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Espiritismo careta

Uma análise profunda da idolatria que se estimula no cenário espírita brasileiro é uma tarefa urgente a ser realizada pela Academia. Desde figuras populares como Zé Arigó, Chico Xavier até Divaldo Franco que percebemos um traço marcante no espiritismo cristólatra brasileiro: ele sempre foi pródigo na criação de “gurus”, líderes carismáticos que repetem discursos conservadores e moralistas. São comuns os textos carregados de uma visão superficial e maniqueísta da espiritualidade e da reencarnação, cheios de prescrições de evolução espiritual que criminalizam a luta política e a livre expressão da sexualidade, entendidas assim como “desvios obsessivos”. Em verdade, mais do que um achado ocasional, este é o padrão das publicações espíritas.

A adesão de Divaldo Franco – famoso tribuno espírita e médium – à barbárie jurídica lavajatista empresta um apoio fundamental aos tribunais de inquisição que se transformaram as côrtes de Curitiba, com o intuito de atingir a esquerda e os movimentos populares. Por outro lado, esta simpatia do líder espírita mostra a verdadeira face alienada e subserviente da baixa classe média ressentida que constitui seus seguidores.

O espiritismo institucional mais uma vez adere ao conservadorismo moral e político tacanho que sempre o caracterizou – basta lembrar as falas reacionárias de Chico Xavier sobre a ditadura militar de 64. Alia-se ao poder econômico, às elites, aos conservadores, ao judiciário partidário e aos golpes sucessivos à nossa democracia.

Corremos o risco de não ver no futuro nenhuma diferença significativa entre as monstruosidades de Malafaia, Edir e Feliciano e alguns líderes espíritas alinhados com o atraso, o preconceito e a mistificação. Aquela doutrina que, ao descortinar a reencarnação como processo de depuração espiritual, se apresentava como revolucionária e progressista, em verdade se mostra como mais uma seita cristã atrelada aos privilégios, ao moralismo, à tradição (escravista), à família (falocêntrica) e à propriedade (intocável).”

Que Deus tenha piedade de nossas religiões.

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Religião e conservadorismo

As mensagens de espíritas preocupados com a ascensão do fascismo e com a popularidade de um candidato* que elogia torturadores só fazem sentido porque historicamente a cúpula do espiritismo nacional é reacionária e autoritária. De Chico a Divaldo, passando pelos generais da FEB (Federação Espírita Brasileira), nunca tivemos um espiritismo brasileiro que não fosse próximo e admirador dos poderes instituídos – da ditadura à lamentável “República de Curitiba”. As demonstrações de afeto de Chico com a ditadura de 64 e de Divaldo com a turma de magistrados que golpearam a democracia estão acima de qualquer dúvida.

Com exceção das religiões de matriz africana – umbanda, candomblé, nação – as grandes religiões brasileiras são dos colonizadores: religiões brancas, de classe media, burguesas e conservadoras, incluindo-se aí o espiritismo. Nas três décadas em que circulei pelo universo dos espíritas brasileiros nada reconheci de diferente dos modelos de outras seitas cristãs. O mesmo moralismo, um machismo sutil, meritocracias, hierarquias, aristocracias, espíritos “do bem” – semelhantes aos “cidadãos de bem” deste plano – culto às personalidades, entidades das “trevas”, seres angelicais, uma crítica sistemática à livre expressão da sexualidade, um culto à “família patriarcal” e um número sem fim de informações subliminares que nos conduziam a reconhecer os “espíritos superiores” como a elite branca e aburguesada da nossa sociedade.

Para além disso convivi com o ufanismo infantil propagado entre os espíritas pela obra “Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho” (sobre ela escrevi aqui) que descrevia o nosso país de 60 mil homicídios por ano, assassinatos de transexuais, feminicídios e estupros incontáveis e a distribuição de renda mais perversa do hemisfério sul como “a nação escolhida por Jesus para carregar no coração sua mensagem de amor“.

As religiões são construções humanas e refletem seus valores e crenças. Uma “religião” como o espiritismo (que segundo o próprio Kardec não é, mas se expressa como se fosse), surgida no seio da classe média brasileira, obrigatoriamente viria a refletir sua visão de mundo e suas perspectivas. A umbanda, nascida do sincretismo entre o cristianismo e os ritos africanos, surgiu na marginalidade (à margem) da classe média do país, trazendo para o seu seio as populações pobres, negras, os homossexuais e os desvalidos. Se existem cultos no Brasil que têm a nossa cara e nosso jeito, sendo representante dos mais elementares valores populares, estes são os afro-brasileiros.

Inobstante a mensagem espírita pretender-se mais moderna e abrir espaço para a permeabilidade de seus postulados com a ciência, seu veículo – a classe média branca e urbana – acabou lhe conferindo um aspecto conservador e moralista que em nada se diferencia das seitas cristãs em nosso meio. Não é de surpreender, portanto, que meus amigos espíritas de ontem venham hoje a abraçar as bandeiras conservadoras, em um direitismo que se aproxima do antipetismo mais radical e onde suas ideias encontram eco nas palavras do inominável líder fascista.

A modernidade da “fé raciocinada” que Kardec propunha esbarrou na caretice de quem levou adiante suas propostas. Infelizmente, o espiritismo jamais conseguiu mudar a imagem conservadora e moralista do cristianismo tupiniquim.

* Esse texto foi escrito ainda quando Bolsonaro era candidato

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Crenças, Gostos e Castas

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Conservadores saem as ruas no Brasil, a exemplo do que fizeram na França há poucas semanas.

No Brasil, quase à mesma hora, ocorreram a Marcha das Vadias e a Marcha para Jesus. Mais do que uma demonstração de ativismo feminista ou uma demonstração de fé no “Senhor Jesus”, vejo em tais demonstrações um claro divisor de classes sociais. Há poucas semanas um fenômeno semelhante: Daniela Mercury e Joelma dividiram as opiniões entre os pobres e a classe média. A cantora baiana por assumir publicamente um relacionamento homoafetivo e a musa do Calypso por defender posturas conservadoras em relação à homossexualidade.

Se você é de classe média pega mal se posicionar contra homossexuais e os direitos que estes reivindicam, da mesma forma que pega mal escutar Latino ou Luan Santana. Muitas opiniões que vemos a respeito destes temas são, em verdade, aprisionamentos ideológicos determinados pelas castas sociais, e não avaliações maduras sobre os temas em questão. Mesmo que você curta cantar músicas do Latino enquanto toma banho, se você quer se manter na classe média não fica bem declarar publicamente que gosta delas.

Desta forma os gostos estéticos (musicais, artísticos, literários, etc.) e sua expressão explícita no convívio público, são senhas, códigos e “palavras passe” para a classe social onde você se encontra. Lembro de escutar uma conversa de duas meninas adolescentes em que uma dizia a outra: “Que tipo de banda você ouve”? A outra respondeu incontinenti: “Ramones”. Quando ouviu o nome da banda a primeira lhe abriu um enorme sorriso. Era o código: a tribo específica à qual você se liga. Era possível, a partir desse reconhecimento, uma vinculação. Eu penso em fazer isso na sala do café dos médicos no hospital onde atendo: iniciar uma conversa animada com uma colega a respeito de música, e citar elogiosamente várias duplas sertanejas, apenas para observar a cara de espanto dos colegas médicos, como que a dizer “O que esse indivíduo está fazendo aqui, entre nós?”

Quanto aos objetivos da “Marcha das Vadias” ninguém discorda. Pelo menos os objetivos explícitos e conscientes, o que não tem necessariamente que ver com os objetivos verdadeiros e inconscientes. Mas veja bem, na “Marcha para Jesus” também havia o interesse de exigir direitos, fazer uma demonstração de fé de forma contundente e firme e estava cheio de homens conscientes e parceiros, todos em prol da família e da religião. Eram nitidamente pessoas do “bem”, cheias de boas intenções. Mas, se as intenções e a essência das pessoas era a mesma (nas Vadias e em Jesus havia gente bacana, e muita gente histérica também, claro), o que salta aos olhos é a diferença de classe social.

Por isso é que afirmo que muito mais do que um interesse ideológico existia uma imantação por classe social. Pega mal para a classe média se ligar à Jesus, e fica estranho para as pessoas de classe baixa entrar no meio da parada das Vadias. A classe média é notoriamente progressista, mas as classes C e D (emergentes no Brasil contemporâneo) são eminentemente conservadoras. É por isso que o Feliciano recebeu mais apoio que paulada, e é por esta razão que o discurso político brasileiro da atualidade apresenta uma nítida guinada conservadora (Jesus, família, sexualidade, etc.) e para a direita (capital, mercado, competitividade, lucro, etc.).

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