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Sobre botes em oceanos revoltos

Vez por outra aparecem matérias – em geral sensacionalistas e com relatos anedóticos – a respeito de partos domiciliares planejados e até episiotomia, com a clara intenção de criticar os primeiros e exaltar a necessidade da segunda.

Não há dúvida de que, procurando bem, você pode encontrar artigos pequenos e sem relevância autoritativa para questionar, criticar ou exaltar qualquer coisa, em especial procedimentos médicos. Pode-se criar e desfazer gráficos de morbidade com relativa facilidade, bastando para isso torturar as estatísticas para que falem o que desejamos ler. O estado da arte, entretanto, é da qualidade e segurança do atendimento domiciliar e da inutilidade – e mais ainda, o efeito deletério – das episiotomias quando aplicadas como procedimento de rotina durante a assistência ao parto. Isso é o que – neste momento da história – nos fala a “Saúde Baseada em Evidências”.

Entretanto, esse debate só faz sentido se tivermos noção de que a ciência não se comporta como um bote que se move em um lago plácido e imóvel usando as evidências e provas como remos. Muito pelo contrário: o bote está em alto mar, sendo jogado para todos os lados pelo vento das energias culturais, equilibrando-se sobre gigantescas correntes oceânicas, as quais são comandadas pelo capitalismo e pelo patriarcado, as duas principais forças a movimentar as águas dos comportamentos, mas também de dados, pesquisas e estudos.

Desta forma, é lícito entender que episiotomia e parto domiciliar NÃO são debates exclusivamente médicos, mesmo que a medicina e a obstetrícia possam fazer ciência com estes eventos. Em verdade, eles são enfrentamentos de ordem FILOSÓFICA, com algum embasamento científico e consequências médicas.

A origem da disputa entre estas vertentes não está nos gráficos de morbimortalidade materna e perinatal, mas na forma como a sociedade enxerga a função social e a autonomia das mulheres sobre seus corpos. Todo o arcabouço científico é produzido A PARTIR das visões filosóficas primordiais que estabelecemos sobre esse tema central, e só depois disso as pesquisas se moldam para atacar ou refutar estas premissas.

A simples pesquisa sobre episiotomia e parto domiciliar já denuncia um preconceito que nos obriga a perguntar: por que é necessário debater sobre a integridade física de uma mulher ou sobre seu direito de ser assistida onde desejar? Por que é claro e nítido que nenhuma pesquisa assim seria feita com homens? Por que achamos justo questionar direitos humanos reprodutivos e sexuais básicos das mulheres, e jamais dos homens?

A medicina jamais será a linha de frente das modificações na atenção, pois que apenas reflete, dissemina e amplifica valores profundamente relacionados à nossa estrutura social.

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Evidências

Não se trata de uma questão de evidências científicas, observação e mensuração de resultados e análises racionais sobre o parto. A mudança não se dá lá em cima, na cabeça, mas uns 30 cm mais para baixo.

Tenham em mente que evidências e ciência não abrem a cabeça das pessoas!!! Esse mito caiu de forma retumbante nos últimos tempos, onde o terraplanismo e o bolsonarismo são exemplos suficientes. O que muda nossa percepção do mundo são os sentidos, as emoções, os sentimentos. Por isso é que hoje se dá tanta importância à sensibilizar, pois só depois de estar aberto às informações é que a ciência e as evidências farão sentido para o sujeito. A evidência funciona para quem desenvolve por ela a necessária transferência.

Não importam quantas provas da eficiência de partos domiciliares, Casa de Parto ou da assistência ao parto por enfermeiras e obstetrizes forem oferecidas aos profissionais médicos; sem que estejam sensibilizados para absorver estas informações elas jamais encontrarão terreno fértil. As provas e os estudos são ferramentas insuficientes para mudar atitudes.

Funciona como uma intervenção em análise; o analista até pode falar, mas só quando o analisando está pronto para dizer por si mesmo a sua verdade. Da mesma forma, a verdade científica só fará sentido quando já estivermos preparados para recebê-la. .

É como convencer alguém de algo que seu coração não aceita. Quantas mulheres e homens já nos contaram histórias assim: “Muita gente me falava que ele(a) não tinha caráter, mas eu não conseguia enxergar. Estava cego(a).” Como explicar o fato de que tantas provas foram inúteis? Ora… a razão obliterada pelas emoções produz este fechamento dos sentidos.

A tecnocracia impede os profissionais do parto de enxergar as múltiplas dimensões deste evento. Para além disso, os profissionais têm um medo profundo de perder o respeito e a consideração de seus pares. Aqueles que se permitiram enxergar o parto humano em todas as suas perspectivas descobrem também o preço imenso que este saber lhes custa. Por isso mesmo, muitos fogem das evidências exatamente para escapar da angústia que tal conhecimento inevitavelmente lhes causará.

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Visão de Futuro

Minha visão de futuro?

“Em um futuro distante testemunharemos a lenta incorporação dos valores da autonomia e liberdade para as escolhas informadas das mulheres gestantes, a diminuição lenta e gradativa das cesarianas – em especial as de indicação duvidosa ou questionável – uma aceitação crescente de enfermeiras obstetras na atenção ao parto eutócico, a incorporação das doulas pelas equipes de assistência, a criação de núcleos extra hospitalares de assistência ao nascimento, a suavização dos procedimentos de atenção e cuidados no parto (guiados pela Medicina Baseada em Evidências) e o desaparecimento dos “dinossauros” da obstetrícia, sufocados na poeira que surgirá pelo choque dos meteoros das evidências contra a face desgastada das mitologias anacrônicas.

Todavia, é preciso olhar para todos estes eventos com olhar geológico.”

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