Virgindade

A Revista POP, com Rita Lee e Marcucci (criador da banda Rádio Taxi) na capa, mostra um aspecto interessante da minha juventude: em 1978 ainda havia espaço para debater “virgindade”. Ora, não se debate mais virgindade porque não é mais necessário; sobre esse tema não há mais um tabu como outrora. Na minha juventude era possível até cancelar um casamento pela noiva não ser virgem. Havia constrangimento sobre a vida sexual das meninas naquela época, e só por isso era preciso escrever artigos e matérias em revistas populares. Hoje o fenômeno é outro: uma onda neoconservadora liderada por denominações cristãs e voltaram muitas regras da minha época estimuladas pelo pentecostalismo, que é uma doença social da nossa era.

Eu vivi essa época. Virgindade era um assunto debatido inclusive em programas de TV, e até chamavam pessoas da Igreja como debatedores. Já na época eu me perguntava, olhando o jovem clérigo discursar sobre a importância de chegar “pura” ao altar: que se pode esperar do “padre eterno que nunca foi lá” falando sobre esse assunto? Que sabem eles daquilo que dá dentro da gente que não devia, que é feito estar doente de uma folia?

Havia uma perspectiva muito prevalente no discurso da classe média: a vantagem de “esperar” para ter relações só no dia do casamento, entrar na igreja de branco, ser pura, imaculada, etc. mas é claro que essas determinações eram direcionadas apenas às mulheres. Aos homens a iniciação sexual era incentivada, assim que houvesse possibilidade; isso diminuiria o risco de ser “bicha”. Muitos homens dessa época relatam os traumas desse tipo de violência. Na escola uma colega desapareceu das aulas e suas amigas me disseram que estava grávida. Depois do nascimento do bebê ela visitou as antigas colegas na escola e levou as fotos do casamento. Perguntei porque o vestido era rosa e todas me olharam como se tivesse dito uma enorme bobagem. “Ela não casou virgem, seu burro!!”, disseram elas sussurrando e fazendo gestos para eu fechar minha boca. Sim, até esse tipo de constrangimento era comum para as meninas.

Esse tipo de constrição sobre o exercício da sexualidade das mulheres gerava no imaginário masculino uma divisão de classes: havia aquelas “para casar”, as intocáveis, e aquelas para transar – as outras. Tive amigos da época que tinham uma noiva virgem e uma outra namorada com quem transavam. Quando questionei a um deles se achava certo, respondeu que achava justo, pois “precisava aprender com alguém” para ser “bom de cama” no casamento. Tive amigas, que agora estão com 70 anos, que casaram virgens. Uma delas me contou que havia muito controle, muita pressão, e mesmo os namorados tinham medo de exigir uma “prova de amor”. Sim, pois se ela cedesse aos seus avanços, quem garantiria que não cedeu antes para outro? Como saber se não seria infiel depois? Das mulheres era cobrada uma fidelidade à virtude.

Ainda havia muita gente que defendia essa ideia e exaltava a “honra feminina”, mas os anos que se seguiram foram lentamente sepultando essa questão nas culturas ocidentais. O debate foi aos poucos desaparecendo e talvez o que ainda resta é o tabu da monogamia – que  igualmente vai se tornando cada vez mais frágil. Apesar disso, até agora não descobri um modelo que seja mais seguro (não necessariamente melhor) do que o casamento, pelo menos no que diz respeito aos filhos. O futuro dirá se esse mito vai resistir.

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Leite derramado

Não que isso seja uma desculpa, mas um dos principais problemas do Estado é a própria estrutura da democracia liberal; na nossa cultura as pessoas pensam a qualidade dos governos na perspectiva dos seus próprios interesses. É muito comum a gente ver um caminhoneiro, dono de bar, médico, professor, empresário ou funcionário público se dizendo arrependido de ter votado no governador, prefeito ou presidente porque não resolveu os problemas da sua categoria. “Não recebemos aumento desde que fulano foi eleito!! Nunca mais voto nele!!” É o famoso voto egoísta. Assim sendo, mesmo quando o governante é um crápula, canalha, ladrão e incompetente, se contemplou seu segmento profissional, seu bairro, sua identidade, sua cidade, colocou calçamento na sua rua ou deu um cargo em confiança para o seu sobrinho ele automaticamente se torna maravilhoso. Essa é apenas uma das razões pelas quais fazemos este tipo de escolha nas eleições, que se mostram um desastre para o povo. Agora estamos a chorar sobre o leite derramado.

Além disso, quem define o que é um bom governante? Aqui no Brasil sempre se consideram as “obras”, e estas precisam ser visuais, que atinjam os sentidos, que impactem a todos por sua grandiosidade. Um viaduto (prefeitos tem tesão em viadutos), um novo hospital de transplantes ultramoderno (que vai beneficiar médicos especialistas e não mais que 100 pacientes por ano), avenidas, pavimentação, aeroporto, etc. Mas qual governante faria uma rede de esgotos? Quem faria uma reformulação da rede elétrica? Quem pagaria um salário decente aos professores? Quem se arriscaria a fazer transformações profundas na estrutura invisível da sociedade? Quem arriscaria seu mandato fazendo apenas o que precisa ser feito – e não o que dá votos? Como acham que o prefeito ou o governador poderiam fazer propaganda dessas administrações usando como publicidade o conserto das bombas de drenagem estragadas há muitos anos que evitaram algo que – por causa disso – não aconteceu? Quem votaria num prefeito cujo slogan fosse: “Eu consertei o que estava estragado, mas não foi usado ainda”?

Sempre conto a história de uma paciente que teve uma síncope cardíaca no corredor do hospital, mas por sorte caiu na frente de dois médicos que passavam por ali: um cardiologista e um obstetra. Por esta situação fortuita foi possível realizar uma cardioversão (choque) imediata, e assim teve a vida salva. Quando recebeu alta da UTI escreveu uma carta (que foi lida no auditório do hospital) elogiando o trabalho do médico que a salvou. Quando fomos ver seu prontuário notamos que ela estava há vários anos sem consultar para sua condição cardíaca – uma arritmia. Isso nos deixou uma lição: elogiamos os médicos que consertam heroicamente as falhas do sistema, mas nunca damos o devido crédito àqueles profissionais cuidadosos que não permitem que seus pacientes fiquem tantos anos sem assistência; nunca elogiamos os médicos que silenciosamente evitam os desastres. Esses são invisíveis, tanto quanto o são os canos de esgoto, as bombas de drenagem, os diques para represar o rio, a rede elétrica e a rede de água potável que existem nas cidades e ninguém vê.

Para haver um sistema mais democrático precisamos ultrapassar a democracia liberal e a política sazonal, aquela que só ocorre cada 4 anos. Precisamos nos livrar dos políticos populistas e do sistema que se ocupa tão somente na maquiagem superficial das cidades. Mas, por mais que seja duro admitir, precisamos de novos eleitores, novos cidadãos, personagens ativos na transformação da sociedade em que vivem, agentes mais participativos no dia a dia das cidades, dos Estados e do país. Gente que possa enxergar o valor da melhoria coletiva, e não apenas daquelas mudanças que lhe interessam ou afetam. Com o modelo atual será sempre mais difícil.

Sim, agora vamos consertar as bombas de de drenagem estragadas em Porto Alegre. Precisou aparecer a “pedra de tropeço”, a tragédia, o desastre ambiental, e agora choramos sobre o leite derramado. Até quando nossa visão política vai ser apenas para os próximos 4 anos, quando sabemos que na China os planos são para 50 anos?

Pensem nisso.

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Mãe

Se existe amor, diria Sigmund Freud, este é o amor de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados. Assim, se o amor é um idioma que transita entre nós, é porque ele nos foi ensinado desde muito cedo, quando adentramos, através dela, nesse mundo. A fissura bizarra da ordem cósmica produziu o vazio incurável do desejo, e no centro dessa revolução no destino planetário estava você, mãe.

Parabéns pelo seu dia.

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Inovações

Eu lembro muito bem da chegada do telefone à minha casa no início dos anos 70. Antes disso qualquer comunicação precisaria ser pessoal. Um episódio curioso ocorreu em 1962, quando da morte do meu avô. Nós morávamos em uma cidade chamada São Leopoldo, que está para Porto Alegre assim como o ABC está para São Paulo. No dia da morte meu tio teve que pegar um bonde até o centro de Porto Alegre, ir até a rodoviária e de lá pegar um ônibus intermunicipal até São Léo. Chegando à rodoviária pegou um taxi até nossa casa, na rua São Paulo, quando então deu a triste notícia à minha mãe. O processo inteiro levou toda a manhã, algo que hoje em dia fazemos instantaneamente.

Meu primeiro celular também foi marcante, porque a ideia de andar e falar ao mesmo tempo era inacreditável. Recebi o telefone na antiga CRT e pediram que aguardasse uma hora até que o sinal fosse estabelecido. Fui até um orelhão (quem lembra?) e solicitei a Zeza que ficasse tentando me ligar, até conseguir. Depois de mais de uma hora o telefone tocou quando eu estava caminhando na frente da prefeitura. Foi uma emoção incrível.

Assisti TV colorida no inicio dos anos 70, e lembro da festa da uva, em Caxias, quando foi transmitido o primeiro jogo à cores no Brasil. No dia da festa as pessoas se aglomeravam na frente das lojas para assistir as cores dos uniformes de Grêmio e Caxias. Claro que a transmissão era um horror se comparada às transmissões 4K por fibra ótica, ainda cheia de “fantasmas”, mas quem se importaria com isso diante do eflúvio de cores e tonalidades inéditas na TV?

Talvez os telefones celulares e as TVs a cores sejam menos marcantes do que a sensação fantástica que desfrutamos há pouco tempo, mas que já foi incorporada ao nosso cotidiano. É curioso pensar que há pouco mais de 90 anos quase ninguém podia tomar um banho quente em sua casa. Antes da invenção do chuveiro elétrico (por um brasileiro, aliás) todos os banhos eram gelados ou frios, inobstante a temperatura na sua casa. Hoje em dia ninguém consegue mais imaginar como deve ter sido a emoção de tomar um banho quente pela primeira vez. Nossos corpos facilmente se acostumam com estas inovações e as incorporam como “naturais”, como se fossem privilégios que sempre estiveram ao nosso alcance.

Entretanto, se alguém me contasse há 30 anos que no início do século XXI eu poderia escrever um texto como esse em um visor com teclas e que dezenas de pessoas ao redor do planeta o veriam instantaneamente, eu diria…

“Conta outra, vai…”

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Proposta demagógica

Mais uma vez: retirar recusos do fundo partidário é uma posição reacionária. Descapitalizar as eleições trata a escolha popular como algo menor, como se financiar a democracia fosse algo desprezível e de menor importância. Continuo absolutamente contrário a esta proposta, pelas razões que já expus. Essa proposição fortalece os partidos da direita, os conservadores e obolsonarismo. Equivaleria a usar o dinheiro dos sindicatos para debelar a crise, causando um enfraquecimento das instituições de proteção ao trabalhador. Não faz sentido algum abrir mão de avanços da democracia – como é o fundo partidário – através de propostas populistas para enfrentar a crise. O fundo partidário oferece paridade de armas aos partidos!!! Não se justifica enfraquecer a democracia em nome de uma crise; existem muitas outras formas de capitalizar o governo sem prejudicar as eleições e os partidos de esquerda. Esses fundos foram criados pra dar mais transparência e equidade para as eleições.

Quem sabe tiramos recursos da compra de armas de Israel ou deixamos de financiar a policia assassina? Quem sabe finalmente taxamos os bilionários? Não, a proposta é fazer valer o poder econômico da direita e da burguesia, através do estímulo ao financiamento próprio das campanhas. Quem seria eleito sem dinheiro público? Ora… os empresários, os políticos já eleitos, os milionários, s elite financeira, etc, e não o trabalhador simples, o pedreiro que mora na Lomba do Pinheiro e quer representar sua comunidade ou o funcionario público que deseja uma valorização para o servidor do Estado. Se essa proposta vier a vingar, apenas os ricos terão dinheiro suficiente para financiar suas campanhas; os pobres não terão condições sequer para entregar um santinho. “Proponho a gente cancelar o 13º salário de todos. Não seria uma coisa fixa, apenas um direcionamento pra essa causa, para essa necessidade. Como uma atitude dessas poderia enfraquecer a democracia? Por favor eu queria mesmo entender“.

Ora, estou sendo irônico; não é da população pobre ou da democracia que devemos tirar recursos!!! Essa proposta enfraquece a política, mas só através da política poderemos resolver a crise, até porque foi ela mesma – e as nossas péssimas escolhas – quem criou todos os males que agora enfrentamos. 

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Holofotes

Algumas personalidades da mídia que estão envolvidas com a crise climática atual vêm a público dizer que, no trabalho de ajuda às vítimas da enchente no Rio Grande do Sul, o Estado “só atrapalha” e o que está funcionando é o trabalho valoroso dos voluntários, em especial o pessoal de jet-ski. Fazem isso para valorizar seu próprio esforço, mas por certo que usam esse discurso para igualmente atacar o governo Lula. Bem o sabemos o quanto de base é invisível à vista desarmada, e por isso é preciso trazê-lo à luz. O cidadão comum percebe com facilidade a mão que entrega o sapato, a camisa, o cobertor, a água limpa e a comida, e para ele vão todos os agradecimentos e as homenagens, Entretanto, não consegue enxergar, sem um pouco de atenção e boa vontade, a longa linha de atores que garantiu a realização desse ato de solidariedade: o doador, o motorista, o veículo de transporte, o local onde colocamos os flagelados, a organização, a turma da limpeza, a logística, o apoio dos governos, etc. Na sociedade do espetáculo vale menos um cheque de 50 bilhões do que um garotão de jet-ski.

Ao lado de toda esta mobilização para ajudar as famílias atingidas pela tragédia, a competição dos influencers sobre quem está “ajudando mais” é um dos efeitos colaterais mais asquerosos da tragédia. O auxílio de personalidades não é ruim, mas quando é feita apenas para gerar publicidade – ou para atacar o governo – se torna um caso de polícia. Essa função é primeiramente do Estado, e o governo Lula está agindo de maneira exemplar para tratar as questões mais emergenciais, e já está absolutamente claro que muito da propaganda sobre a iniciativa pessoal de jogadores de futebol, artistas diversos, personalidades, ex-BBBs, surfistas e tem como objetivo principal criar a fantasia de que o governo nada faz. A torrente incessante de fake news, tratando a iniciativa federal como incompetente ou maléfica, prova que para a extrema direita fascista o sofrimento do povo pode ser usado como ferramenta política para atacar o atual governo.

É preciso enxergar para além do meramente manifesto para ser justo em cada avaliação. Para toda estrela de cinema exaltada e aplaudida existem centenas de pessoas nos bastidores e escritórios que financiam e dão suporte ao seu trabalho; para cada cirurgião salvador existe uma enorme equipe de trabalhadores da saúde na retaguarda, sem os quais o trabalho de cura seria impossível. O mesmo ocorre em toda ação de assistência. Cuidado com aqueles que, estando na ponta da linha de acão e sob as luzes dos holofotes, reclamam para si a exclusividade dos elogios e aplausos.

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Fracassos

Em 1955 o ator britânico Charles Laughton decidiu investir na carreira de diretor de cinema após uma frutuosa carreira como ator. O filme escolhido foi “The Night of the Hunter” (O Mensageiro do Diabo, no Brasil), um filme sombrio sobre um pastor de uma igreja (Robert Michum) que nas horas vagas era um cruel assassino em série. O filme foi baseado na história real de um sujeito chamado Harry Powers que se aproximava de viúvas e as matava para ficar com seu dinheiro.

O filme, com suas explícitas referências ao expressionismo alemão, foi um estupendo fracasso de público e crítica. A década de 50 foi uma época de ferrenho macarthismo e controle restrito sobre “obscenidades”; o filme foi desaconselhado por um parecer da “Legião da Decência” (National Legion of Decency) pela forma como retratava o casamento. Tanto nas bilheterias quanto na crítica americana conservadora o filme desabou, deixando um rombo imenso nos cofres da United Artists. Em razão desse retumbante insucesso Charles Laughton desistiu da ideia de dirigir e morreu de câncer 7 anos mais tarde, com apenas 63 anos de idade.

Creio ser essa história relevante apenas porque, décadas depois do seu lançamento em 1955, este filme se tornou cult, tratado como um clássico do cinema, reverenciado e citado por diretores do porte de Spielberg, Scorsese, Spike Lee, os irmãos Cohen e Guillermo del Toro. Em 2017 o “Cahiers du Cinema” o considerou o segundo maior filme da história. Existem referências a esta película até em “O Grande Lebowski“. O que é interessante neste “case de fracasso” é que ele mostra que muitas vezes um trabalho não reconhecido e desprezado quando do seu lançamento não carece necessariamente de qualidade, apenas está adiante do seu tempo. Em verdade, como já diria Nietzsche, este é o grande teste: qualquer coisa que obtenha sucesso imediato poderá ter grandeza, mas dificilmente será transcendente. Para ser algo perene, como a obra de Van Gogh, é necessário que o impacto inicial da obra venha a machucar os sentidos, fazendo doer os olhos e torturar os tímpanos, pois estas são as dores de parto de uma nova perspectiva estética, moral, ética, filosófica ou científica.

Einstein dizia que, ao ser confrontado com uma nova ideia e ela não lhe parecer de imediato absurda, é melhor esquecê-la, pois ela carece do impacto necessário para os grandes saltos da humanidade. Assim também com as novidades corriqueiras que nos atingem todos os dias; mesmo quando parecem tolas, inconsequentes ou equivocadas, talvez estejam apenas anunciando o porvir, aguardando pacientemente que estejamos preparados para elas.

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Dilemas

Ex-estrela adolescente da Disney, Hilary Duff, acaba de ganhar o quarto filho em um parto domiciliar

Escrevi um texto há muitos anos chamado “Dilema Médico” que abordava a questão das difíceis escolhas pelas vias de parto. O texto, depois de vários anos, se mantém atual, pois o corpo das mulheres ainda é um território sob disputa. O que lá escrevi contém as mesmas perspectivas que até hoje são relevantes. Entretanto, mesmo que o debate entre os ativistas tenha avançado, o olhar jurídico continua infectado pelo mito da transcendência tecnológica, conforme descrito por Robbie Davis-Floyd há mais de 30 anos. Ou seja: se há um dilema que paira sobre o momento maiOu seja: se há um dilema que paira sobre o momento mais adequado e seguro de intervir na fisiologia do nascimento, objetivando salvaguardar o bem-estar de ambos – mãe e bebê, também é evidente que para os médicos (e também os complexos médico-hospitalares) a intervenção ostensiva se tornou a forma prioritária de atenção por ser a forma mais segura… para quem o assiste.

Há 40 anos eu dizia que a cesariana se tornava a rota de fuga com mais segurança para os obstetras, e as perseguições a quem se opunha à tendência de artificialização do parto ameaçavam a prática do parto normal. A frase que eu escutava à época, por parte dos professores, era: “Uma cesariana permite ao obstetra sair da sala de parto com a cabeça erguida; um parto, nem sempre”. Uma intervenção sobre o corpo das mulheres, necessária ou não, garantiria a honra e a consideração sobre o profissional; uma ação mais moderada ou conservadora acrescentaria riscos inequívocos para os cuidadores. Assim, o lema dos profissionais, de forma consciente ou inconsciente, se tornou: “na dúvida, passe o bisturi e salve a sua pele”. Todavia, quem poderia julgar profissionais que, diante dos dilemas de um nascimento, pensam na sua carreira, fé pública, profissão e filhos?

Desta análise surgiu a convicção que o debate sobre parto nas sociedades ocidentais não pode se esgotar nas questões científicas. “Parto faz parte da vida sexual de toda a mulher”, como dizia Michel Odent, e se a sexualidade é uma questão política, o nascimento também o será. Enquanto a sociedade não pressionar o judiciário para uma visão mais racional e científica – abordando os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres de forma abrangente – as decisões serão mediadas por esse imperativo intervencionista, até porque esta perspectiva interessa à corporação médica. Uma cesariana é sempre a vitória da técnica sobre a natureza e, por conseguinte, terão supremacia e importância social garantidas aqueles que controlam essa técnica.

De uma certa forma a cesariana se mantém alta como tendência porque ela está em consonância com os interesses dos profissionais da medicina e sob o controle do judiciário, inobstante o fato de não existirem estudos que justifiquem sua alta incidência e se avolumam as pesquisas que apontam seus múltiplos problemas, dos riscos cirúrgicos, anestésicos e hemorrágicos até as questões relacionadas ao microbioma dos bebês e seu desenvolvimento intelectivo. Entretanto, tudo isso ocorre porque ainda não há massa crítica sobre o tema em nossas sociedades ocidentais; não existe a suficiente consciência entre as mulheres sobre a expropriação de seus partos, a retirada do nascimento do seu âmbito de decisão e a diminuição da importância da família sobre os valores que cercam um nascimento. Para que não haja revolta, elas são mantidas na ignorância por interesse de quem controla o nascimento e seus significados.

* a partir de uma conversa com Braulio Zorzella

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Paradigmas

Uma das coisas mais engraçadas do discurso político atual é quando a direita, e mesmo muitos bolsominions das redes sociais, dizem que os representantes públicos deveriam trabalhar gratuitamente, sem receber nada por sua representatividade. Além disso, reivindicam que não deveria haver imposto para os trabalhadores e comerciantes, que já são suficientemente taxados pelo consumo. Por fim, reclamam da falta de “capacidade” e de cultura (formal e acadêmica) de alguns políticos – em especial Lula – exigindo que os cargos políticos e jurídicos do país sejam conquistados através de concursos públicos e só possam ser exercidos por quem tem diploma; ou seja, por meritocracia.

É curioso quando percebemos que tais exigências já foram implantadas há muitos anos na…. Coreia do Norte. Em Cuba, igualmente, não há impostos sobre a renda e os representantes das assembleias populares não ganham nada para trabalhar pelo povo. Todo trabalho político é voluntário. O socialismo deu conta dessas reivindicações – além da paridade de direitos e oportunidades entre os gêneros – há décadas. Quanto à religião, fazem coro à manifestação de Michele Bolsonaro, que diz que “O Brasil é do Senhor Jesus”, vinculando a nação a uma única corrente religiosa, algo que deveria ter sido superado desde o fim do século XIX. Nosso estado é laico e plural, respeitando todas as crenças e credos. Nesse aspecto, os defensores da direita pretendem que nosso paradigma seja o… Afeganistão.

No fundo os conservadores temem uma sociedade mais justa, mais equilibrada, mais equânime e mais fraterna. Acreditam que as diferenças brutais que o capitalismo produz são “naturais” e representam as diferenças subjetivas de cada um. Mesmo reconhecendo algumas diferenças inatas, não é aceitável acreditar que elas surjam de determinações divinas, e não da perversidade da estrutura social, que segrega grandes porções da sociedade na disputa justa pelo sucesso. Para a imensa maioria, o destino já está determinado ao nascer.

É contra esse determinismo darwinista que a verdadeira esquerda se insurge, lutando – através do choque de classes – para a implantação de uma estrutura social realmente fraterna e justa.

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Fundo partidário

O dinheiro do fundo partidário é para oferecer alguma paridade de armas na disputa pelas eleições. Ele oferece oportunidade para que partidos pequenos recebam dinheiro para pagar suas campanhas e que o poder econômico não seja avassalador, mudando os resultados pelo aporte de recursos. O medo seria ocorrer o que acontece nos Estados Unidos onde apenas dois partidos podem participar das eleições pelos custos astronômicos das campanhas.

Assim, acabar com o fundo partidário favorece o grande capital e os partidos burgueses. O Partido Novo tem financiamentos milionários de seus militantes, que pagam uma pequena fortuna para serem filiados. Já o PSOL, o PCO, o PSTU e a maioria dos partidos de esquerda (fora o PT) mal tem dinheiro para sobreviver. Os partidos burgueses podem viver sem o fundo partidário; os partidos operários precisam dele. Alguns, ingenuamente, afirmam que “Não existe partido político pobre , tem menor poder de barganha, mas pobres não tem.”

Estes precisam conhecer os pequenos partidos, como o PCO, que sequer recebe a ajuda através do fundo partidário (somente do fundo eleitoral). E sobre fazer cada partido pagar suas custas para dar conta das eleições, é imperioso esclarecer que isso já acontece na gringa – nos Estados Unidos, paradigma da democracia liberal no planeta. O bipartidarismo americano – que esconde a realidade de que se trata do mesmo partido dividido em duas siglas – é fruto desse liberalismo, que faz com que seja virtualmente impossível o surgimento de outro partido para competir com a direita americana. No Brasil, sem os fundos públicos, ocorreria o mesmo fenômeno de degradação da representatividade. Aliás, já tivemos isso com a Arena e o MDB, o que fazia liberais de direita como Pedro Simon, e comunistas como José Genoíno, Zé Dirceu e outros estarem dentro da mesma sigla “fantasia”, ou partido “guarda-chuva”. Repito: o fundo partidário e o fundo eleitoral são medidas de esquerda, democráticas, feitas para se contrapor ao poder gigantesco da direita e dos fascistas. Sem estes instrumentos teremos eleições ainda mais desiguais e comandadas pelo poder econômico.

Nos Estados Unidos a campanha presidencial de 2024 custará 16 bilhões de dólares, cerca de 80 bilhões de reais – bastante se comparado aos 5 bilhões que vamos utilizar na campanha toda – de vereadores a prefeitos. De onde vem o dinheiro para isso? Ora, de doadores – pessoas físicas e jurídicas. Mas o que eles ganham com estas doações? Muito simples: nos Estados Unidos um presidente é algo que se compra, alguém que estará lá com o rabo preso pelo financiamento de sua campanha. Qualquer presidente americano chega ao poder prisioneiro de suas dívidas com financiadores. Portanto, quem manda no presidente é a alta burguesia, o complexo industrial militar, as bigtechs, a indústria farmacêutica e o agronegócio. Lá a “liberdade” oferece ao capital o direito de determinar quem governa o país.

Sabe qual o percentual de americanos que apoia a ideia de uma “saúde universal” e estatal, controlada pelo Estado? Ao redor de 63% dos americanos, dados de 4 anos atrás, num valor que aumenta ano a ano. E por que ela jamais é feita? Porque os controladores do governo, o “deep state”, que comandam o complexo médico, farmacêutico e de seguros de saúde bloqueia qualquer iniciativa nesse sentido. Podemos chamar isso de democracia? E se um candidato carismático aparecer com essa bandeira da saúde universal, o que acontecerá? Fácil imaginar que não teria chance alguma nas primárias de ambos os partidos, mas se por acaso tivesse talvez fosse morto, como ocorreu com JFK, Malcolm X ou Martin Luther King Jr.

Ou seja: a retirada do fundo partidário antes das eleições vai oferecer uma vantagem espetacular à direita, em especial para os candidatos burgueses que vão sustentar suas próprias candidaturas. Essa é uma medida que partiu dos think tanks liberais para favorecer seus candidatos conservadores. Ofereço como alternativa quebrar o contrato com a famigerada Elbit, empresa de segurança do Estado Terrorista de Israel, para a compra de equipamento militar e usar o dinheiro que iria para armamento nessa situação de catástrofe.

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