Cuba

Está é a história de um casal de gays que, pouco tempo depois de se casarem, decidem mudar para um condomínio de casas. Logo após fazerem a mudança percebem o incontido desconforto dos vizinhos. Com o tempo estes cochichos e narizes torcidos se transformam em rechaço aberto por parte de muitos moradores. Não só isso: o casal é atacado, boicotado e humilhado frequentemente. Tem o carro riscado, os pneus furados e as janelas quebradas por pedras. São desprezados nas reuniões de condomínio e suas queixas não são levadas em consideração. Diante de todas as provas oferecidas recebem como resposta apenas um conselho: “Se não estão satisfeitos, saiam daqui”.

As ameaças constantes, e as dúvidas sobre como agir, produziram ansiedade e angústia crescentes. Com tanta pressão o casal entra em conflito: um deles deseja mudar e com isso obter tranquilidade e paz para viver; um sonho de vida não poderia se transformar em uma constante tortura. O outro, por sua vez, apela para a necessidade de se buscar justiça, os direitos humanos e a honra, dizendo ser esta uma “boa luta”, um confronto em nome de todos aqueles que sofrem preconceito. A distância entre as visões de ambos, com o tempo, se torna inconciliável. A diferença de postura diante dos ataques – sutis ou explícitos – acaba por produzir uma rachadura na relação, e desta surge a inevitável ruptura. Pouco tempo depois, separam-se, vendem a casa, e cada um vai refazer sozinho a sua vida.

Um velho casal de moradores da mesma rua, ao fazer sua caminhada matinal, vê a placa de “VENDE-SE” pendurada na porta. Um deles, sabendo quem outrora morava naquela casa, comenta com o outro:

“É como eu sempre digo: este tipo de relacionamento dificilmente dá certo”.

Deixe um comentário

Arquivado em Ficção, Pensamentos

Ruptura

Se houve uma vitória moderada da extrema direita no parlamento europeu (de 118 para 131 cadeiras) nas eleições recentes também é verdade que os comunistas obtiveram um forte crescimento, em especial nos países nórdicos, e com uma retórica claramente antissistema, anticapitalista e contrária à guerra. Desta forma, fica claro que a vitória nas eleições foi daqueles que repudiam, com maior ou menor veemência, os atuais sistemas de governança europeus. Protestam contra os sintomas de degenerescência de um modelo econômico de maturidade tardia, mas que é incapaz de oferecer o que prometeu: o crescimento econômico aliado à qualidade de vida aos trabalhadores. Segundo o pensador esloveno Slavoj Zizek, a crise ecológica, a revolução biogenética, os desacertos do próprio sistema (propriedade intelectual, a disputa por petróleo, matérias-primas, comida e água) e o dramático crescimento das exclusões sociais através do refinamento da concentração de renda, serão cada vez mais intensificados no século XXI. Se é verdade que o capitalismo teve um sucesso espantoso na produção de bens de consumo e no estímulo à descobertas também é certo que sua tendência concentradora de riqueza e a divisão social inexorável denunciam sua senescência.

Ou seja, o fracasso da esquerda liberal, em especial os partidos da social democracia europeia, deveria nos fazer reconhecer o quanto a rota de “adaptação” ao liberalismo usada pela esquerda tradicional da América Latina também vai inevitavelmente nos levar a um beco sem saída. Não será mais possível continuar a afagar o mercado e os capitalistas ao mesmo tempo em que tentamos oferecer um horizonte mais justo ao trabalhador. Por esta razão, é inútil tentarmos moderar a sanha capitalista, humanizar seus ganhos ou domesticar sua voracidade; é preciso recriar o discurso de ruptura da esquerda, sem concessões ao capital, de enfrentamento à direita, frontalmente contrário ao imperialismo e contra o discurso bélico da OTAN. Se isso não for feito, permitiremos que a extrema direita, eternamente subserviente aos Estados Unidos, cresça usando a fantasia da indignação, a narrativa antissistema, com a falsa retórica da ruptura para manter o poder das corporações e do imperialismo intocado.

Ainda segundo Zizek, as fases de adaptação à morte do capitalismo se assemelham àquilo que ocorre na intimidade do indivíduo quando defrontado com um diagnóstico inexorável de morte. Segundo ele, da mesma forma como os indivíduos, as sociedades utilizarão o sistema de adaptação ao luto criado pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross para resolver as mortes de suas utopias. A primeira fase é a da negação, que vai se observar na ideia de tentar mostrar o capitalismo como o “fim da história”, e a democracia liberal o derradeiro e acabado modelo social. Esta negação, profunda e dolorosa, apenas retarda o reconhecimento do desfecho inevitável. A ela se segue a raiva, e provavelmente esta é a fase que podemos identificar nas massas bolsonaristas ou na juventude de extrema-direita fascista nas marchas neonazistas na Europa. A raiva com o sistema político foi capitalizada pela direita para usar a energia de indignação para dar uma sobrevida ao capitalismo na UTI. Depois disso, vencida a raiva pela triste confrontação com a realidade, vem um processo de barganha, quando haverá a tentativa de adaptar o capitalismo moribundo a uma forma mas justa de divisão de riquezas, mas mantendo intacta a divisão de classes que caracteriza o modelo mesmo tempo que o condena ao desaparecimento. Diante das falhas nas fases anteriores, e em face do aprofundamento dos sintomas do paciente terminal, sobrevém uma depressão. A partir dessa tristeza – pela da morte do sistema que nos seduziu nos últimos séculos – deverá surgir a aceitação, que nos levará ao processo revolucionário e a necessária superação do capitalismo.

Não podemos esquecer que foi exatamente esse o caldo de cultura para o crescimento do fascismo europeu há 100 anos, cuja retórica tinha a mesma origem: a insatisfação com a estrutura da circulação do capital global. O que os europeus rejeitam é o atual estado de coisas, mas ainda não perceberam que a direita é a exata manutenção – travestida de mudança – no atual modelo capitalista concentrador de renda e destruidor do meio ambiente. A Europa mostrou nas últimas eleições o que não quer, mas ainda não percebeu que esta consciência não basta; é precisa mostrar o que realmente deseja. A esquerda do sul global precisa entender que não é o momento de realizar concessões à direita, mas que é o tempo de radicalizações, de aprofundamento das contradições do capitalismo, mostrando – em especial à juventude – que temos alternativas à esquerda para a crise mundial do capitalismo. Esperamos que a ruptura necessária que se esboça não conduza ao poder os mesmos fascistas perversos que levaram 60 milhões à morte no século passado.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

A Verdade

Bem, talvez dizer que “cada um tem sua verdade” seja tão alienante quanto a ideia de buscar a Verdade, como se esta fosse um ente possível de encontrar pelo sujeito, pela filosofia ou pela ciência. Nietzsche já nos dizia que “por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade por medo de destruir suas ilusões”, mas, ao mesmo tempo, dizia não haver “fatos eternos e verdades”. Contra a ideia positivista de que no mundo há apenas fatos, Nietzsche respondia: “Não, fatos são em essência o que não existe, tudo o que temos são apenas interpretações”. Ou seja, mesmo para ele, a busca pela Verdade era muito mais um caminho de depuração dos preconceitos acumulados do que uma real luta para encontrar a clareza total e luminosa da realidade do mundo. Além disso, longe de ser estranho, o conforto que sentimos nas doces ilusões da vida e o apego às mentiras que teimamos em não abandonar são as principais características que nos tornam humanos. Não?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

O Oportunismo dos Sionistas

Que curioso!!! Exatamente quando Israel promove um holocausto palestino, matando mais crianças mulheres por dia do que o próprio Adolf em seus dias de “glória”, surge uma série para glorificar os judeus mortos nos campos de concentração há quase um século atrás. A série, chamada “O Tatuador de Auschwitz”, foi realizada por Tali Shalom-Ezer e tem produção executiva de Claire Mundell. Não há dúvida que a estreia internacional vai coincidir com o maior desastre de relações públicas já ocorrido nos mais de 80 anos de vida de Israel. Universidades pelo mundo inteiro estão sendo ocupadas com estudantes que exigem o fim dos massacres sionistas contra crianças, mulheres e homens palestinos, assim como uma solução para a ocupação e o Apartheid que já perduram por mais de 70 anos. Esta “coincidência” nada mais é do que uma “manobra diversionista” e cumpre duas funções: trazer de volta a ideia gasta de que os judeus são as “eternas vítimas do mundo” – o que os autoriza a realizar todas as atrocidades que testemunhamos desde o Nakba em 1947 – e desviar a atenção da fantástica debacle mundial da imagem de Israel.

Este país falso, roubado da comunidade Palestina que lá vivia há séculos, agora tornou-se mundialmente conhecido como o país do terror, do holocausto palestino, do genocídio, do massacre de crianças, do apartheid e da limpeza étnica. A data de 7 de outubro de 2024 marca um corte fundamental na história da Palestina, expondo as entranhas dos horrores e dos abusos da ocupação sionista e produzindo um estrago irrecuperável na forma como o mundo enxerga esse enclave europeu. Nunca antes a violência e o terrorismo de Israel estiveram tão evidentes quanto depois da ação da resistência armada do Hamas e outros grupos.

A história não vai retroceder, e o estrago já está feito. Israel, a partir daquele dia nos umbrais de outubro, teve sua real essência mostrada nas redes sociais para cada sujeito que segurava um smartphone no planeta. Nem Barbra, nem Spielberg, nem Seinfeld… nenhum deles será capaz de salvar Israel da maldição que vai se abater sobre os colonizadores brutais e perversos. Os crimes contra a humanidade cometidos até hoje não poderão ser apagados por estas manobras de propaganda descarada. O mundo inteiro acordou para a barbárie racista de Israel.

Apesar da obra ter seu valor, não é possível acreditar que o seu lançamento agora não seja uma clara ação oportunista para tentar limpar a imagem imunda do sionismo genocida de Israel. Os crimes contra a humanidade cometidos desde a brutalidade do Nakba não ficarão impunes. Não vão nos enganar com essa patifaria. Yasser Arafat, onde estiver, sorri para um porvir democrático e de paz em sua terra.

“Aprofundando as informações sobre a nova música que Barbra Streisand gravou para a minissérie “O Tatuador de Auschwitz”, esta será a primeira vez que um tema da diva judaica americana é usado para um programa de TV. Streisand disse que com a música procurou lembrar das vítimas do Holocausto.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Lutas incessantes

Meu pai sempre foi um conservador, mas no final da vida atingiu o estágio de “liberal de esquerda reformista”. Caso tivesse mais 60 anos convivendo comigo teria a chance de se livrar das amarras liberais e entender o modelo capitalista como um sistema fadado ao fracasso, pois que não há como esperar um crescimento infinito e constante em um mundo de recursos limitados e finitos. Além disso, esperar que uma sociedade de classes, dividida entre os capitalistas – que tudo têm – e os proletários – que tudo fazem – mantenha-se em “harmonia”, é uma ilusão tola. A luta de classes é a consequência natural da opressão das classes oprimidas; não há como escapar do destino humano de lutar por liberdade.

Dito isso, lembro bem do quanto ele reclamava de minhas posições políticas, em especial pela minha radicalidade. “Não é fácil ser pai de comuna”, pensava ele. Seus mais de 90 anos na lavoura do espiritismo – a maior parte deste tempo ainda cristão – o transformaram em um sujeito de inegável docilidade. “Escreva sobre partos e nascimentos”, pedia ele. “Gosto de sua visão poética sobre o nascimento e suas consequências civilizatórias, o parto como elemento essencial da sexualidade humana e o nascimento como formatador do desejo, que tanto nos escraviza quando nos impulsiona. Fale do “nascer com pressa”, que acaba por produzir a fissura bizarra na ordem cósmica”.

Ele gostava dessa perspectiva, mas não sabia o quanto ela é igualmente revolucionária. Se existe amor, cuidado e carinho na forma como os humanistas encaram o nascimento, também há necessariamente enfrentamento e agitação, que brotam naturalmente dessa perspectiva. O nascimento, inserido em uma sociedade patriarcal, ainda é dominado pela corporação médica, que o trata como os outros eventos médicos, onde o profissional é o protagonista dos processos de cura e o paciente o sujeito passivo dos tratamentos. Porém, contrariamente ao que ocorre nas doenças, o parto é um evento da fisiologia, que deve ser conduzido pela “lógica do cuidado”, ao invés da “lógica da intervenção”. Por esta simples razão, o nascimento humano jamais deveria estar nas mãos de profissionais da saúde que são regidos pelo intervencionismo e que lucram com a a crescente complexidade e a medicalização desse evento. Qualquer país que tem o cuidado do parto delegado às parteiras profissionais têm melhores avaliadores de qualidade do que os países que medicalizaram esta assistência e o colocaram nos hospitais e nas mãos dos médicos.

Por esta razão histórica – a invasão do nascimento pela Medicina – a qualidade do nascimento estará na dependência da vinculação ideológica do obstetra com o tema do parto. No modelo atual, o que os pacientes desejam vale (muito) menos do que as crenças e a experiência do profissional médico, o qual vai tomar esse nascimento sob seu controle e sob suas condições. No hora derradeira do nascimento, o desejo da paciente, mesmo que se mantenha firme durante o bombardeio do pré-natal, ainda continuará valendo muito menos do que a autoridade do obstetra, e será dele a decisão final sobre o que vai ocorrer.

Apesar da taxa de cirurgias cesáreas ter declinado desde 2017 no setor suplementar de saúde, passando de aproximadamente 86% em 2017 para cerca de 81,8% nos anos de 2021 e 2022, ela ainda se mantém uma das mais altas do mundo, uma situação vexatória para o país. Desta maneira, em uma sociedade  onde a classe média tem uma taxa de cesarianas de 90%, um parto vaginal – sem falar de partos humanizados – só poderá ser alcançado através de muita luta e enfrentamento. Entretanto, é preciso criar uma geração de mulheres que entendam a importância do respeito à fisiologia do parto ao ponto de cerrarem fileiras para este tipo de combate. A disparidade de poder ainda é gritante, mas não será desfeita atacando os médicos, mas exaltando o poder e as capacidades das mulheres que pretendem parir com segurança e através dos seus próprios valores. Não há como conseguir um parto normal em nossa cultura sem bater de frente com o sistema, mas bem o sabemos que poucos estão dispostos e capacitados a aceitar esta realidade.

Meu pai queria fraternidade, concórdia e paz, mas eu só podia oferecer a espada. Mesmo fugindo das questões da política geral, acabamos caindo na política dos corpos, dos desejos, da liberdade e da atuação prazerosa na vida. Talvez amadurecer seja suportar a dor de frustrar os desejos de um pai. Na vida política e no debate sobre a forma como nascemos não existem direitos garantidos de forma fácil; nada é recebido em dádiva, e todo e qualquer avanço se dá pela luta incessante pela conquista de espaço.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

O Fim de Israel

A situação para o imperialismo no Oriente Médio está cada vez mais insuportável. Ao meu ver, está insustentável. Se, na melhor das hipóteses para os imperialistas, Israel capturasse todos os líderes do Hamas e matasse mais de 100 mil mulheres e crianças, ainda assim a resistência Palestina se renovaria, na Jordânia, no Líbano, na Síria e nos túneis sob os escombros, e teria ainda mais suporte da comunidade internacional. Não há futuro para o racismo e o apartheid de Israel.

O mundo não aceita mais impunemente visões supremacistas e ditaduras étnicas. Israel é um país condenado pela sua própria natureza excludente e precisa acabar; seu fim é uma questão de tempo. Os palestinos enfrentaram a ocupação por 75 anos e não foram derrotados; não é agora que serão batidos. O Império está caindo diante dos nossos olhos e uma Palestina Livre, multinacional, com cristãos, judeus e muçulmanos irmanados será criada em seu lugar.

FREE PALESTINE!!!

https://fb.watch/syKa76qCs4/

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina

Arte popular

Eu tive que ler este texto escrito por um sujeito que se diz de “esquerda”. Sua tese é calcada no “mau gosto” intrínseco à Festa de Parintins, um espetáculo da cultura do Amazonas que se realiza todos os anos e divide a cidade entre os “azuis” e o “vermelhos”. Essa é a sua opinião sobre o espetáculo que foi obrigado a assistir:

“Meu pai trabalhou um tempo em Manaus e, num final de semana que fui passar na casa dele, me fez assistir uma gravação do tal “Boi de Parintins”. Eu não lembro se aprontei alguma coisa para receber tal castigo, que fazia os interrogatórios de Guantánamo parecerem uma ida ao Parque de Diversões. Foram horas vendo aquela coisa cafona. Uma mistura de Escola de Samba do Grupo C com Broadway de apresentação de colégio. Os “Indígenas” faziam os de Hollywood dos anos 50, parecem resultado de consultoria com o Levy Strauss. Depois dessa eu já sei que não reencarno mais.”

Tchê, na boa…. qual o real objetivo desse seu comentário? Quando comecei a ler achei que o autor estava brincando, e que sua postagem guardava um “plot-twist” que colocasse a cultura popular em destaque. Engano meu, era mesmo puro preconceito. Fico realmente com dúvida sobre o que o moveu a escrever algo tão agressivo com a festa de Parintins. E olha…. eu pessoalmente – pela notória fobia social conjugada com minha cintura dura – não tenho conexão com este tipo de manifestação popular, mas não me atrevo a entender isso como uma cultura “menor”. Desdenhar dessa forma de arte popular, em especial daquela oriunda da região menos privilegiada da federação, me parece de um elitismo superado e sem sentido. Faço este questionamento de boa, porque não consigo imaginar a razão para tamanho desprezo pelas coisas do povo.

Essa manifestação muito me lembra as pessoas com manifesto rancor pela vida, com tristezas inconfessas, amores mal digeridos, que costumam fazer discursos contra o Carnaval, o samba e o futebol, e com os recursos economizados criar escolas, polícias armadas e fábricas, como se o ser humano fosse um mísero primata despelado e utilitário, sem razão de existir para além do que produz, sem direito à alegria, ao prazer e ao ócio.

Mesmo reconhecendo minha distância destas manifestações populares de extravasamento incontrolável de alegria eu sei o quanto elas atingem o coração do povo, sua musicalidade, suas cores, suas paixões, sua especial perspectiva de mundo e seu modo de ver a própria vida. Qual o real sentido em tratá-las com tamanho desrespeito e desdém?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Sorte

Muitas pessoas entraram em contato comigo durante a grande enchente que passamos para saber como estávamos aqui na Comuna. A todos expliquei que a localização onde nos encontramos nos protege das chuvas. Estamos em um vale, entre os morros que circundam a cidade de Porto Alegre, longe do rio Guaíba, e nossa topografia nos coloca a 70 metros acima do nível das águas. Somos inatingíveis pelo rio.

Curiosamente, quando há 10 anos surgiu a ideia de criarmos uma comunidade intencional fomos visitar vários lugares, na nossa cidade e nos arredores. Um deles foi Viamão – cidade ao lado da capital do RS – numa área muito maior, mas cujo acesso era muito dificultoso e longe do centro de ambas as cidades. O preço também era bem maior e inalcançável pelas nossas parcas economias, e por isso esta opção foi descartada. Outra propriedade que fomos visitar era na cidade de Eldorado do Sul, cidade que se situa logo após atravessar a “ponte do Guaíba”, saindo de Porto Alegre em direção à parte sul do Estado. Era um condomínio muito bonito, com vizinhos famosos, e uma vista maravilhosa do rio que separa aquela cidade da capital. A distância e o preço também nos impediram a compra, e por esta razão acabamos desistindo.

Nossa insistência nos fez encontrar, algum tempo depois, o local de agora, onde já estamos estabelecidos há 7 anos. Quando aqui chegamos, este era um bairro pouco valorizado, ainda que dentro de Porto Alegre, mas muito verde, com matas nativas e um riacho ao fundo, porém com problemas estruturais sérios: sem acesso à internet – inclusive sem telefonia celular – e sem via de acesso adequada, pois a única forma de chegar ao local era através de uma estrada vicinal de saibro, totalmente esburacada, que se tornava completamente intransitável durante as chuvas. Passaram-se os anos e estas condições foram aos poucos ajustadas; hoje temos uma rua com piso novo e acesso à internet de boa qualidade. Porém, não fossem estas péssimas condições iniciais e seria igualmente impossível comprar o local onde erguemos a Comuna. Ou seja: fomos bafejados pelo hálito doce da Deusa Álea – a divindade dos eventos aleatórios – e tivemos muita sorte de não fazer nenhuma das escolhas que, no futuro, se mostrariam desastrosas.

Quando me ligam perguntando como estamos aqui em decorrência das enchentes que castigaram o Estado, eu imediatamente lembro que o local que visitamos há alguns anos hoje está submerso; o bairro inteiro, que fica próximo da margem do rio, praticamente desapareceu, assim como boa parte da cidade de Eldorado do Sul. Cada vez que me perguntam eu paro para pensar nas coincidências da vida e nas decisões fortuitas – ou não – que tomamos. Poderíamos estar agora lamentando a perda de tudo que construímos em mais de 40 anos de trabalho. Poderíamos estar confinados ainda na casa de parentes ou em abrigos, tendo nossa comunidade destruída pelo avanço das águas. Por esta razão, agradeço as coincidências que nos protegeram desta tragédia. Agora consigo, mesmo que superficialmente, ter uma ideia do quanto esta catástrofe abalou a vida das pessoas que perderam tudo nesta enchente. Espero que a dor que sentimos – de forma direta ou indireta – seja capaz de mobilizar a todos para as reformas necessárias em nível local e sistêmico para que este tipo de catástrofe não se repita. Todos os indicadores apontam para o retorno – em breve!! – deste tipo de acontecimento climático, e precisamos estar preparados para o próximo revés. E que o Rio Grande do Sul possa fazer as escolhas políticas que não fez, principalmente motivados que estávamos pela retórica neoliberal e fascista que se apossou do Brasil.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Riqueza

Houve dois momentos na minha vida nos quais eu tive a nítida sensação de riqueza. Ou seja: a percepção de ter dinheiro sobrando, em demasia, para mais do que necessitaria, a ponto de não ter ideia do que fazer com ele. Sim, foram sensações fugazes, passageiras, momentâneas e rápidas, porém intensas o suficiente para que eu as recorde até hoje.

A primeira ocorreu há 45 anos. Comecei a trabalhar como interno em um Pronto Socorro aos 18 anos, ainda no segundo ano da Faculdade. Era, segundo meu pai, um “maleteiro“, carregador de “maleta”, uma enorme caixa de medicamentos usados pelo médico nos atendimentos domiciliares. Também era “padioleiro”, alguém que fazia transporte de doentes entre um hospital e outro. Depois do primeiro mês de trabalho recebi meu salário, referente às horas que fiquei de plantão no pronto socorro. Lembro que naquela época uma noite de plantão pagava o equivalente a 50 reais nos dias de hoje, mas o dinheiro era o que menos contava; a gente fazia plantão mesmo era para aprender.

Cheguei em casa com o bolso da calça cheio de notas, pensando em como usaria todo aquele dinheiro (uma calça US Top? uma camiseta da Gang? um tênis Bamba? livros?). Meu pai me recebeu em casa com um envelope nas mãos, e nele estava a minha “mesada”. Olhei o envelope e sorri. “Mais dinheiro ainda? Que vou fazer com tudo isso?”, pensei. Disse ao meu pai que não era necessário, mas ele fez questão de me dar aquela que, depois percebi, seria a última das mesadas da minha vida. Poucas vezes tive uma sensação tão grande de opulência.

A segunda vez foi há alguns poucos meses. Depois de uma longa luta contra as burocracias do INSS eu recebi meu primeiro salário como aposentado. O salário, aliás, muito menor do que eu gostaria, mas muito mais do que eu esperava receber. Os cálculos da aposentadoria de profissionais liberais são misteriosos e o resultado é sempre uma surpresa. Depois de muitos anos vivendo num modelo de contenção de gastos e minimalismo, a sensação de ganhar um salário fixo pelos 40 anos de contribuição ao INSS me pegou de surpresa. Tive a mesma sensação da adolescência ao achar que estava ganhando muito mais do que precisava. Sim, já passou, e agora estou de volta à ordem natural da vida, esperando e desejando mais do que tenho. De qualquer modo, ver minha conta no banco recebendo estes valores me conectou imediatamente ao meu primeiro pagamento.

O segredo do amor, segundo sábios do passado, é sentir que está recebendo algo além do seu merecimento. É acordar de manhã, olhar para sua alma gêmea e se perguntar “O que fiz para merecer uma pessoa tão especial como esta? Por que eu?” No mesmo sentido, o segredo do equilíbrio na vida cotidiana é não apostar jamais sua felicidade na posse das coisas, escravizando seu desejo ao que pode ser comprado. “Tudo de real valor na vida é gratuito”, dizia meu amigo Max. O afeto, o amor, a presença da família, os filhos, os netos, a chuva, o sol, os pais, nada disso se encontra em uma prateleira ou vitrine, e muito menos tem uma etiqueta de preço pendurada.

Eu costumava provocar meus filhos quando pequenos perguntando a eles quem era mais rico, eu ou o Sílvio Santos, ao que eles respondiam: “O Sílvio é muito mais rico do que você!!”. Então eu os contestava dizendo: “Pois eu não sei quem é o mais rico, vai depender do quanto o Sílvio Santos deseja”. Sêneca nos ensinou que “não é a carência que produz a pobreza, mas a multiplicidade dos desejos”. Por isso minha surpresa nessas duas ocasiões: acostumado a não desejar pela falta de recursos, a pequena quantia que recebi pareceu exagerada e capaz de satisfazer todos os desejos do momento, mesmo que o tempo viesse a criar outros desejos e a certeza da falta novamente viesse a me fazer companhia. Porém restou uma lição: o segredo da riqueza não está em muito possuir, mas em reconhecer o valor do que não tem preço.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Expectativas

Muitos estão exaltando o Vini – Vinícius Júnior, jogador do Real Madri – que, ao que parece, é um bom garoto. Desde que chegou ao Real Madri, vendido pelo Flamengo, sempre teve uma postura altiva e corajosa contra o racismo a que foi submetido, fazendo capas de jornais e revistas esportivas por não se calar diante das agressões que sofreu. E, por certo, acima de tudo ele é um fantástico jogador, responsável pela última conquista de seu time na Champions League. Diante desse sucesso, quiseram (imprensa, torcida, mídias sociais) contrapor sua imagem de “bom garoto” à do jogador Neymar, o “mata-borrão” predileto da torcida tupiniquim, visto como o principal responsável pelos nossos últimos fracassos na disputa da Copa do Mundo. Esse contraste do “bom menino” com a do “moleque irresponsável” serve como idealização dos nossos heróis jogadores, mas como sempre, está longe da verdade.

As pessoas, entre elas os jogadores famosos, são cheias de contradições e inconsistências. Somos incoerentes, surpreendentes e mutantes. O Vinícius não merece que se coloque em seus ombros a carga de ser o bom menino que vai nos redimir, da mesma forma como as críticas morais ao Neymar Jr estão carregadas de moralismo, ataques exagerados e uma tentativa de desmoralizar os craques brasileiros, em especial aqueles que saem do Brasil para enriquecer na Europa. Sim, existe até um interesse imperialista de desmerecer os talentos nacionais. Além disso, esse Vinicius Júnior, longe de ser o antípoda de Neymar, é parceiro do Neymar na seleção brasileira; são amigos de muito tempo. Suas perspectivas de mundo devem ser muito mais próximas do que aparentam.

“Ahh, mas ele é campeão da Champions League e não quer privatizar praias”. Ora, ele não quer ou não tem cacife para isso? Não deseja ou não pode? Sabemos que esses recursos para a construção de megaprojetos de turismo na nossa orla o Neymar tem, e essa deve ser a diferença essencial. Será que o Vini é realmente virtuoso ou apenas não atingiu o nível obsceno de riqueza de outros que vieram antes dele? Não tenho a resposta, mas sei que a única forma de avaliar é aguardar. Neymar já foi um garoto assim, um menino que carregava as nossas esperanças de reconquistar um título de Copa do Mundo. Infelizmente o dinheiro em quantidades indecentes o ligou primeiro ao Bolsonarismo e, agora, ao Luciano Huck e à proposta perversa de privatizar praias brasileiras. Neymar é produto do capitalismo tardio, do culto à ostentação e da valorização do hedonismo depois da queda das utopias socialistas dos anos 90; ele é muito mais resultado de um contexto do que sua causa.

Criar expectativas em jogadores de futebol é um risco demasiado alto; o meio onde vivem é de competividade tóxica, opulência, exibicionismo e grana sem limites. A tentação de multiplicar o capital, através das infinitas propostas que recebem, é constante. Por isso, a chance de nos iludirmos com esse garoto é gigante. Acho muito mais sensato esperar o menino ficar bilionário, como o Neymar já é, e depois avaliar se as boas atitudes continuam a pautar sua conduta. Manter-se humilde e conectado com suas origens é uma tarefa tão difícil que se pode contar nos dedos das mãos os jogadores de esquerda, progressistas e ligados às suas raízes; a imensa maioria é composta por reacionários e bolsonaristas… mas que fazem caridade ocasionalmente. Inclusive o Neymar.

A medida do amor é amar; a medida da honestidade é manter-se honesto diante da possibilidade de não ser. Ser contra a privatização das praias sem ser sócio do investimento qualquer um seria, mas continuaria sendo se fizesse parte da galera do dinheiro? Ele manteria sua posição “consciente” diante da sedução de lucros estratosféricos? Teria consciência social, respeito pela natureza, visão progressista mesmo perdendo uma oportunidade única de multiplicar sua fortuna? Essas histórias sempre me fazem recordar a fala do presidente de uma grande empresa envolvida em acusações de suborno. Quando chamado de “ladrão” por um jornalista, ele respondeu: “se você receber uma proposta de 1 milhão para ficar em silêncio e mesmo assim abrir a boca, você passou no único teste que realmente importa”.

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Esta sabedoria de Augusto dos Anjos nos deveria fazer entender a forma passional como tratamos nossos ídolos. Muita calma nesta hora para não criarmos outra frustração com este novo super craque brasileiro. Aliás, não acho justo cobrarmos de um jogador de futebol que seja qualquer coisa além de atleta, da mesma forma como cobramos de um escritor que escreva com qualidade e tenha ideias criativas; não é justo que seja cobrado enquanto filantropo, ecologista, defensor de causas humanitárias, etc. No caso de excelente jogador Vinícius Júnior faz sentido esperar os próximos anos antes de colocar esse garoto no pedestal da responsabilidade social. 

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos