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Pugilato no C.O.

– Eu vou quebrar a sua cara, safado!!

– Então venha, seu mau caráter!!

Há muitos anos eu era residente no hospital escola onde estudei e me formei. O plantão havia sido intenso, com muitos partos, atendimentos e cirurgias, mas já havia passado uma hora do último parto, o que oferecia ao nosso setor uma benfazeja calmaria. Eu fazia o trabalho mais pesado, enquanto os R2 faziam as atividades que precisavam mais responsabilidade e experiência. Depois de alguns poucos minutos de descanso no “estar médico” esta tranquilidade foi quebrada com gritos – na verdade uma gritaria recheada de palavrões e ameaças – vindo da entrada do centro obstétrico. Corri para o local e quando lá cheguei vi meu colega de plantão pronto para bater num cidadão que estava ao lado de sua esposa, a qual iniciava seu trabalho de parto. Ambos estavam com os pulsos ao alto, prontos para socar um ao outro. Algo havia acontecido momentos antes que havia escalado para uma altercação física.

Eu imediatamente me coloquei entre os dois, enquanto faíscas de ódio passavam por cima dos meus braços e cabeça. A agitação de ambos era limítrofe: os rostos pálidos cheios de adrenalina indicavam que estavam prontos a se engalfinhar. Depois de alguns momentos, e com muita calma e paciência, consegui convencer meu colega a sair e deixar a questão para que eu cuidasse.

Quando a poeira sentou escutei o que o casal tinha a contar. Disseram que o médico estava “negando” a internação. Disseram também que moravam longe, que não tinham como voltar e só lhes restava chamar as rádios populares, fazer uma queixa, depois chamar a polícia e todas aquelas ameaças que os trabalhadores da linha de frente da assistência à saúde já escutaram alguma vez na vida.

Pedi para ver a ficha do atendimento que meu colega havia acabado de registrar. Os batimentos estavam ótimos, mas o toque revelava duas contrações cada 10 minutos, fracas, e a dilatação era de meros dois centímetros. Ficou fácil entender porque meu colega havia “negado” a internação.

– Ele disse que o hospital está lotado!!! Isso é uma mentira!! Olhe em volta!!

Ficava fácil perceber que o centro obstétrico estava vazio, mas o meu colega havia transmitido apenas a recomendação do setor de neonatologia (do andar de baixo) para não internar ninguém pois eles estavam sem leitos disponíveis. Foi o que ele tentou fazer, talvez sem a necessária delicadeza.

Expliquei ao casal o que havia acontecido, pelo menos do nosso ponto de vista. Relatei a eles sobre a lotação da neonatologia e eles pareceram entender, mesmo sem se convencer. Pedi, então, para que fizessem um acordo comigo. Que saíssem do hospital e ficassem dando voltas na quadra. Ou que fossem ao parque – que fica uns 50 metros distante – e que tomassem um sorvete. Pedi que se tranquilizassem e esperassem sem medo a chegada das contrações do trabalho de parto.

– Aguardem a chegada das contrações fortes. O sol está se pondo, alguns recém-nascidos terão alta. Vão sobrar lugares depois disso. Quando voltarem aqui com muitas contrações eu me responsabilizo por atendê-los. Fiquem tranquilos, eu dou minha palavra. Eu garanto a internação.

Com essas garantias eles se acalmaram e saíram da sala. Voltei para a sala e encontrei meu colega ainda alterado. Eu sabia que, se tivesse internado a paciente (sem nenhuma justificativa), os socos e pontapés poderiam ser transferidos para mim, por isso fui rapidamente dizendo que confirmei sua decisão. Porém, isso não foi suficiente para acalmá-lo. Ainda descontrolado, explodiu em palavras de indignação e raiva.

– Quem eles pensam que são para me dar ordens? Como ousam dizer como devo fazer meu trabalho? São uns ignorantes sem preparo algum!!!

Pedi em vão que se acalmasse. Ele continuou esbravejando, com os olhos injetados de inconformidade.

– Pois eu te digo o que vai acontecer. Eles voltarão aqui por volta das 4 da manhã, durante o meu turno de trabalho. Você sabe o que eu vou fazer? Vou colocá-la na última sala de pré-parto, no fundo do corredor, sem acompanhante algum. Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinha para ver seu períneo se arrebentar!!! Só então ela vai entender o nosso trabalho!!

É evidente que meu colega, um sujeito brincalhão e boa praça, jamais faria isso. Não se pode analisar este tipo de arroubo de forma literal. Retirar essa explosão de raiva do contexto seria um crime imperdoável. Ele nunca cometeria um ato tão odioso quanto esse e a tudo isso entendi como uma explosão de indignação, dita para dois ou três de seus colegas imediatamente após uma cena de quase pugilato.

Entretanto, sua frase nunca saiu de minha cabeça. Ela continha, de forma sintética, a quintessência do pensamento médico obstétrico e todos os ensinamentos da antropologia do nascimento que eu ainda viria a conhecer.

“Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinho para ver seu períneo se arrebentar. Só então vai entender nosso trabalho.”

Com esta frase ele queria mostrar que a única forma de uma mulher parir com segurança e dignidade é submetendo-se à ordenação médica e deixando-se cortar, abrindo-se e tendo seu filho sacado do seu ventre para entrar nesse mundo – “por baixo ou por cima”. A alienação era a ÚNICA via que poderia lhe garantir segurança; inobstante a via de nascimento, ela seria controlada por forças externas a ela, já que, em essência, era vista como incompetente para dar conta dessa tarefa.

A episiotomia entrava, em seu breve discurso, como um processo civilizatório, uma marca da cultura em seu corpo a lhe lembrar de sua posição social, como uma cicatriz de guerra, uma escarificação, uma tatuagem a lhe dizer eternamente que, para dar conta de suas tarefas femininas, precisou da ajuda de alguém representando o mundo masculino. Mesmo sendo um ato violento, a episiotomia se justificava como uma forma de pedagogia. “É para o seu bem, mãezinha”.

“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, e só parirás se for por mim”, já me avisava Max nos primórdios da minha conversão.

Nenhuma “humanização do nascimento” vai prosperar e vicejar sem que esses elementos da cultura sejam lentamente eliminados dos nossos ouvidos como a narrativa condutora e hegemônica. Nenhum avanço será feito se continuarmos a acreditar na defectividade feminina, em sua incompetência essencial e no direito inquestionável da tecnologia de lhes expropriar deste momento especial.

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Futebóis

Para todos os que aplaudiram o Gabigol, imaginando uma postura política e nobre ao não dar atenção ao governador ajoelhado, lembrem que os jogadores de futebol, salvo raríssimas exceções (Sócrates, Roger Machado, Juninho Pernambucano, Wanderley Luxemburgo, Afonsinho, etc) são alienados, afastados das comunidades de onde vieram, vivendo em redomas, ganhando milhões, reacionários, direitistas, meritocráticos, ignorantes da realidade social e, não por acaso, apoiadores de soluções radicais e violentas. A recente comemoração do Palmeiras (clube criado por imigrantes e operários) ao lado do Bolsonaro (um fascista) não pode ser esquecida.

A lista de jogadores que se identificam explicitamente com o binômio biblia-bala é extensa e citar alguns e esquecer outros poderia parecer clubismo ou perseguição. Imaginar que desse estrato social sairá alguém com consciência de classe é uma ilusão na qual a esquerda não pode embarcar.

Gabigol é um herói para o futebol, mas não exijam dele o que não pode dar. Não lhe peçam que seja um exemplo de luta contra a desigualdade, a exclusão e o genocídio protagonizados pelo governador do Rio. Para a galera favelada, preta e pobre do Flamengo, essa mesma que o Witzel mira “na cabecinha”, ele não chegará a ser mais do que um pôster na parede.

Outra questão é o que significa a vitória do Flamengo. Já há muito anos denuncio a espanholização do futebol brasileiro que só não aconteceu antes pela incrível incompetência do Flamengo em gerenciar seus recursos e pelos desmandos políticos do Corinthians. Somente os Flamenguistas mais fanáticos enxergariam a situação falimentar de TODOS os outros clubes cariocas como algo positivo. Não posso aceitar o desaparecimento de grandes e tradicionais clubes do Rio em nome de abrir espaço para o surgimento de um time de galácticos milionários.

Nesse contexto o Flamengo é o Walmart do futebol.

E vamos combinar que o Flamengo tem a maior torcida porque tem mais investimento de mídia e tem mais mídia porque tem a maior torcida, num circulo que tende a esmagar os outros clubes e criar um desnível de recursos que se escora em muito dinheiro.

Concordo com a ideia de que nada disso desmerece o duplo sucesso que o Flamengo conquistou nestes dois dias. Todavia, o desnível econômico e a gentrificação do esporte bretão podem criar um futebol previsível e sem graça.

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Os Gurus

Uma verdade que aprendi muito cedo, mas a duras penas: a mão que afaga é a mesma que apedreja, do famoso poema de Augusto dos Anjos. Todo aquele que oferecer o seu amor cobrará uma contrapartida, e caso esta não seja devidamente paga, torna-se inevitável a emergência do ódio e do ranger de dentes.

Sim…. é uma espécie de amor. É o amor do fã, do torcedor e do admirador pelo seu ídolo. É o amor do sujeito que grita “goze por mim, já que eu sou tão pequeno“, e essa paixão terá sempre um (alto) preço. Quando ele não é plenamente correspondido – o que, por definição, nunca é – sobrevém o ressentimento e, muitas vezes, o ódio mortal.

Você não silencia quem lhe ama. Inegável o brilho nos olhos de quem escuta um afago no ego. Pelo contrário: embevecido pelo canto da sereia você ingenuamente acredita nos elogios e se julga merecedor de todos eles. “Todas essas pessoas não podem estar erradas“, pensa, sem se dar conta que existe uma piada sobre isso que envolve moscas e dejetos. O bloqueio só vem quando chega a conta a ser paga. Aí é que você percebe que vinha recebendo um salário de afetos sem ter sequer solicitado, mas que mesmo assim o usufruía. Aí é tarde para negociar as cláusulas; uma parte já foi paga, agora só resta aceitar a indignação do consumidor irritado.

A saída? Nunca aceite a posição de guru. Fuja da posição delicada de porta-voz dos desejos alheios na qual lhe colocam. Não aceite os elogios honrosos e exagerados que lhe fazem e, acima de tudo, “sê fiel a ti mesmo”, e não tenha medo de desagradar quem outrora tanto lhe amou. Cultive uma parcela fiel de inimigos: são eles que vão lhe avisar dos seus piores defeitos. Não ceda aos seus princípios por vaidade, dinheiro ou amor…. mas aprenda a adaptar os caminhos justos ao tamanho dos passos da jornada. Seja apenas você mesmo e pague o preço de ser o que é.

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