não entender, pode achar que eu a estou cul­pando de algo. Tentei contornar isso com um olhar benevolente. Talvez eu pu­desse mobilizá-la o suficiente para entender o que estava ocorrendo, e melhor, fazê-la entender. Poderia ser, imaginei eu, que, se ela pudesse entender onde estava encravado esse sintoma, o que ele representava e que lugar ocupava, não precisasse mais dele.

— Como assim, doutor? “Por quê?” Se eu soubesse não estaria aqui.

Sua postura foi, como previa, de defesa. Ok, plano dois: fazê-la entender que o que ela tem é mais do que aparece.

— Bem, eu acho que você sabe. Você está vomitando muito. Não está se nutrindo adequadamente. Ficamos preocupados e a internamos.

A mim parecia existir alguma coisa que a estava atrapalhando e ela tentava colo­car para fora. Fazia o melhor que podia: vomitava sem parar. Mas será que essa seria a única saída?

— Doutor… Não consigo parar de vomitar. Não é culpa minha. Gostaria de parar, mas não consigo. Nada para lá dentro. Até água.

— Mas… o que você quer dizer com isso? — indaguei, depois de um silêncio pro­posital.

Ela ficou em silêncio. Parecia não entender o que eu queria.

Ok… sequência do plano dois. O que vem a seguir mesmo? Ah, lembrei. Resolvi fazer-lhe perguntas banais. Nome, idade, endereço, estado civil. Profissão, tele­fone, blá, blá, blá. Perguntei então da história obstétrica. Início menstrual, início das relações sexuais. Anticoncepcionais prévios à gestação.

— Este é o primeiro filho?

— Sim — aquiesceu ela.

— Primeira gravidez? — emendei.

Silêncio. Uns instantes mais me olhando. Parecia querer saber o que estava co­lado na minha retina. Olhou no fundo do meu olho procurando algo. Uma confi­ança? Um gancho para pendurar um segredo?

— Sim — respondeu em um quase sussurro. Seu olhar para baixo mostrava que eu estava próximo de um ponto importante.

— Primeira gravidez? — repeti. — Você teve algum aborto anterior a esta gesta­ção?

Seus olhos marejaram. Tremeram-lhe os lábios. A boca lentamente se contorceu e as lágrimas correram pela face emagrecida. Uma dor surda a tomava. As mãos uniram-se ao peito. Mostravam que ali residia encravada uma mácula, um machu­cado, uma ferida espinhosa.

— Quer falar sobre isso, Beatriz?

Ela continuava chorando baixinho. Aprendi com Robbie que a maior ajuda que podemos dar a quem sofre é permitir que ela conte a sua história, sem interromper ou julgar. Essa história muitas vezes inicia-se com a transposição da pessoa para um momento no passado de muita dor, e essa dor vem à tona através das lágri­mas, tristeza e melancolia. Não se deve interromper; tem que fluir. Chorou mais um pouquinho, e depois de se acalmar falou o que ocorria.

— Não é a minha primeira gravidez, doutor. Ninguém sabe disso. Eu fiz um aborto no passado. Tinha um namorado e era muito jovem. Não podia ter essa criança. Eu me culpo muito por isso, meu marido não sabe de nada. Ele é um homem reli­gioso, jamais entenderia. Ele acha isso um crime. Desculpe…

Mais lágrimas. Dava pra se ver o que ela guardava dentro de si, e que doía tanto. Ela tentava se livrar da dor, da vergonha. Queria jogar longe um passado que a maltratava.

— Ok, minha flor. Posso claramente entender a sua dor. Mas tente entender as alternativas que você mesma cria para se harmonizar. Você pode continuar vomi­tando, e eu posso continuar dando soro e antieméticos. Mas não seria mais inte­ressante tirar esse peso do seu peito? Não seria possível tirar essa mágoa, esse espinho que você carrega?

— Mas como tirar isso, doutor?

— Talvez se você contar a ele, não precise mais vomitar. Não sei se você conse­gue, pois posso imaginar como isso é difícil e dolorido. Mas me sentiria um pés­simo médico se não lhe oferecesse essa alternativa. Você saberá o que fazer.

Ela baixou os olhos e ficou em silêncio. Não insisti. Sabia o peso daquela decisão. Saí do quarto e prescrevi a drogalhada de rotina. Antes lhe dei algumas orienta­ções gerais, bati um papinho e terminei com um sorriso.

Muitas vezes, a função de um médico é apenas permitir que nosso olhar seja um regato no qual possam desaguar dores profundamente escondidas. Somos, em muitas ocasiões, aqueles que podem diminuir a pressão que um segredo, uma mágoa ou uma saudade produzem no peito de quem sofre. Talvez essa seja mesmo a essência da arte médica, mas que acabou perdida nos labirintos lucrati­vos da tecnocracia. Poucas vezes, escutei durante a minha formação médica a respeito das possibilidades terapêuticas incríveis produzidas pelo silêncio respei­toso. Apenas Max me falou sobre isso, mas quando eu já estava fora dos bancos universitários.

Lembrei-me de uma cena acontecida em um hospital da cidade alguns meses antes. Uma enfermeira que trabalhava no centro obstétrico de um hospital privado me disse que estava vomitando sem parar desde o início da gravidez. Estava igualmente sem saber o que fazer. Essa enfermeira era extremamente suave e carinhosa, mas o hospital em que trabalhava era um dos piores exemplos de tec­nocracia, frieza e insensibilidade no trato com as gestantes. Ela me comentava isso com frequência, e sei o quanto isso a fazia sofrer. Diante das suas queixas, resolvi lhe perguntar:

— Lu, o que você está vomitando?

— Vomito qualquer coisa que coma — respondeu ela.

Olhei para ela com um olhar firme e decidido e repeti:

— Lu, o que você está realmente vomitando?

Ela paralisou seus belos olhos verdes no meu rosto e ficou em silêncio. Voltou seus olhos para baixo, e lançou-me um tímido sorriso. Deu meia volta e foi termi­nar suas atividades. Alguns meses depois, soube que ela havia tido seu filho de parto normal, e depois abandonou o hospital para se dedicar ao ensino de novas enfermeiras. Beatriz também possuía uma dor que a fazia vomitar, tentando com isso expulsar o que tanto a angustiava.

Na maioria das vezes, nos deixamos seduzir pelo brilho falso das modificações fugazes que as intervenções drogais ou autoritárias costumam produzir nos do­entes. Entretanto, algumas raras vezes, o médico pode se tornar o catalisador de transformações profundas e curativas se souber — e puder — tangenciar o núcleo afetivo que desequilibra a saúde de um paciente. Esse momento é sempre um grande acontecimento, porque muitas vezes o médico quer escutar, mas o paci­ente não está preparado para falar. Outras vezes, que eu penso serem a imensa maioria, os pacientes entregam ao médico uma “pérola”, em forma de sintomas ou histórias, mas este está despreparado para a escuta esclarecedora. A psicanálise nos afirma que “o que o paciente traz como sintoma é, em verdade, seu maior te­souro”, e esse adágio podemos comprovar na prática, nos relatos diários das infi­nitas histórias contadas. Quantas vezes a chave que desvenda o grande mistério de uma dor não estava ali, o tempo todo, escondida nas fissuras de um discurso dissimulador, mas pedindo para ser revelada?

No outro dia, voltei pela manhã ao hospital. Fui fazer a ronda dos pacientes inter­nados. Peguei a pasta de Beatriz e vi as letrinhas rabiscadas “C-A-J”. Cada uma delas com um risquinho vermelho. CAJ… Café, Almoço e Janta… Rabiscados! Então ela comeu!

Entrei no quarto de Beatriz e a encontrei vestida, sentada na cama. Estava com outro olhar. Sorriu timidamente quando entrei. Ao seu lado, o marido. Tinha um olhar duro, sóbrio, mas benevolente. Cumprimentou-me com um sorriso seco. A malinha pequena e simples estava ao lado da cama. Beatriz estava com um dis­creto batom vermelho, os cabelos molhados e um brilho no olhar. Olhou-me com um sorriso tímido, e disse:

— Acho que não preciso mais ficar no hospital, doutor.

Seu sorriso denunciava. Não precisei perguntar nada, apenas sorri para ela em cumplicidade velada. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez e selaram aquele segredo.

— Podem me tirar esse soro? — disse ela, ainda sorrindo

— Claro, claro, Beatriz.

Saí da sala feliz, radiante. Ela disse! Ela teve coragem! Que mulher! A vida de um obstetra também tem esses dias legais.

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Memórias do Homem de Vidro – 07

Simulacrum

Passados alguns anos da saída da residência médica, minha inquietude com a obstetrícia atingia limites preocupantes. Já naquela época eu trabalhava em hospitais de periferia como plantonista do centro obstétrico. Nesses locais, eu po­dia vivenciar o tipo de obstetrícia que se oferecia à grande massa da população brasileira, pois a clientela atendida era basicamente formada por trabalhadores de baixa renda oriundos do cinturão de pobreza que circunda as grandes cidades. Ali, à margem dos grandes centros, os procedimentos rotineiros não diferiam muito daqueles que aprendi no transcorrer da residência médica. As condutas eram to­madas sem um critério sólido de embasamento científico, e atitudes aparente­mente banais, como abolir a tricotomia (corte dos pelos pubianos), eram vistas pelos colegas e pela enfermagem com desconfiança e, muitas vezes, com explí­cita aversão. Eu, entretanto, já estava por demais contaminado com uma forma diferenciada de entender o parto, e essa compreensão se manifestava inexora­velmente na minha prática cotidiana, tornando-se um incontornável gerador de tensão.

Meu ingresso na profissão foi cercado de desafios e conflitos inevitáveis. Algumas auxiliares de enfermagem desses hospitais eram antipáticas aos meus procedi­mentos médicos, e dentre elas algumas eram manifestamente contrárias. Diziam que não achavam correto “deixar uma mulher para ter filhos como uma galinha botando ovo”. Não aceitavam a quebra que eu produzia em um modelo de partos que elas repetiam irrefletidamente havia mais de 20 anos. Para elas, as explica­ções científicas sobre a postura de cócoras, por exemplo, eram completamente inúteis, e me diziam que, “se fosse certo nascer assim, o senhor não seria o único a fazer”. Na verdade, elas acreditavam que eu assistia partos de cócoras só “para ser diferente e chamar atenção”. Nessa época, eu já era alvo do escárnio de al­guns colegas, mas as próprias funcionárias, mulheres que tratavam de mulheres, eram tão ou mais cáusticas. Não foram poucas as que me informaram que não gostavam de trabalhar comigo, porque eu era “cheio de manias”. Minha presença era considerada uma ameaça. Minha pior “mania” era pedir que tomassem cuidado com tudo que fosse dito na frente das grávidas em trabalho de parto, porque sua fragilidade, causada pelo estado alterado de consciência, as tornava facilmente susceptíveis. A entrada de um centro obstétrico, além de ser um local de extrema violência institucional, é também um local onde se encontra muita “patologia da palavra”, que, em se tra­tando do nascimento, pode ser entendida como “a morbidade causada pelo uso inadequado de expressões, atos ou gestos que podem fazer a paciente adentrar o ciclo vicioso do medo-tensão-dor”. Maximilian, meu colega e “guru”, batizou esse processo de verbose.

Lembro-me de uma história em que a desatenção e o uso irresponsável de uma expressão colocou um grupo inteiro de pessoas em pânico. Nesse mesmo hospital de periferia, há mais de 10 anos, uma paciente adentrou o centro obstétrico com uma ultrassonografia demonstrando um abortamento fetal precoce, de menos de 10 semanas. Vinha encaminhada diretamente da clínica de ecografias, e parecia estar já conformada com a perda da gravidez. Apresentava sangramento vaginal moderado e o colo uterino estava aberto. Conversei um pouco com ela, expliquei como seria feita a raspagem uterina e pedi que o marido ficasse por perto para estar ao seu lado quando acordasse da anestesia. Ela concordou, mas pediu que eu falasse com ele, porque se encontrava nervoso e preocupado. Determinei, en­tão, que uma das auxiliares de enfermagem solicitasse a presença do marido para falar comigo.

A funcionária prontamente dirigiu-se à porta de entrada do centro obstétrico e de lá disse em voz alta, dirigindo-se para a pequena aglomeração de familiares que aguardava informações:

— Por favor, o marido da paciente que perdeu o bebê, queira entrar para falar com o médico.

Detalhe: naquele momento, estavam internadas cinco ou seis pacientes em tra­balho de parto. Para cada grávida, existem em média 2,5 acompanhantes, o que significava quase 15 pessoas aguardando, espremidas e ansiosas na pequena sala. Quando a funcionária disse essa frase, todos se ergueram em sobressalto para saber quem era a infeliz paciente que havia perdido um bebê. Afinal, poderia ser qualquer uma das gestantes internadas. Criou-se um alvoroço que só foi con­tornado quando eu expliquei a cada um a confusão, e reforcei que as suas espo­sas/filhas/irmãs, assim como seus bebês, estavam muito bem.

Apesar de a admissão nos centros obstétricos ser marcada por condutas equivo­cadas, como a narrada acima, era no interior deles que ocorriam as mais questio­náveis e insensatas atitudes. Continuava sem entender porque, apesar de termos veículos ágeis e de fácil acesso, como a Biblioteca Cochrane, os livros do Ministé­rio da Saúde e a própria Organização Mundial da Saúde, poucos médicos se inte­ressavam em discutir medicina baseada em evidências. Sentia-me isolado, por­que, diante dos meus questionamentos, meus colegas frequentemente se justifi­cavam dizendo que suas condutas estavam calcadas em “anos de experiência”, ou que “foram ensinados dessa forma pelo doutor Fulano, que era um grande mestre”. Não era fácil encontrar posturas críticas e criativas; a grande maioria re­petia atitudes e jargões padronizados. Diante desse cenário de conformismo com o modelo vigente, minha prática como obstetra que assistia “partos de cócoras” era vista como “modismo”, algo estranho e sem importância, que apenas algumas mulheres eivadas de fervor místico consideravam digno de consideração. Eu era tratado como “sonhador”, ou alguém que enxergava a medicina de forma român­tica e ingênua.

Meu sofrimento era incrementado pela ausência de explicações convincentes para as idiossincrasias da prática obstétrica. A despeito de ter percebido os maus re­sultados produzidos pela distância que mantínhamos das evidências científicas, eu ainda não tinha as respostas para uma pergunta que me torturava: por que, apesar das provas contundentes de que já dispomos, nós, médicos, continuamos a agir de forma mitológica e repetitiva, reproduzindo terapêuticas comprovada­mente inúteis e/ou perigosas para as nossas clientes? O que nos movia? Por que a distância entre nosso saber e nosso gesto? Por que nossas condutas eram tão afastadas do cientificamente comprovado como útil e seguro?

Naquela época, esse hospital tinha índices de cesarianas superiores a 45%, e questionar a validade de, por exemplo, episiotomias de rotina (entre outras con­dutas corriqueiras e igualmente equivocadas) era considerado quase um sacrilé­gio. Essas perguntas, relativas às práticas comprovadamente ineficazes ou inade­quadas, eram frequentemente respondidas pelos colegas com afirmações do tipo: “É o efeito inercial; agimos assim porque mudar é sempre complicado e difícil. Fomos treinados em um determinado tipo de proceder e nos mantemos nele por hábito”. Em uma frase que acabou famosa através de uma tese da Dra Simone Diniz, uma ginecologista explicava a razão pela qual aplicava episiotomias nas suas pacientes, apesar de saber de sua inutilidade: “Eu até tento não fazer, mas minha mão parece que vai sozinha!”. Também chamavam essa conduta repetitiva e automática de “hábito vicioso”, que poderia ser definido como a “dificuldade em mudar um procedimento previamente conhecido que nos oferece a segurança de um resultado previsível”.

Nada disso me satisfazia. Eu costumava responder a essas afirmações com uma pergunta capciosa: “Se você ganhasse um milhão de dólares na loteria, continua­ria indo para o trabalho de ônibus porque teria dificuldade em romper um hábito de 25 anos?” Nunca escutei nenhuma resposta afirmativa a essa pergunta; ninguém manteria um costume como esse sem ter uma boa justificativa. A tese de “repeti­ção inercial” ou “hábito” parecia querer esconder motivações inconscientes, que provavelmente seriam complexas ou constrangedoras demais para serem explici­tadas.

Mas que motivações inconscientes seriam estas? Tratar-se-ia, por acaso, de sa­dismo por parte dos médicos? Utilizariam eles cesarianas em excesso, enemas, tricotomias, episiotomias etc., muito além do que seria medicamente admissível, apenas para que suas pacientes sofressem intervenções injustificadas? Seriam os médicos tolos, ignorantes e cegos às realidades disseminadas modernamente sobre a validade desses procedimentos? Não pareciam ser estas as respostas. Rebater as críticas a uma prática médica cientificamente equivocada com argumentos de ordem moral me parecia uma tá­tica escapista, muito utilizada para explicar outros fenômenos sociais. Assim era com a criminalidade, tratada como uma mácula social criada pela ausência de va­lores éticos, dessa forma mascarando as questões econômicas e culturais envol­vidas na distribuição da riqueza. Não me permitiria acreditar nessa interpretação tacanha da realidade, que mais escondia do que revelava respostas. Deveria exis­tir algo mais profundo, recôndito e de difícil acesso que pudesse responder a es­sas questões.

Se as explicações eram escassas, os fatos, por sua vez, eram inquestionáveis: bastava uma passada superficial pelas estatísticas para perceber a brutal distân­cia entre realidade e evidências científicas. Na minha cidade, existiam hospitais privados em que o índice de cesarianas era maior do que 80%. Essa realidade ainda vigora incrivelmente nos dias de hoje, e depois do trabalho de Joe Potter e Kristine Hopkins (mostrando que as cesarianas não são a preferência das ges­tantes, como foi historicamente apregoado) já não podemos culpar as mulheres pela opção insensata do nascimento pela via cirúrgica. Nossa mortalidade ma­terna, que estava nessa época em um patamar superior aos atuais 75 por 100 mil nascimentos, é fortemente ligada às hemorragias e infecções — muito mais fre­quentes nas cesarianas — e está entre as mais altas do mundo, pareada com os mais pobres países da África. Onde estaria, então, a resposta para esse divórcio entre ciência e prática médica?

As explicações para o intervencionismo no nascimento humano às vezes apre­sentavam características que oscilavam entre o absurdo e o bizarro. Em uma con­versa que tive alguns anos atrás com um colega obstetra durante o congresso de ginecologia e obstetrícia da Febrasgo no início deste milênio recolhi essa pérola, que tentava explicar o índice abusivo de cesarianas no nosso país. Dizia ele, com ares de inequívoca sapiência, que o problema do excesso das cesarianas no Bra­sil estava relacionado com a miscigenação entre negros e europeus, pois criava as condições para uma desproporção céfalo-pélvica. Sendo os negros menores e mais “estreitos”, acabavam por obstaculizar o nascimento de indivíduos com ge­nes europeus, maiores e mais largos. Olhei para o colega sem acreditar na serie­dade da sua tese racista e disse-lhe: “Mostre-me seus dados! Estarei pronto para acreditar nisso se o senhor me apresentar de onde saiu essa afirmação”. Ele, ob­viamente, nunca me enviou nenhuma informação sobre isso.

Comecei então a procurar em outras áreas do conhecimento as respostas que a medicina não me apresentava, principalmente na história, na psicanálise e na an­tropologia. Passado algum tempo, caiu-me nas mãos um dos artigos mais eston­teantes sobre a obstetrícia contemporânea que eu já havia colocado meus olhos: Obstetrical Training as a Rite of Passage, de Robbie Elizabeth Davis-Floyd. Rob­bie é uma antropóloga americana e ativista do nascimento, que escreveu vários livros e artigos sobre o parto humano através de uma visão antropológica. Encon­trei esse artigo “por acidente”, ao vasculhar as referências bibliográficas do livro Obstetric Myths and Research Realities, da educadora perinatal Henci Goer. Os capítulos finais desse precioso livro são todos dedicados ao modelo que Robbie descreveu sobre as motivações para os procedimentos repetitivos e ritualísticos da prática médica contemporânea.

Foi uma descoberta reveladora e violenta. Ali, pela primeira vez, encontrei o signi­ficado da ritualística médica, tecnocracia e rituais de passagem. A leitura desse artigo — e posteriormente de todos os livros publicados pela Dra. Robbie — fez com que o meu entendimento sobre a obstetrícia desse uma guinada fabulosa, levando de roldão toda a minha vida.

Coincidentemente, poucos meses depois da leitura deste artigo, chegou na minha cidade o filme “Matrix”. Seduzido pela expectativa de um filme de aventuras e fic­ção científica, acabei sendo surpreendido por uma instigante e estonteante metá­fora para a compreensão do mundo contemporâneo, que produziu um profundo choque no meu entendimento sobre a realidade circundante. A partir de então, fiquei tão impactado com essa coincidência que comecei a traduzir o mundo em que eu estava inserido através da metáfora poderosa dos irmãos Wachowski.

Quando saí do filme, em 1999, estava acompanhado dos meus fiéis escudeiros, Lucas e Bebel. Só me permito ir ao cinema assim escoltado, porque depois de qualquer sessão se forma um debate acalorado sobre o filme, regado a Coca Light e suco de laranja. Sempre assim, mesmo que o filme seja insuportavelmente ruim. Dessa vez, não foi diferente. Saí da sessão com a nítida sensação de que havia visto mais do que um filme. Havia assistido algo que tinha a ver com a minha vida, e uma maneira específica de enxergar o mundo. Ainda emocionado, encarei meu filho Lucas e, com o dedo apontando ameaçadoramente contra seu peito, disparei:

— Lucas, não permita que seus olhos o enganem. O mundo é feito de ilusões, e a maior delas é a de que elas são obra apenas de nossa imaginação. A ilusão é a face oculta da realidade. Olhe para o simbolismo abrangente contido nesse filme. Não permita que os efeitos especiais ofusquem sua compreensão da verdade, verdade esta que se esconde por detrás do meramente manifesto aos sentidos mais grosseiros. Existe algo de Matrix aqui, nesta cafeteria. Existe algo de Matrix na sociedade em que vivemos, assim como dentro de você. Os meandros do seu inconsciente escondem porções que seriam violentas até mesmo para a sua inte­gridade. Tem certeza de que é realmente Coca-Cola o que você está bebendo?

Lucas me encarava com atenção, e certamente levou a sério o que eu estava di­zendo. Olhou para o meu dedo em seu peito e sorriu. Seu sorriso me dizia que também acreditava em uma forma outra de ver a realidade, apesar da sedução apresentada pela experiência cotidiana dos sentidos. Bebel sacou na hora. Olhou para o suco de laranja e fez cara de nojo. Voltou-se para mim, com a face ainda contorcida, e disse:

— Vou devolver esse suco, “paps”; está cheio de “bits e bytes”!

A possibilidade de analogias infinitas e criativas com o mundo que nos rodeia me pareceu fascinante desde o princípio. Entendi que o mundo, assim como em Ma­trix, é sustentado por uma arquitetura invisível, criada por nós mesmos, para nos fixar ao core system da sociedade, e consolidar os valores fundamentais sobre os quais nossa vida social se assenta. Somos tão somente seres guiados por forças incorpóreas e poderosas sem que nos apercebamos disso. Agimos socialmente tal qual marionetes, sustentadas por finos arames invisíveis ao olho desarmado. Ime­diatamente, inseri a obstetrícia contemporânea nesse cenário, e sobre essa ideia tracei os inevitáveis paralelos com o trabalho de Robbie E. Davis-Floyd, que incri­velmente não assistira Matrix.

“O que quer a Matrix?”, perguntaria em “A Pílula Vermelha” o articulista Read Mer­cer Schuchardt. “Ela quer manter a nós, humanos, escravizados pelas nossas ilu­sões, a principal das quais é a de que tecnologia não nos escraviza, e sim nos liberta.”

Percebi a existência de uma ultraestrutura que governa o atendimento às mulhe­res gestantes e que pretende conformá-las com o mundo como foi construído, para que obedeçam ao sistema sem contestá-lo. A gestação, com sua natural fra­gilidade, é o momento ideal para determinar a posição específica da mulher na sociedade, assim como ensiná-la (doutriná-la) sobre a forma como seu filho deve ser inserido na mesma. Apesar da presença de absurdos incontestes, equívocos inaceitáveis e crenças insustentáveis, a fé no sistema, e nos seus condutores, deve persistir. Olivier Clerc, pensador francês contemporâneo, alinha de forma muito curiosa a forma da medicina atual lidar com a realidade e suas interpreta­ções, pareando-a com a religião e considerando-a a sucedânea desta no imaginá­rio social, no qual a “verdade” pode ser buscada através dos “clérigos modernos”, que parecem ter trocado a batina pelo jaleco. Diz-se de Santo Agostinho, padre dos padres, a frase “Credo quia absurdum” (creio por ser absurdo), e nisso colo­cava a força de sua fé. Parece que dos médicos solicita-se o mesmo tipo de vin­culação poderosa e pré-racional a um modelo religioso e mítico, porque essa liga­ção é fundamental para a manutenção do sistema.

No que tange à obstetrícia e ao nascimento humano, hoje em dia o sistema mito­lógico, etiocêntrico, iatrocêntrico e hospitalocêntrico da medicina ocidental nos pede que acreditemos que as mulheres são incompetentes para gerar e parir seus filhos, mesmo que nos demonstrem diuturnamente sua capacidade e talento. A epidemia de cesarianas e, modernamente, as terapias de reposição hormonal, a ideologia da ablação menstrual e a proliferação de clínicas de fertilização artificial são demonstrações claras de uma visão específica da sociedade sobre o feminino e a mulher. Essas manifestações e fenômenos sociais ganham sentido contempo­raneamente porque nos levam diretamente ao âmago do sistema de valores de nossa sociedade, que se ergue em nome do patriarcado e do capitalismo, através de um modelo cartesiano de percepção da realidade. No sistema patriarcal, não há lugar para mulheres poderosas e livres. Elas devem acreditar — como os ha­bitantes da Matrix — que o lugar onde estão (o sistema de valores que as consi­dera subcidadãs) é o melhor para elas. Esse modelo é o cimento básico que nos une. Temos medo de perder o controle sobre tudo o que construímos enquanto humanidade. Uma sociedade baseada na igualdade nos amedronta.

Em um mundo que dissemina a inferioridade básica das mulheres, é necessário que elas mesmas sejam convencidas dessa realidade, assim como é necessário que o pobre se convença de que sua pobreza é obra do destino ou de sua etnia, para que o mesmo não confronte o sistema distribuidor de riquezas. Toda a cons­trução da obstetrícia contemporânea se assenta sobre a crença básica da defecti­vidade essencial das mulheres porque, baseada nesse modelo, a medicina obsté­trica poderia construir as ferramentas e tecnologias adequadas para consertar esta “máquina”, agora entendida como equivocada e defeituosa, como bem nos revelou Robbie Davis-Floyd. Mas essa visão sobre o parto não se estabelece em um vácuo conceitual. Outros acontecimentos exclusivamente femininos como a menstruação — chamada por alguns de “sangria inútil” — e a menopausa são exemplos claros de eventos fisiológicos tratados pela ciência médica como patolo­gias. Minha pergunta aos colegas na época era: que evento fisiológico masculino merece um tratamento pela medicina contemporânea?

Recebia apenas sorrisos como respostas. A verdade é que o homem não neces­sita ser tratado em sua normalidade funcional, porque ele é o espelho de Deus. Ele traz consigo a perfeição Divina in essentia. O contrário acontece com a mu­lher. Culpada, entre outros crimes, pelo “pecado original”, foi punida pelo Senhor com a pena dos partos dolorosos e do sangramento mensal. Mulheres são a falha, o desajuste e o equívoco da criação. Henci Goer, educadora perinatal americana e ativista do CIMS – Coalizão para a Melhoria dos Serviços de Maternidade fala que a medicina trata como disfuncional tudo aquilo que foge ao padrão. O parto foge dos padrões da normalidade porque não ocorre nos homens.

Levando mais adiante nossa ideia, mais do que acreditar na sua defectividade, faz-se mister que as próprias mulheres disseminem essa crença. Iniciando esse processo, é fundamental que elas sejam doutrinadas desde o berço com a ideia de que uma mulher tem uma incompetência básica inata, que faz com que qual­quer uma de suas decisões tenha que passar, em última instância, pela ordem do masculino. O parto, momento apical da feminilidade, é o momento ideal para que essas crenças sejam reforçadas e disseminadas. Ali podemos encontrar todos os valores sociais profundos encenados de forma sutil, mas poderosa. A natural abertura sensorial determinada pelo evento nos propicia a possibilidade de instruir as mulheres e seus filhos nas posições específicas que desejamos que ocupem na estrutura social. Por essa razão, o estudo da simbologia representada no nas­cimento nos leva ao cerne dos valores mais profundos que estruturam nossa civili­zação.

Olhar para esse cenário de fora da Matrix é angustiante. Uma tortura. Em Matrix, diante da verdade revelada a Neo por Morpheus, este inicialmente negou. Depois vomitou. Desperto do sono tecnocrático, não queria acreditar no que via. Não su­portou a confrontação da imagem que nutria da humanidade com a dura realidade que seu libertador lhe apresentou. Teve náusea, fruto da impotência diante de um sistema muito maior do que ele próprio. Sentiu-se fraco e desesperançado.

As pessoas que se defrontam com essa nova forma de encarar a realidade na medicina (assim como em outras áreas do conhecimento) acabam sofrendo o mesmo processo pelo qual Neo (de “novo”, mas também um anagrama de “one”, o “um”, ou mesmo “éon”, energia emanada de um ser supremo) passou ao ser res­gatado da fantasia da Matrix. Dor, sofrimento, negação, angústia, tristeza, re­morso, vergonha. Descobrem também que é necessário passar por um ritual de despojamento das falsas certezas e do orgulho rastejante para, assim renovadas, serem verdadeiramente leais com sua própria existência. Lembram que nosso he­rói fica nu ao ser desplugado? Parece mesmo a nudez de São Francisco de Assis no filme Irmão Sol, Irmã Lua, quando este abre mão de seus valores — dinheiro, roupas, crenças — para adentrar uma vida de desapego aos valores mundanos.

Não existem orgulhosos no céu.

A leitura do artigo de Robbie, que se transformou em um maravilhoso capítulo do seu livro Birth as an American Rite of Passage, me deu a exata dimensão de mi­nha arrogância e da minha estupidez, mas ao mesmo tempo me deu a esperança de que apenas através do reconhecimento de nossas próprias fragilidades é que podemos nos fortalecer. “Toda a vitória se ergue dos escombros de uma derrota”, como sempre me dizia Max. Toda relação pessoal se instaura sobre um fracasso egoico. Toda esperança se cria quando reconhecemos nossas fraquezas. Neo percebeu sua vocação libertária ao se defrontar com sua infinita pequenez e insig­nificância, mas para isso foi necessário despertar no “campo de cultivo”, as plan­tações em que a humanidade era usada como “energia barata” pelas máquinas.

Matrix está aí fora, criando nas mulheres a ideia de que, se elas se submeterem aos ditames que “sempre existiram” e que “incontestavelmente são os verdadei­ros” (em outras palavras, a “realidade expressa”, o roteiro que se aplica sobre as marcas do real), elas estarão seguras para todo o sempre. A Matrix quer fazer acreditar que sem as máquinas (tecnologia/masculino/instituição) nenhuma mulher pode arcar com suas aptidões biológicas. A Matrix não admite que o poder seja repartido ou que a fraternidade seja um modelo factível de relação entre as pes­soas. A Matrix nos diz que a estrutura básica deste mundo não pode ser mudada, sob pena de que esse mesmo mundo venha a ruir.

Ao acordar no mundo real, Neo foi avisado por Morpheus de que a dor que sentia nos olhos se devia ao fato de que nunca anteriormente havia enxergado. Ao ne­garmos a oportunidade de vislumbrar a dura realidade de um sistema de crenças centrado no poder dos que dominam a tecnologia, sucedânea contemporânea da religião, ficamos também cegos às verdades outras que surgem da própria experi­ência feminina com o nascimento. Disse-lhe também que pessoas mais velhas — e talvez aqui “velho” não esteja necessariamente ligado à idade cronológica — dificilmente eram libertadas da Matrix, porque o resultado era invariavelmente ruim.

Algumas crenças ficam tão impregnadas que não esvaecem jamais. Neo, em Ma­trix, escondia seus programas piratas em um livro que retirou da estante. Nesse livro, além de vários discos, havia um maço de notas, mostrando um aspecto mer­cantilista do personagem; era, provavelmente, o combustível para que ele pu­desse subsistir na Matrix. O nome desse livro é Simulacra and Simulation, de Jean Baudrillard. Nele Baudrillard apresenta as teses fundamentais do pós-moder­nismo. A ideia básica é de que o mundo real não mais existe, permanecendo entre nós apenas o seu simulacro. Após a criação da linguagem, o “mundo real” deixou de ser possível, como nos ensinou Lacan, sobrevivendo apenas a sua versão, construída por nós. O parto real não mais existe, apenas a variante que criamos dele, construída pela medicina ocidental contemporânea.

Remontando-nos a outro filme, O Sentido da Vida, no capítulo “O Milagre do Nas­cimento”, os comediantes ingleses do Monty Python nos mostram uma cena de nascimento hospitalar contemporâneo, em que aparece como estrela principal não a mulher parindo, mas a máquina que faz “ping”. Indagados pela angustiada paci­ente do que se tratava tal máquina, explicam, orgulhosos, que essa tecnologia era a que “poderia dizer se o bebê ainda estava vivo”. No caso, era a tecnologia quem ditava as percepções maternas, como na famosa imagem apresentada por Robbie em uma de suas palestras, na qual uma mulher observa o monitor fetal acredi­tando que os batimentos cardíacos que ela escuta são verdadeiramente produzi­dos pela máquina, e não pelo seu bebê. A verdade subjugada pela sua interpreta­ção.

O Dr. Marsden Wagner, da OMS e ativista da humanização do nascimento (que para a minha trajetória funcionou como Morpheus para Neo), costuma contar a história de que, falando para médicos em grandes audiências, solicitava: “Ergam o braço quem dentre vocês já acompanhou um parto domiciliar”. A reação era inva­riavelmente a mesma: em uma plateia de 400 médicos, nenhuma mão se erguia. Aqui aparece a face pós-moderna mais dolorosa da medicina: perdemos total­mente o contato com a realidade do nascimento. Perdemos seu odor, seu clima, sua temperatura e gosto. Nós, médicos, só conhecemos a sua representação, seu simulacro, sua imagem refletida na parede da tecnocracia. Continuando o raciocí­nio do articulista Dino Felluga, no seu artigo Matrix: Paradigma do Pós-Moder­nismo ou pretensão intelectual?, “fizemos um roteiro tão assemelhado com a ver­dade que aquele se justapôs a esta. Hoje em dia, a realidade é que se desfaz por entre as linhas riscadas do mapa”. Mentimos o parto, falseando a natureza.

Minha mais agradável fantasia é imaginar The Farm, no Tennessee, a comuni­dade pós-hippie onde trabalha e mora a parteira Ina May Gaskin, como a Zion de verdade, onde o nascimento pode ser tratado despido das múltiplas capas que o aprisionam no mundo tecnológico. Nesse “laboratório” de afeto e sexualidade apli­cada ao nascimento, já ocorreram mais de 2000 nascimentos desde os anos 70, e a taxa de intervenção é baixíssima (índice de cesarianas de 1,4%), com resultados maternos e neonatais superiores aos melhores centros tecnológicos do mundo. Por que a obstetrícia contemporânea desvia seu olhar desse tipo de realidade? Por mais que continuemos em uma realidade artificial criada pela cultura, como disse Morpheus, “um mundo que foi colocado em frente aos seus olhos para cegá-lo da verdade”, o mundo real continua existindo como “farpa na sua mente que o faz enlouquecer”, demonstrando, através da inquietude, da indignação surda e da inconformidade, a possibilidade de questionar as ideologias dominantes. A sexua­lidade viva que emana de uma mulher parindo, ou a ideia de uma “Xanadu” pós-moderna, em que o parto poderia ser vivido como um processo de empodera­mento feminino e em estado de graça, funcionam como as mais doloridas farpas com que convivo.

Por outro lado, quais as estratégias de mudança no modelo vigente? Como con­vencer os médicos a modificar suas condutas, direcionando-os para uma postura profissional embasada em evidências e centrada nas necessidades de suas paci­entes? Além disso, como se comporta um sistema que se ergue sobre um modelo cartesiano, positivista, capitalista e patriarcal e que coloca um profissional, invaria­velmente mal pago e pressionado por resultados, como seu “ponta de lança”? Tentemos fazer esse médico mudar sua conduta profissional, mostrando que suas atitudes médicas, mesmo que aceitas por seus pares, arriscam a vida de suas pa­cientes e bebês, e ele lhe dirá que, no atual contexto médico e jurídico, apenas os que defendem o parto humanizado e a medicina baseada em evidências é que são condenados.

A realidade do dia a dia nos demonstra que os médicos são também vítimas desse paradigma, criado por todos nós. Nesse modelo, baseado no medo ances­tral da confrontação com o desconhecido, somos levados a criar sistemas de crenças e rituais que nos oferecem a ilusória ideia de controle sobre a natureza. Sobre essas crenças, passamos um fino verniz de intelecto, para que elas fiquem justificadas perante nossa visão racionalista, como nos fala Olivier Clerk. Médicos confrontados com o nascimento humano sentem medo porque esse evento foge ao seu controle, tal qual a erupção de um vulcão desobedece nossas vontades. A forma ritualística de realizar procedimentos obstétricos padronizados produz um senso de ordem cultural que se impõe sobre o caos da natureza, o que nos produz alívio, assim nos falava Robbie Davis-Floyd em Birth as an American Rite of Pas­sage.

Nosso sistema de saúde é completamente aderido à Matrix. Somos governados por um modelo de crenças tecnológico, naquilo que se chama modernamente de “infotecnocracia”, que é a “ideologia que coloca em posição de poder aqueles que controlam a tecnologia e a informação” conforme a definição do antropólogo ame­ricano Peter Reynolds. Ela se comporta como o “sistema operacional” da Matrix contemporânea ocidental. Basta olhar ao redor e perceber isso no nosso quotidi­ano. Mesmo que a biblioteca Cochrane e a OMS despejem toneladas de informa­ção a respeito da forma segura — e barata — de tratar as mulheres, grávidas e puérperas, continuamos atrelados ao sistema mitológico em que fomos inseridos, porque o modelo obedece às premissas básicas desse sistema de crenças. É o que chamaríamos de “mapa” ou “roteiro” do parto, o que Baudrillard chama de “segunda ordem da simulação”, em que o simulacro mascara a realidade. O parto tecnocrático como o conhecemos é uma alegoria do que é em verdade, e só a confrontação com o fenômeno na natureza é que poderia nos livrar do engodo da simulação.

Muitos anos depois, Madalena me ofereceria essa confrontação, permitindo-me a possibilidade de ver outra realidade. Usando a metáfora de Marsden Wagner em Fish Can’t See Water, a experiência com o parto desmedicalizado, fora do con­texto da tecnocracia, seria o salto para além da superfície do oceano, que permiti­ria ao peixe perceber a água em que esteve sempre envolvido. “Fora da infotecnocracia não há salvação”, diz o apologista da tecnologia aplicada ao nascimento humano (e que, obviamente, lucra com ela). Não conseguimos, a não ser com uma quantidade enorme de esforço e sofrimento, nos desvencilhar disso, porque os que se atrevem a sair da Matrix tecnocrática são vistos como he­réticos e perigosos. Em grego, “hairetikós” significa “aquele que escolhe”. Ter a possibilidade libertária de escolher nos torna hereges e, portanto, suscetíveis de perseguições. Curioso, apesar de trágico, é perceber que frequentemente, como Cristo ou Neo, os hereges são apedrejados exatamente por aqueles a quem ten­tam libertar!

“Tudo se resume a escolhas”, disse Neo ao Arquiteto. Escolher. Decidir seu des­tino. Fazer caminhos com suas próprias pernas. Nada mais revolucionário, peri­goso e… herético. Apenas para citar uma ritualística ainda firmemente incorporada à prática médica, temos a episiotomia rotineira realizada nos hospitais de nosso país. Nessa ques­tão específica, o bem-estar ou segurança da paciente não é o fator que mais se considera ao se traçarem protocolos. Se fosse assim, bastaria ler artigos, estudar prós e contras, e tudo se resolveria. Convenientemente, não faríamos uma cirurgia mutilatória que nunca conseguiu provar sua validade como procedimento de ro­tina. Dessa forma, a episiotomia seria realizada de forma ética e em um número muito reduzido de casos.

Não é o que acontece. Diante das evidências contra a sua realização de rotina, que se acumulam há mais de duas décadas, é muito difícil entender porque essa cirurgia é feita em até 95% dos partos no meu país, quando deveria ser feita em menos de 10%. Sem uma explicação de caráter médico, e não caindo na ingênua armadilha do “hábito”, é fundamental entender em que espaço de discussão — técnico, sociológico, psicológico, antropológico — ela pode ser inserida. Robbie, mais uma vez, mostrou-nos o caminho para a compreensão dos rituais que se de­senvolvem nos ambientes hospitalares em se tratando do nascimento humano. Existem inúmeros fatores que nos impulsionam a realizar procedimentos médicos: o mais poderoso de todos é a ritualística. É importante salientar que os procedi­mentos ritualísticos podem ser (e frequentemente o são) ao mesmo tempo simbó­licos e operacionais. Isso quer dizer que o fato de uma episiotomia ter uma expli­cação médica (mesmo que falsa) — como proteger a vagina de lacerações e fragi­lidades do assoalho pélvico — não impede que ela seja realizada com um pode­roso conteúdo simbólico.

Fazemos episiotomias ritualisticamente. Também vestimos branco, usamos um jargão hermético, fazemos tricotomias e enteroclismas de forma ritual. O ritual existe no comportamento humano para conformar a realidade a um padrão racio­nal e fenomenológico previamente reconhecido. Realizamos isso no nosso dia a dia, e fazemos isso desde que o mundo é mundo, e desde que temos medo do caótico e do incerto. Essa é a razão básica pela qual lançamos mão de rituais sempre que nos deparamos com a incerteza dos fenômenos naturais. Todos estes são fenômenos dominados por uma instância superior à nossa cons­ciência, mesmo que, nos dias atuais, já tenhamos desvendado alguns segredos que estavam escondidos da nossa razão. Ainda vemos a natureza com medo e assombro. Mesmo assim, a essência desses acontecimentos continua submersa em um oceano de mistérios. Para fugir do pânico que nos assola ao olhar para a face lívida do desconhecido, criamos rituais, que tentam fazer com que esses eventos se ajustem aos nossos padrões de compreensão racional. Assim sendo, acreditamos sinceramente que o sacrifício dos carneiros poderia satisfazer a sede de vingança das tormentas e pensamos que rezar uma “Ave Maria” exatas 75 ve­zes vai fazer nosso time fazer um gol nos últimos cinco minutos da partida.

Da mesma maneira com que afugentamos nosso medo através do recurso da ritu­alística, aplicamos esse fingimento (inconsciente) na nossa arte de curar. Quando falamos de episiotomia, e da complexa ritualística hospitalar, é impossível não entender esses eventos como algo que faça parte de uma grande engrenagem, que visa a perpetuar um sistema de crenças e impedir que outras formas de com­preensão sejam estimuladas. Como visto acima, episiotomias, enemas, afasta­mento da família, roupas de CO, etc. são procedimentos que visam a nos trazer a ilusória sensação de controle sobre os fenômenos da natureza, e a ritualística aplicada tem a intenção de colocar em posição de destaque os profissionais que detêm o poder da técnica e da informação. Essas condutas automáticas e irrefleti­das ilusoriamente parecem modificar o rumo caótico (porque fora do nosso con­trole) do nascimento. Mesmo que as pesquisas demonstrem que não existe liga­ção alguma entre episiotomia e melhora das condições fetais e/ou maternas, a prática médica contemporânea a perpetua de forma ritual, mística, repetitiva e pa­dronizada, e com conteúdo simbólico subjacente. Nada poderia se encaixar me­lhor no conceito de rito.

Parece que a evidência científica, por si só, não produz quase nenhuma modifica­ção importante no nosso comportamento clínico. Esse foi o ponto de partida para a minha inquietude em relação à mitologia e à ritualística em obstetrícia. Percebi claramente que existem fatores muito mais poderosos para o controle dos proce­dimentos médicos do que aquilo que a racionalidade científica nos pode trazer. O ritual é um sistema pré-racional, portanto ligado ao desejo, e por essa razão é tão poderoso e pleno de vigor, mesmo em uma civilização pretensamente “racional”. Por outro lado, é fundamental que tenhamos em mente que os rituais não são es­colhidos aleatoriamente. Sua criação pressupõe a valorização e a perpetuação de valores profundos e ancestrais na nossa cultura.

O médico mantém e reproduz um sistema de valores que o sustenta como figura preponderante na sociedade e que cultiva os valores básicos de uma cultura tec­nocrática, mitológica, consumista, patriarcal e individualista. Médicos também são guardiões de um sistema de crenças que sustenta o mundo em que vivemos. A ritualística envolvida no parto serve aos interesses profundos dos profissionais da medicina, porque cria a ideia de uma necessidade que só pode ser sanada por quem detém um específico saber. Assim empoderados, os médicos tentam de to­das as formas manter uma situação em que se estabeleça a indissolubilidade en­tre o parto e essa tecnologia, por eles dominada. Agem inconscientemente assim, assegurando sua posição e importância social enquanto mantêm o sistema que os sustenta. O parto, que deveria ser um processo de profundo empoderamento fe­minino, acaba se tornando, na maioria das vezes, em um processo de fortaleci­mento dos médicos, das instituições e dos valores tradicionais, mantendo a mulher e o feminino em uma posição inferior e subalterna.

A mulher, relegada a uma posição de passividade e alienação, acaba sofrendo mais tarde, muitas vezes de forma obscura e inconsciente, o resultado dessas in­terferências, através de múltiplas formas: depressões pós-parto, morbidade au­mentada pelas ritualísticas excessivas (doenças, mortes, limitações), mágoas di­fusas, dificuldades na sexualidade, etc. Além disso, enquanto entendermos o con­trole da tecnologia como o zênite do proceder médico, estaremos hipervalorizando no profissional detentor desse poder/saber apenas uma qualidade específica, co­locando em um patamar secundário aquilo que é a alma do ofício médico, qual seja, o contato e o vínculo com os pacientes. Insistentemente, escutamos o atabaque da mídia insuflando em todos nós, habi­tantes da Matrix, a importância do uso de tecnologia aplicada à saúde. As notícias seguem sempre um mesmo roteiro previsível, em que as “novas tecnologias” no combate aos males são sempre as grandes heroínas, mesmo que o impacto des­sas descobertas no grande cenário da saúde mundial seja normalmente pífio. As­sim, ocorreu com a monitorização eletrônica fetal, as ultrassonografias e mesmo a própria internação hospitalar, que nunca comprovou ser superior ao parto domici­liar para as pacientes de baixo risco. Apesar de todas as confirmações científicas dessas realidades, o uso sem limite da tecnologia continua associado à questão da segurança.

“Segurança é a máscara que encobre uma verdade que subjaz: a questão do po­der”, já nos alertava Robbie Davis-Floyd. Enquanto não aplicarmos nosso criti­cismo mais intenso para modificar a forma como enxergamos o nascimento, va­mos continuar a observar o parto de uma criança como algo “feito” pelas institui­ções e corporações, e em seu próprio benefício, em vez de vermos o nascimento humano na graça e magnitude que ele contém. Continuaremos acreditando que a tecnologia desmedida pode propiciar segurança, quando ocorre exatamente o contrário. Hoje em dia, não existe muita dúvida a respeito da necessidade de cui­dados com o nascimento, e poucos se aventuram a defender a completa desas­sistência ao parto. Entretanto, a tecnologia aplicada ao parto apresenta resultados positivos até determinado ponto; a partir daí, o acréscimo de tecnologia faz ape­nas crescerem estratosfericamente os custos e aumentar a morbi-mortalidade materna e neonatal, segundo inúmeros estudos, incluindo aí o da Dra Daphne Rattner. Isso acontece tipicamente com os Estados Unidos, que aplicam esse mo­delo tecnocrático à saúde como nenhum outro país e amargam péssimos resulta­dos de saúde perinatal.

Em uma visão pessimista, misturando George Orwell com Jean Baudrillard, em um futuro possível as mulheres já não parirão seus filhos: eles serão produzidos nas chocadeiras imensas da Matrix. Lá se configurará o apogeu das tecnologias de separação, cortando definitivamente a ligação visceral de mães e filhos, já apregoada por alguns arautos dos novos tempos. Será a “Quarta Ordem do Si­mulacro” de Baudrillard, em que a simulação se torna absolutamente despregada da realidade, não guardando com ela nenhuma relação residual. A pergunta que não queria calar em minhas angustiantes divagações — como Neo, magnetizado pela palavra “Matrix” na tela do seu computador — era: por que é preciso “consertar” mulheres que estão tendo seus filhos? Seriam estes proce­dimentos ritualísticos, realizados pelos médicos nos centros obstétricos, uma es­pécie de batismo, atitudes carregadas de simbolismo que visam a conformar os indivíduos a uma determinada função social? Serei eu um “tecnobispo” a batizar todas as mulheres para adentrarem o mundo da maternidade?”

Depois de algum tempo praticando a obstetrícia, compreendi que jamais realizara qualquer dos inúmeros procedimentos ritualísticos hospitalares também chamados de “rotinas”, por serem comprovadamente necessários, ou porque acreditava nos seus benefícios. Jamais havia embasado essas condutas em evidências claras de sua adequação. Agia tal qual um autômato, governado externamente por um sis­tema invisível, e por isso mesmo muito maior e poderoso. Esse comportamento estereotipado e previsível não era sequer culpa do meu pobre professor de obste­trícia. Ele também estava adormecido, aquecido e nutrido pelo sangue que vinha do coração da Matrix, e só repetira para mim o que lhe fora ensinado. Estava à mercê do sistema, e seus músculos estavam atrofiados demais para que pudesse se movimentar. Eu agia daquela forma, afastando, invadindo, cortando, costu­rando e separando, porque assim a Matrix me dizia para agir; era levado a acre­ditar que as mulheres jamais poderiam parir (ou adentrar a maturidade social) sem que um homem (ou alguém representando o patriarcado) a autorizasse, através das “marcas” no corpo e na alma, estabelecendo um triste paralelo com o simbo­lismo da clitoridectomia, em outra cultura igualmente patriarcal e violenta.

Em Matrix, o filme, estamos todos representados em muitos dos personagens, basta decidir em que parte do filme. Podemos ser o alienado, que nada desconfia das forças poderosas que nos fazem acreditar na tecnologia como uma deusa to­tipotencial, que “enfim vai nos redimir” da nossa impureza e imperfeição. Podemos ser como as pessoas que vão para o trabalho e sentem que existe al­guma coisa estranha no ar, mas não sabem o quê, porque não pararam para pen­sar suficientemente no fato de existirem hospitais com 80% de cesarianas ou que os 5% mais ricos da população do país detêm 50% da sua riqueza. Podemos ser também como o Neo “pobre-coitado”, que vomita, chora, sofre ao ver como o mundo (interno e externo) não é exatamente como pensava ou fanta­siava. Somos muito mais imperfeitos e incompletos do que nossa infinita condes­cendência nos permite enxergar.

Por outro lado, podemos ser o Neo que percebeu que esse mundo feio é o único de verdade que temos, e que é na realidade dolorosa — e só ali — que as modifi­cações podem se processar. Esse Neo que enfrenta os inimigos — internos e ex­ternos — e que percebeu que a luta contra a opressão e a injustiça é o único des­tino daqueles que tiveram a oportunidade de enxergar mais além. Mais cedo ou mais tarde, a vida dentro da Matrix se torna insuportável, pois é da natureza hu­mana o destino de expandir-se. Liberdade é a nossa meta última. Um mundo em que prevaleça a dignidade, o respeito, a cidadania e em que as mulheres sejam vistas com igualdade, princi­palmente no momento mágico e sublime de terem seus filhos é nosso objetivo maior, e para isso qualquer sofrimento vale a pena.

Até mesmo a injustiça.

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Memórias do Homem de Vidro – 06

Exames e Vexames

Nadine sempre se vestia com elegância sóbria. Apesar de ser uma mulher linda e chamar a atenção pela beleza, nunca a vi usando uma roupa provocante. “Ele­gância é contenção”, dizia Max, provavelmente repetindo algum guru da moda. Ela sabia das coisas. Tinha consciência de que sua postura comedida era parte inte­grante do seu especial charme. Maximilian chamava isso de “nobreza sexy”. Quando ela atendeu ao telefone celular para falar com uma paciente, veio-me à mente uma cena em flashback, em que estávamos os três, almoçando no refeitó­rio do hospital durante a residência. Max estava ao meu lado e balançava a ca­beça acompanhando o ritmo de uma música, enquanto eu fazia um dos meus dis­cursos enfadonhos. Foi quando, repentinamente, Max me cutucou de forma insis­tente. Diante da obstinação de Max, eu me virei em sua direção, e ele, com os olhos arregalados, apontava com o queixo em direção à Nadine, sentada à nossa frente. Ainda sem entender, olhei para minha colega que, sentada de lado, con­versava distraidamente com uma colega. Não entendi o que falavam, mas prendi meu olhar nos seus belos olhos azuis. Novamente voltei-me para Max, que com a mão apontava para o próprio peito.

Foi quando entendi do que se tratava. Ele tentava me mostrar que Nadine estava com o último botão da blusa inadvertidamente desabotoado. Max queria dividir comigo um desses raros momentos de arrebatamento estético, em que o acaso produz a beleza. A borda de renda branca do sutiã de Nadine aparecia para nós como um presente da deusa Álea, a preferida de Max. Álea, da mitologia própria de Max, é a deusa das coisas circunstanciais, imprevisíveis e aleatórias. Pois a divindade nos brindara, naquele almoço, com um presente magnífico. Os contor­nos perfeitos, emoldurados pela renda alva, nos mostravam que, muitas vezes, a beleza se esconde em um átimo, em um instante, na fissura de um momento, em um piscar de olhos.

Nadine parou sua conversa e percebeu nosso olhar. Imediatamente levou a mão ao peito e, percebendo o botão inadvertidamente aberto, apressou-se a fechar a blusa, mas não se conteve em nos lançar um sorriso, entre envergonhado e crí­tico. “Seus tarados”, disse ela. Max soltou uma sonora gargalhada, enquanto eu, vítima inocente da trama, ficava vermelho como um pimentão. Essa lembrança voltou à minha cabeça enquanto Nadine falava ao telefone. Ela continuava linda como há 15 anos. Por que continuava sozinha? Fixei-me em suas mãos, onde o telefone celular mostrava o contraste marcante entre a médica e a mulher. Enquanto ela vestia um indefectível tailleur de linho azul, seu telefone ce­lular tinha um adesivo da Minnie, como a dizer que, por mais que ela aparentasse uma austera sobriedade, ainda lhe restava feminilidade suficiente para agir como uma adolescente.

Nosso reencontro fora combinado por mim e por havia alguns dias. Encontramo-nos na formatura de sua filha, que concluíra, como nós, o curso de medicina. Max perguntou-me onde Nadine estava trabalhando, e eu lhe respondi que ela traba­lhava no hospital da universidade, na emergência obstétrica, e que seria maravi­lhoso se pudéssemos fazer-lhe uma visita. Formáramos um trio inseparável de residentes, e Nadine sempre funcionou para nós como uma mistura de colega e musa inspiradora. Ele concordou na hora e alguns poucos telefonemas foram ne­cessários para que nosso encontro fosse combinado. Assim foi feito. Em uma tarde de outono, lá estávamos nós três de novo, mais de 15 anos passados do nosso período de residência. As caras mais velhas, algumas rugas a mais e — no meu caso — alguns cabelos a menos na cabeça. Max mantinha seu penteado desgrenhado e comprido, e Nadine agora portava a sensualidade superior das mulheres maduras.

Ela ainda estava ao telefone e pude escutar um fragmento da sua conversa:

— Nesse período da gestação, ele é muito pequeno, e frequentemente não é per­cebido naquele emaranhado de riscos e pontos. Uma ultrassonografia requer apa­relhos calibrados e profissionais experientes para interpretar as imagens. A au­sência de uma estrutura não significa necessariamente um problema. Muitas vari­áveis podem estar atuando. Imagens borradas, estruturas adjacentes complicando a visão e a própria inexperiência do examinador. Calma, minha flor. Tente ficar tranquila. Eu sei que é difícil, mas é importante.

Max me sussurrou que a conversa de Nadine só poderia ser relativa a problemas com ecografias no início da gravidez.

— Já vi esse filme — disse ele. — “Querida, encolhi o embrião”. Você já viu, Ric?

Certamente que muitas vezes, pensei eu. As ecografias tornaram-se uma febre no mundo tecnológico. Depois da derrocada dos raios-X como método diagnóstico na gravidez, as ecografias assumiram no imaginário popular, assim como nos círcu­los médicos, o papel do “exame que ajuda muito e não causa nenhum problema”.

Max odiava essa ideia.

— Ric — continuou Max —, a biblioteca Cochrane deixa muito claro que não existe nenhuma vantagem no uso rotineiro de ecografias nas gestações de baixo risco. Além disso, quantos problemas advindos de interpretações equivocadas, de falsos positivos e de erros humanos ainda teremos de suportar antes que essa prática cara e de efeitos pouco conhecidos seja efetivamente questionada?

Max tinha razão. Esperei Nadine terminar a conversa e falei para ela algo que me viera à cabeça. Uma lembrança sobre a questão de ultrassonografias e exames complementares.

— Posso lhe contar uma história? — perguntei eu. Nadine apenas sorriu e revirou seus belos olhos. Ela nunca me confessara abertamente, mas gostava de escutar minhas histórias, principalmente as divertidas. Sei disso porque alguns amigos em comum às vezes me diziam: “Nadine me contou uma história muito engraçada, e disse que aconteceu com você. É verdade?”

Aprumei-me no banco do bar e limpei a voz com um pigarro.

*   *   *

Uma vez, muitos anos atrás, quando eu trabalhava em um hospital militar, recebi no ambulatório uma paciente proveniente do interior. Vinha com a face típica das pacientes interioranas que vêm ao “doutor da capital”. Tinha por volta de 50 anos; menopáusica, três filhos de parto normal. Trazia a tiracolo o marido, a cunhada, uma malinha surrada e a indefectível sacolinha com radiografias e exames varia­dos. Vestia um semblante preocupado e cumprimentou-me sem sorrir. O marido igualmente me estendeu a mão sem nada dizer. A cunhada, coitadinha, parecia uma mudinha. Ajudou a paciente a sentar-se na cadeira e colocou-se de pé, imó­vel, no canto da pequena sala de entrevistas. Seus olhinhos estalados e sua posi­ção de estátua me fizeram sorrir, imaginando ser ela um colorido abajur. Final­mente, a sisuda senhora falou:

— Vim aqui para me operar, doutor.

A sentença já vinha com uma indelével marca de determinação. O marido me olhou firme, mostrando convicção e propósito. Ela estava querendo dizer: “Não adianta vir com papo de que não tem vaga. Vim do interior com meu marido e só saio daqui se for atendida”.

Pacientes morrem de medo de que sejam desconsiderados ou desrespeitados. Ficam sempre entre a cruz e a espada. Por um lado, pensam que, caso se com­portem “bem”, respeitando o doutor e mostrando submissão às suas ordens, po­derão receber um tratamento digno como recompensa. Por outro lado, depen­dendo do paciente e das circunstâncias, a tática é a da truculência. “Quero ver quem vai me mandar embora daqui antes de falar com o doutor” é uma frase típica dos corredores de hospitais públicos. Submissão ou porrada? Qual funciona? Normalmente, os pacientes chegam na arena de combate sondando o terreno. Têm um semblante desconfiado. Ficam testando o doutor, avaliando qual a melhor estratégia a seguir. Uma consulta médica é, acima de tudo, um encontro entre pessoas. Esse encontro sempre será tenso, quanto mais quando a saúde for a questão em jogo. Pacientes querem ser bem tratados, e que seus desejos (muitas vezes absurdos) sejam atendidos. Como conseguir isso? Eu, como bom aspirante a humanista, entendi a ansiedade e a angústia pela qual eles estavam passando e resolvi não “pegar pesado”. Médicos não são ensinados a receber ordens de pacientes. Maximilian costumava me dizer que “médicos não obedecem às leis; eles as criam”. A tentação naquele momento seria dizer: “Só operarei se eu achar que você deve ser operado. Seus papéis de nada valem aqui. Sou o responsável pela indicação da cirurgia, já que serei eu o provável ci­rurgião”.

Essa frase está ao mesmo tempo certa e errada. Certa por mostrar que a respon­sabilidade pelo resultado de uma cirurgia não pode ser transferida para quem a indicou, e deve ser de quem efetivamente a realizará. Por outro lado, está errada porque é um “tapa na cara”, uma falta de sensibilidade com as peculiaridades do momento; um choque prematuro de forças, uma “pororoca extemporânea”. Falar isso seria fechar um monte de portas. Fiquei com coceira na língua, mas apenas sorri em resposta. Ela me olhava firme. Queria ver minha reação. Eu podia ver o que significava sua vinda de tão longe, a espera na rodoviária, a escolha da cunhada como “doula”, a distância dos filhos menores, as fantasias de morte que rondam os que serão operados. Tudo isso em turbilhão. Na minha frente.

— Ok — disse eu. — Vamos ver seus exames. Quem a encaminhou para cá?

Peguei os exames e examinei-os com atenção enquanto ela me falava de um doutor desconhecido do interior do estado. Sua voz transmitia a tensão em que se encontravam todos. Exames normais, hemogramas, VSG, KTTP, plaquetas, raio-X de tórax, etc… O último exame foi, claro, a ecografia.

Quando a peguei na mão, vi, pelo tipo de impressão do exame, que fora realizada em um aparelho mais antigo ainda que o velho aparelho que tínhamos no hospital. Mostrava um cisto ovariano de 14 cm de diâmetro na sua maior extensão. Conve­nhamos, um belo cisto. Deve ser um adenoma mucinoso ovariano. Benigno, bem provável. Por outro lado, pode ser um adenocarcinoma de ovário, muito mais raro, mas na sua idade seria possível. A cirurgia, afinal, se justificava pelos achados ecográficos. Fiquei aliviado. Detesto quando frustro as pessoas nas suas expectativas. Como convencer as pessoas mais simples de que não operar é bem melhor? Muitas ve­zes, diante de uma negativa em operar, fiquei com certeza de que as pessoas achavam que eu estava com preguiça, ou simplesmente queria alguma compen­sação financeira “por fora”. Já escutei familiares de pacientes humildes, calçando chinelos de dedo, me dizendo (após receberem a notícia de que uma cirurgia não era necessária) que “se o problema é dinheiro, doutor, a gente dá um jeito”. Eu ficava com um nó na garganta. Olhei para a paciente e disse:

— Seus exames mostram um grande cisto. Acho que uma cirurgia seria necessá­ria, porque é importante sabermos que tipo de cisto é esse.

Eles pareceram aliviados.

— A senhora vai internar hoje mesmo, mas antes eu preciso fazer um exame clí­nico para saber mais detalhes do tum… digo, do cisto.

Aprendi nos primeiros anos como “aprendiz de feiticeiro” a nunca dizer “tumor” na frente de um paciente, mesmo que seja uma verruga. Nem mesmo se pudesse completar com “benigno”. Isso assusta demais as pessoas, e elas às vezes ficam aterrorizadas. Conheci muita gente do interior que jamais fala a palavra “câncer”; sempre diz “aquela doença”. Pedi que ela se erguesse e me acompanhasse à sala de exames. Era uma mulher alta e magra. Uma italiana fosfórica, em uma interpretação homeopática. Pergun­tei ao marido se ela havia emagrecido nos últimos tempos e ele foi enfático:

— Sim, doutor. Ela secou. Desde que descobriu esse problema, não come direito. Sente muitas dores na barriga. Tem uma bola que sobe e desce que quase vem à garganta. Pode ser o tal do cisto que aparece?

Expliquei que achava pouco provável, mas que o exame ginecológico me daria algumas informações extras.

Deitada na mesa de exames, a paciente parecia ainda mais esquálida. Melhor, pensei eu, assim fica fácil palpar o cisto. A cunhada estava junto na sala, como uma perfeita doula. Fiz o exame bidigital. Colo ok; vagina sem problemas. Abdô­men encovado. Girei a cabeça e olhei o ultrassom sobre a mesa. Não referia em qual anexo o cisto se encontrava, se no ovário esquerdo ou direito. Hmmm, onde está o danado? Mexi, revirei, apertei a barriga da pobre senhora.

Frustração. Nada. Não consegui palpar o cisto. Mas com 14 centímetros (bem mais de meio palmo), ele deveria ser visível no abdômen, quanto mais ser atingido pelo exame de toque. Pedi que se vestisse logo após ter examinado as mamas, que estavam normais. Voltamos à sala e eu expliquei à família que estava com dúvidas e que seria necessário fazer outra avaliação ecográfica.

— Outra? — exclamou ela, fazendo uma cara de decepção.

— Ela não gosta de ficar sem mi… sem fazer xixi. Diz que o exame é chato por causa disso — falou pela primeira vez a cunhada-abajur.

Reafirmei a necessidade do exame e ela concordou. Encaminhei-a à sala de eco­grafias e falei com meu colega Jefferson. Expliquei que não encontrara um cisto de 14 centímetros que estava descrito na ecografia que acompanhava a paciente. Ele me devolveu um sorriso e um xacomigo. Voltei para a minha sala deixando o trio aguardando o ultrassom. Fiquei pensando se minhas mãos eram incapazes de “ver” as coisas escondidas no lúgubre e es­curo interior das pelves. Estava também decepcionado.

Por volta de uma hora depois, o doutor Jefferson me liga e pede que venha até a sua sala.

— Ric. Olha só que enorme cisto você deixou de apalpar! — disse ele com um sorriso triunfante. — E lhe digo mais, não tem 14 centímetros de diâmetro: tem 17, absolutamente repletos de líquido. Impressionante!

Putz.. Olhando para baixo pude ver a minha própria cara estatelada no chão. Como posso ser tão incompetente? Como não percebi um enorme cisto desses? Burro, burro…

— Bem — disse eu. — Só me resta operar então. Vou solicitar a sala cirúrgica, e pedir que…

— Calma lá, meu jovem doutor — continuou meu colega. — Olhe bem para o cisto. Tente senti-lo aqui na ecografia. Apalpe-o, acaricie-o.

Passei os dedos pelo filme ecográfico. Isso apenas aumentava minha vergonha.

— Meu caro e apressado doutor — continuou Jefferson —, estou lhe mos­trando um enorme cisto de 17 centímetros de diâmetro, mas que não existe mais.

Minha face ficou ainda mais patética. Cirurgia astral? Magia? Olhei de novo o filme e vi o nome da minha paciente escrito nele, ao lado da data. Eu estava vendo o cisto, as medidas, as dimensões, as paredes, o nome correto de minha paciente e a data de hoje.

— Meu amigo, o nome desse cisto é “Vésica”. Já foram apresentados um ao ou­tro?

Meu mundo caiu. Desabei. Captei a mensagem, meu caríssimo guru radioultras­sônico. É por isso que ele disse que o cisto não mais existia. Meu Deus, como não percebi antes?

Vésica é o nome “chique” da bexiga. O médico do interior deixou minha paciente com a bexiga cheia para fazer o exame, o que é a conduta padrão em uma ultrassonografia, mas não se deu conta de que o “enorme cisto” que a paciente possuía nada mais era que uma bexiga cheia de urina! E por isso meu jocoso colega afir­mara que ele “não mais existia”. Foi esvaziado na toalete, logo após o exame. Olhei para cara do Jefferson e caí na gargalhada. Tudo estava explicado. Ele me deu um abraço e disse:

— Na próxima vez, confie mais no seu taco. Quando você fez o exame, ela estava com a bexiga vazia e realmente tem um abdômen absolutamente normal. Quando eu fiz a ecografia aqui, fiquei intrigado com a ausência de lesão ovariana, mas, comparando com a realizada no interior, pude perceber qual foi a confusão do co­lega de lá. Incrível, não é?

Agora vinha a pior parte. Explicar para a paciente que ela não tinha nada cirúrgico, e que toda a angústia, o medo, a tensão, a viagem, a distância da família e o so­frimento físico, espiritual e emocional que passara foram ocasionados por um equívoco. Nunca houve nenhum cisto, e não seria necessário operar. Para minha surpresa, eles receberam minhas explicações com satisfação, nem sequer tocaram na ideia de culpar o ecografista do interior. Ela mesma me disse: “Vai ver que ele estava muito cansado e não percebeu direito, não é?”

Ok…Final feliz para uma história de um exame. Mas nunca mais me esqueci das possíveis angústias que os exames podem produzir. Quem sabe até um verda­deiro tumor poderia se criar pela força imagética de uma paciente impressionável. Quem pode afirmar que não? Não existem exames “não invasivos”; existem os que invadem menos, mas todos os exames, e seus possíveis resultados, podem produzir profundos estragos emo­cionais e levar um médico menos atento a realizar outro procedimento desneces­sário e até mesmo abrir o abdômen de uma paciente sem necessidade. Qualquer semelhança com as histórias de “embriões escondidos” não é mera coincidência.

*   *   *

Nadine me olhou com aquela cara de quem não engoliu tudo, mas que preferia ficar quieta a discutir com dois brigões empedernidos. Max, por sua vez, limitou-se a dizer Patu Saleh, erguendo o indicador para o alto, o que foi confundido pelo garçom com o pedido de outra cerveja. Ele não se importou com a confusão.

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Memórias do Homem de Vidro – 05

O Grito da Glamour Girl

Meu velho carro driblava os obstáculos como um verdadeiro craque do asfalto, mas as circunstâncias do caminho me obrigaram a diminuir a marcha. Mulheres agoniadas aguardavam seus filhos fazendo fila tripla em frente à escola, enquanto escutavam música nos automóveis. O fluxo, que já era lento, aproximava-se da estagnação. Minha impaciência me fez contrair o cenho, mas percebi que a exci­tação do reencontro com os colegas era mais perturbadora do que as agruras de um trânsito caótico. Quinze anos já se haviam passado. Quanta vida, quantas histórias haveria para contar. Como estaria Nadine? Sabia, por amigos em co­mum, que ela trabalhava no mesmo hospital em que fizemos residência. Sabia também que estava só, em uma solteirice que poucos compreendiam. Maximilian acabara de formar sua filha mais velha, e na cerimônia de formatura é que havía­mos nos encontrado pela última vez. Com Max, também tive poucos encontros nos últimos anos, mas é difícil para uma figura ímpar como ele passar desperce­bido. Quem não me falava dele por ele me perguntava.

O tráfego morosamente se refez próximo ao velho colégio marista. Os poucos agentes de trânsito não conseguiam dar conta da balbúrdia de carros, motocicle­tas e escolares movendo-se em todas as direções. Pisei no acelerador para ven­cer a inércia quando um espaço se abriu entre meu carro e o micro-ônibus que se encontrava à frente. Subitamente, quando a rotação do motor começava a au­mentar, uma criança surgiu correndo, cruzando inadvertidamente à frente do meu carro. Reflexamente, tirei o pé do acelerador e pisei no pedal do freio, produzindo um guinchar de pneus e um baque, que projetou meu corpo à frente. Ao ver a imagem do menino passando perigosamente na minha frente, gritei: “Ei, moleque! Preste atenção! Olhe quando atravessa!” Ainda tive tempo de olhar a criança transpor a rua e alcançar a calçada oposta. De lá, na companhia dos colegas, lan­çou seu olhar para mim, entre assustado e envergonhado.

Meu grito irrefletido me trouxe à memória uma cena, que brotou das minhas lem­branças da época logo após a formatura na faculdade de medicina. Aconteceu poucos meses antes do “incidente” na sala de emergência. Eu ainda era um resi­dente tecnocrata, inseguro e imaturo, tentando imitar da melhor maneira possível as atitudes e posturas de meus professores. É uma história do tempo em que eu, Max e Nadine éramos colegas de residência no hospital-escola onde por alguns anos trabalhamos juntos. É também a história de um grito, tão irrefletido como o que eu acabara de dar, mas muito mais profundo e significativo, e que de alguma maneira modificou minha forma de entender o intrincado mecanismo de senti­mentos e emoções que brotam quando trabalhamos na cumplicidade do nasci­mento humano.

Na nossa época de residência, havia um médico contratado do departamento de obstetrícia que era recém-descasado.

Rico, filho de uma família de médicos famosos, tinha sempre o carro da moda, as roupas da moda e — depois da separação — as meninas da moda. Era possuidor de uma postura tipicamente padronizada de atuar em medicina, o que não cau­sava nenhuma estranheza. Era apaixonado pelas novas conquistas tecnológicas incorporadas à gestação e ao nascimento, em especial as ecografias e as analge­sias de parto. Uma vez me disse que eu deveria aprender a manejar adequada­mente o fórceps porque minha geração de obstetras usaria as peridurais de uma forma quase que obrigatória e, dessa forma, o fórceps de alívio seria um instru­mento muito mais importante do que costumava ser. Dizia isso de uma maneira absolutamente honesta, sem perceber o que algum tempo depois eu descobriria ser a equação perversa da tecnocracia. “Criamos o veneno para depois vender o antídoto”, como sempre me repetia Max. Quis o destino zombeteiro que meu co­lega contratado viesse a falecer anos depois de uma complicação anestésica ad­vinda de uma cirurgia plástica estética. Costumava levar suas “namoradas” ao plantão de obstetrícia do hospital para lhes mostrar os partos. Sendo ele um quase quarentão, adorava levar as namoradas de 20, 25 anos para mostrar “como nasciam os bebês”. A corja de invejosos do CO costumava dizer que depois disso ele saía do hospital e demonstrava como eles eram feitos. Pura maledicência.

Em uma dessas visitas, entrou no plantão obstétrico uma dessas “namoradinhas”. Era uma linda jovem, de pouco mais de 20 anos. Tinha olhos verde-água (era tudo o que eu podia ver por detrás da máscara e do gorro). Tinha a pele clara, o que é muito comum por essas bandas de colonização alemã e italiana. O corpo era um elogio à perfeição das formas, e só depois fiquei sabendo que se tratava da Gla­mour Girl recentemente eleita. O decote da roupa cirúrgica era bem generoso de forma que… bem, estou fugindo do assunto.

Naquele dia, eu é que estava incumbido dos nascimentos que chegavam na zona restrita, onde ficavam as salas de parto, e estava atendendo uma gestante nos seus puxos finais. Deitada de costas, amarrada na mesa, olhava para o teto e tentava fazer suas forças da melhor maneira possível. Na sala repleta de estu­dantes e enfermeiras, tratava-se de apenas mais um parto. A mulher suava, ofe­gava. As enfermeiras punham-se atrás dela e gritavam coisas como “força mãezi­nha”, “força comprida”, “assim não, você está fazendo tudo errado”. Banalidades do atendimento institucional. Eu evidentemente em nada ajudava, e o melhor que fazia era não engrossar o coro de gritos da sala. Lá pelo terceiro ou quarto puxo, percebi que um belo exemplar feminino adentrava a sala e postava-se no canto da mesma. Era a convidada de olhos verdes. Voltei-me para ela e disse um “boa noite” seco. Já havia sido comunicado pelo meu su­perior que ela queria assistir a um parto, e que eu procurasse ser gentil com ela. Ok,pensei, gentileza é comigo mesmo.

Lá estava ela. Olhava para os demais presentes na sala com um misto de excita­ção e apreensão. Juntou as mãos ao peito, como que a rezar, e silenciosamente ficou a observar. Tinha o olhar fixo no períneo sangrante da paciente (sim, havia uma episiotomia aberta) e seus belos olhinhos verdes se comprimiram diante da visão do sangue escorrendo. Mas não disse nada, talvez porque tivesse sido avi­sada para não atrapalhar.

Minha paciente continuava seus esforços para expulsar o bebê. Deitada com as pernas presas nas perneiras da mesa ginecológica, sua dificuldade era redobrada, mas eu era ainda um pobre obstetra iniciante. Tinha fé nos postulados que me guiavam; acreditava ser o parto um evento médico, controlado por especialistas, que dominavam a técnica de forma apurada, com o objetivo de salvar as mulheres de uma natureza cruel. “A natureza é uma má obstetra”, já dizia um antigo adágio obstétrico, e assim eu fui doutrinado na escola médica. Por essa razão, minhas pacientes deveriam ficar na posição que mais me facilitava a intervenção, a mani­pulação e, em última análise, o auxílio que eu lhes poderia oferecer. “Mulheres parindo são como equilibristas em uma corda bamba no 40o andar… e você é a rede”, disse-me uma vez um professor de obstetrícia, incorporando nessa frase a violência do conceito de “inevitabilidade do desastre”, tão admirada pelos estu­dantes de medicina. Essa era a base ideológica do ensino obstétrico: “Mulheres não são dignas de confiança”. Santo Agostinho realmente deixou seguidores em todas as áreas da cultura.

Max olhava para meus partos iniciais com a delicadeza silenciosa dos sábios. Preferia não me aborrecer com algo que eu ainda era incapaz de compreender. Entretanto, seu silêncio me inquietava. Parecia querer dizer algo com sua mudez, e eu me irritava cada vez que ele via uma cena como esta e apenas sorria para mim. Um, dois, três… estava quase nascendo. O cabelo negro do nenê contrastava com o rubro sangue que brotava do períneo de sua mãe. Ele parecia esforçar-se, me­xendo sua cabecinha para frente.

— Agora, mãezinha… é sua chance. Ele vai nascer agora. Força, coragem! — gritei.

Mais uma força e…. pronto. Nasceu uma… menina! Antes que a paciente pudesse expressar uma palavra qualquer, de alegria ou alívio, escutei algo que por muitos anos ainda ecoa nos meus ouvidos.

Um grito.

Um grito lancinante. Um grito do fundo, das entranhas, dos porões dos nossos sentimentos. Um berro incontido, impulsivo. Um som profundo, do âmago, da es­curidão das nossas emoções inconfessas. Olho para trás, entre assustado e inici­ando a ficar contrariado.

Era a bela menina de olhos verdes. Trazia as mãos a segurar a cabeça, que pen­dia para frente. Seu corpo se curvara, e apoiava as nádegas na parede atrás. Os joelhos se dobraram. O gorro estava levemente deslocado, mostrando uma bela madeixa de cabelos dourados a lhe cair no rosto. As lindas esmeraldas que trazia nos olhos estavam umedecidas pelas lágrimas que escorriam pela face e molha­vam a máscara cirúrgica. Já não chorava mais; soluçava. Uma enfermeira ajudou-a se erguer, e abraçada a ela continuou a chorar, baixinho. No centro da sala, a mãe, alheia ao que estava acontecendo, já afagava seu filho nos braços. Gritava junto com seu bebê, dizendo “É uma menina, uma menina”. Não havia pai naquele cenário. Certamente eu era o único homem a presenciar aquela cena. Chamei a auxiliar ao meu lado e lhe disse em voz baixa, mas com indisfarçável irritação:

— Por que ainda não tiraram essa menina da sala? Não perceberam que ela não tem preparo emocional para participar de um parto?

A auxiliar então levou a menina, ainda chorosa, para fora da sala de parto. Apalpei o útero para sentir-lhe a firmeza depois da saída da placenta. Parecia firme o sufi­ciente para promover a parada de sangue que brotava da ferida placentária. O bebê já estava no berçário, junto aos neonatologistas, e a mãe mantinha o olhar preso no teto, talvez imaginando como estaria seu filho e revivendo na memória os momentos que cercaram o evento que acabara de ocorrer.

Resolvi trocar minhas luvas antes de iniciar a sutura da episiotomia. Ainda lembro a ritualística para isso, mas não tenho nenhuma saudade desse tempo de obscu­ridão na minha prática. A episiotomia era uma das rotinas irrefletidas, automáticas e sem embasamento que realizávamos cotidianamente, sem que tivéssemos uma discussão sequer sobre a racionalidade do seu uso. Minha conduta era realmente robótica, mas eu era um habitante da Matrix que sequer tinha noção das forças que controlavam minha atitude e minhas condutas. Antes de colocar o novo par de luvas esterilizadas, saí da sala para ver o que estava acontecendo com a garota. Ela já estava recomposta, mas ainda tinha seu rosto vermelho. O contraste do verde dos seus olhos com o vermelho do seu pranto fazia uma combinação de inesquecível beleza. Suspeito que muitas vezes fiz minha mulher chorar apenas para desfrutar desse deleite estético. A bela Glamour Girl olhou-me e, entre soluços, disse:

— Obrigado, doutor, por me deixar participar do parto. Desculpe minha reação. Desculpe o meu grito e as minhas lágrimas. É que… sabe… é que…

— Pode falar… — falei, lançando-lhe um sorriso de pseudobenevolência.

— É que é tão lindo! Uma criança nasceu. É tão maravilhoso; tão fantástico. Um ser humano nasceu. Que coisa linda, linda! É incrível…

Estava sorrindo. Um sorriso infantil. Seus olhinhos verdes brilharam, e pude ver a criança por trás da sensualidade de uma bela mulher.

— Ok, entendi — disse eu. — Fique calma. Não se preocupe, quase ninguém no­tou.

Dei-lhe um abraço, e percebi que ela voltava a chorar. Amadores, pensei eu. Quando veem isso, perdem a compostura. Gritam, se escabelam, choram…

Entretanto, as lágrimas e o grito da bela menina haviam produzido uma modifica­ção que eu ainda não havia avaliado por completo. Eu estava atordoado pela im­pressão sonora, mas muito mais pelo seu significado profundo. Queria saber por­que alguém se deixava impressionar dessa forma por um evento que para mim aparecia tão banal e corriqueiro. O que havia de “especial” e “maravilhoso” que me escapara? O que havia escondido por trás do grito da Glamour Girl?

Voltei para a sala para terminar a minha cirurgia ainda sem entender as razões da minha inquietude. Ainda havia uma episiotomia a ser costurada. Despedi-me da bela loirinha de olhos verdes sem nunca ter podido ver seu rosto, que se manteve sempre escondido atrás da máscara. Dirigi-me para a sala de parto, sem imaginar que algo de muito grave estava acontecendo. Porém, quando novamente entrei na sala, para minha surpresa e atordoamento, havia outra mulher deitada sobre a maca. Não era a mesma que eu havia ajudado a dar à luz. Era outra. Por alguma estranha razão, eu olhava agora para outra pessoa. O grito da Glamour Girl ainda ecoava nos azulejos da sala, entrando nos meus ouvi­dos como uma sirene de alerta. Eu parecia ter acordado para algo através daquele som, e a transformação me aparecia agora diante dos olhos.

Eu havia visto um milagre, um assombro da existência humana, e só agora tinha me apercebido. Como por encanto pude enxergar o que a bela menina dos olhos de esmeralda havia me descrito. A paciente que eu havia atendido dera lugar ao que eu agora estava vendo: um prodígio da vida. Anos de dessensibilização não tinham conseguido apagar completamente a chama que existe em cada um de nós. Ainda restava algo para recuperar.

O ritual de passagem promovido pela escola médica coloca os jovens estudantes dentro de uma escolha complexa e difícil, porém inconsciente. Como todo rito, o ritual de formação dos médicos pressupõe uma passagem, um percurso. Nessa viagem, precisamos primeiramente nos despojar de nossas crenças antigas, as­sim como de nossos valores. É fundamental que assim seja, porque o novo status que conquistaremos no final do processo dispensa a condição antiga. Os estu­dantes iniciantes de medicina, assim como quaisquer indivíduos, não diferenciam o corpo “erotizado” que possuímos do corpo “real” que é seu novo objeto de es­tudo. Continuamos a ver a alma, a história, a dor e o fim quando avaliamos um corpo outrora habitado por vida. Uma das tarefas mais importantes do processo iniciático da medicina é retirar a alma dos corpos, para que, assim destituídos, possam ser mais facilmente entendidos pelos alunos. Essa é uma das mais com­plexas tarefas, porque pressupõe a perda da capacidade de sentir o que o outro sente. Algum nível de isolamento afetivo é quase que obrigatório como meca­nismo de proteção do ego, porém o que se vê é a tentativa de isolar o profissional de toda a dimensão que não seja técnica. Esse processo leva o aluno/iniciado a incapacitar-se para a leitura das emoções e das dificuldades afetivas, levando-o a se enclausurar em um mundo biológico e asséptico. O que infelizmente encontra­mos depois da formatura é um grupo de novos médicos absolutamente aderidos ao modelo que lhes foi passado, negando, até mesmo em si próprios, os aspectos espirituais e transcendentais de suas existências.

Em contrapartida, como fechar os olhos aos eventos plenos de espiritualidade e afeto existentes no nascimento humano? Como lhes negar a essência sexual, viva e pulsante? Como impedir que um evento que conjuga vida, morte e erotismo não altere nossa percepção da vida? “O nascimento humano é uma bofetada no nii­lismo”, me diria Max.

Voltei a olhar para a mulher deitada à minha frente e que mantinha os olhos fixos em algum ponto reconfortante da parede de sua memória. Por alguns minutos, fiquei atônito, pensando no que havia de significado em tudo aquilo. Cheguei bem perto e olhei para ela, quase idêntica à outra, mas muito mais viva e muito mais bela. Ali estava a “impostora”, que algumas mulheres me desvendariam a existência. Era também a “mulher destruída” que Débora me mostrara logo após o nasci­mento de seu primeiro filho. Uma mulher modificada, forjada na chama de suas dores, esculpida pelo cinzel do seu cansaço, que tateia no breu de seus medos os limites a que pretende atingir. Aquela que veio tomar o lugar da “outra”, que morre metaforicamente no parto para deixar nascer uma nova mulher. Que loucura!, pensei eu ainda atordoado.

A bela menina de olhos verde-água tinha razão. A vida se perpetuando, se refa­zendo, se recriando. E eu estava aqui quando tudo aconteceu. Eu estivera no epi­centro do acontecimento mais marcante na vida de várias pessoas, e não havia percebido até então a amplitude daquele instante mágico. Saí de novo da sala, para ver se podia encontrar a garota. Ela já havia partido, e provavelmente já estava contando para alguém o que vira há pouco. Que pena. Eu queria lhe dizer que ela possuía algo que eu estava prestes a perder, mas que algo dentro de mim se recusava a entregar. Eu queria dizer que o seu grito tam­bém existia dentro de mim, mas preso, silencioso e calado. Queria lhe dizer que esse silêncio machucava, doía, mas que eu fora ensinado a não chorar, não me emocionar, não gritar. Queria dizer que o seu grito me ajudou muito, e que ela ja­mais vai poder entender o quanto.

Prometi para mim mesmo que jamais permitiria me petrificar, me anestesiar. Se quisesse poderia gritar, me escabelar, rir, chorar. Não iria me insensibilizar com a beleza da vida ou com o amargor da morte. O grito da bela menina me ensinou que o que de mais humano nós temos não pode ser jogado fora como se fôsse­mos máquinas previsíveis. O belo da vida, assim como os seus mais escuros es­pectros, merecem de nós o sorriso e a lágrima de veneração.

Segui meu caminho em direção ao hospital ainda com a tonalidade dos belos olhos da Glamour Girl a impregnar minhas lembranças. A saudade de Max e Na­dine me fez mais uma vez pisar no acelerador, mas dessa vez com cuidado redo­brado. Faltava pouco para o nosso reencontro.

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Memórias do Homem de Vidro – 04

O Homem de Vidro

O sangue ainda estava no chão, colorindo de vermelho o piso da sala de emer­gência. O ar carregado retinha o cheiro, entre adocicado e acre, que invadia mi­nhas narinas. A lâmina muda jazia nos panos abertos, mas, ainda limpa e relu­zente, espelhava minha estupefação. Os azulejos da parede refletiam minha face atordoada e desconcertada. A força e a dramaticidade dessa cena se repetiriam muitos anos depois, e com a mesma intensidade, na casa de Madalena, mas na­quele exato instante eu era apenas um personagem passivo dos acontecimentos. Quase nada havia entendido do que ocorrera e, no entanto, esse momento mar­cou de forma indelével o resto da minha vida. Uma ferida emocional, ardente e corrosiva, que apenas estava começando a doer. Eu me encontrava na ilusória quietude do núcleo do furacão. Mal sabia aonde essa tormenta iria me levar.

Ainda escutei, vindo da dobra do corredor, o som das rodas mal azeitadas que conduziam a mulher para a sala de observação. A cena caótica escondia um mis­tério, mas ainda era cedo para decifrá-lo. As luzes da sala aumentavam minha confusão. Não escuto há tempo o choro do bebê. Foi levado para longe do cálido olhar de sua mãe, e talvez já esteja recebendo o tratamento de rotina. Olho para o lado, à procura de uma pista. Vejo os estudantes ainda conversando. Vejo risos nas suas faces, enquanto a minha permanece contraída. Por que eu estou me sentindo tão mal? Por que me tortura a impressão de que eu não entendi direito? Por que parece que alguma coisa está faltando? Saio da sala tentando parecer normal. Se eu pudesse pelo menos entender a sequência de eventos… Por que as coisas não saíram como deveriam? Por que parece ter sido tão diferente? Sinto-me irritado, aborrecido, mais pela falta de compreensão do que por qualquer outra coisa. Por quê? Não me havia sido ensinado que um parto em que a mãe e a cri­ança estão bem é o desiderato supremo do bom atendimento obstétrico? Então por qual razão me sinto tão mal?

Em mim a “farpa na mente” doía. Uma inquietude, uma insatisfação. A dukka dos budistas. Mas ainda era muito cedo para entender a metáfora de Matrix. Tento lembrar de tudo o que aconteceu. Talvez se eu pensar em cada fato, cada detalhe, cada movimento, eu descubra a pista que me falta; a coluna que sustenta o meu mal-estar. Caminho de volta à sala dos médicos com a esperança de que com o tempo isso passe. Talvez se eu me concentrar no trabalho, ou na atenção às outras pacientes, eu consiga esquecer o desconforto que sinto.

Ou então, consiga lembrar…

Apelo para a memória. Os eventos do dia não pareciam trazer nada de significa­tivo. Apenas mais um plantão como residente de primeiro ano. O que poderia ter havido? Meu plantão começara da forma usual. Cheguei ao hospital e conversei com os colegas de cara amassada que estavam se despedindo. Tomei meu café no re­feitório do hospital e subi ao centro obstétrico para a passagem de plantão. Nada diferente dos demais dias do ano, a não ser o fato de que o centro obstétrico es­tava vazio. A noite havia sido movimentada, e não havia mais pacientes para atender. Estávamos em um sábado de maio, 1986.

As horas passavam sem que nada ocorresse para modificar a cor do nosso dia. Tentei recordar uma piada. Uma coisa com advogados. Não lembrei, mas me sur­preendi rindo morfeticamente da última que acabaram de me contar. Plantões são assim: a gente se acostuma com os extremos da atividade. O excesso, a falta de leitos, o ritmo frenético de enfermeiras, doutorandos e pacientes. Tensão, agressi­vidade e ansiedade. Ou então o tédio das salas vazias e dos leitos arrumados. Nessas circunstâncias, o que resta a fazer? Histórias, fofocas, bate-papos e gra­cejos. Piadas interminavelmente concatenadas. Ritmos temáticos: o de hoje era o dos advogados. Um amontoado de médicos e aspirantes a tal espremia-se em uma pequena saleta no coração do hospital. No canto da sala gritava um telefone interno, trazendo resultados de exames e pedidos de informações sobre pacien­tes. Na nossa frente, um quadro negro mostrava graficamente a presença das pa­cientes e o progresso dos trabalhos de parto. Hoje o quadro estava vazio. Há quanto tempo eu já estava ali? Tento fazer mentalmente a conta: três, quatro ho­ras? Estaria chovendo? Lembro-me do espanto com que ficava ao ver pessoas com guarda-chuvas pingando na recepção e lembrava que, quando havia chegado ao hospital, o sol brilhava lá fora. Coisas da reclusão. Do outro lado da sala, um cinzeiro repleto repousava debaixo de um cartaz “Proibido Fumar”. Em um hospi­tal, médicos não obedecem às regras; eles as criam. Estão acima delas.

E o cheiro? Um centro obstétrico tem um cheiro. Já vi prisioneiros descrevendo o odor das cadeias. Nos antigos hospitais do século XVII, o cheiro das carnes de­compostas dos pacientes enclausurados podia ser sentido a quilômetros de dis­tância. Quando estudante, trabalhei durante muitos anos em uma enfermaria de doentes renais, e o odor das diálises nunca saiu das minhas narinas. Também já vi amigos descrevendo o cheiro característico de uma cidade. Mas centros obsté­tricos também têm cheiro. Depois de alguns anos dentro de um, você aprende a reconhecê-lo. Uma mistura de líquido amniótico, odores corporais, suor; o hálito carregado pelo jejum imposto às pacientes, o material esterilizado. Um odor ado­cicado. Não é ruim, é peculiar.

Os sons e ruídos também são característicos. Os sussurros, os gemidos, os la­mentos. A emoção pelo nascimento. As lágrimas silenciosas das mulheres, como que envergonhadas por estarem tão felizes. Os gritos da equipe médica condu­zindo os esforços expulsivos das quase-mães. “Agora, mãezinha, força comprida! Não pare, não pare!” O telefone tocando. “Não, não nasceu ainda, mas deve ser daqui a pouco. Acredite, está tudo bem. Não, não podemos informar o sexo por telefone; ordens superiores. Ela está sim, mas está ocupada fazendo um parto, ligue mais tarde.”

E quem é o pessoal que trabalha com o nascimento humano nos hospitais univer­sitários? Nossa equipe era normalmente composta de dois R2 (residentes gradua­dos de segundo ano) e dois R1 (residentes de primeiro ano, recém-formados) que naquele dia éramos eu e meu colega. Além disso, tínhamos doutorandos (alunos no estágio de 6º ano) e estudantes de medicina e enfermagem. Muitos desses doutorandos e estudantes não tinham o menor pudor em dizer que não suporta­vam obstetrícia, e que estavam ali apenas para cumprir seu estágio. Outros se esforçavam para trabalhar bem aos olhos dos residentes, porque isso poderia au­xiliá-los quando fosse feita a seleção de novos residentes para o próximo ano. De qualquer maneira, a fauna obstétrica era heterogênea e diversificada.

De quando em vez ouviam-se gritos na recepção. Maridos exaltados exigiam que suas esposas fossem internadas. Explicavam que moravam longe e que não po­diam ficar indo e voltando toda hora. Gritavam, ameaçavam. Ao lado, procurando ficar alheias à agressividade exaltada, suas mulheres gemiam em voz baixa. A equipe esforçava-se para convencê-los de que ainda não era o momento de inter­nar, ou de que o hospital estava lotado. Ninguém aceita explicações nessa hora. O choque era, quase sempre, inevitável. Já presenciei cenas constrangedoras de pugilato na recepção de maternidades, mas a regra era de que as brigas ficavam apenas nas ameaças. A porta de en­trada era o ponto nevrálgico do CO. Ali o sistema era colocado à prova, e os com­batentes de primeira hora eram chamados à luta.

Muitas vezes me imaginei estar em uma espécie de aeroporto aguardando os mi­grantes. Às vezes os voos são muitos e deixam o saguão lotado. Hoje o dia era de calma. Mentalmente cantei uma música de Suely Costa e Cacaso, talvez prenun­ciando que a calma momentânea do hospital guardava um segredo e uma sur­presa.

Quando o mar tem mais seguedos
Não é quando é tempestade
Não é quando ele se agita
Quando o mar ter mais seguedos
É quando é…. calmaria.

O papo na sala de conforto médico continuava solto. Os resultados do futebol eram esmiuçados por experts. As falhas incríveis, as jogadas sensacionais. O juiz que teria errado. A escolha do estágio que ainda não foi feita. A namorada que não entende tantos plantões. O filho pequeno que tem saudades do pai. As dúvi­das quanto ao que fazer quando a residência acabar. E a insegurança, cruel, sor­rateira, dissimulada. O medo de errar. O medo de que percebam como tenho medo. O pânico de não saber, quando me perguntarem. A pesada máscara de um saber absoluto que não se suporta. Medo, muito medo.

Eu estava no primeiro ano da residência em ginecologia e obstetrícia, e Max, como gostava de ser chamado pelos amigos, costumava me dizer que um resi­dente era o mais perigoso dos médicos. Max era sempre exagerado e dramático. Nossa formação médica tem uma continuidade, que nos leva das aulas tipica­mente colegiais da faculdade de medicina, passando pelo estágio antes da gradu­ação, e continuando-se no trabalho como residente logo após a formatura. Para quem observa de fora, não existe uma clara e óbvia diferença entre os doutoran­dos e os médicos residentes. Usam as mesmas roupas, o mesmo linguajar, os mesmos maneirismos; são subalternos em suas equipes e tem a mesma face adolescente. Por essa razão, continuamos a nos sentir como estudantes mesmo depois de formados, ao mesmo tempo que sabemos conscientemente que não mais somos. Isso nos leva a uma prepotência reativa: lutamos contra a nossa in­segurança com a ferramenta da soberba.

Um residente sempre sabe tudo o que lhe perguntam. Não existe no seu discurso uma negativa. Um modelo que se ergue sobre a ideia de assimetria de saberes precisa estabelecer uma prática de dissimulação que reforce tal postura. Uma en­cenação constante e repetitiva de inequívoca superioridade; uma altivez criada pela magia de um conhecimento que imaginamos possuir. Na minha época, eram famosos os residentes “chutadores”: respondiam qualquer questão com certeza inabalável, que a muitos impressionava. Mais tarde, íamos aos livros para confir­mar e descobríamos que tudo não passava de encenação. Nessa época, criei com Maximilian uma prática de contar histórias fictícias sobre a origem das cirurgias, ao modo das contadas em O Século dos Cirurgiões, de Jurgen Thorwald, mas da maneira mais convincente e lógica possível. Dessa forma, por exemplo, a perine­oplastia, que é a plástica perineal realizada para auxiliar na incontinência urinária, foi em verdade criada no século XIX por um professor de cirurgia da universidade de Pádua chamado Giuseppe Perini (daí o nome do ato operatório), que criou a famosa operação de “levantamento da bexiga” porque sua mulher sofria dessa enfermidade após ter dado à luz a nada menos do que 20 filhos e ser obrigada a carregar sua “bexiga caída” em uma espécie de tipoia. Max contava essa história, que eu inventara durante uma cirurgia, com tanta propriedade e seriedade que muitos residentes realmente acreditaram nela. Nossos “causos” ficaram famosos entre os colegas, mas nos criavam alguns constrangimentos quando realmente queríamos falar a sério. Depois de uma resposta pronta e direta a uma pergunta formulada, alguns colegas nos olhavam com desconfiança, sem saber se era ver­dade ou apenas mais uma brincadeira.

E como se expressa um residente? Lembro de frequentar plantões de pronto-so­corro desde os primeiros anos de medicina. Em um deles, quando devia estar no segundo ano do curso, voltei-me para um paciente do setor de queimados e lhe perguntei um detalhe qualquer do seu tratamento. Ele prontamente me respondeu, mas o residente que me acompanhava observou: “Você já está falando como mé­dico. Parabéns!”. Por muitos anos, eu me perguntei o que ele queria dizer com isso, e porque eu mesmo notara algo de diferente na minha forma de falar. So­mente muito tempo depois, percebi que o que diferenciava um comentário normal de uma observação tipicamente médica em um hospital público era um pequeno detalhe chamado “arrogância”. Essa “particularidade” na minha entonação ficou marcada como o início de um discurso médico que eu tentaria modificar no trans­curso da minha vida profissional, tal qual um velho marinheiro que tenta se livrar da tatuagem de uma paixão fracassada de outrora. Confesso que fiz alguns pro­gressos, mas a noção de uma falsa superioridade essencial é como o sotaque do nosso idioma original, do qual nunca conseguimos nos libertar completamente.

Em um centro obstétrico, temos um dos choques mais evidentes entre cultura e natureza que nossa sociedade pode estabelecer. O momento crítico do nasci­mento é exposto ao julgamento da sociedade, e ali os valores que constituem a matriz do nosso sistema de crenças determinam os rumos que desejamos impri­mir. Nossa sociedade, diante da incerteza que esses eventos produzem, cria me­canismos de defesa para fazer com que eles se adaptem a padrões lógicos de compreensão. O mecanismo básico é o rito. O ser humano, na sua ancestral luta pela sobrevivência, acaba sempre estabelecendo estratégias adaptativas.

Como residente, acabei me acostumando a presenciar a ritualística hospitalar e obstétrica sem questionar suas razões ou me aprofundar em seus significados. Temos um comportamento padronizado e repetitivo. Aprendi a ter um modo de agir ritualístico, automático, irreflexivo nas minhas atitudes médicas, e fazer aquilo que se conforma com o que foi estabelecido pelas figuras mitológicas da nossa formação. Somos doutrinados, construídos e moldados a obedecer a um sistema que se autoperpetua pela repetição sistemática de valores que, primordialmente, são estranhos a nós. A objetualização dos pacientes, sua “coisificação”, a classifi­cação arbitrária em patologias — tudo isso nos é inusitado quando adentramos a faculdade de medicina. Essa é a razão principal do medo dos cadáveres que os estudantes expressam ao ingressar na escola médica. Não existe para eles um “corpo real”, feito de músculos, nervos, ossos e sangue. Os corpos são “natural­mente” dotados de vida, de alma, de erotismo. Essa compreensão lógica da vida acaba sendo derribada durante a formação médica, em que a metáfora principal que explica o funcionamento humano é a máquina, como bem disse Robbie Davis-Floyd, no seu artigo “Obstetric Training as a Rite of Passage”.

Perdemos o status de organismos, assumindo a condição maquinal, cujos técni­cos habilitados são os médicos, que com seu saber científico farão com que essas máquinas funcionem de forma “azeitada”, através da incorporação de tecnologia. Este é o modelo materialista, exógeno, cartesiano e positivista de nossa formação, mas o mais triste é que sequer entendemos isso como um modelo ou paradigma entre outros. Encaramos essa forma de proceder como “a correta”, estabelecendo com esse saber uma postura claramente mística e religiosa. Meras opiniões rece­bem status de dogma; suposições sem nenhum embasamento são vistas pelos estudantes como regras fundamentais para a atenção aos doentes. Nossa forma­ção é caracteristicamente verticalizada, em que o saber se transmite por tradição (o velho professor falando de “seu jeito” de atender e de sua experiência pessoal) da mesma forma como se dá o ensino das funções de cura nas sociedades an­cestrais, mas incrivelmente nos consideramos “cientistas”, enquanto eles são “primitivos”.

A organização hierárquica de um CO também funciona por um sistema de castas. No topo da pirâmide ficavam os professores, que quase nunca eram vistos du­rante os plantões. Funcionavam como uma instância de saber inquestionável, mas na prática inacessíveis. Em segundo lugar os contratados, médicos empregados do hospital para coordenar os plantões obstétricos, que acabavam se tornando os professores “de fato”. Normalmente, não tinham nenhuma afinidade com o ensino e alguns sequer tinham gosto pela obstetrícia. Limitavam-se a determinar condu­tas baseadas no “é assim que eu trato” ou “assim está no protocolo”. Esses médi­cos eram nossa principal referência profissional.

Abaixo dos contratados plantonistas estavam os residentes graduados, de se­gundo ou terceiro anos. Eles tinham mais autonomia. Coordenavam os partos, realizavam cesarianas, indicavam cirurgias no ambulatório, ensinavam residentes de primeiro ano e reproduziam a ritualística que lhes foi ensinada nos anos que passaram na escola médica. Normalmente, incorporavam os maneirismos, as ati­tudes e a postura dos seus professores. Tinham entre eles um assunto repetitivo: “o que vou fazer quando acabar a residência?”.

Eu me encontrava um pouco acima da base da pirâmide de poder médico. Estava há uns poucos meses na residência de ginecologia e obstetrícia do hospital da universidade. Era um “R1”. Os residentes iniciantes não podem acompanhar par­tos sozinhos, muito menos realizar cesarianas ou cirurgias ginecológicas. Fazem as internações obstétricas, atendem no ambulatório, avaliam as pacientes interna­das, prescrevem toneladas de relatórios e obedecem a ordens. Eu era, entretanto, um residente um pouco diferenciado dos demais. Antes de entrar na residência, havia trabalhado em hospitais de periferia como interno plantonista. Durante mui­tos anos, frequentei os mais diversos plantões de emergência e clínicas para pa­gar meus estudos na faculdade de medicina e sustentar a minha família. Fui apre­sentado à obstetrícia nesses plantões da época de estudante, e quando me formei já havia contabilizado mais de uma centena de partos assistidos. Isso era absolu­tamente incomum na minha época, porque a maioria dos meus colegas de obste­trícia se formou tendo visto apenas uma meia dúzia de nascimentos. Como resi­dente de primeiro ano, eu tinha mais experiência em partos do que boa parte dos R2 que deveriam me orientar, o que provocava um certo mal-estar entre eles.

Abaixo dos membros da hierarquia médica estava a enfermagem. Esta se dividia em cores. As enfermeiras tinham a sua cor específica no trajar, assim como as técnicas e as auxiliares. As enfermeiras eram sérias, um pouco prepotentes, e sempre se estabelecia um clima tenso nas conversas com elas. O fato de eu ser casado com uma me deixava mais à vontade, mas eu percebia que havia um “ranço” sempre que médicos e enfermeiras se encontravam para tratar de assun­tos de trabalho. Do ponto de vista do modelo de assistência, muito cedo percebi que a formação das enfermeiras era fundamentalmente a mesma que nós recebí­amos. Tanto elas quanto nós havíamos recebido um ensino fundado na tecnolo­gia, em uma visão cartesiana do paciente. Pouco espaço havia para as questões afetivas e sociais. A ideia (ou a esperança) de que as enfermeiras, por serem mu­lheres, poderiam expressar uma atitude mais feminina em relação ao nascimento logo se desfez nos primeiros contatos com elas. Elas pareciam amarradas na ca­misa-de-força da tecnocracia, que as obrigava a sufocar sua natural feminilidade. Assim também ocorria com as residentes mulheres, que eram frequentemente mais intervencionistas e agressivas nas suas condutas que os seus colegas ho­mens. Ser mulher não lhes garantia uma atitude feminina. Havia algo mais impor­tante que a feminilidade a guiar essas condutas. O que seria?

A quietude do plantão só era quebrada por mais uma gargalhada. Um telefonema de mulher perguntava por alguém que já se fora. Respondi que o plantão havia terminado às oito horas, e que ele havia saído. Desliguei o telefone e fui recrimi­nado de forma zombeteira por meus colegas. “Como você foi dizer isso? Podia ser a namorada ou a mulher dele! Você será o responsável por um divórcio!”. Risadas e comentários maldosos. Nada mais propenso a fofocas e maledicências diversas do que um plantão tedioso. Subitamente a ordem foi desfeita. Uma esbaforida auxiliar de enfermagem aden­trou a sala dos médicos gritando:

— Tem uma paciente que está tendo seu filho na sala de emergência! Por favor, alguém vai lá!

Um silêncio constrangido se formou, deixando gargalhadas congeladas no ar. Por um instante, tudo esperou. Olhei para os lados instintivamente e me dei conta de que naquele momento eu era o mais graduado na sala. Meu colega de residência devia estar avaliando pacientes internados nos andares cirúrgicos, e eu ficara dando cobertura para os partos e avaliações de emergência. Só havia doutoran­dos, estudantes de medicina e eu. Não restava dúvida: essa era uma tarefa que a mim cabia realizar. Ergui-me rapidamente do velho sofá surrado e corri em direção à entrada do cen­tro obstétrico, sem sequer perguntar em qual das duas salas de exames a paci­ente estava. Senti a auxiliar me seguir, mas corri mais do que ela e abri com vigor a porta da primeira sala de exames.

Nada. Nenhuma mulher. Nenhum som. A maca de exames vazia mostrava os len­çóis desgrenhados, mas ninguém estava ali. Dei dois passos para trás e abri a porta da outra sala de urgência, mas a minha surpresa se repetiu. Ninguém. Am­bas as salas estavam vazias.

Olhei para trás e encarei a auxiliar. Seria uma brincadeira? Seria um trote sem graça? Antes que eu pudesse reclamar ou dizer qualquer coisa, ela me avisou:

— Doutor, abra bem a porta da primeira sala. A paciente está lá.

Voltei à primeira sala e abri totalmente a porta de entrada. Foi só então que eu a vi.

Maximilian, muito depois, faria uma interpretação dessa cena. Disse-me que “a paciente precisava ser encontrada onde estava, e não onde você queria que ela estivesse”, numa referência a uma antiga música de Milton Nascimento. Apenas quando abri a porta até o final é que pude enxergar a paciente. Estava acocorada no canto oposto da pequena sala de admissão.

Era uma mulher com mais de 30 anos. Vestia-se de forma muito simples. A pele era escura e os longos cabelos eram presos atrás com um elástico. Olhava para o chão e parecia estar fazendo força. Corri em sua direção e lhe segurei o braço. Com um só movimento, afastei-lhe os joelhos e levantei o surrado vestido de chita. Baixei um pouco minha cabeça e então consegui ver os negros cabelos de um bebê brotando da vulva.

— Minha filha — gritei eu assustado. — Seu bebê vai nascer. Deite!

Meu grito para ela continha um sentido que eu não ainda conseguia perceber. A emergência do momento produzira a irreflexão da minha atitude, fazendo brotar das fissuras abertas do inconsciente um conteúdo ideológico profundo. Minha ex­clamação, e o que se seguiu a ela, foi a encenação de uma luta que se estabele­cia entre dois valores culturais.

Foi então que ela levantou a cabeça e a girou em minha direção. Pude ver-lhe a boca tesa, a face suada e os olhos negros. Ela me olhou, mas de uma forma como eu nunca havia sido encarado. Seu olhar trespassou meu corpo e chocou-se con­tra os azulejos da sala.

Ela me olhou como se eu fosse feito de vidro.

Nada fez. Não se moveu; não me obedeceu. Seu olhar, parado no infinito próximo da parede, parecia querer dizer algo. Mas o quê? Parecia nada escutar, nada en­tender, nada pensar. Para ela foi como se eu não estivesse ali.

Uma enfermeira abriu um pacote com campos esterilizados. Peguei um deles e coloquei próximo à vulva da mulher. Pedi uma luva, mas não havia nenhuma por perto.

Uma nova onda de contração tomou conta do seu corpo. Olhei novamente para a vagina e percebi a cabeça do bebê dilatando ainda mais o períneo. Ordenei que me trouxessem uma tesoura para realizar a obrigatória episiotomia, mas não houve tempo para isso. Ainda tive oportunidade de dizer-lhe: “Não faça força ainda. Espere!”

Inútil. Novamente ela não escutou minhas ordens. Mais uma força e… nasceu.

Minhas mãos despudoradamente nuas tocaram o calor úmido dos negros cabelos do bebê. Senti o visgo dos líquidos quentes molhando-me os dedos. Pela primeira vez, experimentei nas mãos a realidade crua de um nascimento. Essa sensação nova me trouxe um misto de assombro e medo.

Nasceu na contramão, atrapalhando o sábado, pensei. Desceu ao mundo cho­rando o menino, como eu sempre me habituara a ver, acreditando ser esta a única forma de chegar ao nosso convívio. Sua mãe, acocorada à minha frente, reclinou a cabeça para trás e percebi as batidas do seu coração nos vasos do pescoço suado. Estava exausta. As enfermeiras, alunos e doutorandos deixam a sala ainda menor. O cordão umbilical, ainda preso ao útero, é cortado rapidamente, e do cor­redor consigo escutar os gritos do pequeno bebê ao ser levado para a área de neonatologia.

Estava quase terminado. Aguardei mais alguns instantes e tracionei o cordão um­bilical restante, ainda grudado à placenta. A mulher contraiu o rosto e notei que a placenta estava descolando. Mais um esforço, um puxão. Pronto. A placenta ver­melha e carnosa foi expulsa sem dificuldades. Até aquele momento, a paciente permaneceu de cócoras. Negou-se a se movi­mentar. Mantinha as palmas das mãos voltadas para baixo a tocar a laje fria da sala.

— Por que você não veio antes para o hospital? Olhe só o transtorno que você causou! Esse não é o local adequado para se ter um filho. Aqui não temos apare­lhos, nem material adequado. Seu nenê nasceu no chão. Menos mal que consegui colocar um pano estéril, senão ele nasceria na sujeira!

Minhas palavras eram de franca inconformidade. As enfermeiras presentes con­cordaram e continuaram a bombardear a mulher com perguntas e críticas. “Quem está com você? Onde está seu marido? Onde estão seus documentos?” Como uma mulher entra no centro obstétrico e causa tal confusão? Ela nada dizia. Man­tinha-se em silêncio. Estava agora com a cabeça baixa e os olhos fechados.

— Espere mais um pouco. Vou examiná-la para ver quantos pontos vai precisar.

Já calçando um par de luvas, abri os lábios vaginais à procura de lacerações. Imaginei que certamente as encontraria; afinal, não houve tempo para uma episi­otomia, e sem dúvida seriam necessários inúmeros pontos de sutura para con­sertar os cortes erráticos que a natureza determina quando os partos não sofrem intervenções. O exame do períneo reservava mais uma surpresa. Nenhum corte, nenhuma lace­ração. Os lábios vaginais levemente inchados permitiram a passagem do bebê sem nenhum traumatismo. Que estranho!

— Você teve muita sorte — arrematei eu. — Não vai precisar levar pontos.

Levantei-me da posição de joelhos que até então eu me mantinha, e ofereci-lhe minha mão em auxílio. Ela se segurou firmemente em mim e ficou de pé. Uma maca a aguardava para conduzi-la à sala de recuperação pós-parto. Pronto. Es­tava tudo acabado. Deitou-se na maca e olhou mais uma vez para mim. Nada disse, apenas ficou me olhando enquanto as auxiliares a carregavam para fora da sala.

Por que seu olhar parecia me atravessar, sem se fixar em mim? Por que ela nada disse? Por que ela não cooperou com o parto, obedecendo minhas orientações? As lembranças dos eventos do dia não foram de grande utilidade para diminuir a minha angústia. Não foi o sábado que me causou a ansiedade, nem o susto de um atendimento imprevisto. A resposta para as minhas perguntas se encontrava na­quela pequena sala de exames. Algo que ocorrera ali seria a resposta.

Voltei à sala e ela ainda estava suja. Pensei na “sujeira” que um parto desses pode produzir. Sangue, líquido amniótico, campos cirúrgicos manchados de ver­melho vivo. No canto da sala, um borrão verde-escuro me mostrava que o recém-nascido evacuou logo após nascer. Parei para pensar o que verdadeiramente é “sujeira”, mas a compreensão desse conceito só viria à minha cabeça muito tempo depois.

A resposta tinha que estar ali.

Meu pensamento se fixou no olhar da mulher. Ele estava ainda impregnado na minha retina. Por que ela nada me disse? Uma enfermeira passou por mim e co­mentou, enquanto recolhia o material do chão da sala: “Que coisa, não é? Quase que não deu tempo para atender aquela gestante. Já pensou se o senhor não es­tivesse por perto?”

Sorri para ela e me mantive pensativo. E se eu não estivesse por perto para assis­tir esse parto, como seria? E se ela tivesse seu filho sem meu auxílio, o que teria acontecido? Meus olhos pararam em um ponto qualquer da sala e ficaram estáticos. A per­gunta ecoava na minha cabeça.

“Sem minha presença, como seria?”

Comecei lenta e dolorosamente a entender. Olhei para os lados, temendo haver testemunhas dos meus pensamentos. Encontrava-me nu, atirado ao chão do meu Nabucodonosor. Como o renascido Neo, senti-me envergonhado pela súbita nu­dez. A farpa na mente dilacerava. Pensei mais uma vez nos eventos da pequena sala e percebi, aterrorizado, que tudo o que eu fiz desde que entrei naquele local para atender a uma emergência foi atrapalhar uma mulher a ter seu filho.

Tudo.

Todas as minhas atitudes foram prejudiciais ao bom andamento de um parto. A minha ansiedade ao entrar na sala, meus gritos, minha ordem para que deitasse, meus pedidos para que não fizesse força, minha tentativa de abrir uma episioto­mia injustificável e não consentida, minhas reclamações em voz alta, a falta de respeito e carinho com uma mulher que acabava de ser mãe. Perguntas fora de hora, xingamentos. Equívocos, erros, absurdos.

A resposta à pergunta da enfermeira é que, se eu não estivesse por perto, aquela mãe provavelmente teria mais tranquilidade para ter seu filho. A dureza dessa resposta, e a dificuldade em admitir, é que tinham produzido a minha inquietude e a minha ansiedade. Agora produziam a minha vergonha. Mas por que eu agira daquela maneira? Afinal, as pessoas presentes acharam que eu agi corretamente, que fiz o que se espera de um médico. Ninguém ali pa­rece ter percebido o que eu percebi. Como Paulo, na estrada de Damasco, apa­rentemente fui o único a ficar cego com a luz ofuscante dos fatos. Tudo o que eu fiz foi obedecer aos modelos estabelecidos. Estaria eu sendo injusto, duro demais comigo mesmo?

Naquele exato dia eu percebi que algo muito errado existia no meu proceder como obstetra e que eu não poderia admitir que se mantivesse. Entendi que um médico não pode ser um obstáculo ao bom andamento de um evento como o nascimento humano. Tive a noção clara e forte de que eu estava ali muito mais para aprender do que para ensinar algo às mulheres. O olhar daquela mulher havia me ensinado que, a exemplo do que escreveu Frederick Leboyer – médico francês que, com a publicação de “Birth Without Violence” de 1975, foi o deflagrador de uma revolu­ção na forma como recepcionamos os bebês – um médico deve ser imóvel, está­tico e invisível. Deveria ser como que feito de vidro, transparente mas presente, para que sua presença não venha a atrapalhar os ditames sábios da natureza. Minha conduta arrogante e prepotente nada mais era do que a manifestação da minha gigantesca insegurança diante do nascimento. Mesmo entendendo a im­portância de um auxiliar de parto, seja ele médico ou parteira, não poderia jamais esta presença significar o controle do processo. Não nos cabe controlá-lo; apenas auxiliá-lo. Como eu tive a oportunidade de ver na camiseta de uma parteira aus­traliana:

Imagine que você é uma parteira
E está assistindo o parto de alguém
Trabalha bem, sem exibicionismo e espalhafato.
Facilite o que está acontecendo,
Ao invés de pensar o que deveria estar ocorrendo.
Quando este bebê nascer,
Sua mãe certamente lhe dirá:
“Fomos nós duas que fizemos”.
(Lao Tzu – 500 aC)

O nascimento humano conjuga em um só momento os eventos mais temidos das sociedades em todos os tempos: nascimento, sexualidade e morte. Quanto mais temidos eles são, maior será a necessidade de ritualizá-los. Os rituais que aplica­mos ao nascimento nos levam a criar a impressão ilusória de que este está sob nosso controle. Internamos mulheres em hospitais, tiramos-lhes a roupa, raspa­mos seus pelos, lavamos seus intestinos “contaminados”. Depois, elas são colo­cadas em camas onde um monitor invade a privacidade do seu útero, para que escutemos o coração de seus bebês. Rompemos a bolsa de águas, colocamos ocitocina para que a paciente ganhe seu filho dentro do tempo que nós estipula­mos. Diante da dor causada pela solidão, medo e tensão, estabelecemos uma analgesia peridural, que via de regra termina com a aplicação de fórceps ou mesmo uma cesariana, pela dificuldade de essa paciente colaborar com um parto que há muito deixou de ser seu. Somos, entre outras coisas, escravizados ao re­lógio, que na parede diz que o nascimento deve ocorrer dentro de um prazo pré-estipulado de tempo. Elas devem se adaptar ao sistema, e não o contrário. Não há lugar para um tratamento centrado na pessoa, e pouco importam as particularida­des, características e a subjetividade dessa mulher.

O parto deixou de ser um evento das mulheres, sendo sequestrado pela biomedi­cina e encenado através dos rituais hospitalares contemporâneos, mantendo e transmitindo nosso sistema profundo de valores.

Foi Robbie Davis-Floyd quem pela primeira vez mostrou que essas condutas, chamadas de “rotinas”, não eram obra do acaso. Sequer se poderia dizer que são comportamentos determinados pelo hábito ou com base em evidências científicas em favor das gestantes. A multiplicidade de procedimentos médicos declarada­mente agressivos nas maternidades ocidentais nos mostra que isso não é ver­dade, a começar pelas cesarianas descontroladas. Existe um sentido em todas essas atitudes, que ultrapassa o que podemos enxergar. São rituais inconscientes que construímos para enaltecer nossos valores básicos. Erguem-se sobre os pila­res constitutivos da obstetrícia contemporânea: a compreensão cartesiana do mundo, que separa corpo e alma, e a defectividade essencial da mulher. A obste­trícia criou, a partir desse modelo filosófico de compreensão do feminino, a neces­sidade de técnicas e equipamentos que pudessem auxiliar essa mulher no mo­mento de parir, agora entendida como defeituosa e propensa a problemas, assim como Robbie Davis-Floyd descreveu em Birth as an American Rite of Passage.

Minha atitude na sala de exames refletia exatamente essa postura. Inconsciente­mente, eu reproduzi todo o arcabouço teórico que eu absorvera da escola médica e na minha formação pessoal como obstetra. Minhas condutas ao atender a pobre mulher tinham esses valores como norte:

Uma mulher não pode ter seu filho sem ser por mim.
Uma mulher é incompetente para escolher a posição que mais lhe convém para parir.
Uma mulher precisa ter seu períneo cortado para que seu filho possa nascer.
Uma mulher não sabe como conduzir as forças que farão seu bebê entrar nesse mundo.
Mulheres são, em suma, seres inferiores, incapazes e mal feitas.

Seria esse realmente o modelo de mulher que eu tinha? Entendi que eu deveria fazer uma escolha, e a primeira grande lição a ser aprendida seria a humildade. Ou eu modificava minha conduta como profissional, ou deveria escolher outra pro­fissão.

Qualquer das alternativas me traria dor e sofrimento, porque eu sabia o que pode­ria acontecer a um médico que resolvesse descumprir uma ordenação superior. O tratamento seria o mesmo oferecido a um herege e, na verdade, era exatamente no que eu estaria me tornando. A medicina positivista contemporânea comporta-se como a sucedânea da religião no imaginário social, sendo os médicos seus clé­rigos prepostos e controladores. Ela não perdoa aqueles que se afastam de sua linha ideológica, principalmente aqueles que criticam o modelo tecnocrático de compreensão da realidade.

Durante boa parte da minha vida senti claramente a crueldade do tratamento de “herege ameaçador” a mim imposto. Jamais fui perdoado por me desviar do cate­cismo dogmático das convicções médicas contemporâneas, mesmo que o meu proceder estivesse escudado nas mais claras evidências científicas. Por outro lado, minha admiração pelas mulheres e minha paixão pela magia do nascimento me impediam de desistir. Minha decisão estava tomada. Morpheus disse a Neo, na eterna 1999, que “não há caminho de volta, mas, mesmo que houvesse, você voltaria?”

No outro dia, ao sair do plantão, encontrei Maximilian no refeitório do hospital. Corri em sua direção e lhe disse:

— Max! Uma mulher ganhou seu filho na sala de emergência no plantão. De cóco­ras e praticamente sozinha. Lembra que um dia você me falou que…

— Calma, Ric. Eu já sei de tudo. Nadine me contou. Ela pariu de cócoras então? Que tal pareceu? Pois acho que você precisa ler um livro, que talvez abra seus horizontes.

Max abriu sua bolsa estilo hippie e de lá tirou um pequeno livro de capa alaran­jada. O título era Parto de Cócoras – Aprenda a Nascer com os Índios, do obstetra paranaense Moysés Paciornik. Peguei nas mãos o livro amassado e cheio de anotações e mais uma vez encarei Max, que sorria para mim.

— Leia e depois vamos conversar.

Agradeci o empréstimo e girei nos calcanhares em direção à porta de saída. Havia um dia ensolarado esperando por mim, e duas crianças aguardando um pai que retornava diferente para casa. Antes de sair, escutei a risada marota de Max. Vol­tei-me para um aceno de despedida e ainda tive tempo de escutar as palavras do colega.

— Seja bem-vindo, Ric. Patu Saleh!

Num futuro próximo eu escutaria a mesma frase, com palavras semelhantes, bro­tando da tela de um cinema lotado. Lá estaria Morpheus, dizendo ao “predesti­nado” Neo: “Bem-vindo ao mundo real”. Mas ainda era cedo, muito cedo para en­tender os meandros de um sistema de crenças que eu apenas estava iniciando a questionar. O Simulacrum produzido pela “Matrix obstétrica” ainda estava para ser descoberto. Naquela manhã de maio do ano de 1986, iniciei minha jornada de obstetra huma­nista, que mesmo com todas as dores, incompreensões, agressões e dramas, nunca pensei voltar atrás. Àquela pobre gestante, a minha dívida eterna. Seu olhar ainda presente nas mi­nhas lembranças é a marca indelével da força e da dignidade que cada mulher traz consigo no momento de parir.

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Memórias do Homem de Vidro – 03

Barulhos

Casei muito cedo. Cedo demais. Abortei boa parte da minha adolescência. Entre os 20 e os 30 anos, tirei, ao todo, dois meses de férias. Enquanto meus colegas se divertiam em passeios e festas, eu fazia plantões e estágios. No mês de feve­reiro de 1980, trabalhei 25 das 28 noites como plantonista em um pronto-socorro. Queria absorver tudo o que a medicina poderia me mostrar. Fui pai precoce, ado­lescente, menino. Saí da casa paterna com 21 anos para viver uma vida de adulto. Tal atitude tem vantagens e desvantagens. Pude crescer junto com meus filhos, aprender a paternidade enquanto ainda me despia da adolescência. Por outro lado, as responsabilidades precocemente assumidas são fardos pesados, os quais carregamos com paciência, resiliência e, certamente, uma boa dose de humor.

Cuidar de meus filhos pequenos acabou sendo um dos maiores desafios que eu já tive que enfrentar. Não se nasce pai, nem se aprende em livros. A crueza dos tombos e as feridas no orgulho são que nos ensinam a lidar com essa fundamen­tal etapa da vida. Uma vez falei para uma paciente que um dos maiores e mais poderosos processos de transformação individual é a maternidade, mas que a paternidade é igualmente algo de uma força fabulosa. Devo muito do que sou ao fato de que, muito novo, fui obrigado a entender a minha vida de uma forma espe­cial. Ser pai é nunca mais pensar apenas em si mesmo. Ser pai é ter que lidar com desafios diários para levar aos seus filhos os valores que parecem ser os mais verdadeiros e corretos. Entretanto, dos aprendizados possíveis, o mais claro é o de que não existem regras, e que toda a educação é feita de erros.

Na época em que meus filhos eram pequenos, todos os meus amigos tinham mo­delos maravilhosos de como educar uma criança. Desde os aficionados pela dis­ciplina até os apaixonados pela liberdade infantil, sempre que o assunto é educa­ção todos estavam repletos de profundas certezas.

— Nunca se bate em criança — diz ela. — A agressão é entendida pelos peque­nos como um meio válido de se chegar a um resultado, e isso fatalmente se re­produzirá na sua conduta como adulto. As crianças que apanham hoje serão os agressores do futuro. Se quiser um mundo livre de violência, comece pela sua casa.

— Qual nada — responde a outra. — A criança precisa saber seus limites, e a única linguagem compreensível, em uma determinada etapa da vida, é a da pal­mada. Como explicar com palavras a inadequação de uma atitude a alguém que não entende ainda o seu significado? Prefiro eu mesma colocar os limites nos meus filhos do que ver alguém fazendo isso mais tarde. Lógico que não estamos falando em espancamento, entretanto blá, blá, blá…

Como se posiciona um pobre menino, estudante universitário, imberbe, inseguro, preocupado em passar de ano, diante das divergências profundas entre sistemas que chegam aos nossos ouvidos concernentes à educação dos pequenos? O má­ximo que conseguimos é nos munir do arsenal de valores que recebemos de nos­sos pais e repeti-lo. Mesmo quando equivocado e ultrapassado, muitas vezes é o único modelo que temos.

As palmadas, entretanto, não são o único dilema por que os jovens pais têm que passar. Mamadeiras, bicos, choros fora de hora, educação dos esfíncteres, etc. povoavam minhas angústias de pai de primeira viagem. Acrescente-se a isso a pouca idade, a imaturidade, a falta de dinheiro e o pouco tempo e teremos um caldo de cultura propício a situações que variam do drama à comicidade.

Lembro-me de uma ocasião em que, chegando em casa cedo pela manhã após três dias de plantão em diversos hospitais, encontrei minha mulher na soleira de nossa velha casa. Beijou-me um beijo de café e disse:

— Estou indo para a faculdade. Lucas está dormindo na nossa cama. Tem uma pilha de roupas para serem passadas. Beijo, te amo, tchau.

Assim mesmo. “Beijo, te amo, tchau.” Não tive tempo nem de responder, pois ela estava atrasada para pegar o ônibus. Vida dura de estudante/mãe.

Entro em casa e me deparo com a dura realidade. Lucas não estava mais dor­mindo. Talvez tenha escutado a breve conversa no portão da casa, ou apenas resolveu despertar porque o dia parecia estar destinado a grandes descobertas. A verdade é que seus dois grandes olhos castanhos me encaravam, emoldurados por um sorriso pleno de energia e vigor. O segundo fato apavorante é que a “pilha” de roupas para passar era, na verdade, uma montanha que se erguia da minha cama. Milhares de meias, cuecas, calças de brim, camisas, em uma maçaroca apavorante e incompreensível.

Eu havia passado a noite atendendo partos no hospital de periferia onde me iniciei na obstetrícia. Estava cansado e sonolento. As roupas precisavam ser passadas, e Lucas estava pronto para mais um dia de aventuras. O que poderia piorar esse cenário?

Lembrei… Eu tinha uma prova dentro de dois dias, e em função dos partos na noite anterior não me fora possível ler a matéria. Eu precisava estudar, cuidar do Lucas, passar roupa e dormir, tudo ao mesmo tempo! Aqui estava, tal qual a chuva no filme “Jovem Frankenstein”, algo que poderia piorar um cenário já de­sesperador.

Tive uma ideia, que à primeira vista poderia ser maravilhosamente conciliatória. Resolvi armar a tábua de passar ao lado da cama e abrir meu livro de medicina em uma das pontas, deixando o ferro quente na outra. Assim poderia passar a ferro as camisas e dar uma espiada na matéria — nefrologia. Lucas estava apren­dendo a caminhar, mas passava a maior parte do seu tempo nas tentativas de se erguer. Eu tentaria conversar com ele e distrair a sua atenção.

Foi o que fiz. Mesa armada, ferro de passar repousava à minha esquerda, livro de medicina aberto à minha direita e camisas e calças sendo passadas na minha frente. Parecia funcionar adequadamente. Finalmente eu provaria que, ao contrá­rio do que é maldosamente apregoado pelas feministas, nós, homens, também podemos ser multitarefa.

Tudo funcionou perfeitamente… por 15 minutos.

Eu havia esquecido um fator fundamental. Aquele que sempre põe abaixo os grandes e pequenos projetos da humanidade: o imponderável e circunstancial. A Lei de Murphy, maldosa e sorrateira, conspirando sempre que uma oportunidade lhe é oferecida. Ou, como Maximilian me falaria no futuro, eram “os desígnios se­cretos da Deusa Álea”.

Lucas conversava comigo dando gostosas risadas enquanto eu lia o livro de medi­cina em voz alta, fazendo de conta que lhe contava uma história de aventuras. Pobre criança, nem sabia que estava sendo enganado. Não havia nenhum prín­cipe “glomérulo”, nenhuma princesa “pelve renal” e os “ureteres” não eram escu­deiros com a incumbência de livrar a rainha das pressões dos seus inimigos. Ele ria e rolava. Eu repetia as palavras do livro com um jeito bufo, o que o deixava ainda mais alegre.

Infelizmente a alegria durou pouco. Juro que eu tentei evitar, mas talvez minha atenção com as camisas, minha leitura do livro de medicina e a sonolência sobre­posta tenham causado o estrago. Lucas sorrateiramente engatinhou em direção à mesa de passar. Eu o cuidava com o rabo do olho, enquanto lia uma página do livro. Ele continuava rindo e saracoteando, e resolveu ficar de pé, caindo logo em seguida, o que o deixava ainda mais lindo e desengonçado. Repousei o ferro elé­trico na mesa e fui pegar mais uma camisa para passar, enquanto aproveitava para folhear mais uma página.

Nesse milésimo de segundo é que as coisas acontecem. Bastam apenas frag­mentos de um instante para que tudo ocorra. Lucas ergueu-se sobre os joelhos e apontou seu minúsculo dedinho para o ferro que aguardava repousando na mesa. Já segurando a próxima camisa amassada nas mãos, ainda consegui antever o desastre, mas não a tempo de impedir que a ponta do seu pequenino indicador encontrasse o aparelho.

Foi muito rápido. Fiquei feliz por ter evitado um estrago maior, mas olhei a ponta de seu dedinho vermelho e me senti o pior pai do mundo. Incompetente, irrespon­sável. Lucas abriu seu inesgotável repertório de choros, que variava desde o berro incontido até o choramingar em voz baixa. E agora? Que fazer?

Resolvi desistir de tudo e cuidar do meu filho. Desliguei o agora “maldito” ferro elétrico e fiz da montanha de roupas o meu travesseiro. Olhei de novo para a pon­tinha do dedo e percebi uma pequenina bolha se formando por baixo da pele de seda. Agarrei Lucas nos braços e cochichei no seu ouvido:

— Desculpa, meu velho. Papai estava desatento. Mas agora precisamos os dois dormir, ok? Você para curar seu dedinho, e o papai para se recuperar do plantão, certo?

Lucas continuava choramingando, mas incrivelmente alguns minutos depois ele estava dormindo. Acordava de quando em vez, ao se lembrar do dedinho quei­mado, mas voltava a dormir, como papai mandou. Milagres acontecem.

Não lembro que nota eu tirei na prova, nem o que eu acabei fazendo com a pilha de roupas, mas aprendi algumas belas lições naquela manhã sonolenta. A mais importante é que filhos são sempre prioridade. Se pudesse voltar no tempo, não desperdiçaria nenhum instante de contato com os pequenos, porque tudo isso passa muito, muito rápido.

Lembrei-me de outra história, anterior a essa, ligada aos primeiros meses em que estive lidando com a tenebrosa tarefa de ser pai. Era uma questão relacionada com o sono das crianças. Esse assunto era tratado como um tabu na família da minha mulher: nunca se acordava alguém que estivesse dormindo. Suspeito que minha sogra achasse que uma criança — ou mesmo uma pessoa adulta — assim desperta de “supetão” poderia desfazer o fino laço que prende o corpo à alma flu­tuante, que estaria vagando livremente pelo éter, despregada da matéria. Fosse essa a justificativa ou não, a verdade é que acordar uma criança era visto como uma atitude de extremo desrespeito e grosseria.

Esse era o meu problema. Na época da faculdade, quando eu era jovem (século passado) e tinha muitos cabelos na cabeça, exageradamente sofri com o pro­blema do barulho com as crianças dormindo. Essa história de “silêncio, o nenê acabou de dormir” eu fui obrigado a escutar incontáveis vezes. Vezes demais. Achei que eu nunca poderia conversar com meu filho, ou mesmo escutar a sua voz se formando. Eu ficava terrivelmente bravo porque mal acabava de chegar em casa depois de 48 horas ininterruptas de plantão (às vezes 72) e meu filho Lucas estava dormindo profundamente. Pai ausente, pensava eu. Irresponsável. Se foi para deixar seu filho sem uma figura paterna, melhor seria nem tê-lo feito. Eu ia até sua cama só para olhar para ele e dizer alguma bobagem, tipo “chorou muito hoje?” ou “alguma novidade?” ou mesmo “e aí, meu… se borrando nas fraldas ainda?”. Ele tinha apenas seis meses, e pouco via o miserável progenitor, estu­dante de medicina e trabalhador de cinco diferentes patrões. Pois a história era sempre a mesma: eu chegava perto e sempre tinha uma sogra, uma cunhada ou outro tipo de “bruxa” pra me criticar. Não suportava mais a pressão e a culpa que tentavam me empurrar, apenas por querer participar um pouco da vida do meu pequeno e indefeso filho homem, cercado de mulheres por todos os lados.

“Fala baixo, seu trapalhão. Olha a pobre criança dormindo. Se ele acordar, quero ver você fazer ele dormir de novo.” E eu normalmente tinha que sair de perto, por­que as mulheres acham que só porque pariram são donas da cria e que os ho­mens de nada servem. Somos considerados inúteis. De nós aproveitam apenas o pobre espermatozoide, serelepe girino que, por enquanto, ainda nos confere al­guma importância neste planeta. Pura inveja. Só porque não conseguem fazer xixi de pé ficam nos espezinhando por toda a eternidade!

Pois um dia eu cheguei em casa, vindo de mais um mix de plantões com aulas na faculdade e recebi a mesma crítica injusta de sempre. “Para que caminhar desse jeito? Para que bater o pé assim no chão? Está tirando barro da sola? A criança pobrezinha (pobre, coitada, etc… sempre tem um adjetivo assim para as crianças) acabou de dormir. Dá para fechar essa boca, parar de caminhar e fazer silêncio?”

Dias sem ver meu filho e era assim que me recebiam? Queriam elas fazer de mim um capacho, um pano de chão? Haveria um fim para a arrogância feminina? Pois este era o meu limite. Fiquei uma fera. É hoje que eu faço uma loucura,pensei eu! Fui até o quarto onde o pequeno Lucas estava ressonando. Pobre criança (opsss). Teria que aguentar essa convenção de bruxas, megeras, tias chatas (ele tem nove tias!) e mesmo assim lutar com todas as suas forças para se tornar um homem de verdade. Ele precisava de uma imagem masculina forte, máscula, viril, altaneira. Olhei para os lados à procura de algo, ou alguém, e não vi nada que coubesse nesse conceito. É… vai ter que ser eu mesmo, pensei.

Munido de coragem, falei comigo mesmo, gritando com os meus botões da camisa amassada:

— Agora é que são elas! Elas vão ver como nós somos caras maus, bravos, des­temidos e corajosos!

Tirei os poucos lençóis que cobriam o frágil corpo de poucos meses do meu filho Lucas. Olhei para ele e disse baixinho no seu ouvido:

— Papai vai te levar para um passeio. Fique tranquilo. Aquelas megeras não vão te fazer mal.

Na sala, a mãe dele — bruxa-mor — jogava cartas com as irmãs e a mãe. A con­versa (conversa é modo de dizer; estavam fofocando e falando mal de mim, claro) ia solta, até que uma delas, a primeira que percebeu, soltou um grito.

— O que você pensa estar fazendo, seu louco? — gritou a cunhada, deixando as cartas caírem na mesa.

— Ficou maluco de vez? — vociferou minha mulher.

— Para com isso! Olha que eu chamo os vizinhos! — emendou minha sogra.

Enquanto isso eu sorria, exibindo meu troféu. Lucas continuava dormindo, sem se aperceber do que estava acontecendo.

Eu havia carregado meu filho pelo calcanhar direito e o levei assim suspenso atra­vés do quarto escuro até a sala, onde elas estavam a jogar cartas. Com os braços abertos e a perninha esticada, Lucas continuava dormindo, como um anjo, sem se perturbar, provavelmente sonhando com um mundo de ponta-cabeça, mais ou menos como está o nosso planeta hoje em dia.

— De hoje em diante, quero ver quem é que vai dizer que um simples barulhinho é capaz de acordar esse moleque! — disse eu, exibindo o meu troféu, para uma plateia de mulheres boquiabertas.

— Ok… ok, seu insano. Coloque a criança na cama e deixe-a dormir em paz. Chega de espetáculos — disse minha sogra.

Coloquei meu filho na cama e o cobri novamente. Ele nem se deu conta do pas­seio estranho que dera.

— Muito bem, meu filho. Você foi sensacional. Você é o garotão do papai! — disse eu, em uma conversa de homem para homem que eu nunca mais esqueceria.

Quando voltei para a sala, as mulheres continuavam seu jogo de cartas como se nada tivesse ocorrido. Minha cunhada Heloísa, para quebrar o gelo, me fitou com um sorriso e disse:

— Está cansado, cunhadinho? Estava movimentado o plantão? Quer que faça um cafezinho passado?

Nada como uma demonstração de macheza para deixar as mulheres derretidas.

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Memórias do Homem de Vidro – 02

Pai e Paternidade

A história do ser humano na face da terra é caracterizada por um aprendizado lento. Nossas conquistas nas áreas sociais sempre foram graduais e paulatinas, com gerações inteiras experimentando apenas detalhes como modificações no seu cotidiano quando comparadas com o estilo de viver de seus ancestrais remo­tos. Essas alterações sempre ocorreram em todos os aspectos da sociedade, desde a organização social e política até mesmo (e principalmente) no terreno da ciência e do conhecimento. Durante milênios, nossas tarefas e especificidades sociais foram determinadas rigorosamente pelas aptidões aparentemente mais “naturais” que apresentavam os homens e as mulheres. O legado que nossa ex­tensa experiência como caçadores/coletores nos deixou transmitiu-se por inúme­ras gerações, sendo que a rigidez de seus postulados apenas há alguns anos passou a ser questionada. Assim, nada mais justo que o mundo externo, o mundo das conquistas, das batalhas e do saber racional ficasse sob a responsabilidade do componente masculino, enquanto o mundo interior, da família, da natureza, dos mistérios do inconsciente, coubesse às mulheres. Esse esquema funcionou com razoável equilíbrio até algumas poucas décadas atrás, fazendo com que homens e mulheres convivessem em uma “harmonia forçada”, por ser essa a expectativa clara e única de suas funções sociais. Nesse mundo, a gravidez, o parto e a ma­ternagem existiam apenas como extensão do universo feminino, não sendo possí­vel entender a participação dos homens nele, a não ser como procriado­res/provedores e possuidores de uma descendência.

Lucas, a exemplo das tradições tibetanas, nasceu de um sonho. Um sonho pre­monitório, mas, ao contrário do que se esperaria, esse sonho não foi sonhado por quem o carregava no ventre; foi sonhado pelo seu pai. Em uma escura passagem, um caminhante solitário vê formar-se à sua esquerda uma fonte intensa de luz. Ofuscado pela luminosidade, leva a mão aos olhos, tentando enxergar o que se esconde por detrás. Inútil. Dessa luz brota uma voz, que avisa em tom solene a chegada de um visitante.

— Preparem-se, amigos — diz a voz poderosa. — Lucas está se aproximando para juntar-se a vocês.

Depois disso, do meio do breu da estrada surge a figura de um menino, de mais ou menos 10 anos de idade, que caminha em minha direção. Tem os cabelos loi­ros, lisos e longos e seu passo é firme. A distância entre nós se encurta, mas nosso contato não chega a acontecer porque, assustado, desperto do meu sono. Ligo para a minha namorada e digo que tenho algo muito importante para lhe di­zer. Ela se assusta. Mais tarde lhe conto pessoalmente o sonho, e o nome do me­nino que me foi revelado, e ela diz que seria quase impossível que ele fosse ver­dade. Não seria viável, ou provável, que ela estivesse grávida àquela época do ciclo menstrual. Eu apenas comentei que o sonho fora claro demais para ser des­merecido. Os acontecimentos das próximas semanas mostraram que tanto eu quanto o sonho estávamos certos.

Lucas estava realmente a caminho.

Exatamente 40 semanas após sua última menstruação, ela entrava em trabalho de parto. Rompida a bolsa na madrugada, rumou para o hospital da universidade, o mesmo onde anos mais tarde eu faria a minha formação em obstetrícia e gine­cologia. Suas contrações ainda eram frágeis e irregulares, mas foi mantida no hospital por decisão do contratado de plantão. Eu ainda não tinha a menor noção da iatrogenia relacionada à internação precoce de pacientes em fases iniciais de trabalho de parto. Levaria muitos anos para aprender essa conexão notável entre o psiquismo feminino, seu instinto de proteção à cria, e a sutileza dos mecanismos relacionados à ocitocina, endorfina e adrenalina. Deixo o hospital prometendo voltar mais tarde. Como de costume, eu estava gazeando aulas na faculdade de medicina para fazer um plantão no Pronto-Socorro. Sempre me atraiu a medicina viva, em carne e osso, olhando a face dos pacientes, catando diagnósticos nos sulcos que o sofrimento marcava em seus rostos; por isso, minha opção desde cedo em trabalhar junto aos doentes, priorizando a prática em detrimento da frieza vazia das teorias.

No meio da tarde, meu cunhado me liga dizendo que as dores estavam muito for­tes e que seria melhor eu voltar ao centro obstétrico. Percebi que Lucas estava chegando. Havia aguardado mais de 20 anos por esse reencontro.

As horas se acumulavam, umas sobre as outras. As dores se aproximavam, quase se fundindo. O suor, o rosto contraído, a palidez. O gosto salgado na sua boca. Olhava para ela como que a pedir perdão. Uma súplica. Como posso ajudar, se tenho as mãos atadas? Que posso fazer para minorar sua dor? Eu tenho apenas 22 anos. Como sou estudante de medicina, e apenas por isso, me permitem adentrar o espaço do centro obstétrico. É uma manhã fria de junho de 1982. Es­tamos no meio da Copa do Mundo. Ontem o Brasil aplicou 4 x 0 em um time qual­quer. Nem lembro bem qual é, mas o Zico marcou um gol. A ruptura da bolsa se deu junto com o romper da aurora, e sabia que esse fato era um complicador na forma como os médicos do centro obstétrico entendiam aquele caso específico. A mim só restava esperar, e pedir aos deuses que os médicos responsáveis tives­sem a sabedoria para fazer as melhores escolhas.

A participação paterna no processo de parto e nascimento é um evento raro entre os mamíferos, principalmente quando a paternidade não é uma obviedade. Entre os grupamentos em que a participação genética de determinado parceiro é asse­gurada, essa ligação pai-filho se dará de forma mais intensa, enquanto, nos gru­pamentos mais promíscuos (com paternidade menos confiável), um padrão muito heterogêneo poderá ocorrer, variando do infanticídio, em uma extremidade, até mesmo cuidados ativos e afetivos, na outra. Essa disparidade idiossincrática de atitudes nos demonstra que o estabelecimento da relação entre o pai e seu filho não seria um produto de nossa herança genética, mas ocorreria em razão de as­pectos ecológicos e comportamentais, principalmente relacionados com a distri­buição de comida, o que está de acordo com a atitude de todos os carnívoros so­ciais.

Ela a cada minuto parecia mais fraca. Dezoito horas já haviam se passado desde a ruptura das membranas e a perda do líquido amniótico. Seu humor estava aba­lado. Não mais suportava a conversa das auxiliares, e mesmo a minha presença era apenas tolerada. Eu caminhava ansiosamente de um lado para outro. Repeti­ria essa atitude ansiosa durante as centenas de partos que acompanharia nos anos que se seguiriam. Mas aquele dia era o meu “batismo de fogo”. A paterni­dade entrava na minha vida de forma precoce e inesperada, o que me deixava ainda mais assustado e tenso. Fazia promessas. Imaginava que amanhã estaria rindo com meu filho nos braços. Pensava na magia de ser pai. Ia até o corredor do hospital e pedia colo para minha mãe, que silenciosamente aguardava para parir seu primeiro neto. Tentava criar coragem. Olhava para as residentes e aguardava delas uma palavra, um gesto, uma confirmação. Esperava que meu sofrimento fosse abreviado. Eu estava entregue. Dependia daquela mulher e dependia da­queles médicos. A sensação de dependência, de falta de controle sobre a situa­ção, me fazia menino, pequeno, diminuto. Só o que podia fazer era ter paciência e confiar. Das residentes escutava apenas comentários que não me ajudavam. Zeza continuava completamente absorvida pela intensidade de suas dores, mas para mim, pobre menino, nada parecia acontecer. Até que, ao cair da noite, depois de um exame vaginal, eu escuto a guturalidade de um som: a expressão sonora de uma passagem. Algo ocorrera, e fixei meus olhos no residente. Este me olhou ra­pidamente e disse, enquanto se dirigia à porta da zona restrita:

— A dilatação se completou, podemos ir para a sala de partos.

Bowlby, que foi um dos pioneiros na investigação do apego entre mães e filhos, dizia que o pai não tem nenhuma importância para o recém-nascido, e sua partici­pação se resume em ser uma fonte de recursos econômicos e suporte emocional para a mãe. Apesar dessa posição pessimista quanto ao papel desempenhado pelo pai, vários outros autores demonstraram que o desempenho dos pais em sala de parto tende a ser muito semelhante ao que frequentemente é observado com as mães que acabaram de ter seus filhos. Dessa forma, os mesmos rituais de re­conhecimento e de contato seriam estabelecidos não fossem as expectativas e os papéis sociais fixos encontrados nas sociedades. Livres das constrições e imposi­ções sociais, os homens poderiam estabelecer as mesmas manifestações de apreço, carinho, apego e amor pelas suas crias que suas mulheres apresentam. Esse comportamento de formação de apego é o que se chamaria de “espécie es­pecífico”, e tem sua origem geneticamente determinada, segundo uma das hipóte­ses que existem contemporaneamente, de Wenda Trevathan, antropóloga ameri­cana que escreve sobre as origens do nascimento sob uma perspectiva evolucio­nista darwiniana. Hoje em dia muito se tem estudado a respeito da importância do pai na sala de parto, porque a pressão cultural pela participação ativa dos parcei­ros na hora do nascimento levou os profissionais, e mesmo os hospitais, a se pre­pararem para que a chegada do bebê ocorra preferencialmente com a presença do genitor. O próprio método Lamaze, dos anos 1960, estimulava a presença do pai como orientador, um condutor da paciente diante das agruras do trabalho de parto. O pai entrava no cenário do parto pelas mãos do médico, como seu aju­dante de ordens.

Na atualidade, questiona-se novamente se a presença do pai seria benéfica para o bom andamento do parto ou se ele seria um intruso no cenário essencialmente feminino do nascimento. A verdade é que os comportamentos em sala de parto tendem a ser muito variáveis, desde pais que entram em perfeita sintonia com o processo de nascimento e dessa forma auxiliam a gestante durante todo o desen­rolar do processo até pais que, pela sua intensa ansiedade diante do desconhe­cido, funcionam como “disseminadores de adrenalina”, como afirma o Dr. Michel Odent. Estes últimos funcionam como promotores do círculo vicioso de medo-ten­são-dor descrito por Grantly Dick-Read nos anos 1930, e não foram poucas as vezes em que a saída desses pais nervosos da sala foi a responsável pela mu­dança radical e positiva no resultado de um parto. Entretanto, a experiência de­monstra que, quando bem conduzidos e orientados, os pais são, via de regra, su­porte emocional e afetivo de qualidade para a grávida. Além disso, a experiência viva da paternidade tem a potencialidade de fortalecer os vínculos desse novo pai com o recém-nascido, assim como estreitar os laços amorosos com sua compa­nheira.

Pelo menos agora eu sabia que a espera estava por se findar. O bebê havia atin­gido a parte inferior do canal de parto. Minha insipiência médica me deixava à mercê do que era dito. O que sabia um aluno de terceiro ano da escola médica sobre partos? Quase nada. Sem perguntar se era permitido, invadi a área restrita do centro obstrético, depois de trocar de roupa no vestiário. A presença dos pais na sala de parto no início dos anos 1980 era vista com franca desconfiança. So­mente eram “liberados” aqueles que tivessem solicitado com antecedência para os responsáveis pelo centro. Estar ao lado de sua mulher, filha, amiga ou irmã era uma concessão, nunca um direito. Eu conhecia essa norma, mas, mesmo sem pedir solicitação, adentrei a área de partos e deixei claro que esse direito era meu, e que ninguém poderia me impedir de estar ali.

Eu agora estava todo de verde. Estava igual aos residentes e doutorandos. Tive a sensação (que eu repetiria alguns anos depois) de que havia vestido a roupa do Super-Homem, o todo-poderoso ícone de Seinfeld. Menos charmosa, com menos glamour, mas que produzia os mesmos efeitos. Senti-me participante de uma confraria de homens que decidem sobre a vida e a morte de outros. Há poder maior que esse?

Ela foi colocada deitada de costas sobre a mesa fria. Ainda era cedo para que eu entendesse o quanto essa posição das mulheres ao parir obedecia a uma ordena­ção simbólica oculta e inconsciente, e o quanto era prejudicial tanto para ela quanto para o seu bebê. Naquele dia, porém, eu era apenas mais um pai desem­poderado olhando atônito para uma mulher parindo inserida no modelo tradicional. Eu rezava e esperava o quanto podia; ela se esforçava além do que imaginava ser capaz. Fazia a força mais poderosa que seu corpo permitia. O alarido na sala vi­nha de todos os lados. As enfermeiras, os médicos, todos gritavam, como que querendo exorcizar a angústia que traziam dentro de si. Eu ficava parado, imóvel, assustado em um canto da pequena sala. Não ousava dizer uma palavra, porque temia que ela fosse interpretada como uma interferência, e me determinassem sair. Ela suava, pálida, jogando todas as gotas do seu sangue nos braços e no útero. Os minutos passam, e quanto mais tempo permanecíamos na sala de parto mais a ansiedade dos médicos aumentava. Eu já sabia, desde aquela época, que o relógio dos médicos é mais importante que a subjetividade de uma mulher pa­rindo. Gordas, magras, altas e baixas; ansiosas, tranquilas, aterrorizadas e alheias: todas eram iguais perante a visão homogenizante da obstetrícia. Sua de­mora em parir era sentida como ameaçadora pela equipe, e a angústia do resi­dente começava a aumentar. Sua testa destilava, e ele solicitava à enfermeira que a secasse. Eu observava as atitudes e anotava mentalmente. “Puxa, quando eu me formar, quero ter uma auxiliar só para secar a minha testa”. Brincava em soli­lóquio para afastar o pânico. Será mesmo que tudo está bem?

— Vou precisar de um fórceps — disse o obstetra.

Senti um medo vívido e dolorido pela primeira vez. Gritei em meus pensamentos:

— Lucas! Aguenta aí, meu velho! Eles querem puxar você!

A participação do pai no parto pode ser vista como um fato inato, geneticamente determinado, mas que não se expressaria na sua plenitude por fatores culturais e sociais. Mas também pode ser visto, alternativamente, como um processo de aprendizado absolutamente cultural. Ambas as formas de compreensão da “pater­nagem” coexistem na discussão contemporânea. De qualquer maneira, a expres­são última desse fenômeno é recentíssima na história da espécie humana. Nunca, em nenhum outro momento da história, o pai teve tanta presença e importância no nascimento de seus filhos como a época em que estamos vivendo. O que se per­cebe pelas últimas pesquisas é que o envolvimento paterno intenso, quando per­mitido, fortalecerá os vínculos futuros de assistência e afeto, tanto em relação ao bebê quanto com a sua mãe. Esse aspecto novo nas relações humanas, conju­gado com as modificações rápidas na sociedade nos aspectos sociais e econômi­cos, tem despertado o interesse de muitos pesquisadores a respeito das tendên­cias comportamentais relacionadas ao papel da paternidade no futuro da humani­dade. Nas palavras de Alice Rossi, “ou providenciamos uma compensação para o pai sob forma de treinamento nos cuidados com o recém-nascido, ou veremos um fortalecimento crescente da força e da importância da formação de apego entre a mãe e seu bebê, em função do fato de que a maternidade agora se estabelece por livre escolha e a figura paterna como fertilizador e provedor se encontra amea­çada”. Duas décadas se passariam antes que Maximillian, meu dileto colega e “mentor espiritual”, me contasse seu sonho pessimista sobre o masculino, mas que se encaixava perfeitamente no comentário acima.

Eu não sabia exatamente o que significava um fórceps, apesar de já ter visto al­guns. No terceiro ano de medicina, mal havíamos estudado bioquímica. Nada de pacientes, muito menos de grávidas. O pouco que eu sabia havia aprendido nos plantões intermináveis do Pronto-Socorro. Duas colheres frias de aço, entrelaça­das formando um “x”. Duas mãos de ferro, a tracionar o pólo cefálico. Eu não tinha noção de morbidade relacionada ao seu uso, mas sabia que ali estava uma deci­são que o obstetra estivera protelando pelos últimos minutos. Olhei mais uma vez para minha mulher. Cansada, frágil, fraca, intensamente bela. Mas também ela sentiu medo. O trovejar das colheres do instrumento de Chamberlain ecoou pela sala. Uma colher repousava na mão do residente, a outra aguardava na mesa.

— Fique em silêncio, não se mova… vou colocar a primeira colher. Vai sentir uma dor diferente, mas se você ficar quieta vai…

— Espera! — disse ela. O som saiu como um sopro por entre seus lábios sem cor. — Eu estou tendo uma nova contração. Deixe-me tentar de novo… por favor, uma última vez.

Em algum momento de nossa jornada na terra, tornou-se adaptativo para os ho­mens tomarem conta de suas fêmeas e filhos. Contrariamente ao que acontece com outras espécies, em que a participação paterna é inexistente ou pouco im­portante, entre os humanos tornou-se fundamental a presença do pai para a segu­rança daquilo que nossa espécie de forma muito específica criou: a família. A altri­cialidade, entendida como a extrema dependência do recém-nascido aos cuidados dos seus genitores, produziu essa aproximação do pai, na medida em que era mais interessante, do ponto de vista do sucesso reprodutivo, cuidar de uma fêmea e sua cria frágil do que tomar conta de diversas fêmeas e correr o risco de perder muitos recém-natos. A conduta adaptativa das espécies sociais, como os prima­tas, necessitava de uma intensa colaboração entre seus participantes. As ativida­des dos agrupamentos começavam a priorizar um comportamento baseado na divisão de alimentos e posteriormente na divisão das tarefas na família. Essa mo­dificação de tremenda importância na história da humanidade é a responsável por modificações na morfologia dos hominídeos, nos ecossistemas ocupados e na crescente dependência que se estabeleceu entre os recém-nascidos de nossa espécie, segundo as palavras do professor da Universidade de Kent, Owen Love­joy, autor da famosa publicação “A Origem do Homem”. Este mesmo autor escla­rece que a criação do núcleo familiar, pela disposição paterna de tomar conta de uma fêmea que lhe asseguraria a paternidade de sua descendência, produziu as condições necessárias para a supremacia da espécie humana, por fortalecer uma estratégia de cooperação e crescimento populacional. Assim, a paternidade, como fortalecedora do núcleo social, está relacionada à construção da humanidade como nós a conhecemos e concebemos. Hoje em dia cada vez mais a importância da interação afetiva (e não mais apenas econômica) é solicitada por parte do pai, e os valores da paternidade emergem em um mundo tão assombrado com as mu­danças vertiginosas nos conceitos até então inquestionáveis sobre o nascer, re­produzir-se e morrer.

A colher na mão do residente resolve voltar para junto de sua irmã sobre a mesa. Ambas em silêncio decidem assistir à última força, a derradeira tentativa. O resi­dente junta as mãos sobre o períneo de Zeza, como que a imaginar que delas surgiria a imantação a tracionar a cabeça de Lucas.

Então, o corte. Inevitável, cruel, cruento. Rasgava-se a carne, para manter intacta a estrutura social. Mantinha-se a ordem: “Só parirás se for através de mim. Pela minha mão sentirás em tua carne a lâmina grave que fere teu corpo. Ficarás mar­cada com a cicatriz eterna de minha presença. Terás teu filho pelas minhas mãos e por obra de minha vontade. Assim batizada, adentras o círculo da maternidade”. Também era muito cedo para me horrorizar com a barbárie das episiotomias in­justificadas.

O que me lembro a partir desse momento é uma coleção de fotos mentais, cola­das sem ordem no mural das lembranças mais cálidas. O choro, o medo, a emo­ção, a ansiedade, o alívio. A força suprema. O ápice da dor. O grito contido e a lágrima que escapa ao controle. As enfermeiras gritando, o médico com a respira­ção suspensa. Meu olhar fixo, e o coração parado.

Então ele aparece. Molhado, cabeçudo, “cabeça de ovo”. Tinha cara de “joelho”, como todo o recém-nascido, mas era incrivelmente lindo. Minha mulher dizendo que não conseguia ver direito, que queria tocar nele. A enfermeira secando sem cuidado; o corte rápido do cordão, privando-o das últimas gotas de seu próprio sangue, guardadas no claustro materno. A luz ofuscante da sala às claras, a pedi­atra chegando. Meu pobre filho sendo levado antes que minha mulher pudesse tocá-lo. Os comentários infelizes da neonatologista; o cansaço de Zeza. O abraço de minha mãe. Tudo se mistura, em uma amálgama de sentimentos, sensações, cheiros, cores e luzes. Mas ali estava ele. Sua primeira batalha havia terminado. E ali estava ela, radiante e gloriosa. Sua principal vitória como mulher tinha aconte­cido.

Olhei para suas feições procurando me enxergar. Na orelha, o mesmo furinho que o pai trouxe de nascença. O sorriso imaginado na contração do rosto mostra tam­bém as mesmas covinhas herdadas. Minha mulher não se importa que eu me jul­gue parecido; pelo contrário, sorri da minha necessidade de produzir uma vincula­ção. Sua ligação com a cria repousa sobre a evidência gritante e avassaladora da sua experiência corporal. Seus músculos doídos, sua sutura perineal, seu can­saço, tudo isso lhe prova. Toda a patrilinearidade da cultura se assenta sobre essa natural desconfiança sobre a linhagem paterna. Nós, homens, não experimenta­mos no corpo nossa descendência. Ela se instala na confiança e no desejo. Para criarmos essa certeza, lhes damos nossos nomes. Criamos neles a marca pa­terna, indelével e perene, para que nunca se apague nossa ligação, e nunca se duvide de nosso sangue.

Fixo-me em seus olhos. Olho atentamente para ele.

Você voltou, amigão.

Alguns anos se passam e a história se repete.

Acordo sobressaltado. Olho para o teto e descubro-me fora de casa. Estava na casa de praia e precisava acordá-la para contar o que havia acontecido.

— Zeza — digo eu. — O sonho… aconteceu de novo.

Ela primeiramente não entende. Olha para mim sem saber o que dizer. Aos pou­cos, sem mesmo precisar perguntar, vai se dando conta do que eu estava di­zendo.

Conto-lhe o sonho, esmiuçando os detalhes. O mesmo lugar, a mesma estrada, o mesmo breu. Novamente a luz se faz à minha esquerda, e de lá brota a voz grave anunciando a chegada de mais um integrante da família.

— Preparem-se. Mais alguém está para chegar. Sua mulher está grávida de novo, e terá um filho que se chamará… Josué.

— Impossível — diz ela. — Impossível mesmo. Desta vez você está errado. Existe uma impossibilidade absoluta.

Fico em silêncio e resolvo esperar. Horas mais tarde, pergunto de sua menstrua­ção e ela, um pouco irritada, me informa que “acabara de ter suas regras”.

Dou de ombros. Eu já sabia. Algumas semanas depois a realidade vem à tona, e a gravidez transformou-se, novamente, de sonho em fato.

O parto veio a acontecer três anos depois do parto de Lucas. Dessa vez, Zeza resolveu esperar em casa até o último instante. Foi a mais sábia decisão que po­deria tomar. Sabendo de antemão do estresse relacionado à hospitalização, pro­positadamente adiou sua entrada no centro obstétrico o mais que pôde. Muitos anos ainda se passariam para que eu percebesse racionalmente o que ela intuiu naquela noite quente de primavera. Ela “sabia”, mesmo que inconscientemente, que a internação hospitalar fora a principal fonte de desequilíbrio no seu parto an­terior. Entendeu que as horas que permaneceu no centro obstétrico foram extre­mamente estressantes e angustiantes, capazes de bloquear a progressão do seu trabalho de parto. Dessa vez, seria diferente.

O telefone tocou e do outro lado da linha a voz era suspirosa, entrecortada e tensa. No hospital-escola onde estava realizando meu último plantão como estu­dante, eu soube do que se tratava mesmo antes da primeira palavra. Zeza estava com contrações vigorosas, mas estivera em casa, fazendo o tempo passar, por várias horas. Esperou para me ligar apenas quando pressentiu que o momento era chegado. Eu a tudo escutei, e lhe disse que viesse ao hospital que eu me en­carregaria de chamar os colegas.

Chegou lá com mais de oito centímetros de dilatação cervical, e minha filha nas­ceu pouco tempo depois.

Minha filha? Mas não era esperado Josué, aquele que derrubara as altas torres de Jericó com suas trombetas, conquistando a terra prometida para o “povo esco­lhido”? O que foi feito do guerreiro hebreu? Afugentou-se com a dureza da em­preitada e ofereceu seu lugar a uma garotinha? Mistérios ainda não resolvidos. As múltiplas interpretações para esse fato ainda são motivo para acalorados debates em família.

Zeza, dessa vez, não teve tempo de ficar ranzinza. Do momento da internação até o parto, não se passaram mais do que duas horas. A sabedoria na parturição tam­bém ocorre com a experiência. Novamente eu estava junto dela, mas não precisei fazer pressão para ser admitido: eu era o doutorando do plantão obstétrico. Na­quela noite/madrugada de dezembro de 1985, o acaso colocou no mesmo plantão do hospital o futuro pai, o pediatra, a obstetra e o tio médico. Todos estavam lá, sem que nunca houvessem combinado. Isabel, que era esperada como Josué, nasceu linda e charmosa. Também nasceu de um sonho, como seu irmão. Igual­mente não foi planejada, mas a recebi como alguém que eu ansiava por reencon­trar. Percebi claramente que eu precisava estar no nascimento de ambos para po­der constatar a força transformadora que o nascimento produz. Para sentir a dor e a angústia de sentir-se sob o controle de algo muito maior. Sabia que este apren­dizado seria fundamental para moldar o médico que eu queria ser. Depois disso, tornei-me um defensor do direito dos pais de assistirem ao nascimento dos seus filhos. Fui obrigado a comprar algumas brigas e criar algumas inimizades, mas percebi que estava tratando de um dos mais elementares direitos do homem: o direito de presenciar o milagre da vida, de assistir a criação da sua imortalidade.

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