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Gurus

Qualquer grupo religioso onde se destaca a figura de um “guru”, um mestre cujas palavras assumem aspectos de “revelação” ou “verdade” corre o risco de se decepcionar com a práticas de abusos – morais e sexuais. Acontece com os padres (escândalos imensos), os evangélicos (todos os dias), os mestres espiritualistas (como João de Deus), os orientalistas (como Prem baba) e certamente ocorreria entre os praticantes da Ayahuasca.

O que se faz necessário nestas circunstâncias é orientar as pessoas desde muito cedo a não acreditarem em pessoas que tem “A Mensagem”, entregue diretamente a eles por “Deus”, ou pelos “espíritos de Luz”. TODAS são seres humanos, alguns deles perversos e abusadores cruéis, mas é impossível que seus egos não se deixem inflar pela veneração que seu carisma recebe como resposta. Eu procuro orientar a todos para que SEMPRE desconfiem de qualquer misticismo e qualquer encenação de “pureza e espiritualidade”.

Mesmo vestindo o mais alvo dos mantos por baixo dele existe apenas um ser humano deslumbrado com sua influência sobre mentes frágeis e carentes.

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Livre pensador

Não vou me cansar de falar como é importante cultivar a independência pensamento, e o distanciamento de grupos, facções e fã-clubes. Você pode ser admirado, adorado, reverenciado e jogado às alturas, ser visto como uma figura que representa todos os anseios profundos de uma comunidade, mas basta uma falha, uma postura crítica à militância e mesmo uma postura mais moderada para ser execrado e – modernamente – cancelado.

Por isso o valor da independência. Meu pai gostava de se descrever como “livre pensador”, o que de uma certa forma se opõe ao “ativista”, já que este último está compromissado com uma ideia, uma luta, e também com aqueles que são seus companheiros na arena das ideias.

Meu conselho é – e sempre será – “desinstituir-se“, abandonar o lugar sedutor de guru, abdicar da posição de condutor do fervor dos outros, pois o que parece ser à vista desarmada uma posição de destaque nada mais é do que uma masmorra controlada pelo desejo alheio.

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Cabeça certinha

Discordo apenas da cabeça arrumadinha do psicólogo. Essa imagem pode dar a entender que a cabeça dele está com as neuroses ajeitadas, dobradinhas dentro das gavetas, empilhadas em perfeita ordem. Já a imagem do pincel significa que as formas “modernas” listados ao lado não se propõem a mudar a estrutura do Cubo Mágico – nossa alma – mas tão somente falseiam a sua aparência com recursos exógenos e, portanto, fugazes.

Creio que a angústia do terapeuta não é menor é nem menos dolorosa do que a de seus pacientes. A escuta não pressupõe ausência de neurose, mas o entendimento de suas representações e esconderijos.

Lembro de um velho psicanalista me contando que a escolha para seu terapeuta foi guiada pela escolha do mais “normal”, o mais humanamente imperfeito. Assim também eu penso.

Sobre os gurus, outro exagero. Entre os exemplos de guru que eu conheci em toda a minha vida – aqueles que colocados nessa posição se acomodaram a ela – NENHUM deles cabe na definição de “mente organizada”. Seria útil ter uma visão menos idealizada desses personagens. Eles são mensageiros de uma nova perspectiva de mundo, mas ela também é repleta de contradições e paradoxos. Em verdade eles são criados pelas nossas próprias projeções, muito mais do que pelas suas qualidades.

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Gurus e súditos

O surgimento de gurus pressupõe (ou estimula) a supressão temporária (nos casos graves, definitiva) do senso crítico. De Jesus a Lula a veneração aos ídolos esvazia as almas dos seguidores. Esses que por ora estão nos portais do inferno, como João de Deus, Abdelmassi, Elizabeth Holmes, etc já tiveram legiões de fãs. Cuidado, ponderação e canja de galinha continuam não fazendo mal à ninguém…

Por essa razão os Estados democráticos no mundo inteiro só homenageiam seus heróis postumamente, para evitar surpresas. Mesmo assim, nem isso é suficiente para evitar dissabores, como provam as estátuas derrubadas do general Lee, do Lênin e do Stálin e – se Deus quiser – um dia será a vez da derrubada do monumento aos genocidas carniceiros bandeirantes.

Quase todos os youtubers são muito queridinhos quando comparados com qualquer terraplanista e negacionista, mas qualquer sujeito em evidência que se põe a falar de ciência lá pelas tantas começa a misturar ciência com autoridade acadêmica – que não são coisas necessariamente unidas. Aí mora o perigo, quando se iludem com a ideia de que a ciência é um ente “imaterial e positivo“, infenso à veleidade humana, e não uma entidade criada e conduzida pela alma corrupta dos homens.

Mais cedo ou mais tarde começam a dar pitaco em assuntos controversos. Muitos disseminadores de ciência se perderam por isso. Um deles, muito famoso por tratar de questões da filosofia, resolveu falar de comunismo e trocou os pés pelas mãos, e desse assunto só sai besteira. As luzes da ribalta danificam a maquiagem. Espero que não a de Rita com Hunty, mas até dela eu guardo distância segura para não me entusiasmar demais com o ineditismo e a qualidade ímpar do seu personagem.

Não seria a primeira vez que um personagem em evidência larga uma declaração ao estilo “…quem acredita nessas coisas são os mesmos que não tem fé nas vacinas, acreditam em homeopatia e fazem parto em casa“. E aí? Como fica o (meu) nosso amor? “Eu me desiludi com ele…” diz a moçoila, mas aí o vovô Ric lembra que para se desiludir é preciso primeiro…. se iludir.

Nesses momentos em que é fundamental cativar uma audiência segura é que aparece o ideólogo por trás do cientista – algo que todos carregamos. Esse erro muitos cometeram com aquele “médico do Fantástico”, menos eu que conhecia seu passado de desprezo pelo parto normal e sua visão preconceituosa com a medicina suplementar – da acupuntura, passando pela fitoterapia, até chegar à homeopatia.

Por estas razões eu acho bom ter cuidado sempre. Aliás, o cuidado que sempre pedi que as pessoas tivessem comigo mesmo, mas que não vejo ser estimulado por algumas “estrelas” que estão em evidência. Antes de escrever “mito” pra algo bonitinho que eu escrevi lembre que ali na esquina vai fatalmente se decepcionar, porque eu não tenho compromisso algum com a tarefa de agradar prosélitos.

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Espiritismo careta

Uma análise profunda da idolatria que se estimula no cenário espírita brasileiro é uma tarefa urgente a ser realizada pela Academia. Desde figuras populares como Zé Arigó, Chico Xavier até Divaldo Franco que percebemos um traço marcante no espiritismo cristólatra brasileiro: ele sempre foi pródigo na criação de “gurus”, líderes carismáticos que repetem discursos conservadores e moralistas da pior espécie. São comuns os textos carregados de uma visão superficial e maniqueista da espiritualidade e da reencarnação, cheios de prescrições de evolução espiritual que criminalizam a luta política e a livre expressão da sexualidade, entendidas assim como “desvios obsessivos”. Em verdade, este é o padrão das publicações espíritas.

A adesão de Divaldo Franco – famoso tribuno espírita e médium – à barbárie jurídica lavajatista empresta um apoio fundamental aos tribunais de inquisição que se transformaram as côrtes de Curitiba, com o intuito de atingir a esquerda e os movimentos populares. Por outro lado, esta simpatia do líder espírita mostra a verdadeira face alienada e subserviente da baixa classe média ressentida que constitui seus seguidores.

O espiritismo institucional mais uma vez adere ao conservadorismo moral e politico tacanho que sempre o caracterizou – basta lembrar as falas reacionárias de Chico Xavier sobre a ditadura militar de 64. Alia-se ao poder econômico, às elites, aos conservadores, ao judiciário partidário e aos golpes sucessivos à nossa democracia.

É provavel que o futuro não mostrará nenhuma diferença significativa entre as monstruosidades de Malafaia, Edir e Feliciano e os líderes espíritas alinhados com o atraso, o preconceito e a mistificação. Aquela doutrina que, ao descortinar a reencarnação como processo de depuração espiritual, se apresentava como revolucionária e progressista, em verdade se mostra como mais uma seita cristã atrelada aos privilégios, ao moralismo, à tradição (escravista), à família (falocêntrica) e à propriedade (intocável).”

Que Deus tenha piedade de nossas religiões.

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