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Obsessão

Acho super curiosa a fixação dos espíritas pelo tema da obsessão, quase sempre tratado como se fosse uma doença contagiosa, algo que se “pega”, um vírus ideacional que se apodera de uma alma pura, como se um indivíduo desavisadamente ligasse a televisão e, por assistir o Big Brother, acabasse atraindo espíritos obsessores (???) que sugariam suas energias e lhe desviariam o caminho. O simples fato de trazer à baila esse tema de forma continuada demonstra que os espíritas ainda acreditam nas “obsessões” como elementos exógenos a produzir desequilíbrio nos sujeitos a elas submetidos.

Ingênuo demais para ser levado a sério…

Primeiro, eu acho que TODOS NÓS somos obsessores de todo mundo ao nosso redor, até de desencarnados. Nossas ações são como ondas de rádio emitidas para todos os lados, que encontram sintonia nas pessoas que estão no nosso raio de ação. Da mesma forma sintonizamos nosso “dial” para captar as ondas que também a nós chegam. Nada de novo em reconhecer que somos captadores e emissores de energias-palavras que podem transformar ou desvirtuar nosso semelhante, certo?

Porém, é evidente que a única forma de impedir as inúmeras obsessões que nos seduzem será sempre através da “reforma íntima”, ou seja, parando de focar nos espíritos que nos assediam (encarnados e desencarnados) e prestando mais atenção em nossas falhas e fragilidades. Uma das formas de fazer isso é através da auto-escuta, pelas terapias e análises.

Por isso eu acredito que a prática espírita de fazer ‘sessão de desobsessão’ centrada no discurso cristão, no palavrório moralista e nos conselhos vazios para espíritos angustiados (dos quais desconhecemos a realidade subjetiva) é infrutífera como processo de cura. Estas cenas me remetem ao filme “O Exorcista”, onde uma menina pura e dócil é tomada por um demônio e tem seu corpo controlado por suas determinações malévolas. Infelizmente, as influências dos outros não ocorrem sem que a porta da sintonia seja aberta – e sempre por dentro.

Somente a reforma do próprio sujeito é capaz de bloquear o acesso a ideias influenciadoras. Infelizmente, é notório o quanto este tipo de exorcismo é sedutor para os condutores do processo em casas onde o mediunismo é reconhecido, basta ver como esta prática é realizada nas igrejas evangélicas com as inúmeras encenações de luta do “ungido de Cristo” contra o “Demônio”.

O caminho da consciência é sempre mais complexo e difícil, mas todos os outros não passam de propostas paliativas ou escapistas, nada mais do que uma “retirada do sofá da sala”, sistemática e repetitiva…

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Espiritismo careta

Uma análise profunda da idolatria que se estimula no cenário espírita brasileiro é uma tarefa urgente a ser realizada pela Academia. Desde figuras populares como Zé Arigó, Chico Xavier até Divaldo Franco que percebemos um traço marcante no espiritismo cristólatra brasileiro: ele sempre foi pródigo na criação de “gurus”, líderes carismáticos que repetem discursos conservadores e moralistas. São comuns os textos carregados de uma visão superficial e maniqueísta da espiritualidade e da reencarnação, cheios de prescrições de evolução espiritual que criminalizam a luta política e a livre expressão da sexualidade, entendidas assim como “desvios obsessivos”. Em verdade, mais do que um achado ocasional, este é o padrão das publicações espíritas.

A adesão de Divaldo Franco – famoso tribuno espírita e médium – à barbárie jurídica lavajatista empresta um apoio fundamental aos tribunais de inquisição que se transformaram as côrtes de Curitiba, com o intuito de atingir a esquerda e os movimentos populares. Por outro lado, esta simpatia do líder espírita mostra a verdadeira face alienada e subserviente da baixa classe média ressentida que constitui seus seguidores.

O espiritismo institucional mais uma vez adere ao conservadorismo moral e político tacanho que sempre o caracterizou – basta lembrar as falas reacionárias de Chico Xavier sobre a ditadura militar de 64. Alia-se ao poder econômico, às elites, aos conservadores, ao judiciário partidário e aos golpes sucessivos à nossa democracia.

Corremos o risco de não ver no futuro nenhuma diferença significativa entre as monstruosidades de Malafaia, Edir e Feliciano e alguns líderes espíritas alinhados com o atraso, o preconceito e a mistificação. Aquela doutrina que, ao descortinar a reencarnação como processo de depuração espiritual, se apresentava como revolucionária e progressista, em verdade se mostra como mais uma seita cristã atrelada aos privilégios, ao moralismo, à tradição (escravista), à família (falocêntrica) e à propriedade (intocável). (intocável).”

Que Deus tenha piedade de nossas religiões.

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Mediunismo

Algumas perguntas aos espíritas e pessoas de religiões de matriz africanas:

Li o parágrafo de um livro que criticava o impedimento de que espíritos de pretos velhos se manifestassem em casas espíritas. Sei onde isso pode levar.

O espiritismo é uma doutrina de caráter filosófico e de consequências morais. Ao meu ver não é uma religião, mas reconheço a controvérsia. No dizer de Kardec, seu criador, ela é um acessório das religiões, e não mais uma delas. Kardec era cristão, filósofo e pedagogo. Pior: era branco e burguês, o que pode explicar a presença em sua obra – de meados do século XIX – de expressões do mais puro e cristalino racismo. Certo que fora do contexto expansionista e colonialista europeu seus escritos soam como barbaramente discriminatórios. Fica a ressalva dos contextos históricos e circunstanciais.

De qualquer forma, o espiritismo e as religiões de matriz africana (Umbanda, Candomblé, Nação, Quimbanda, etc) compartilham a ideia da comunicabilidade entre planos físico e extrafísico, a “mediunidade”. Mas as divisões de castas brasileiras fizeram com que o fenômeno “branco e europeu” ficasse com Kardec, um intelectual francês, e a manifestação popular ficasse com os negros e os referenciais relacionados com sua origem.

O sincretismo religioso fez com que a Umbanda surgisse aproveitando dos símbolos e rituais do cristianismo hegemônico e misturando-os com a cultura de África, criando uma riquíssima manifestação religiosa miscigenada e valiosa da cultura nacional. O espiritismo, por seu turno, se manteve mais fiel aos seus propósitos racionalistas e apontando para as elites. Apesar da umbanda ser muito mais católica do que espírita em sua exterioridade, o mediunismo se expressa  em uma típica divisão de classes, cabendo à branquesia as manifestações mais “civilizadas” e à negritude o fenômeno mais popular. A religião mimetiza a divisão da Casa Grande e Senzala.

Talvez possamos dizer que o Zé Arigó, médium famoso dos anos 70, só se tornou famoso porque incorporava um médico alemão – Dr Fritz. Fosse um caboclo curador e operador a lhe usar como “mula” e ninguém lhe daria importância. 

Entretanto, a crítica a um pretenso impedimento de “manifestações” de pretos velhos me incomodou, em especial por uma crítica que faço ao mediunismo gratuito.

Então eu pergunto, sem que nessa pergunta exista qualquer aversão ou preconceito: por que deveríamos dar voz a pretos velhos, ciganos ou outras pessoas falecidas em casas de Umbanda ou Casas Espíritas? Pelo contato e pela evidência do fenômeno? Se é pelos “ensinamentos” por que não chamar o preto velho que mora na esquina para vir falar de sua experiência na terra, suas lutas, suas dores, seus amores e angústias? O que há de especial no seus ensinamentos que se tornam valiosos só porque morreu? Dizer “ame o seu próximo”, “valorize cada minuto de sua vida” ou “cultive a caridade” passam a ter mais valor quando ditos por pessoas mortas?

Qual o real sentido do mediunismo? Receber conselhos clichês que a gente pode facilmente escutar numa mesa de bar dito por um garçom compassivo? Qual o real valor de produzir tais fenômenos? Em quê eles podem ajudar a nós ou aos desencarnados? A simples expressão retorcida de suas falas é – por si só – terapêutica para quem fala ou escuta? Que angústia seria essa que nos leva a procurar pretos velhos para oferecer direção e sentido à nossa vida? O mesmo que nos faz ler o horóscopo, procurar o padre ou consultar a cartomante?

Se a crítica do texto é sobre um pretenso “racismo” na escolha dos consultores, então eu me associo. Se for uma crítica à nossa busca por conselheiros que nos digam apenas o que queremos ouvir, também. Entretanto, se for um estímulo ao mediunismo alienante, onde uma instância “mais próxima de Deus” toma decisões por nós, então estou fora.

Deixem os pretos velhos em paz.

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